Opinião

António Araújo

Uma baleia na sala

Miss P. foi ao Porto e trouxe de lá uma baleia. Um bicho enorme, portentoso de gigante, quase tão grande como a minha ignorância, que desconhecia ao completo que Sophia escrevera um conto inspirado no seu bisavô. Sophia com ph é Sophia de Mello Breyner Andresen, o conto chama-se "Saga" e está incluído no livro Histórias da Terra e do Mar, e o bisavô é, ou foi, Jann Hinrich Andresen, um homem que em jovem rumou ao sul, contra a vontade paterna, a bordo de um navio-veleiro vindo das Frísias, ilha de Förh. Jann fez fortuna na Invicta e, com ela, comprou uma quinta bela, com vistas de mar e tudo, onde existia uma casa enorme, portentosa de gigante, bem maior do que uma baleia. Nessa casa, diz Sophia na saga (ou a saga de Sophia), tudo era "desmedidamente grande", "desde os quartos de dormir onde as crianças andavam de bicicleta até ao enorme átrio para o qual davam todas as salas e no qual, como Hans dizia, se poderia armar o esqueleto da baleia que há anos repousava, empacotado em numerosos volumes, nas caves da Faculdade de Ciências por não haver lugar onde coubesse armado".

António Araújo
Rosália Amorim

Retalhos de contradições

O início da libertação total da pandemia e das suas medidas restritivas, anunciado nesta semana após mais um Conselho de Ministros, deverá trazer um novo fôlego à economia. E, já agora, também ao Partido Socialista, que a poucos meses das eleições autárquicas vê a sua popularidade voltar a subir. Mas voltemos à economia. O verão já deveria ter reanimado o tecido empresarial, uma vez que trouxe consigo uma vontade de desconfinamento; porém, os sinais emitidos pela economia continuam a ser contraditórios. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e a estimativa rápida divulgada ontem, a economia portuguesa cresceu a dois dígitos entre abril e junho, com uma aceleração homóloga de 15,5%, representando o maior crescimento trimestral desde 1996. A explicar esta evolução estão "as restrições sobre a atividade económica em consequência da pandemia que se fizeram sentir de forma mais intensa nos primeiros dois meses do segundo trimestre de 2020, conduzindo a uma contração sem precedente da atividade económica", pormenoriza o INE. Contudo, logo no mês seguinte, a atividade económica voltou a fraquejar (mais precisamente, na terceira semana de julho), acompanhando o alargamento de um maior confinamento a mais concelhos do continente; segundo dados do Banco de Portugal (BdP). Por essa altura, o governo colocou no nível de risco elevado e muito elevado 116 concelhos, ou seja, mais 26 do que na semana anterior. Assim, depois da recuperação logo a seguir ao fim do segundo confinamento geral, em meados de março, o indicador diário DEI (lançado recentemente pelo BdP para identificar facilmente alterações abruptas na atividade económica) tem apresentado sucessivas oscilações, com avanços e recuos. Na semana terminada a 25 de julho, registou-se uma queda homóloga de 0,6%, que compara com uma variação nula uma semana antes, a 18 de julho.

Rosália Amorim
Adriano Moreira

O diálogo a cinco

O anúncio do fim da Guerra Mundial de 1939-1945, para o qual sempre recordo o inspirado anúncio de um jornal francês, com a afirmação de que se tratava de "um anúncio feliz cheio de lágrimas", sentimento que apoiou reconstruir o projeto mundial de uma paz global. Foram e continuam a ser necessárias as instituições que participam no esforço de realmente implantar, para todas as espécies humanas, a dignidade, o direito e a justiça. Numa data, a nossa, em que na própria União Europeia se discute se a Europa está a caminho de "refazer-se ou desfazer-se", encontrei lembrança na Universidade de Salamanca, na estrutura chamada Diálogo a Cinco, criada em 2013, e ali organizada na Faculdade de Direito da Complutense. A iniciativa defendeu que, mesmo nas ações regionais, devem intervir representantes de ministérios importantes (Negócios Estrangeiros, Justiça, Educação, Ministério da Cultura) com três líderes religiosos e quatro académicos. A universidade organizou a sua conferência internacional, seguindo o critério estabelecido, insistindo no tema dos direitos humanos, da liberdade religiosa e nas minorias.

Adriano Moreira
Anselmo Borges

Reencarnação?

A doutrina da reencarnação é partilhada por mais de mil milhões de seres humanos. Basta pensar que ela é património das religiões de origem indiana: hinduísmo, budismo, etc. Embora se discuta a influência indiana sobre os primeiros pensadores gregos, é um facto que não só os órficos e Pitágoras mas também Platão e os neoplatónicos seguiram essa doutrina, bem como algumas seitas da Idade Média. Entre os seus sequazes contam-se inclusivamente grandes espíritos do classicismo e do romantismo alemão. Segundo a investigação de Hans Küng, "poetas e filósofos como Kant, Lessing, Lichtenberg, Lavater, Herder, Goethe e Schopenhauer seguiram, pelo menos durante algum tempo, a doutrina da reencarnação". Embora reinterpretando-a, também o filósofo Ernst Bloch começou por defender a metempsicose. Hoje, tanto na Europa como na América, a reencarnação é a crença de enorme número de pessoas, nomeadamente entre os adeptos do espiritismo, da teosofia e da antroposofia. Quase um quinto dos europeus adultos, incluindo católicos, dizem acreditar nela: 21%, segundo uma sondagem em vários países da Europa Ocidental.

Anselmo Borges
Victor Ângelo

Clima e pandemia: visões curtas na hora das urgências

O sul de Madagáscar está a sofrer um longo período de seca. Daqui resulta insegurança alimentar para cerca de um milhão e meio de pessoas. Sem meias-palavras, subalimentação e fome. Para mais, a pandemia do coronavírus veio agravar a crise humanitária. As escolas fecharam e as crianças deixaram de ter acesso ao almoço diário que estas lhes proporcionavam, graças à intervenção do Programa Mundial de Alimentação da ONU.

Victor Ângelo
Miguel Romão

Ainda (e sempre) Otelo

A minha avó materna, nascida em 1914, não tinha o que chamaríamos hoje de grande consciência política. Tinha algumas convicções, poucas e absolutamente seguras, que valem o que valem: a de que Salazar e Marcello Caetano eram simplesmente uns "cínicos", o que, para ela, significava que provavelmente pensavam uma coisa e diziam outra; e que Otelo e Jorge Sampaio eram as melhores pessoas que lhe tinham aparecido, no seu julgamento simultaneamente sábio e ingénuo, como figuras políticas depois do 25 de Abril. Várias vezes a ouvi, eu criança, provavelmente passeado por ela em direção ao Mercado de Campo de Ourique, elogiar Otelo - e estamos a falar de 1981, 82, 83. Tal como, depois, a via com imensa atenção às intervenções públicas, na televisão, de Jorge Sampaio.

Miguel Romão
Sebastião Bugalho

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021). Otelos

Um célebre filósofo espanhol escreveu que "um herói é alguém que quer ser ele próprio". No caso de Otelo Saraiva de Carvalho, nascido em 1936, falecido no passado domingo e cremado com honras militares mas não de Estado, a questão é: mas qual dos próprios? O Otelo que foi libertador de um país algemado a um regime ditatorial? Ou o Otelo que se insurgiu clandestinamente contra o regime democrático que se seguiu, já em período de normalidade constitucional? O Otelo apregoador da democracia direta ou o Otelo que clamava a necessidade de "um homem com a inteligência e a honestidade" de Salazar? O Otelo cuja performance operacional na madrugada de 25 de Abril é ainda estudada nas escolas de infantaria? Ou o Otelo que, mesmo acreditando na sua versão, se deixou rodear por gente que assassinou funcionários do Estado e uma criança? O Otelo que a justiça decidiu condenar, mas nunca por crimes de sangue, ou o Otelo que a política preferiu perdoar, mesmo que sem as unanimidades que a vida e a morte nunca permitiriam?

Sebastião Bugalho
Rosália Amorim

A ilusão da liberdade de que o país precisa

Regras iguais para todo o país e um plano de recuperação da liberdade em três fases. É com estas diretrizes, anunciadas pelo primeiro-ministro ontem à tarde, que os portugueses vão organizar as suas vidas no verão. Marcelo Rebelo de Sousa já tinha falado, nesta quarta-feira, numa nova narrativa e de um certo alívio das restrições. E ontem António Costa garantiu que há uma "total convergência entre o governo e o Presidente da República", afastando rumores de um certo distanciamento crescente entre as duas figuras de Estado. Mais disse: "Eu nunca me considero um otimista irritante, muito menos o Presidente da República alguma vez pode ser considerado dessa forma. O que senti nas palavras do Presidente da República foi uma confiança acrescida na forma como a pandemia tem sido controlada, como tem corrido o processo de vacinação e como estamos em condições de dar este passo em direção à retoma."

Rosália Amorim
Rosália Amorim

Enfrentar as gigantes, sem medos!

Na Europa, a comissária Margrethe Vestager tem sido o rosto do combate à hegemonia das grandes tecnológicas. Com coragem, determinação e medidas de punição, a comissária da Concorrência tem dado o corpo às balas em defesa dos direitos de autor, liberdade de informação, justiça fiscal e combate a monopólios e duopólios. Já veio, aliás, a Portugal falar disso e mais do que uma vez, numa delas foi oradora no palco da Web Summit, onde explicou, precisamente, porque o paradigma deve mudar.

Rosália Amorim
Jorge Moreira da Silva

Coerência e coragem na ação climática

Nem a retórica sobre transição climática nem os anúncios de mais financiamento verde reduzem as emissões de gases com efeito estufa. É tempo de exigir, em Portugal, um amplo compromisso político em torno de objetivos mais ambiciosos de redução das emissões e de um pacote de reformas que assegure uma descarbonização assente em objetivos de proteção ambiental, de justiça social e de eficiência económica. É inegável que nenhuma mudança de comportamentos, na sociedade, na economia e no Estado, será alcançada, ao nível da mitigação das alterações climáticas, sem que se coloque um verdadeiro preço nos produtos e nos serviços. Mas a minha experiência permite-me dizer que está ao nosso alcance desenhar políticas que, sendo amigas do ambiente, são amigas da economia e da justiça social. Dois exemplos:

Jorge Moreira da Silva
Carlos Rosa

O algoritmo do olhar

O conflito entre o ser humano e as máquinas no cinema remonta há quase cem anos. Metropolis (1927), de Fritz Lang, aborda essa temática e é capaz de ser o filme de sci-fi mais influente de sempre. Arrisco a dizer que Metropolis será talvez o ponto de partida para as distopias adivinhatórias, que se materializam primeiro na literatura e no cinema. Será talvez também o ponto de partida para a convenção de um algoritmo social e moral, que ganha relevância em filmes como Blade Runner (1982 e 2017), A.I. (2001), Os Substitutos (2009) e Her (2013).

Carlos Rosa
Isabel Capeloa Gil

O país exausto

A viver o segundo verão de pandemia, Portugal dá sinais de um cansaço vital, que se estende da política à comunicação, da economia à saúde. Os portugueses estão cansados do vírus, do ziguezague das normas sanitárias, das verdades científicas, das fake news, do elogio e da crítica da tecnologia, do isolamento forçado, do trabalho remoto. O governo demonstra a exaustão decorrente da gestão da maior crise sanitária da época moderna e os cidadãos demonstram uma apatia interrompida apenas por explosões celebratórias - como os festejos do Sporting - ou conflituais - como o vandalismo de Vila Nova de Milfontes.

Isabel Capeloa Gil
Maria da Graça Carvalho

Ranking de Inovação. Mais do que uma queda, o retrato de uma realidade

A descida de sete lugares no Ranking Europeu de Inovação, que voltou a colocar-nos entre os países moderadamente inovadores apenas um ano depois de termos chegado pela primeira vez ao grupo da frente, não é obviamente uma boa notícia. No entanto, os indicadores relativos ao nosso país têm a virtude de deixarem bem claros os problemas de fundo que nos impedem de crescer ao ritmo a que desejaríamos e que nos levam até a desperdiçar muitos dos ganhos, nomeadamente em termos de qualificação da população e de capacidade científica, que fomos registando ao longo dos anos.

Maria da Graça Carvalho
Rosália Amorim

De insensível a indiferente

Vai a "uniformidade de medidas", de que falou ontem a ministra da Saúde, Marta Temido, acabar com as restrições por concelhos? A mensagem à saída da reunião do Infarmed, que decorreu nesta terça-feira, não foi clara, mas várias autarquias celebram já um possível ponto final nas limitações. Aliviar as medidas restritivas foi o tom de todo o encontro de especialistas, mas nenhum deles recomendou (ainda) qualquer aligeirar de políticas sem olhar aos sinais individuais de cada área geográfica.

Rosália Amorim
João Pacheco

O saldo parlamentar

A pandemia da covid-19 serviu e serve - porque ainda dura - para percebermos e compreendermos muitas coisas. Enfim, tem permitido aprender e no que respeita à política, até os mais distraídos foram obrigados a aperceber-se do papel do parlamento e das atribuições e dos impactos da matéria que decide. Desde logo, pelas sucessivas renovações do Estado de Emergência. Aliás, a pedrada no charco sobre a utilidade da Assembleia da República corresponde à "geringonça", que para a opinião pública se revelou o inédito da contemporaneidade política.

João Pacheco
Guilherme de Oliveira Martins

A Escola Froebel...

Há dias, junto do coreto do Jardim da Estrela, António Homem Cardoso recordou-me que aquele era um cenário que nos lembrava o tempo do Passeio Público. De facto, recordando-nos de Eça de Queiroz, foi no velho Passeio, no enredo de O Primo Basílio, que Jorge conheceu Luísa e foi lá que D. Felicidade esperou pelo conselheiro Acácio, afrontada por flatulências. Aquele belo coreto da Estrela, o maior da capital, nasceu a pensar no fim do Passeio Público e foi da autoria do prolífero arquiteto José Luís Monteiro, que também assinou a Estação do Rossio e a Sala de Portugal da Sociedade de Geografia. O coreto foi inaugurado em 1894 na Avenida da Liberdade (depois de estar dez anos desmontado num armazém), tendo sido, apenas em 1936, transferido para onde está. A história conta-se em duas palavras: na reconstrução de Lisboa depois do terramoto, Sebastião José encarregou em 1764 o arquiteto Reinaldo Manuel de projetar um parque à inglesa, no leito alagadiço da ribeira de Valverde, nos terrenos das Hortas da Cera, da Mancebia e de São José, que ficou concluído entre 1773 e 1777. Depois da vitória liberal em 1834, houve uma renovação do Passeio Público, a construção de uma imponente cascata, a implantação das estátuas decorativas dos rios Tejo e Douro e o rebaixamento dos muros. Mas com o impulso de José Gregório Rosa Araújo, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e segundo o plano da autoria de Frederico Ressano Garcia, sob um coro de protestos, o Passeio Público foi demolido, dando lugar em 1879 à Avenida da Liberdade, segundo o modelo parisiense.

Guilherme d'Oliveira Martins
Sebastião Bugalho

Uma tarde com Brad Mehldau

No que toca a reuniões entre amigos ao fim da tarde, o jazz não é estranho e a música tão-pouco dispensável. Em 1985, uma das mais célebres e fraternas duplas do género gravou An Elegant Evening ("Uma tarde elegante"), álbum em estúdio gravado com a voz de Mel Tormé e o piano de George Shearing. A parelha é aqui evocada pelo seu ecumenismo e longevidade na colaboração. Também o trio de Brad Mehldau, que tocou no Centro Cultural de Belém nesta quinta-feira, proporcionou uma tarde elegante aos ouvintes lisboetas; variada, familiar e quase comovente.

Sebastião Bugalho
João Melo

A América e a democracia global – o que faltou dizer

No artigo publicado aqui no passado dia 13 de julho deste ano, comentei a pretensão anunciada pelo presidente americano Joe Biden de liderar o combate global para defender a democracia, ameaçada por aquilo a que se tem chamado "derivas autoritárias". Apontei então algumas limitações dessa pretensão. As duas teses principais do artigo eram que, para desempenhar esse papel, a principal potência mundial precisa, primeiro, de resolver o problema das ameaças internas à sua democracia, protagonizadas pelo trumpismo, e, segundo, de articulá-lo com as principais instituições multilaterais existentes, a começar pela ONU. Só faltou concluir que, caso contrário, estaremos de volta à "América de Bush", quando os EUA pensavam que podiam implantar a democracia em outros países (os que lhes interessavam) à custa de invasões e "revoluções" híbridas.

João Melo
André de Aragão Azevedo

Um novo ciclo

Vivemos um período único na nossa história, não só pelas alterações conjunturais e estruturais resultantes da crise pandémica, mas porque concluímos com êxito a presidência do Conselho da União Europeia (PPUE), coincidindo com um novo quadro comunitário, que possibilitará oportunidades, sem paralelo, em termos de investimento, reformas estruturais e transição para um modelo económico mais competitivo, no qual a inovação, a digitalização e as startups serão fundamentais.

André de Aragão Azevedo