Opinião

Henrique Burnay

Saber o que queremos da Europa

Seja qual for o desenho final do plano de recuperação económica da União Europeia, que os líderes europeus acabem por acordar (em Julho ou mais adiante), há algumas coisas que já sabemos. Vai haver mais dinheiro, e mais regras, para acelerar o que tinha sido definido como prioritário: fazer da economia europeia a primeira a ser verde, e com isso liderar o que se acredita que possa ser a economia do futuro; acelerar a transição digital, para evitar que fiquemos para trás e que em quase todas as comparações as empresas europeias apareçam no fim da lista, a perder para o mercado americano ou chinês; e, finalmente, tentar recuperar alguma autonomia industrial, e consequentemente empregos, mesmo que com custos de produção mais altos.

Henrique Burnay
Ruy Castro

Uma tragicomédia de hora em hora

O leitor português já se cansou de ouvir falar das grosserias do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de como, num dia normal de 24 horas, ele viola duas ou três vezes a Constituição, estupra as instituições, acusa inimigos sem provas, joga o povo contra o Congresso, apoia fechar o Supremo Tribunal Federal, compromete as Forças Armadas, bota os órgãos do Estado ao serviço de seus interesses, encobre as sujeiras dos filhos, mente compulsivamente e, como se não houvesse uma pandemia, circula pelo país sem máscara, cavoucando o nariz e trocando perdigotos com as pessoas que abraça.

Ruy Castro
Viriato Soromenho-Marques

A bordo do Titanic 2.0

No dia 14 de abril de 1912, antes da colisão com o icebergue que o afundaria, o Titanic recebeu seis avisos via rádio de diferentes embarcações acerca de perigosos blocos de gelo flutuante dispersos na sua rota. Aparentemente, o seu comandante, Edward Smith, estava convencido de que nenhuma força natural poderia opor-se ao mais rápido e poderoso navio do mundo. O Titanic nem sequer abrandou a sua velocidade excessiva (22 nós, ou 41 km/h), o que foi crucial no fracasso da manobra de desvio que poderia ter evitado a colisão fatal.

Viriato Soromenho-Marques
Marisa Matias

Fogo amigo

A expressão é eufemística e supostamente refere-se a um engano. Fala-se de fogo amigo para um ataque que vem de dentro, e parece que é o que estamos a assistir em Portugal mesmo antes da paragem sazonal. Senão vejamos. A resposta à crise pandémica trouxe para o centro da política portuguesa a ministra Marta Temido e a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas. Em tempos de enorme incerteza, e não isentas de falhas, tiveram a capacidade de ir respondendo com o que sabiam, gerindo a incerteza e dando respostas de forma clara e corajosa. Essa resposta deu a Costa a popularidade de que tem gozado. É por isso que é tão indigna a mudança de postura de uma parte do partido do Governo que não se coíbe agora de criticar a sua intervenção e de fazer coro com a direita. É esta mudança um acaso? Não parece.

Marisa Matias
Adriano Moreira

O passado cultural

Depois de a peste negra (1347-1352), vinda de países do Oriente, se ter propagado pela Europa, sem que a opinião dos povos conseguisse concluir se estava a ser castigado por "influências astrais ou resultado das nossas iniquidades" (Boccace, 1348), este continente que foi chamado "pequeno, aberto, bem situado", não obstante as divergências, por vezes armadas, internas, ultrapassou essas dificuldades e assumiu a ocidentalização do globo com a aventura das grandes descobertas iniciadas pelo talento do príncipe Henrique, o Navegador, que viveu entre 1394-1460.

Adriano Moreira
Anselmo Crespo

Não nos TAPem os olhos

A minha primeira grande viagem de trabalho foi ao Brasil, pela TAP e por causa da TAP. A companhia aérea - à época gerida por Fernando Pinto - falhara a compra da brasileira Varig, mas tinha conseguido adquirir a VEM - Varig Engenharia e Manutenção, com oficinas em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Apesar de altamente deficitária, a confiança da administração da TAP na recuperação da VEM era enorme. E o orgulho nesta "conquista" era claramente desmesurado, como viria a confirmar-se mais tarde.

Anselmo Crespo
Daniel Deusdado

A TAP é o princípio do fim de António Costa

No princípio era o verbo. No final há de ser a dívida, estratosférica. Pode António Costa sobreviver a mais esta gigantesca hecatombe tendo debaixo dos pés um Governo minoritário, sequestrado por uma Gerigonça que vota sempre por mais despesa? Nenhum português ficará incólume às consequências de uma tragédia económica tão gigantesca como a da TAP onde, só na primeira tranche, entram 1200 milhões de euros para serem praticamente engolidos de imediato pelos prejuízos deste ano. Junte-se a isto a despesa inquantificável para o SNS e apoio social da covid-19, e não há palavras para explicar o que nos aconteceu em tão pouco tempo.

Daniel Deusdado
Leonídio Paulo Ferreira

Europa seis meses nas mãos de Merkel, ou seja, bem entregue

Bem me disse o biógrafo da então candidata democrata-cristã a chanceler que Ângela Merkel era capaz de surpreender. E aconteceu logo naquelas eleições alemãs de 2005, que cobri para o DN, pois derrotou o social-democrata Gerhard Schröder e assumiu a liderança do país, posição em que se encontra até hoje, depois de mais três vitórias. Que seja a Alemanha, ou melhor ela, a encabeçar a reação europeia à crise gerada pela pandemia, é pois um sinal de esperança para todos.

Leonídio Paulo Ferreira
Gina C. Lemos

Pergunta de partida: O que determina percursos de sucesso educativo?

O nosso apetite pelo dramático impele-nos a espreitar os rankings escolares, mesmo quando sabemos das suas limitações. É preciso ver o mundo tal como ele é, com factualidade. Isso implica estarmos dispostos a mudar a nossa visão do mundo, implica estarmos prontos para reconhecer a nossa reação instintiva e implica estarmos disponíveis para nutrir o nosso pensamento crítico. Ora, isso faz-se com humildade, curiosidade e abertura ao espanto. Até porque somos capazes de perceber o mundo corretamente sem termos de o aprender de cor. Hans Rosling explica isto muito bem no seu livro "Factfulness".

Gina C. Lemos
Fernando Jorge Cardoso

Cabo Delgado: jihadismo, "nova guerra" ou revolta popular?

Existe hoje uma profusão de (des)informação sobre a guerra em Cabo Delgado, que confere maior ou menor prioridade a fatores explicativos da mesma, nomeadamente conflitos associados à descoberta de gás (maldição dos recursos), falhas de governação associadas a "novas guerras" autofinanciadas com recursos "transportáveis" ou revolta popular originada por ressentimentos contra o Estado e "senhores" locais, por ocupação de terras, ausência de investimentos em infraestruturas e serviços públicos e falta de empregos. Na verdade, a única explicação que tem sido consensual é de a guerra não ser provocada por tensões entre a Frelimo e a Renamo (fação oficial ou dissidente), que se distanciaram desde o início e até hoje deste conflito.

Fernando Jorge Cardoso
Bernardo Ivo Cruz

Há 75 anos a tentar salvar a Humanidade de si mesma

Todos os anos em setembro as ruas de Manhattan em Nova Iorque transformam-se no centro das reclamações do Mundo. Enquanto os líderes dos Países se reúnem na sede das Nações Unidas para debaterem o estado do Planeta, pessoas vindas de todos os pontos do Globo manifestam-se a favor ou contra todas as causas imagináveis, desde questões que mobilizam milhões como a defesa dos direitos humanos ou o combate às alterações climáticas, até questiúnculas tão obscuras que parecem importantes para apenas uma mão cheia de ativistas.

Bernardo Ivo Cruz
José Ribeiro e Castro

Sefarditas: de Espanha, nem bom vento, nem bom argumento

Quando um governo detecta problemas na aplicação de uma lei, não salta a pés juntos sobre os cidadãos, nem sobre a própria lei. Avalia o problema, discute-o com os interessados, define medidas administrativas que assegurem a boa aplicação da lei, reconduzindo-a ao seu propósito. Não sendo isto suficiente, prepara e faz adoptar novas normas regulamentares, que, afinando o processo administrativo, assegurem a aplicação correcta da lei. Se o governo for democrático e aberto, prepara a revisão regulamentar em diálogo com os sectores relevantes, assim promovendo melhores normativos e protegendo o capital de confiança na lei e na Administração, que sempre importa. Só em último caso parte para rever a lei, se todas as etapas anteriores se revelaram impossíveis, inadequadas ou insuficientes. E, se for democrático, empreende a revisão da lei pelos processos constitucionalmente previstos, sem truques nem subterfúgios, e por métodos transparentes e democráticos.

José Ribeiro e Castro