Opinião

Francisco em África para o mundo

1. O Papa Francisco voltou a África. Numa viagem de contrastes: por um lado, Moçambique e Madagáscar, dois dos países mais pobres do mundo - Moçambique, com 70% dos 28 milhões de habitantes a viver abaixo do limiar da pobreza, é o décimo mais pobre; Madagáscar é o quinto mais pobre -, e, por outro, a República de Maurício, onde a economia cresce cerca de 5% ao ano, é uma ilha onde fazem férias turistas ricos. Francisco levava na bagagem objectivos essenciais: uma paz duradoura, o cuidado com o meio ambiente, o diálogo inter-religioso, um mundo globalizado justo. Numa visita multitudinária, em todo o lado foi recebido em festa e júbilo, com danças e tambores, como só os africanos sabem fazer.

Anselmo Borges

A ameaça ecológica

A preocupação dominante, mesmo não confessada, dos responsáveis que não esquecem o critério aristocrático que ainda inspirou a distinção concedida aos titulares do direito de veto no Conselho de Segurança tem sido a ameaça dos emergentes em relação à manutenção desse princípio. Os observadores tentam, sem concordância, conseguir um critério de identificação dos tais emergentes, onde não falta a inclusão da China, da União Indiana, até do Brasil, ou da África do Sul.

Adriano Moreira

Uma opinião sustentável

PremiumDe um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Maria Antónia de Almeida Santos

Os deuses das moscas

PremiumCom a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.

Maria do Rosário Pedreira

Bullitt

PremiumDez minutos alucinantes. A perseguição automóvel nas ruas de São Francisco, com a duração exacta de dez minutos e cinquenta e três segundos, é a mais lendária da história do cinema e, quando recordamos Bullitt, é sempre dessa sequência que falamos. Realizado em 1968 pelo britânico Peter Yates, com Steve McQueen no papel principal, o filme parecerá a muitos uma vulgar fita policial, terrivelmente datada, até grotesca. No entanto, Bullitté muito mais denso do que parece, e sobre ele têm sido escritos autênticos tratados em várias línguas, como um, bem volumoso, da autoria dos espanhóis Luis Aragón e Iván Gómez (Bullitt. Un Policía Llamado Steve McQueen. Historia, Análisis, Mito, 2016). Bullitt, sem receio de exagero, é uma obra essencial para compreender a masculinidade contemporânea, as relações homem/mulher, os casamentos e os divórcios, a moda, o sexo, os acidentes de viação que vitimam os adolescentes, até as discussões recentes sobre a malfadada "ideologia de género". Porquê? Por causa do cool.

António Araújo

Envelhecer, entre Almodóvar, o espelho e o SNS

Quando é que começamos a pensar que gostávamos de ter menos uns anos? Em que fase a vida nos parece crescer para trás e encurtar para a frente? Algumas pessoas responderão a estas perguntas com negativismo, acentuando a inadaptação a novos tempos. Outras terão ideia contrária: por vezes percebemos que os desafios a que estamos sujeitos precisavam de mais tempo para os resolvermos do que o que vamos ter. E é nestas duas ideias que se traçam, não só a personalidade de quem vai envelhecendo, como as tendências sociológicas que determinam a forma como olhamos para os mais velhos - e, nelas, as políticas que se seguem a este respeito.

Catarina Carvalho

Notas do Japão (III)

PremiumÚltimos desejos para os últimos dias em Tóquio é visitar essas duas marcantes instituições nipónicas do período pós-Showa: a Bershka e o Starbucks. A Bershka porque já se sabe que que não tem o mesmo que lá em Portugal, oh pai menos, oh pai nem venhas, oh pai o que é que tu sabes disso, nunca deves ter entrado numa Bershka. Claro que também não foram sensíveis ao argumento de estarmos em Tóquio, o poder de compra aqui ser diferente, a valorização do iene face ao euro, tudo isto é irrelevante, não por as minhas princesas serem insensíveis às grandes dinâmicas do comércio internacional, que até são, mas porque a ida à Bershka não é para comprar, é só para ver. Claro que é só para ver, incluindo ver em braille, mas nunca é só para ver. Porque vamos lá chegar e vai haver aquelas calças - e eu não tenho calças - e aquele top - e eu já não tenho tops nenhuns -, coisas que só há nesta Bershka, do outro lado do mundo, na cidade mais cara do mundo. Mas o que é isso a comparar com a desgraça de não ter calças e as aulas estarem a começar.

João Taborda da Gama

Palavras

PremiumNa sua apresentação no início desta semana, Ursula von der Leyen congratulou-se: "Esta Comissão é tão diversa como a Europa." Referia-se, claro está, às pessoas que iria propor para o novo Colégio. A frase proferida é quase um tratado e encaixa perfeitamente no resto do aparato apresentado, mas a Europa é - por boas e por más razões - muito mais diversa do que esta Comissão. É composta por culturas e origens diferentes, por idiomas diversos, por múltiplos credos. Há na Europa uma concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos que convivem com milhões de pessoas que vivem ainda na pobreza. Diversidade existe sim, mas ela não está espelhada, nem de longe, na atual Comissão. Estão representadas as diferentes nacionalidades e línguas? Sim. Há paridade de género? Sim. Mas a Europa não é toda branca e de classe média-alta. Muito menos vive toda numa "caixa" cada vez mais isolada do meio onde se insere. Ao afirmar que a Comissão era tão diversa quanto a Europa, Von der Leyen tornou invisíveis milhões de europeus e de europeias.

Marisa Matias

Kurt Eisner, a injustiça de um esquecimento

PremiumHá muitos anos que considero ser a Alemanha o único país da UE que tem uma política pública de memória séria em relação aos aspetos mais sinistros do seu passado. Em Berlim, para além de tudo o que já existia, é possível visitar num bunker musealizado a exposição Hitler - Como Foi Possível. Em Munique, na cidade que o partido nazi considerava como a sua "capital", existe um excelente Centro de Documentação sobre o Nazismo, de grande valor educativo. Contudo, as recentes eleições estaduais nos estados da Saxónia e de Brandeburgo, em que os neonazis da AfD obtiveram, respetivamente, 27,5% e 23,5% dos votos, mostram que alguma coisa está a falhar. É verdade que no plano federal o sucesso da AfD é bem mais modesto, e que uma parte desse sombrio êxito se liga à herança anterior a 1989, contudo importa ir mais fundo.

Viriato Soromenho-Marques

A falsa polémica sobre o Nosso Modo de Vida

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs novos nomes aos diversos pelouros do seu governo. Acabou em polémica. Em geral costumo gostar da imaginação ao serviço dos nomes. Se os nomes dos condomínios de luxo são quase sempre pretensiosos (Varandas das Buganvílias...), já os das operações da PJ costumam ser bem esgalhados: chamar Cartas Fora do Baralho a um vulgar desvio de correspondência deram ao caso um não sei quê de poético. O angolano José Vieira Mateus da Graça, quando virou escritor, rebatizou-se Luandino Vieira, o que fez de uma sua condição fundamental, ser luandino (luandense), também sua identidade pública e reconhecida. Para muitos, o nome é acaso, mas outros exigem-lhe mais, um real significado.

Ferreira Fernandes

Alta velocidade, PANdemónio e Elisa no sítio certo

1. E de repente, parece haver um consenso sobre a ferrovia. À esquerda já existia mas Rui Rio também veio anunciá-lo pelos sociais-democratas, uma espécie de sacrilégio. O velho PSD abanou, de que foi exemplo José Miguel Júdice: no seu comentário semanal na SIC Notícias tratou de desfazer o líder do seu ex-partido. E, como se notou por Júdice, interessa pouco o que está em causa. Conta a tática. É um "investimento público colossal e o PSD não devia apoiar algo assim". Ora, talvez para Júdice só faça sentido apoiar grandes empreitadas com parcerias público-privadas que, entretanto, pagamos a peso de ouro até à eternidade (o caso da Brisa e das outras concessões de auto-estradas são flagrantes). Comboios? Que desgraça...!

Daniel Deusdado

A Amazónia e o manejo florestal

A Amazónia com seus 4,8 milhões de quilómetros quadrados do território brasileiro composta por nove estados ( Pará, Maranhão, Rondónia, Roraima, Mato Grosso, Amazonas, Amapá, Tocantins e Acre) sempre foi alvo da cobiça internacional pela imensurável riqueza que possui. Atualmente, vive dias negros com os incêndios descontrolados que assolam o imenso espaço, ameaçando o clima em todos os aspetos. Os governantes dos países Pan Amazónicos: Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia, a Guiana, a Guiana Francesa e o Suriname, preocupados, estudam alternativas visando precaverem-se do horrível desastre ecológico.

Anete Costa Ferreira

Trump tem muito mais juízo do que Bolton. Ainda bem!

Fazer a América grande outra vez não significa para Donald Trump bombardear países e fazer invasões para mudar regimes. John Bolton não percebeu isso e foi demitido de Conselheiro Nacional de Segurança - através de um tweet presidencial, sublinhou toda a gente, mas não é esse o traço de Trump que emerge desta choque na Administração. O que sobressai é que o presidente não alinha com os neo-conservadores, uma corrente de pensamento que teve o auge na era de Bush filho e que deixou como principal marca no legado do seu antecessor republicano o caos pós-invasão do Iraque.

Leonídio Paulo Ferreira

Comprar um bilhete para a ficção real

Há uma comédia de Arnold Schwarzenegger em que um jovem que adora filmes recebe do projetista do cinema aonde vai frequentemente um bilhete especial, que tem o dom de o transportar para dentro da ação do que está a passar na tela. Em Last Action Hero, Schwarzenegger faz o seu habitual papel, o de um polícia que luta contra o mal, afinal o objetivo de quase todos os filmes do género, mesmo que pelo meio mate dezenas de bandidos, dispare centenas de balas e destrua cenários e carros sucessivos. O jovem participa do que vai acontecer no filme e diz algumas das deixas habituais do ator, como se fizesse parte da aventura cinematográfica e conhecesse os seus tiques habituais: "I'll be back", por exemplo.

João Céu e Silva

Os equívocos de João Miguel Tavares sobre a social-democracia

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, afirmou numa entrevista que o programa eleitoral do BE é social-democrata. João Miguel Tavares (JMT) concluiu daí que todos os principais partidos portugueses se revêem hoje na social-democracia. Segundo o colunista isto é um risco para o sistema político, pois reduz as possibilidades de escolha, alimenta a abstenção e abre caminho a partidos anti-sistema. O texto de JMT está cheio de equívocos.

Ricardo Paes Mamede

A tendência eurocrática

No ano passado, e depois de no anterior se ter realizado na Academia das Ciências de Lisboa um simpósio, em conjunto com a Academia Portuguesa da História, tendo por tema a interrogação "O futuro da Europa passa também pelo Brasil?", o ilustre presidente honorário perpétuo da Academia de Letras de Brasília, professor José Carlos Gentili, publicou um livro com a síntese do tema do simpósio. Ali recorda a correspondência entre Thomas Jefferson e o abade Correia da Serra, que aquele considerou "o homem mais erudito que jamais conheci", sendo o abade um otimista sobre o futuro do Reino do Brasil, e Jefferson um visionário do futuro dos EUA, é porém no livro lembrado como tendo afirmado que "estava perfeitamente seguro de que os países da América Latina acabariam por repelir o jugo da Espanha e de Portugal, mas era decididamente cético quanto à sua capacidade de se autogovernarem".

Adriano Moreira

Altamira junto ao lago Genebra

O que surpreende ao contemplar as pinturas rupestres de Altamira é o imediato elo de proximidade que se estabelece entre o observador atual e os seus criadores, que nelas sobrevivem, passados tantos milénios. As pinturas transportam-nos para o mundo desaparecido da última idade do gelo, para jogos de vida e morte entre grandes herbívoros e ágeis caçadores. Nas longas noites de inverno em cavernas, com 4º C ou 5º C de temperatura média abaixo da atual, junto a fogueiras que não era conveniente deixar extinguir, esses artistas anónimos perpetuaram nas paredes a sua cosmovisão. Mais do que pintura decorativa, esses são testemunhos pungentes - já burilados da emoção bruta pela mediação da representação - do milagre da existência.

Viriato Soromenho-Marques

Da radicalização e da prudência

O mundo inteiro tem assistido ao Brexit com suspense e atenção. "Assistir" parece-me a palavra correta. Não só pela velocidade dos acontecimentos, que lembra a ficção, mas também porque sabemos que assistir é verdadeiramente a única coisa que podemos fazer. A grande tradição democrática e parlamentarista da Grã-Bretanha trouxe-lhe a alcunha de Mother of Parliaments. Mesmo nunca sabendo o que esperar do Brexit, temos a consciência de que o seu desenlace será algo que marcará de forma indelével a cultura democrática universal. A verdade é que é uma situação muito complexa. De um certo ponto de vista, a sua origem pode ter estado também no facto de o processo de construção da União Europeia ter talvez descurado uma necessária atitude didática que realçasse o que temos de comum a nível cultural e histórico.

Maria Antónia de Almeida Santos