Opinião

Margarita Correia

Da literacia em todos os domínios do saber

Alexandre Quintanilha concluiu uma brilhante intervenção parlamentar, durante a discussão do estado de emergência (a 25/02), sentenciando: "Promover o conhecimento e a literacia em todos os domínios do saber será sempre a forma mais eficaz de lutar contra a insegurança, o medo e a mentira." Não se pode estar mais de acordo com a totalidade da intervenção, que tanto enobreceu a sessão, nem deixar de perfilhar os princípios expressos nesta frase lapidar. A expressão "literacia em todos os domínios do saber" pode, porém, suscitar alguma estranheza, visto que, pela forma da palavra "literacia", associamo-la geralmente apenas a leitura, literatura, língua escrita. De resto, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001) terá sido o primeiro dicionário português a registar "literacia", atribuindo-lhe dois significados ("capacidade de ler e escrever" e "condição ou estado de pessoa instruída").

Margarita Correia
Henrique Burnay

A construção do interesse europeu

A Europa precisa de reforçar as suas capacidades de defesa e assumir maiores responsabilidades pela sua segurança, declararam os chefes de Estado e de governo da União Europeia, no final do Conselho Europeu da semana passada. Ao mesmo tempo, três antigos primeiros-ministros europeus sugeriram, num editorial publicado num daqueles jornais que só se leem em Bruxelas, que a Alemanha cancelasse o projeto Nord Stream 2 (o gasoduto que a ligará à Rússia) e que os restantes europeus indemnizassem os alemães pelos custos dessa decisão, fundamental para o que defendem dever ser a política europeia face a uma das suas maiores ameaças: a Rússia.

Henrique Burnay
Javier Solana

Construir de base uma coligação de democracias

Por todo o mundo, a democracia está em retrocesso. Em 2020, o Índice de Democracia, publicado pela Economist Intelligence Unit (EIU) desde 2006, caiu para o nível global mais baixo de sempre. Este desenvolvimento não pode ser atribuído exclusivamente às restrições impostas devido à pandemia, pois as classificações estão em queda livre desde 2015. Portanto, não é surpreendente que, no seu primeiro discurso de política externa como presidente dos Estados Unidos, Joe Biden tenha acentuado a necessidade da salvaguarda dos valores democráticos em todo o mundo.

Javier Solana
Damasceno Dias

As narrativas e a aprendizagem

Nos tempos que correm, com a fratura que se tem sentido na manutenção da cultura organizacional, sobretudo neste período em que as relações se estabelecem de forma remota, as narrativas podem ser contributos preciosos para os diagnósticos que visem captar informações acerca de normas e valores organizacionais, como ferramentas de gestão para envolver as pessoas no processo de endogenização do conhecimento, e como meios para ajudar as pessoas a visionar realidades futuras potenciais das interpretações criativas do passado. Ligando situações do passado, do presente e do futuro, as narrativas são capazes de produzir condições liminares entre realidades atuais e as possibilidades futuras, construindo uma ponte entre a realidade que ajuda as pessoas a lidar com a ambiguidade e a mudança e, assim, ajuda a criar condições estruturais novas e a reorganizar o nosso campo percetivo.

Damasceno Dias
Rosália Amorim

Vacinar, sim. Defraudar expectativas, não

O que mais desejamos, além do fim da pandemia? Uma vacina. Rápida, eficaz, indolor. Os atrasos das farmacêuticas na entrega das vacinas à Europa trouxeram desânimo. Os adiamentos surtiram um efeito terrível em termos sociais e económicos. Agora, numa tentativa de reatar a confiança - e acreditando que, desta vez, as produtoras de vacinas vão cumprir com as entregas - , a União Europeia informou ontem que estima que em meados de março "tudo vai funcionar normalmente" na produção e na distribuição de vacinas contra a covid-19 nos Estados membros. Pela voz da comissária da Coesão e Reformas, Elisa Ferreira, soubemos que "a expectativa é que dentro de duas, três semanas, tudo vá funcionar normalmente com os níveis de produção e de distribuição muito mais fortes do que até agora". A comissária acredita que à medida que se alcance a "velocidade de cruzeiro" os países terão de concentrar-se na "capacidade" de administrar as vacinas à população, porque irão "chegar, chegar e chegar". A Europa deu luz verde a três vacinas, mas já admite recorrer também à fórmula russa, desde que se sujeite à verificação da Agência Europeia de Medicamentos.

Rosália Amorim
Jorge Gonçalves

O engasganço metropolitano

A notícia passou despercebida, mas um jornal de circulação nacional de 28 de janeiro de 2021 trazia um artigo intitulado "Península de Setúbal vê-se novamente arredada do acesso aos fundos comunitários" onde se informava que estes municípios, designados muitas vezes como a Área Metropolitana de Lisboa-Sul (AML-S), sentiam que o próximo quadro de financiamento comunitário os irá mais uma vez prejudicar porque não tiveram a possibilidade de, em tempo útil, se voltar a constituir em NUTIII (a NUT é uma unidade territorial, com vários níveis, adotada na UE para fins estatísticos e também para efeitos de financiamento comunitário). Separar-se-iam, neste caso particular, do resto da AML e, assim, poderiam fugir à condição de território desenvolvido aos olhos da União Europeia.

Jorge Gonçalves
Ana Leal de Faria

O Ensino da História em Jorge Borges de Macedo

No centenário do nascimento de Jorge Borges de Macedo (JBM), recordo o professor que foi e para quem o ensino da história implicava uma responsabilidade que ultrapassava as pesadas exigências críticas e científicas da investigação histórica; envolvia uma outra forma de responsabilidade, sobretudo humana, pelo que considerava não ser lícito falar do seu ensino ao de leve, por meras conjeturas, ou inspirado por novidades mal avaliadas, palavras com que iniciou a conferência "O Ensino Liceal da História e as Exigências Universitárias" (1969), apresentada no Liceu Pedro Nunes.

Ana Leal de Faria
Fernando Alves

Beija-flores no Instagram

Vadiando no minguado ecrã em que o mundo é plano mas cheio de abismos, encontrei o sorriso de Paulo Bonino, 93 anos, antigo vendedor de jacarandás e locutor de muitas rádios, fotógrafo do vasto Espírito Santo, por terra e ar. A história de meio século da cidade portuária de Vitória foi captada por ele, lá do alto. Poucos lhe pedem meças na tão invocada "visão de helicóptero", mesmo se a mulher o proibiu de voar em tal engenhoca. "Já num teco-teco", conta Bonino, "ela nunca reclamou". Mergulho o torpor peripatético a pique pelos abismos, arredondo-me no desmesurado mundo que o sorriso de Bonino abarca. O que me prende ao nome e ao sorriso, em incerta prosa de gazeta, é uma legenda: "Paulo Bonino, fotógrafo de beija-flores."

Fernando Alves
Rogério Casanova

Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova
José Mendes

O risco dos especialistas

As crises têm o condão de destapar ativos que, de outra forma, permaneceriam na sombra, longe dos holofotes e, frequentemente, longe das decisões. A história está pejada de exemplos, um pouco por todo o mundo. Em Portugal, temos ainda bem viva a romaria de especialistas de economia que se atropelavam nas páginas dos jornais ou nos estúdios de televisão e de rádio durante a crise da dívida pública de há dez anos. Desde o ano passado, repete-se a revelação de novo exército de especialistas, agora versados em pandemias, vírus, confinamentos e até desconfinamentos.

José Mendes
Sebastião Bugalho

A vacina portuguesa contra a covid-19

Talvez nenhum episódio tenha antecipado o momento nacional que vivemos como o da greve dos motoristas das matérias perigosas, no final do verão de 2019. Se recuarmos e lhe oferecermos a devida atenção, facilmente o reconhecemos. Ver o governo do Partido Socialista, sustentado ainda em toda a esquerda, vergar um sindicato com a ajuda das Forças Armadas foi uma irónica vénia de António Costa a um certo ator de Hollywood, cuja carreira terminou na Casa Branca. Igualmente cómico é recordar o desnorte do governo, perante um país em risco de ficar sem combustível nas gasolineiras, admitindo não ter dado pelo e-mail onde constava o aviso de greve na mesma semana em que inaugurava a Agência Portuguesa do Espaço, o que terá tornado Portugal a primeira potência espacial no planeta com problemas em abrir o correio eletrónico.

Sebastião Bugalho
Rosália Amorim

Menos romantismo, mais realismo

Lisboa foi palco, nos últimos dias, de duas grandes conferências. Uma sobre as alterações climáticas e os novos modelos económicos, organizada no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, e, antes, uma outra sobre o futuro dos oceanos, organizada pelo Clube de Lisboa. Em ambas participei como moderadora convidada - acreditando que também assim se faz serviço público e é possível dar um contributo para o debate de matérias tão importantes para o futuro da humanidade - e, nas conclusões, sobressaiu uma mensagem comum e clara: é preciso menos romantismo e mais realismo. Os desafios do clima devem inquietar-nos a todos e todos os dias. Em cada ato podemos estar a ajudar ou a prejudicar o ambiente. Em decisões tão simples quando reciclar o lixo, usar fontes de energia renovável ou, simplesmente, comprar uma peça de roupa em fibra natural e reutilizável. O realismo é igualmente determinante na definição e na aplicação das políticas públicas e na relação do país e da Europa com outros mercados comerciais, que fazem orelhas moucas aos gritos do planeta.

Rosália Amorim
João Paulo Almeida e Sousa

Medicina Intensiva ganhou o desafio

A crise pandémica veio colocar sob pressão a capacidade de resposta da Medicina Intensiva, sentida sobremaneira onde as insuficiências eram maiores, como nos hospitais da região centro. A realidade vivida nos diversos serviços de Medicina Intensiva dos hospitais desta Região, face a esta inopinada tempestade pandémica pelo SARS Cov 2, constitui mais uma prova positiva da grande capacidade de adaptação do SNS, concretizada pelo aumento dinâmico das respostas.

João Paulo Almeida e Sousa
António Araújo

Que viva o porno!

Na manhã de 18 de Setembro de 1923, uma mulher que andava a fazer uma caminhada pelas montanhas de Santa Mónica descobriu no chão um sapato feminino, um casaco e uma carteira. No interior da carteira, uma nota bizarra, assinada com as iniciais P.E.: "Tenho medo, sou uma cobarde, tenho medo de tudo. Se tivesse feito isto há mais tempo, teria poupado muito sofrimento." A caminhante olhou para o fundo da ravina e viu o cadáver de uma jovem mulher. Receando meter-se em sarilhos, deixou os objectos nas escadas da esquadra da polícia de Hollywood e depois ligou para lá, a contar o que tinha visto.

António Araújo
Bernardo Pires de Lima

A geopolítica da vacina

O processo de vacinação em curso é o passaporte para o início da recuperação das economias, progressivamente aliviadas de confinamentos e socialmente normalizadas. Dizem os especialistas que ultrapassada a emergência pandémica e o período de vigilância sanitária, cuja mistura ainda nos angustia, passaremos a conviver com o vírus de forma endémica, habituada e sazonal. A duração disto é uma incógnita, o que não desmerece os entretantos. E, nestes, há muito em jogo: a vacina transformou-se num instrumento de poder, influência, prestígio e posicionamento estratégico. Se quiserem, deu origem a autênticas superpotências da saúde pública, dando à diplomacia da vacina um cunho que pode ir da salvação gloriosa de terceiros à chantagem por vantagens políticas. Será assim a natureza humana: é na desgraça que se revela.

Bernardo Pires de Lima
Adriano Moreira

Cátedra UNESCO

No passado 5 de fevereiro deste 2021, procedeu-se, em formato digital, ao lançamento da cátedra UNESCO - Educação e Ciência para o Desenvolvimento e Bem-Estar Humano - EDUWELL, com a presidência da professora doutora Ana Costa Freitas, reitora da Universidade de Évora, e do professor doutor Carlos Salema, presidente atual da Academia. Na data em que o globo é objeto de uma desordem da relação entre os objetivos definidos depois da guerra, e capacidades desordenadas sobretudo pela pandemia, parece de receber com louvor e esperança uma iniciativa que encontra raiz em já antiga resolução da ONU.

Adriano Moreira
Leonídio Paulo Ferreira

Cenoura e cacete na versão Biden

Theodore Roosevelt destacou-se pela fórmula da cenoura e do cacete que usou para impor a influência dos Estados Unidos nas Caraíbas na primeira década do século XX. Joe Biden, o mais velho presidente americano, parece estar a seguir a fórmula do mais jovem de todos os antecessores, pelo menos em relação às ambições nucleares do Irão. E o ataque de sexta-feira contra milícias às ordens de Teerão no leste da Síria bem pode ser entendido como uma cacetada dada depois de os ayatollahs terem rejeitado as primeiras cenouras oferecidas pelo novo presidente. Estas vão da reabertura de negociações multinacionais até uma revisão das sanções repostas durante a presidência de Donald Trump, passando pela facilitação das viagens de diplomatas iranianos às Nações Unidas.

Leonídio Paulo Ferreira
Paulo Miguel Rodrigues

Jorge Borges de Macedo: entre a Europa e o Atlântico

A sapiência e a dimensão intelectual fazem de Jorge Borges de Macedo (JBM), para além de uma personalidade apelativa, mas complexa, um dos principais historiadores portugueses, não apenas do seu tempo, mas de todos os tempos. Evocando-o, no centenário do seu nascimento (1921-2021), e (re)lendo-o, continuamos a aprender e a compreender o mundo, de forma segura, através dos seus textos, neste caso nos campos da História da Diplomacia portuguesa (HDP) e/ou das Relações Internacionais (RI).

Paulo Miguel Rodrigues
Raúl M. Braga Pires

Qatar 2022 e o reverso da medalha

O próximo Mundial de Futebol está praticamente à porta. Digo-o desta forma porque o tempo, para mim, tem passado mais rapidamente em tempos de confinamento. Nunca fui tão produtivo como agora, talvez por ter de inventar entretenimento e, quando dou por mim, estou sempre a entreter-me com algo ligado ao que me dá mais prazer, o trabalho e, já é sexta-feira outra vez. O desejo e a ânsia em ultrapassar esta fase também ajudará certamente e a verdade é que o pessegueiro à porta de casa é a árvore mais florida da rua, indicando que o Inverno já foi e que os bichinhos vão começar a comer borboletas para as terem no estômago, só porque sim.

Raul M. Braga Pires
Sebastião Bugalho

O fim de um vociferar. Rush Limbaugh (1951-2021)

Ontem, nem todas as bandeiras foram içadas a meia haste na Florida, no sétimo dia da morte de Rush Limbaugh. Divisivo em vida, divisivo depois desta, a intenção de homenagear o radialista conservador não colheu consenso no estado governado por Ron DeSantis, republicano. Em Palm Beach, onde Limbaugh residiu durante décadas, a autarca local defendeu que "apesar de ter sido uma figura pública significativa, foi também incrivelmente divisivo, ferindo muitos com as suas palavras e ações". Tal não se trata propriamente de um exagero. Maestro da polarização, grande xamã do tribalismo e acólito vocal do trumpismo, a polémica do que fazer perante a sua morte talvez seja o tributo mais justo à sua vida.

Sebastião Bugalho