Opinião

Shashi Tharoor

O tsunami de covid na Índia

É humilhante quando um colunista precisa de se retratar das suas palavras pouco depois de as ter escrito. Apenas dois meses atrás, depois de a Índia ter enviado milhões de doses de vacinas contra a covid-19 para mais de 60 países, elogiei a "diplomacia vacinal" do país. As aspirações da Índia de ser reconhecida como uma potência global receberam um impulso real. Agora, com mais de 300 mil novos casos por dia e um número de mortes evidentemente muito maior do que o reportado, a Índia não representa a ideia de ninguém do que é um líder global.

Shashi Tharoor
Sebastião Bugalho

Nuno Monteiro (1971-2021). A vénia do mundo a um português

À beira de terminar o liceu, e sem saber exatamente ao certo o que seguir na faculdade ou na vida profissional, um jovem português de nome Nuno Monteiro recebeu um livro emprestado por um familiar. A Ascensão e Queda das Grandes Potências ‒ Alterações Económicas e Conflitos Militares de 1500 a 2000 ‒, de Paul Kennedy, o historiador britânico de Relações Internacionais, ajudou-o a tomar essa decisão. Não a escolher um futuro, mas a vislumbrar um gosto.

Sebastião Bugalho
Fernanda Câncio

Uma história de violência

A história de todas nós - todas, filhas, alunas, trabalhadoras, amantes, mães, irmãs - é uma história de violência." A frase é de Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora, num post no Facebook. Alexandra fala, obviamente, a propósito das recentes denúncias públicas de casos de assédio, violência doméstica e violências outras em Portugal, inserindo-as naquilo que ela descreve como um continuum - a violência a que as mulheres são sujeitas, conformadas, habituadas.

Fernanda Câncio
Maria da Graça Carvalho

Sobre intenções, atos e omissões

A Cimeira Social do Porto, "ponto alto" de uma presidência portuguesa do Conselho da União Europeia com poucos motivos de destaque, terminou com um importante compromisso entre Estados-membros, abrangendo temas como trabalho e emprego, competências e inovação, Estado social e proteção social. Que tudo isto tenha acontecido ao mesmo tempo que Portugal era palco de acontecimentos que contrariavam todos os valores que se pretendiam promover, mais do que uma infeliz coincidência, deveria ser motivo de reflexão.

Maria da Graça Carvalho
Pedro Tadeu

A União Europeia é a potência mais egoísta do planeta?

Adoro que haja países que digam "não" aos Estados Unidos da América, quanto mais não seja para diminuir um pouco a sensação sufocante de que os seus governantes mandam no mundo a seu bel-prazer. Mas quando é o governo dos Estados Unidos da América a propor a chamada suspensão das patentes das vacinas para a covid-19 e o "não" a esta ideia vem dos seus aliados da União Europeia (UE) - quase sempre servis em quase todos os assuntos deste planeta - mordo a língua...

Pedro Tadeu
Rosália Amorim

A política e as suas consequências

A situação dos imigrantes em Odemira não é nova, mas revela bem como, por vezes, as autoridades têm a capacidade de fingir que não veem uma realidade à vista de todos. Foram precisas a pandemia e a requisição civil do Zmar para que o verniz estalasse. A imigração é um dossiê na alçada do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. Também a situação do imigrante morto às mãos do SEF, o ucraniano Ihor Homeniuk - caso que o DN denunciou e acompanhou detalhadamente -, foi e é um dossiê da Administração Interna, ministério que anunciou uma reestruturação daquele Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Aliás, ainda está por demonstrar que essa proclamada renovação seja suficiente para respeitar realmente os direitos humanos dos imigrantes que chegam ao nosso país. A inabilidade com que estes temas têm sido geridos é gritante e é, cada vez mais, um desconforto político para o governo socialista.

Rosália Amorim
Luis Monteiro

A importância do hidrogénio como alternativa à eletrificação na descarbonização dos edifícios

A Europa comprometeu-se atingir a neutralidade carbónica em 2050 para fazer face à ameaça existencial das alterações climáticas. A pouco menos de três décadas desse objetivo, que requer a transformação de todo o sistema energético, em particular no setor da construção e climatização de edifícios, permanecem muitas incertezas sobre qual o caminho ou caminhos para a descarbonização.

Luis Monteiro
Mário Augusto Mourato Cabrita

Prendas do ministro da Defesa Nacional

Com demasiada frequência os militares são surpreendidos por decisões do ministro da Defesa Nacional (MDN), como foi o caso do comunicado do Conselho de Ministros a propósito da propalada reforma da estrutura superior das Forças Armadas (FA), cujo teor merece o repúdio dos militares e pode ser considerado injusto, insultuoso e humilhante. Dizer que esta reforma visa "... garantir as condições para que as Forças Armadas sejam capazes de responder aos desafios atuais e futuros ..." é uma tentativa de a justificar e de colar uma imagem de incompetência e incapacidade à sua estrutura superior e é ofensivo para todos os militares que nas últimas décadas têm levantado bem alto o nome de Portugal pelos quatro cantos do mundo.

Mário Augusto Mourato Cabrita
Joana Petiz

Um governo sem limites

Mais de um ano de pandemia parece ter deixado tiques perigosos num governo que sempre desejou ter mais capacidade de intervenção do que lhe permitem as regras de um Estado democrático. E mesmo passado o Estado de Emergência que lhe dava margem para certos movimentos limitativos das liberdades e direitos individuais, parece determinado a exceder-se - para cúmulo, enquanto sacode a água do capote quanto a responsabilidades. O que vemos em Odemira é um bom exemplo - e o (ir)responsável político, infelizmente, o do costume.

Joana Petiz
António Costa, Kaizen Institute

Eficácia: a receita para acelerar a vacinação

As más notícias têm-se multiplicado nos últimos dias: um pouco por toda a Europa, as farmacêuticas incumprem prazos de entrega, agravados pelas ondas de desconfiança, tal como aconteceu com a vacina da AstraZeneca em alguns países europeus, e o calendário definido pelas entidades oficiais nos seus planos de vacinação vai somando dias - semanas - de atraso. A imunidade de grupo parece-nos hoje mais distante, e, em consequência, também a reabertura da economia, a retoma e o regresso de alguma normalidade às nossas vidas. É verdade que não temos forma de acelerar a disponibilidade de vacinas, mas é igualmente verdade que isso não significa que a única opção seja resignarmo-nos, e esperarmos de braços cruzados.

António Costa
Eugénio Viassa Monteiro

Desafios para a UE e a Índia

A UE tem uma população em redução, há muito tempo. A população reformada, com mais de 65 anos, é importante (19,2% em 2016), em crescimento, a ser sustentada por um número gradualmente menor de trabalhadores ativos (cidadãos entre os 15 e 64 anos, são 64.4% do total, a decrescerem). Qualquer dia a UE pode ficar a falar sozinha, por a sua voz ficar abafada num mundo em que novas potências económicas, científicas e populacionais emergem avassaladoramente.

Eugénio Viassa Monteiro
Margarita Correia

A língua portuguesa e a UE

Sempre que um país assume a presidência do Conselho Europeu, é organizada uma sessão em Bruxelas para celebrar a sua língua ou línguas nacionais. A 5 de maio, além do Dia Mundial da Língua Portuguesa, comemorado um pouco por todo o mundo, celebrou-se também o Dia da Língua Portuguesa na União Europeia, com um evento subordinado ao tema "O português na encruzilhada", reservado aos tradutores, intérpretes e funcionários europeus com interesse nesta língua. Tive a honra de ser convidada e participar numa mesa-redonda intitulada "Conversas com versões: as veredas que a língua trilhou e o caminho por fazer", juntamente com Edleise Mendes, professora da Universidade Federal da Bahia, e João Melo, jornalista e escritor angolano, também colunista no DN. Cada um de nós deu conta da sua relação pessoal e profissional com a língua portuguesa, de como cresceu em ou com o português; também falámos sobre as nossas perspetivas para o futuro da língua portuguesa e concordámos que esta será cada vez mais meridional e pluricêntrica, de todos os que a falam e de ninguém em particular, mais rica de sotaques, cores, cheiros e sabores, mais mestiça e mais apta para desempenhar o seu papel de grande língua do mundo.

Margarita Correia
Paulo Baldaia

Um ministro trapalhão, mas pouco atrapalhado

Eduardo Cabrita coleciona trapalhadas no cargo de ministro da Administração Interna e nem sequer se pode falar de um sempre-em-pé porque, simplesmente, ele nem balança. O ministro está até treinado em dar respostas desconcertantes, como quem nos chama a atenção para a perda de tempo que é estar a apontar-lhe o dedo, à espera de que o primeiro-ministro dê conta de que o amigo já ultrapassou todos os prazos de validade para estar no governo.

Paulo Baldaia
Assunção Cristas

É preciso que os homens se ponham nos sapatos das mulheres

Quando finalmente chega a Portugal a onda do #MeToo, damo-nos conta de como ainda estamos longe de, coletivamente, conseguirmos abordar o tema pelo ângulo certo. Os comentários sucedem-se entre os pedidos de detalhe, numa deriva mais voyeurista do que verdadeiramente interessada, à perplexidade perante o facto de, aparentemente, os homens já não poderem ser "galãs", ou a confusão de temas e circunstâncias (um assédio na rua por um desconhecido é diferente de um assédio num contexto laboral). Mas há um denominador comum: uma parte muito relevante da sociedade, talvez a maior parte, ainda não consegue compreender o que se passa verdadeiramente quando uma mulher se sente assediada ou à beira de um assédio num contexto laboral. Essa circunstância desrespeita o mais profundo da sua dignidade, põe em causa direitos fundamentais básicos e inibe o seu pleno desenvolvimento como pessoa.

Assunção Cristas
Domingos Bragança

As cidades de média dimensão na coesão e desenvolvimento sustentável

É sabida a importância das cidades de média dimensão para a correção do desenvolvimento assimétrico, para o esbatimento dos contrastes da dicotomia litoral/interior e para a descompressão das grandes áreas metropolitanas e suavização do quotidiano da vida das pessoas. Para este desígnio, assinale-se a importância do potencial que conjuntos de cidades médias, para os quais se qualifica Guimarães, podem aportar, pois configuram uma nova filosofia de desenvolvimento. É minha convicção que a perifericidade relativa pode ser resolvida e transformada em vantagem comparativa, a partir de um modelo assente em três eixos: a regeneração urbana, a cooperação territorial de proximidade - com escala demográfica necessária ao desenvolvimento de ecossistemas endógenos competitivos - e a ligação à rede de mobilidade europeia.

Domingos Bragança
Álvaro Amaro

Rumo a 2030, ninguém pode ficar para trás

O mundo está diferente, mais acelerado, avançado, tecnológico e, há quem diga, mais desumano. A pandemia que enfrentamos confrontou os países considerados mais desenvolvidos com cenários de retrocesso que se julgavam irrepetíveis mas, num momento em que a vacinação avança rapidamente em alguns pontos do planeta, constatamos que a "aldeia global" vive a velocidades dramaticamente diferentes. O impacto da covid-19 tem sido particularmente severo junto das comunidades mais vulneráveis e, apesar do esforço, só quando toda a população mundial estiver vacinada é que teremos controlado, eficazmente, a doença.

Álvaro Manuel Balseiro Amaro
Augusto Santos Silva

O caminho com a Índia

O Tratado de Lisboa atribuiu a representação institucional da União Europeia ao presidente do Conselho Europeu e a condução da política externa e de segurança a um alto representante. Alterou, assim, bastante as competências da presidência rotativa do Conselho nessa área. O que não significa que a tenha tornado irrelevante. Além do encargo de liderar dossiês específicos, como o alargamento ou os acordos internacionais, a presidência tem um poder de influência tanto maior quanto maior for a sua capacidade de colocar questões na agenda e facilitar a mobilização, em torno delas, das instituições.

Augusto Santos Silva
Leonídio Paulo Ferreira

Ricos vs. pobres, pessoas e países

Há dois anos, numa visita a Portugal que coincidia com o centenário da organização que dirige, Guy Ryder lembrava: "Não se esqueçam de que antes de a OIT nascer, em 1919, os operários trabalhavam 65 horas por semana" (título de uma entrevista publicada no DN). Mas apesar do balanço muito positivo do progresso dos direitos dos trabalhadores, o britânico acrescentava continuar a haver no mundo tanto trabalho infantil como trabalhos forçados, e, portanto, um século de cooperação internacional e de legislação progressista não chegou para acabar com esses flagelos.

Leonídio Paulo Ferreira
Malik Khan

As Leis sobre a Blasfémia e o Parlamento Europeu

O Paquistão é uma pujante democracia ciente dos seus compromissos internacionais e envolvida na defesa dos direitos humanos dos seus cidadãos, sem discriminação. A nossa sociedade é constituída por uma pluralidade de línguas, culturas e religiões, e temos também promovido internacionalmente os ideais de liberdade religiosa. O Paquistão desempenhou um papel significativo na adoção da resolução 16/18 da OIC (Organização para a Cooperação Islâmica) sobre o combate à intolerância com base na religião ou crença.

Malik Khan