Opinião

Augusto Santos Silva

75 anos depois, a mesma ideia, renovada

PremiumEm 1945 terminou o conflito mais mortal da história da humanidade, que ceifou dezenas e dezenas de milhões de pessoas, na larga maioria civis. Com a rendição alemã e japonesa (e, antes, com a italiana) caíram três dos regimes mais sinistros até então conhecidos. O Holocausto nazi vitimou mais de seis milhões de judeus, que representavam dois terços dos cidadãos europeus com crença judaica. A determinação da Grã-Bretanha, a resistência da União Soviética, a intervenção dos Estados Unidos, a ação das forças de libertação francesas, a participação de outros países aliados e a mobilização de milhões de patriotas das nações ocupadas e de militantes contra o nazi-fascismo convergiram para derrotar a barbárie. Além do horror inominável desta, algumas das ações empreendidas pelos Aliados, como os bombardeamentos maciços de cidades alemãs e, sobretudo, o recurso à bomba nuclear em Hiroxima e Nagasáqui, também colocaram fundas questões éticas. O sobressalto moral assim suscitado haveria de conduzir à definição de limites mais estritos sobre o que se pode e o que não se pode fazer numa guerra.

Augusto Santos Silva
Viriato Soromenho-Marques

Mudar de vida

PremiumPara os distraídos, crédulos de que a inteligência humana se tem vindo a apurar sem quebras, aconselho a que se comparem quaisquer dos atuais tratados de economia com o clássico ensaio que John Stuart Mill dedicou aos Princípios da Economia Política (1848). Ao contrário da hodierna economia dominante, que ignora olimpicamente o seu impacto destrutivo no mundo, Mill fala de uma economia integrada na natureza e ao serviço do aperfeiçoamento da justiça e da dignidade humanas. Mais de um século antes do relatório sobre Os Limites do Crescimento (1972), elaborado pela equipa do MIT chefiada por Donella e Dennis Meadows, Mill salientava a impossibilidade física de um crescimento económico material infinito. Com uma mistura de finura e rigor analítico, o pensador britânico indicava que, inevitavelmente, os sistemas económicos serão forçados a reconhecer a necessidade de um "estado estacionário" (stationary state). Contudo, o autor chama a atenção para a necessidade de distinguir o crescimento material, que tem limites físicos objetivos - os quais podem ser adiados mas não evitados - do desabrochar das capacidades humanas, cujos contornos de aperfeiçoamento são indetermináveis.

Viriato Soromenho-Marques
Adriano Moreira

De novo o mar

PremiumA interdependência global torna mais evidente que a Europa enfraquece a sua passada convicção de "luz do mundo", começando por recordar-se de que, cinco séculos antes de Jesus Cristo, Heródoto confirmava a incerteza, que viria a tornar-se divulgada, em 1873, pela lição de Vital de Blanche, na Universidade de Nancy, com o título "A Península Europeia, o Oceano e o Mediterrâneo" (François Lebrun). Agora, perdida a expansão do poder colonial, que foi chamado "La mainmise sur le monde", a União Europeia procurou, reanimando projetos seculares sempre abandonados, estruturar uma unidade que, sendo territorialmente de dimensão limitada, tem mostrado a compreensão, de líderes históricos, de que nenhum Estado tem capacidade de enfrentar os desafios que ameaçam o que podemos chamar a utopia da ONU, esta defensora, na própria Assembleia Geral, do justo dever da cooperação global. O saber europeu, neste domínio, não impediu o Brexit inquietante, quando, como que articulando o desaire, veio o surpreendente ataque global do covid-19 afetar as solidariedades mesmo do pequeno espaço europeu, as certezas sobre a estrutura internacional que o exemplo dos passados endémicos lembra ter habitualmente obrigado a mudanças, não sendo fácil admitir que todos se guiem pelo dever de enfrentar, financeiramente também, a crise do coronavírus, para vencer o ameaçador conhecido presente, mas sem bússola para alguma leitura exata do que será o futuro.

Adriano Moreira
Anselmo Borges

Bento XVI. Uma vida (2)

PremiumEstudante de Teologia, J. Ratzinger destacou-se entre todos e viveu esses anos mergulhado na grande ebulição teológica que se seguiu à Guerra, preparando um novo futuro para a Igreja. A orientação era o diálogo entre a fé e a razão, a racionalidade e a beleza, o diálogo ecuménico, a "Teologia Nova"..., seguindo a verdade, porque "a renúncia à verdade não resolve nada, pelo contrário, leva à ditadura do arbitrário". Foi ordenado padre com o irmão a 29 de Junho de 1951. Tornou-se capelão, ouvindo confissões aos Sábados durante quatro horas e aos Domingos celebrando duas missas e duas ou três pregações. Doutorou-se em Julho de 1953 com uma dissertação sobre "Povo e Casa de Deus na Doutrina de Agostinho sobre a Igreja". Ficou uma palavra marcante de Santo Agostinho, ao definir a Igreja como "Povo de Deus espalhado pela Terra". Para poder realizar o seu sonho de fazer carreira como professor de Teologia, preparou uma tese de habilitação (Habilitationsschrift) sobre a revelação: Offenbarung und Heilsgeschichte nach der Lehre des heiligen Bonaventura (Revelação e história da salvação segundo a doutrina de São Boaventura). Os dois exemplares exigidos foram entregues na Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Munique no Outono de 1955. Aí, começou um drama de abismo. Michael Schmaus comunicou de modo seco, "sem qualquer emoção", que tinha de rejeitar a tese. Foi tal o choque que da noite para o dia o cabelo de Ratzinger ficou grisalho. Teria de deixar a universidade e, pensando sobretudo nos pais, "seria uma catástrofe, se tivesse de deixá-los na valeta". Razões para a rejeição, por parte de Schmaus e outros professores: Ratzinger sabe "ligar fórmulas floridas, mas onde está o cerne da questão?", "evita definições precisas", é "demasiado emocional"; mais: foi considerado "quase perigoso", "um modernista", "progressista", acabando numa "compreensão subjectivista da revelação"... No meio da tempestade, o seu orientador de tese, Gottlieb Söhngen, conseguiu que o trabalho não fosse rejeitado, mas devolvido para melhoria. "Joseph, que quer Schmaus?", brincam os colegas, gozando. Resposta: "Ser importante." Naquelas semanas dramáticas, não se zangou com Deus, mas "pediu-lhe suplicantemente auxílio". E pôs-se ao trabalho, passando a tese de 700 para 180 páginas. No dia 21 de Fevereiro de 1957, depois do debate no Grande Auditório da Universidade Ludwig-Maximilian de Munique, ouviu a palavra salvadora: "Aprovado." O que é facto é que tanto a sua dissertação de doutoramento sobre a Igreja "Povo de Deus" como a tese de habilitação sobre a revelação encontrarão forte eco nos documentos do Concílio Vaticano II. Entretanto, "era muito estimado entre os estudantes, como uma "voz da linha da frente", pois o que fazia era quase uma revelação". O Papa João XXIII foi eleito no ano seguinte, 28 de Outubro de 1958, e, em Janeiro de 1959, teve a ideia de convocar um concílio ecuménico, dando cumprimento a uma necessidade que já vinha do tempo de Pio XII. Desta vez, não era para condenar heresias, "não se tratava de resolver nenhum problema determinado", mas do todo. "O cristianismo, que tinha construído e formado o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força formativa, parecia cansado", sublinhou Ratzinger. Ele tinha, portanto, de "erguer-se no Hoje, outra vez, para poder tornar-se de novo formativo para o Amanhã". Ratzinger ousa olhar para o futuro e torna-se, em pouco tempo, "um autêntico fã" de João XXIII: "ele fascinou-me desde o início, também por causa do seu modo não convencional, por ser tão directo, tão simples, tão humano". Entretanto, vai-se procedendo à formação das comissões preparatórias do Concílio. O cardeal J. Frings, de Colónia, era membro da comissão central. Ora, pasme-se, ele que se tinha comprometido com um discurso em Génova, foi ter com Ratzinger, já professor da Universidade de Bona: "Senhor professor, pode prepará-lo?" O discurso foi feito e publicado e, numa audiência, diz João XXIII a Frings, abraçando-o: "Eminência, tenho de agradecer-lhe. Li esta noite o seu discurso. Que feliz coincidência do pensamento! Disse tudo o que eu penso e queria dizer, mas que eu não saberia dizer." Frings: "Santo Padre, não fui eu que o fiz, mas um jovem professor." João XXIII: "A minha última encíclica também não fui eu que a escrevi, mas um perito." O biógrafo, Peter Seewald, confronta então o discurso de abertura do Concílio, a 11 de Outubro de 1962, de João XXIII, e o discurso de Frings, isto é, de Ratzinger, para mostrar as coincidências. No seu texto, Ratzinger apresenta as exigências do Concílio face às mudanças sociais do mundo, que vê marcado por três grandes movimentos: a globalização, a tecnicização e a crença na ciência. Uma das causas principais do ateísmo moderno está na "autodivinização da humanidade". Mas a ciência não pode dar resposta à "necessidade da luta ética", pois não toma a sério o homem enquanto ser moral, com liberdade e consciência. Missão do Concílio tem, portanto, de ser, em diálogo com a modernidade, formular a fé cristã como uma alternativa autêntica, vivível e digna de ser vivida. A Igreja como Povo de povos tem de ter em conta a pluralidade de formas da vida humana. Num mundo global, o catolicismo tem de ser verdadeiramente católico, plural, concretamente a liturgia "tem de ser tanto um espelho da unidade da Igreja como uma expressão adaptada das particularidades dos respectivos povos." (Continua) Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia

Anselmo Borges
Victor Ângelo

Do Líbano ao congelador de conflitos

PremiumO distrito de Beja e o Líbano têm a mesma área territorial. Mas a comparação termina aí. Se de um lado temos à volta de 153 mil habitantes, do outro são sete milhões, que vivem apertados numa das regiões mais instáveis do globo. E que constituem um mosaico social extremamente fragmentado e prenhe de rivalidades, que subsiste à custa de equilíbrios precários, sempre prontos para serem quebrados. Cada segmento da sociedade puxa a brasa à sua sardinha. Os respetivos chefões corrompem o sistema e apropriam-se das instituições da governação. À emergência de líderes mais honestos, os chefões respondem com assassínios ou intimidação, para calar ou empurrar para o exílio quem os ponha em causa.

Victor Ângelo
João Melo

Adeus, Waldemar

PremiumPartiste há escassos dias, mas, como talvez aconteça com todos, já sinto a tua falta. Tenho, pois, necessidade de lembrar-te. A memória, posta à prova por tantos acontecimentos, certamente me impedirá, fragilizada, precisões temporais e exatidões detalhísticas, mas não abalará a factualidade das experiências que vivemos em comum. O coração, principalmente, sabe e saberá para sempre das cumplicidades que alimentámos ao longo da vida. Nascemos com um ano de diferença, tu um ano antes de mim. Conhecemo-nos em Luanda no século passado, nos anos de fogo de 74 e 75, talvez antes da independência do nosso país, talvez logo a seguir. Já não sei quem apresentou quem a quem, mas, nessa época, éramos três: tu, eu e o Aguiar dos Santos, o Quim. Palmilhávamos a cidade de então. Os bairros: Terra Nova, Caputo, Bairro Popular, Vila Alice, Marçal, Rangel, Precol, Boavista. Conversávamos. Sonhávamos. Vivíamos.

João Melo
Rogério Casanova

O homem que não gostava de orgias

PremiumCalvino incluiu na sua definição de "clássico" a ideia de obras que não se podem "ler", apenas "reler" - não como medida da sua complexidade, mas pelo modo como nos chegam quase sempre em segunda mão. A maioria dos clássicos são textos sociais, no sentido em que muitos dos seus elementos já foram colectivamente absorvidos e distribuídos antes de lermos uma palavra. Mesmo a "segunda mão" já transmite uma ideia redutora do processo: uma cena "famosa" de Robinson Crusoe, digamos, pode ser encontrada na forma de um meme na internet, por sua vez inspirado num sketch do Family Guy, que por sua vez satirizava aquilo que já era uma modernização (o filme Cast Away) "inspirada" pelo clássico em questão. Na impossibilidade de forjar uma relação individual com o clássico, a calibração da surpresa na primeira leitura é sempre distorcida: nenhum leitor fica surpreendido ao encontrar os moinhos no Quixote; por outro lado, é possível que alguns sintam um choque genuíno ao descobrirem que Orgulho e Preconceito, por exemplo, é um repositório de clichés da comédia romântica (clichés que fixou antes de o serem). E inúmeras pessoas que nunca leram Kafka ou Orwell transportam consigo um significado provisório dos adjectivos kafkiano e orwelliano, mesmo que esses significados se refiram apenas a filas na repartição de finanças ou câmaras de vigilância no posto dos CTT. As duas distopias literárias centrais do séc. XX - 1984 e Admirável Mundo Novo - são vítimas especiais desta semidebilidade cultural, não apenas porque influenciaram, consciente e inconscientemente, o tom e o aspecto de quase todas as distopias cinemáticas ou televisivas que existem, mas porque também influenciaram hábitos discursivos simplificados para enquadrar e debater a nossa irritação mais recente, sejam espasmos consumistas ou iniciativas governamentais. É uma debilidade de que Brave New World, a mais recente adaptação da obra de Huxley (os nove episódios estão disponíveis na HBO Portugal) se mostra impotentemente consciente. A dada altura, uma das personagens, cuja actividade no mundo da série é produzir curtas-metragens sensacionalistas, queixa-se de dificuldades para imaginar a sequela do seu último êxito, "A Bomba de Prazer". "Eles querem mais!", lamenta, falando sobre o público. "E eu não sei mais!" Num episódio posterior, outra personagem elabora o dilema: "Eles querem uma novidade, porque cada novidade pode ser a melhor de todas. Portanto, nós damos-lhes a novidade. Maior, mais ruidosa, mais exuberante. Porque se não o fizermos, corremos o risco de eles perceberem que a novidade afinal não é novidade: é apenas o antigo, em maior quantidade. E se é antigo, é aborrecido, e se for aborrecido, eles desligam." É um desabafo interessantíssimo para enfiar na quinta hora de uma série de televisão que não apresenta uma única novidade, mas sim várias antiguidades - maiores, mais ruidosas e mais exuberantes. Novidade há uma, aliás: a corajosa decisão de transformar a sátira de Huxley na história comovente de um homem que comparece a sucessivas orgias e sente tristeza com o que vê. O enredo, apesar de tudo, preserva os rudimentos do livro. Um mundo no futuro distante onde uma noção limitada mas real de "felicidade" é prevalente. Contratempos do passado como a doença, a pobreza, a fome e a ansiedade foram banidos (bem como as suas causas: nomeadamente a procriação ex vitro, e as chatices da vida familiar). A sociedade, tal como no livro, aplica os princípios da mecanização e produção em massa à biologia e à psicologia: há uma hierarquia de cinco castas, todas elas condicionadas desde a infância a aceitarem as suas funções específicas: desde os Alphas e Betas, que se encarregam das tarefas intelectuais e administrativas, aos Epsilon, que basicamente andam de esfregona na mão a limpar o que está sujo. A única anomalia neste novo mundo é uma reserva natural conhecida como "Terra Selvagem", uma Comporta que as castas superiores podem visitar como um parque temático, e onde os habitantes primitivos encenam algumas tradições distorcidas do séc. XX, como a cerimónia de casamento e a corrida aos saldos. A série nunca percebe muito bem o que fazer com este material e depressa se reduz a variações pedestres sobre o apelo do fruto proibido, dramatizando as condições necessárias para as personagens principais descobrirem os impulsos que suprimiram. Num mundo onde a promiscuidade é a norma, a monogamia adquiriu uma aura de transgressão, e uma cena no segundo episódio (quando o espectador, tal como um dos protagonistas, já assistiu à segunda de meia dúzia de longas orgias) mostra um casal improvisado a interromper subitamente um enrolanço: "E se... e se esperarmos? Podia ser... podia ser como uma... noite de núpcias!" Ao contrário do livro, composto quase exclusivamente de diálogo e exposição, a série arranja espaço para alguns tiroteios, perseguições de carro, e até para uma fugaz aparição de Demi Moore, que, entre camisas de noite e frascos de bagaço, desenrasca uma homenagem inadvertida ao papel de Elizabeth Taylor em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? O terceiro episódio traz um dos "selvagens" para o novo mundo, onde começa por introduzir uma promissora nota de dissidência, mas rapidamente se transforma noutro homem francamente repugnado pela ideia de orgias. O selvagem do livro aprendeu tudo o que sabe nas obras completas de Shakespeare; o da série tem um walkman com uma cassete de Neil Young. Quanto à ideia central de Huxley - a de que o admirável mundo novo se autoperpetua sem líderes ou vilões - é aqui reduzida à influência despótica de um computador mau, que na sua forma humana ganha o hábito de sobressaltar personagens em corredores escuros. A escolha entre prazer e autenticidade perde grande parte do significado se o papão estiver ao virar da esquina, pronto a punir a escolha errada. "1984 ou Admirável Mundo Novo?" é um exercício intelectual jogado com frequência pelo menos desde os anos 80. Qual a distopia mais plausível, qual a mais relevante? (Na verdade, o jogo começou muito mais cedo, na correspondência privada entre Huxley e Orwell, na qual cada um defendia a superioridade profética da sua própria obra). Como muitos desses exercícios, a escolha é uma espécie de teste de Rorschach invertido, em que deixamos a distopia seleccionada dar nome e forma às vagas silhuetas das nossas ansiedades particulares. Ambos os livros são sobre o terror do conformismo forçado; a diferença crucial é não apenas a intensidade da coerção, mas aquilo que os conformados são obrigados a aceitar. É inteiramente compreensível que um mundo sem fome nem doença e com orgias diárias não pareça um pesadelo intolerável, comparado com guerra incessante, polícias secretas e jantares de couve cozida. Mas qualquer distopia é menos sobre o medo da mudança do que sobre o medo que a mudança deixe de ser possível: de que a mudança deixe de acontecer no momento errado, consolidando algumas patologias específicas do presente e deixando-nos paralisados numa ordem imutável. No longo diálogo que termina o livro, o momento central não é quando o Selvagem reclama sentimentalmente "o direito a ser infeliz" ("a envelhecer, a ficar feio e impotente, a sofrer sífilis e cancro, a não ter o suficiente para comer, o direito a viver num constante estado de alarme por não saber o que vai acontecer amanhã"), mas o momento em que pergunta a um dos Controladores do Novo Mundo qual a necessidade de uma hierarquia estratificada, uma vez que a tecnologia existente permitiria poupar toda a gente a tarefas físicas extenuantes. Porque não um mundo inteiro de Alphas? A explicação do Controlador é um perfeito silogismo de rabo na boca: o condicionamento das classes inferiores (que lhes é imposto) não lhes permite desfrutar do tempo livre, nem das múltiplas orgias que esse calendário alargado iria possibilitar, portanto seria cruel impor-lhes o privilégio. A desconcertante benevolência do raciocínio é um dos aspectos mais plausíveis do livro inteiro. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Rogério Casanova
Leonídio Paulo Ferreira

Foi milagre a terceira guerra mundial não ter acontecido

Que não tenha acontecido uma terceira guerra mundial é o mais extraordinário destes 75 anos, celebrados neste sábado, da rendição anunciada por Hirohito aos japoneses, que pela primeira vez ouviam, via rádio, a voz do imperador. Naquele 15 de agosto de 1945, dias depois das bombas americanas sobre Hiroxima e Nagasáqui, o Japão aceitava a derrota, algo que a sua aliada Alemanha tinha já feito na frente europeia a 8 de maio. Sinal do que viria logo de seguida, americanos e soviéticos olharam para um mapa da Coreia na revista National Geographic e decidiram que o Paralelo 38 serviria para distinguir a quem o exército japonês baseado na península se renderia.

Leonídio Paulo Ferreira
Daniel Deusdado

Os podcasts como fórmula de conhecimento: de Kamala à Antena 2

Depois dos livros, chegou a hora de os podcasts serem os nossos melhores amigos? Na semana passada, trouxe aqui o programa diário A Ronda da Noite, sobre livros e cultura, na Antena 2, mas neste agosto descobri as Grandes Batalhas da Antiguidade, também da Antena 2 (RTP Play ou Spotify). São 13 pérolas radiofónicas escritas pelo historiador Paulo Nazaré Santos e que vão desde a Batalha de Kadesh (1274 a. C.) até à Batalha dos Catalaúnicos (451 d. C.). A escrita de Paulo Nazaré Santos é absolutamente deslumbrante na criação das atmosferas e cenários de guerra enquanto a narração do João Almeida e a sonoplastia de Tomás Anahory são primorosas. Uma obra-prima da nossa cultura.

Daniel Deusdado
Mohammad Javad Zarif

Uso do Conselho de Segurança para destruir o Conselho de Segurança

Aquilo a que nós, no Irão - o alvo de um regime de sanções vicioso e indiscriminado - temos assistido por parte da actual administração americana, é bastante simples: não existe uma grande visão para uma comunidade global alternativa. A inconstância e imprevisibilidade dos EUA nada têm que ver com a implementação magistral da teoria dos jogos. Pelo contrário, quer se trate da sua (má) gestão na abordagem à COVID19 a nível interno ou da sua insistência em minar a paz e estabilidade a nível internacional, o actual regime de Washington não tem qualquer plano real, excepto atacar frontalmente aqueles que se mantêm fiéis ao Estado de direito.

Rute Agulhas

Sobreviver ao stress das férias em família

Passamos o ano inteiro em contagem decrescente para as férias e, quando elas chegam... é um stress! Pois é, mesmo as situações muito desejadas, como ter um tempo de descanso, originam frequentemente a sensação de que a balança do stress e desequilibrou - sentimos que não temos recursos suficientes para lidar com a exigência das situações. Nas férias tendemos a idealizar cenários paradisíacos, pessoas felizes e em harmonia, com o chilrear dos passarinhos como pano de fundo. Acreditamos ainda que vamos conseguir fazer as 30 mil coisas que andámos a adiar e que teremos todo o tempo do mundo. Mas a realidade não é bem assim... começa pela escolha do destino de férias, nem sempre consensual, passando depois pelos preparativos para a viagem, quando tentamos acomodar as malas que transbordam e nos fazem questionar se não estaremos, afinal, a mudar de casa. Os miúdos gritam e batem nos irmãos, fazem birras a toda a hora e desafiam a paciência dos mais santos. Os adolescentes vivem com a cabeça enfiada no telemóvel, a dizerem mal de tudo e de todos e com cara de quem faz frete (e faz mesmo). Os pais, sogros, primos e primas que não se viam há algum tempo, as conversas incómodas e as perguntas às quais ninguém quer responder. Os casais tensos, o telemóvel do trabalho que não para de apitar e aquela sensação de que os dias, afinal, têm bem mais do que 24 horas... Neste contexto, sentimo-nos irritados e sem paciência, refilamos com as pessoas à nossa volta e tendemos a descarregar nos cigarros, nos cafés ou no álcool que se revelam, afinal, óptimas formas de anestesiar o stress. Mas serão estas as melhores soluções? Como sobreviver ao stress das férias em família?

Rute Agulhas
Raúl M. Braga Pires

Líbano: o que ainda há por dizer?

Já tudo foi dito sobre o assunto, sobre a história da criação francesa de um país-reduto para os cristãos no Médio Oriente, sobre esse falhanço presente nas quotas religiosas que impõem equilíbrios permanentemente no "fio da navalha", sobre o peso do Hezbollah, dos iranianos, dos israelitas e da corrupção endémica nos destinos do país, do choque que se tornou ira quando a poeira assentou e que resultou em manifestações que acabaram na demissão do governo. Falou-se muito também da necessidade de mudança, mas não se falou de futuro. Não se alvitrou ainda sobre como os libaneses chegarão ao futuro. Falou-se na inevitabilidade de futuras eleições, mas não se falou do futuro próximo. Esse mesmo que permitirá aos libaneses virarem a página e terem um sono tranquilo.

Raúl M. Braga Pires
Ana Paula Laborinho

Cultura é (também) economia

No início da minha carreira (que vai longa), Mário Viegas deu-me uma lição que nunca esqueci. Grande ator e encenador, desaparecido prematuramente em 1996 com apenas 47 anos, era também um recitador único que acrescentava sentido aos textos (é inesquecível a sua interpretação da "Tabacaria" de Fernando Pessoa ou do "Manifesto Anti-Dantas" de Almada Negreiros). Como jovem professora de Português numa escola secundária de Lisboa, nos idos de 80, organizei uma sessão de poesia para os alunos e convidei Mário Viegas, que, no seu tom verrinoso, me perguntou quanto pagávamos. Perante a minha quase explícita indignação, retorquiu: "Costuma ir ao dentista sem pagar?"

Ana Paula Laborinho
Leonídio Paulo Ferreira

Kamala, muito mais do que Obama em feminino

Ouvi pela primeira vez o nome de Kamala Harris, agora candidata do Partido Democrático a vice-presidente, quando estive em outubro de 2016 na Califórnia numa reportagem para o DN com a comunidade portuguesa em San Diego. Era como hoje tempo de campanha eleitoral para a Casa Branca, e Hillary Clinton ainda surgia como favorita perante Donald Trump, mas também se renovava o Congresso e Harris destacava-se como candidata ao Senado.

Leonídio Paulo Ferreira
Margarita Correia

O português, o IILP e o sistema global das línguas

Em 2001, na obra Words of World, Abram de Swaan propõe que o "sistema global das línguas" é parte integrante do "sistema mundial", e que este, além da linguística, comporta uma dimensão política, uma económica e uma cultural. Propõe ainda que o sistema global das línguas se organiza em constelação, cujo centro é atualmente o inglês, língua hipercentral. Em torno do inglês gravitam 12 línguas supercentrais (alemão, árabe, chinês, espanhol, francês, hindi, japonês, malaio, português, russo e suaíli), de âmbito internacional, e todas, à exceção do suaíli, com mais de cem milhões de falantes cada. Em torno das línguas supercentrais, gravitam cerca de cem línguas centrais, em conjunto faladas por cerca de 95% da população mundial, que têm em comum o serem frequentemente "línguas nacionais" ("national languages", segundo o autor), oficiais dos países ou regiões onde são faladas, de registo escrito, usadas na comunicação, na política, na administração, na justiça e no ensino. Finalmente, as línguas periféricas ou minoritárias, provavelmente mais de seis mil, constituem cerca de 98% das línguas existentes, mas são, em conjunto, faladas por cerca de 10% da população mundial, línguas de memória, com escassa tradição escrita. Para de Swaan, este sistema assenta no multilinguismo, i.e., grande parte da população mundial fala mais do que uma língua, pelo menos duas de "órbitas" diferentes. Os falantes de uma língua periférica usam em geral uma língua central, quando necessitam de comunicar com falantes de outra língua periférica; os falantes de línguas centrais diferentes recorrem a uma língua supercentral como veicular; e, por fim, o inglês é veicular para os falantes de línguas supercentrais diferentes. A veicularidade constitui-se, portanto, como importante mais-valia para as línguas.

Margarita Correia
Mukhtar Tileuberdi

A determinação antinuclear do Cazaquistão

Cada ano, em 29 de agosto, a comunidade global marca o Dia Internacional contra os Testes Nucleares. Foi constituído em dezembro de 2009, quando na 64.ª sessão da Assembleia Geral da ONU foi adotada a resolução histórica. O documento foi adotado a pedido do Cazaquistão e de vários copatrocinadores para comemorar, sob os auspícios da ONU, a assinatura do decreto pelo primeiro presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, para fechar o local de testes nucleares de Semipalatinsk, em 29 de agosto de 1991.

Mukhtar Tileuberdi
Carlos Santiso

As Mulheres de e-Portugal

Portugal não é o primeiro país que vem à mente quando falamos de centros de tecnologia na Europa, mas nos últimos anos o país deu passos firmes em direção ao mundo "digital", posicionando-se como um destino atraente para startups de tecnologia orientadas por dados que procuram incentivos fiscais e um pouco de sol. Desde 2016, Lisboa recebe o Web Summit, uma das maiores conferências de tecnologia do mundo, e o Norte de Portugal está entre as regiões mais inovadoras da Europa, com o vale tecnológico do Porto em franca ascensão.

Carlos Santiso
Augusto Joaquim de Carvalho Lança

Marrocos: Economia e Direitos Humanos

Os campos de refugiados de Tindouf, na Argélia, estão muito perto de Portugal. Tal como o nosso vizinho do sul, o Reino de Marrocos. Laços históricos e de amizade muito profundos ligam os povos de Portugal e de Marrocos, tal como muito bem afirma e escreveu recentemente no Diário de Notícias o politólogo e arabista Raul Braga Pires ("De Mazagão ao Algarve vão 76 marroquinos"). Defende também uma maior aproximação de Portugal a Marrocos, e uma maior presença das empresas portuguesas em território marroquino.

Augusto Joaquim de Carvalho Lança
Rosália Amorim

Desconfinar com festivais e touros, mas sem bola?

Itália, Espanha e outros países europeus começam a ficar, de novo, muito preocupados com o nível de contágio por covid-19. À medida que as populações desconfinam, empurradas pelo calor do verão e pela necessidade psicológica de voltar a ter uma vida (quase) normal, o coronavírus ressurge com novas forças. Há já quem apelide situação de segunda vaga da pandemia. Em Portugal, a situação regista uma melhoria contínua, mas o perigo não desapareceu. À medida que o verão aquece, os ajuntamentos de jovens aumentam e agosto é um mês decisivo para perceber como evoluiu a crise sanitária, ao mesmo tempo que muitos portugueses querem ir para a rua, para as praças, esplanadas ou praias. Agosto é também o mês dos emigrantes e basta circular nas estradas nacionais e ir à praia, de mar ou de rio, para perceber que muitos já chegaram para matar saudades dos seus familiares e, como é habitual, trouxeram a família para passear na terra natal. O importante é que as férias não se transformem num pesadelo para muitos e para o SNS. A luta não acabou e continuar a dar o exemplo é meio caminho andado para conter a pandemia em Portugal. A economia precisa de ser desligada do ventilador para respirar, sozinha e saudável, mas não pode ser à força. Desligar muito antes do tempo certo tem fortes riscos para o doente. O verão é também sinónimo de festivais, um negócio que cresceu em Portugal nos últimos anos e que passou, inclusive, a atrair público internacional por mérito dos cartazes e das organizações exemplares. Nos últimos anos, os festivais de verão viraram uma espécie de catarse, para miúdos e graúdos, depois de um ano inteiro de trabalho. Mas há festivais e festivais. A Festa do Avante! é muito mais do que um festival de música, é um manifesto político do Partido Comunista Português. 
É um evento cuja edição de 2020 continua a ter a capacidade de levantar forte contestação. Porquê? Porque habitualmente junta cem mil pessoas e esse não parece ser um número prudente para um ajuntamento, seja ele de que cor partidária for. Neste ano, a organização ainda não revelou quantos bilhetes vão ser vendidos. Certo é que de dia 4 a 6 de setembro a festa vai acontecer e atrair muita gente, ou não fossem os Xutos & Pontapés cabeças-de-cartaz. Por muito que a organização garanta que os concertos vão ter lugares sentados e marcados, é muito difícil imaginar os portugueses a assistir a um concerto dos Xutos agarrados a uma cadeira, sem sair do sítio, sem saltar, sem cantar e com a máscara, sem emoções, abraços, gritos e mantendo o distanciamento. Os Xutos serão um desafio para o PCP e para o público. A cultura precisa de ser reanimada, mas sem exceções às regras. É por isso difícil de entender porque continuam os estádios de futebol vazios. Se os portugueses aguentam uma tourada ou um concerto dos Xutos & Pontapés sem sair da cadeira e sem infringir as regras, não aguentarão assistir a um jogo?

Rosália Amorim
Viriato Soromenho-Marques

Babuínos como nós

O grande filósofo grego Epitecto, escravizado e agredido pelo seu proprietário romano, secretário de Nero, lembra-nos como na humanidade o desprezo e o domínio dos outros não precisou do racismo para existir. Ao longo da história, diferentes e muitas vezes convergentes são as formas de xenofobia, de opressão e exclusão do Outro. Apenas a superioridade na componente militar de cada cultura é o fator decisivo que separa vencedores e vencidos. No dealbar do século XVI, os astecas tinham água canalizada na sua capital, mas Cortés tinha armas de fogo. A lança mais comprida é também inseparável da moderna hegemonia planetária do Ocidente.

Viriato Soromenho-Marques
Adriano Moreira

O exercício internacional do racismo

A independência dos EUA foi decisão de homens que, como diria claramente Thomas Jefferson, assumam o direito à revolta sem assumirem serem eles próprios a longa mão europeia lançada sobre os vencidos, e extintos, aborígenes. De facto, a limpeza do território foi um exercício da diferença de raças, depois assente na importação de negros escravos, cujo estatuto mudaria pela guerra entre norte e sul, sublinhado pelo assassínio do vencedor Lincoln. Referindo-se por então à Europa na terceira pessoa, era como que pressionado pelo separatismo o Ocidente, até que as duas guerras mundiais exigiram as alianças. Daqui em diante, até ao anticolonialismo do século XX, o modelo colonial foi intitulado por Rudyard Kipling como sendo o "fardo do homem branco".

Adriano Moreira
Victor Ângelo

Questionar a obsessão securitária

A Comissão Europeia ganhou o hábito de produzir estratégias. É uma boa prática, por permitir fazer avançar a reflexão sobre temas prioritários e chamar a atenção dos diferentes governos sobre a necessidade de coordenação e de ações conjuntas, quando apropriado. Pena é que esses documentos fiquem apenas por Bruxelas e em certos círculos especializados, e não sejam debatidos nos Parlamentos nacionais e pela opinião pública, nos diferentes Estados membros.

Victor Ângelo
João Melo

Tik-Tok, Tik-Tok, chegou a nova guerra fria

O presidente Donald Trump quer banir a grande rede social chinesa TikTok do território americano (e do resto do mundo?), com receio de que ela esteja a espiar os dados pessoais dos seus utilizadores. Essa decisão junta-se à guerra comercial desencadeada por Washington contra Pequim mal o atual presidente chegou à Casa Branca, bem como aos esforços da atual administração norte-americana para banir a Huawei da telefonia móvel G-5. Não nos esqueçamos, também, da insistência de Trump em responsabilizar a China pela pandemia da covid-19.

João Melo
Rogério Casanova

Pânico, pandemia, blá-blá-blá

PremiumTal como o veado de Père David ou o mutum-do-nordeste, o intelectual público costuma ser tratado como uma espécie extinta no seu habitat natural, e que apenas é possível observar em cativeiro: nas listas anuais de "pensadores mais influentes", ou na subcategoria de artigo jornalístico que questiona se "esta-coisa-que-sempre-foi-assim-estará-a-deixar-de-ser-assim?". "O que aconteceu ao intelectual público?" ou "O fim dos intelectuais?", perguntam esses artigos, em média uma vez por ano. Vários depoimentos são recolhidos, de figuras apresentadas como "intelectuais", mas que recusam, com maior ou menor confiança, a designação. Os tempos estão a mudar, explica um. As coisas não são assim tão simples, explica outro. Uma coisa é certa: talvez - conclui o artigo. Entretanto, a ocasião passa e o intelectual público regressa à sua reserva natural e ao cargo que lhe foi atribuído por inerência: um cargo que, no caso português, implica ficar perto de um telefone, a aguardar tranquilamente um convite da Gulbenkian ou de Fátima Campos Ferreira para "pensar Portugal", ou um telefonema de um jornalista a perguntar "o que aconteceu à ideia de Europa?" ou se "a internet é boa ou má?".

Rogério Casanova