Opinião

Francisca Van Dunem

Um Estado decente não abandona os seus cidadãos, mesmo os presos

Na passada quinta-feira, 2 de abril, o governo aprovou, para submeter ao Parlamento, um conjunto de medidas com vista a prevenir a propagação do covid-19 entre a população prisional. São medidas que conduzirão ao cumprimento de penas em regime de prisão domiciliária, medidas que conduzirão à libertação de condenados por crimes de baixa densidade ou em cumprimento de final de pena e de presos com idade superior a 65 anos, em situação de saúde frágil. Estão excluídos do universo desta intervenção os condenados por crimes hediondos, como homicídios, roubos ou crimes contra a liberdade e a autodeterminação sexual.

Francisca Van Dunem
Ferreira Fernandes

E no meio do vírus, surgem abençoados testes às palavras

Pouco a pouco vamo-nos dando conta, o mal não é o confinamento, é mesmo o covid-19. Os jornais e as redes sociais, também com lentidão, vão repercutindo essa perceção. Os lamentos espúrios (a palavra é essa, sinaliza o que não é legítimo nem deve ser perfilhado), os "ai, que incómodo!" - e o incómodo é o fim de semana sem Bairro Alto, é o perder o sol da primavera, são tretas... - estão a ser derrotados pela consciência paulatina da tragédia.

Ferreira Fernandes
Catarina Carvalho

E o vírus chegou e disse: vão para casa pensar na vida!

A mão na mão. A mão mais jovem a apertar a mão engelhada. Do início ao final dos dedos, do início ao final dos dedos, outra vez, numa massagem a imitar a respiração, como um prender à vida. A mulher deitada, quase desacordada na cama do hospital de Huesca. Olhos encovados. Mas a mulher de pé tem um sorriso que se vê por detrás da máscara. Está junto da mãe, Encarnação - como se houvesse nome melhor para alguém que, aos 101 anos, resistiu ao covid-19. A filha, contente, junto da sua velha resistente e curada, nas imagens da televisão espanhola.

Catarina Carvalho

Líderes perigosos

PremiumSoubemos nesta semana que Bolsonaro mudou de opinião em relação ao risco que enfrentamos com o coronavírus. Aparentemente, terá ligado a Trump e puseram-se de acordo que, afinal, a coisa é mais perigosa do que eles pensavam. Bolsonaro afirmou há não muito tempo que estávamos perante uma "gripezinha". Trump quis convencer o mundo de que a questão era de temperatura e que, com o calor, a ameaça esfumar-se-ia como que por milagre. A primavera chegou e os Estados Unidos começam a entrar a sério no pesadelo da pandemia. As certezas de ambos desapareceram rapidamente, mas quantas vidas se perderam por causa da estupidez?

Maria Antónia de Almeida Santos

A tentação do excesso

PremiumA Constituição da República Portuguesa fez, a 2 de abril, 44 anos. Recordá-la não é um hábito, é um tónico. É o norte de princípios fundamentais da democracia portuguesa, como o da presunção da inocência e outros. É a sua prática e observância que faz a profilaxia de populismos e extremismos. Nunca como agora, e em tudo, aliás, precisámos tanto de profilaxia. O risco global de termos de enfrentar uma "tempestade perfeita", quando falamos de direitos, liberdades e garantias, não é baixo.

Maria Antónia de Almeida Santos
António Araújo

No fio da navalha

O vírus chegou pouco antes de 2020. Só os jovens o combateram, levando auxílio e mantimentos aos médicos que trabalhavam dia e noite em condições desumanas, arriscadíssimas. Ameaçados pelas autoridades, de um lado, e pelos movimentos anticientíficos, do outro, os clínicos faziam o que podiam para salvar vidas em desespero. O excesso de população fizera o mundo mergulhar no caos e, com apoio nas redes de computadores e em sofisticadas tecnologias de vigilância, crescera brutalmente a ameaça do totalitarismo. À espreita, a eugenia: o governo só garantia tratamento a quem aceitasse ser esterilizado, pois entendia que os que estivessem infectados e doentes não eram aptos a ter filhos. Escasseavam os remédios e os equipamentos, mas os médicos organizaram-se num sistema paralelo, quase clandestino, que, bem ou mal, ia funcionando como podia.

António Araújo
Viriato Soromenho-Marques

Esse abismo que nos olha

Enquanto todos os dias dezenas de milhares de europeus são infetados e mortos pelo novo coronavírus, as linhas de fratura dentro da UE, e em especial da zona euro, estão a ficar ao rubro. O que está em causa é a recusa de quatro países - Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia - em aceitar uma emissão conjunta de títulos de dívida europeia para acudir a esta dupla emergência, que atinge a saúde pública e danifica a economia europeia e global. Na verdade, com a França, a Itália e a Espanha a favor dos coronabonds, com o BCE disposto, no que toca à política monetária, a prosseguir e a amplificar a via de Mario Draghi, o que continua a faltar é a coordenação orçamental que nas presentes circunstâncias só poderá ser conseguida com endividamento conjunto, para conseguir capital suficiente a taxas de juro baixas. Trata-se de um esforço titânico: reconstruir uma Europa capaz não só de superar o covid-19 como também de resistir aos gigantescos impactos da crise climática.

Viriato Soromenho-Marques
Adriano Moreira

Reinventar o Estado

Com justificados propósitos mas enfrentando na mudança dos tempos o desafio de uma racionalidade sustentável e inovadora, multiplicam-se as evidências do desânimo sobre a viabilidade do Estado e a incapacidade de assumir uma resposta eficaz às surpreendentes novidades dos factos. Por exemplo, David van Reybrouck, uma autoridade na Bélgica, escreve sobre o espaço da União Europeia um livro com o título Contra as Eleições, analisando a crítica que acompanha o tema, em todo o caso apoiado por J.M. Coetzee, que na própria capa escreve, quanto ao seu país, que, segundo parece, "a eleição de nossos governantes, com o voto popular não logrou um autêntico governo democrático: este parece ser o veredicto da história que se desenrola diante dos nossos olhos... Talvez tenha chegado o tempo para essa ideia".

Adriano Moreira
Maria do Rosário Pedreira

Cinemínimo

Agora, obrigados que estamos ao isolamento, o cinema é uma boa forma de passar o tempo, mesmo que ver grandes filmes num ecrã pequeno não seja o ideal. E, porém, como Ruy Castro confessava aqui há umas semanas, também eu já não sou a papa-filmes que fui durante boa parte da minha vida. Não só pelas pipocas - o cheiro é insuportável e nisso Ruy Castro tem absoluta razão -, mas também porque o cinema que hoje se faz é muitas vezes previsível e mal escrito e, ainda que as técnicas tenham evoluído para tornar tudo tão verosímil como fantástico, saio frequentemente de um filme sem que ele me tenha deixado qualquer marca. Falo, claro, das produções que passam na maioria dos cinemas, porque há uma filmografia de qualidade que raramente cá chega e, se chega, fica apenas uns dias numa sala escolhida e num horário estrambólico. Deve ser por isso, aliás, que as séries conquistaram os novos cinéfilos que, habituados aos ecrãs pequenos, as vêem onde e quando lhe apetece.

Maria do Rosário Pedreira
Mevlüt Çavusoglu

O que fazemos hoje vai definir o futuro

Depois de cada acontecimento cataclísmico, tende-se a pensar que o mundo nunca mais será o mesmo. Desta vez é verdade que, de certa forma, o mundo tem de mudar. A história global está carregada de tais pontos de viragem, sendo quase todos dolorosos. Há anos que fomos alertados de que uma pandemia pode ser tão cataclísmica. A parte da humanidade que vive no meio de guerras violentas, crises, fragilidade endémica, colapso do Estado e miséria humana, poderia ser perdoada por pensar que não poderia ser pior. Aqueles que vivem em regiões pacíficas e prósperas poderiam pensar que nada os poderia prejudicar e que estavam destinados a continuar a ter sorte. Mas uma pandemia é o que é; nenhuma sociedade, nenhum indivíduo pode esperar estar fora do alcance de um vírus mortal. Por conseguinte, distanciamo-nos dos outros, das bênçãos das interações sociais. As infeções atingiram todos os continentes, excepto a Antárctida, os números correm para um milhão e irão certamente ultrapassá-lo, mais de um terço da humanidade tem ordens para ficar em casa, e a todas as vidas que já perdemos em números chocantes juntar-se-ão dezenas de outras. O custo económico desta pandemia também será assustador e poderá ser de longo prazo. O impacto nas fragilidades estatais existentes, na política e na segurança irá certamente sobrecarregar os governos de todo o mundo. Ainda não vimos a luz ao fundo deste túnel e não podemos esperar por ela. É um momento de reflexão, mas também de liderança e de ação.

Mevlüt Çavuşoğlu
Ferreira Fernandes

Milagre, Trump e Bolsonaro já acreditam no vírus!

Um dia, René Descartes, um tipo que pensava, muito e com método, escreveu: "O bom senso é a coisa mais bem partilhada do mundo." Para Descartes todos tinham bom senso, ou pelo menos parecia, pois "cada um pensa tê-lo em bastante quantidade." Eu que penso menos e com pior método, admito que quase todos temos bom senso. A prova é que nem a alguns malucos isso escapa: "Maluco, maluco, mas não põe o cu no fogão..." Eis um dito português que, como quase todos os provérbios, tem razoável bom senso.

Ferreira Fernandes
Paulo Pedroso

Solidariedade nacional para com todos os desempregados

Portugal já tinha um problema com a proteção dos desempregados antes de chegar a pandemia. Em fevereiro de 2020 47% dos desempregados não recebiam subsídio de desemprego nem subsídio social de desemprego. Em 2018, último ano para o qual temos estatísticas da pobreza, 45,6% dos desempregados eram pobres quando a mesma taxa para as pessoas em idade ativa não chegava a 17%. Mas nos últimos anos, embalados pelo crescimento do emprego, dedicámos pouca ou nenhuma atenção ao facto de que os desempregados são os mais vulneráveis à pobreza.

Paulo Pedroso
Eugénio Viassa Monteiro

Solidários no sofrer. Solidários na vitória

A pandemia, a que nenhum país parece escapar, com contágio rápido e difuso, trouxe uma nova forma de encarar os problemas da vida. Antes, tudo se resumia a situações em que uns perdiam e outros ganhavam: ganhavam os comerciantes quando aumentavam os preços, perdiam os consumidores ao gastar mais ou deixavam de comprar. Havia situações de necessidades inadiáveis, como os fármacos, ganhando saúde e capacidade de trabalhar, pagando o que fosse; a vantagem era partilhada.

Eugénio Viassa Monteiro
Nuno Venturinha

Filosofia em tempo de crise

A situação de pandemia que atravessamos tem levado à adoção de medidas políticas excecionais. Com mais ou menos demora, os governos de todo o mundo têm procurado travar a investida desse inimigo silencioso, batizado de SARS-CoV-2, como se de uma guerra se tratasse. A declaração do estado de emergência, com as inevitáveis suspensões dos direitos e liberdades a que estamos habituados, foi posta em prática em muitas democracias pela primeira vez. Atividades comerciais e industriais consideradas não essenciais foram cessadas. Escolas e universidades foram encerradas. Milhões de pessoas foram colocados em isolamento social. Se no imediato estas medidas já são gravosas, a gravidade das resoluções governamentais torna-se ainda maior quando se percebe o impacto económico que elas acarretam. Não terá sido, pois, de ânimo leve que foram tomadas tais decisões. Poucas épocas políticas terão sido tão más para governar como aquela em que nos encontramos. Quando a tempestade sanitária passar e a poeira económica assentar, os eleitores recordar-se-ão sobretudo de quem os lançou numa crise que, certamente, será mais violenta do que a de 2008.

Nuno Venturinha
António Perez Metelo

Uma cruzinha tão fácil e tão esquecida

Estamos a entrar no trimestre da entrega das declarações do IRS. Cerca de metade da população gera rendimento suficiente para ter de pagar efetivamente esse imposto e, com esse pagamento, tem a faculdade de indicar à Autoridade Tributária para que instituição do setor social ela deve encaminhar 5 em cada 1.000 euros que pagar. É a conhecida consignação de 0,5% do IRS, cujas verbas cada contribuinte tem o poder de encaminhar para uma das 4.034 instituições certificadas pelo Estado, como sendo de interesse público, que é como quem diz, dignas de receber este contributo monetário diretamente dos contribuintes em Portugal.

António Perez Metelo
Ricardo Santos

Quatro Estrelas Michelin

Foram cinco dias a caminhar entre os 1500 e os 3800 metros de altitude, para cima e para baixo pelos Andes peruanos. À custa de um mosquito e da infeção que causou, os pés já estavam a passar para o azul, depois da vermelhidão e das comichões iniciais. Só doíam ao fim de cada dia do trekking, quando o corpo percebia que era tempo de descansar. A última noite antes de chegar a Aguas Calientes - que hoje se chama Machu Picchu Pueblo - foi passada num baldio de uma pequena aldeia que não sei mesmo se teria nome. Num rés-do-chão com as portas fechadas, Freddy, o guia, montou uma discoteca. A bola de espelhos rodava, a música saía do computador e, na parede, posters de duas impossibilidades por aquelas paragens: Tina Turner e uma praia paradisíaca.

Ricardo Santos
Filipe Gil

Lembranças de conservas

Gosto de recordar pessoas pelas suas manias. Aquelas únicas e originais de que nos lembramos quando estamos longe ou temos saudades. Seja algo físico como uma maneira peculiar de mexer no cabelo para adormecer ou a forma de atender e mexer no telefone ou até mesmo o vestir uma certa peça. Lembro-me de uma certa forma de o meu avô pentear os seus já poucos cabelos num espelho oval com a figura de um jogador dos anos 1940 do Sporting. Ou da forma como o meu pai me dizia para ter cuidado sempre que ia fazer surf: "Não te afastes muito..."

Filipe Gil
Ferreira Fernandes

A decência em tempos de vírus: o outro

Há imigrantes com pedidos pendentes para terem autorização de residência em Portugal. Já nós, mesmo os com dez gerações de portugueses às costas, mesmo os ricos, quanto mais os pobres, vivemos num país hoje mais difícil. Um Portugal que encolheu. O que era um país de lés a lés, para os portuenses não vai além da Circunvalação e para os lisboetas para ainda antes da Ponte 25 de Abril. O que era a cidade confina-se à nossa casa. E lá dentro, na nossa casa, temos medo. Uma tosse é um pavor. Isso, repito, nós, com o direito ao país bebendo em séculos.

Ferreira Fernandes
Miguel Graça Moura

O pós-covid-19 tem de desembocar em algo completamente novo

1. Tendo presente o acumular diário de informação catastrófica sobre a expansão da pandemia provocada pelo coronavírus, e em particular a evolução exponencial das mortes e do confinamento forçado, "dizer que há males que vêm por bem" soa a provocação de mau gosto. No entanto, a verdade é que a extensão e a dimensão das mudanças em curso constituem uma oportunidade única, na história recente da humanidade, para repensar tudo - a vida, a política, a economia, a salvação da vida humana no planeta Terra.

Miguel Graça Moura