Opinião

Viriato Soromenho-Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

PremiumO que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Viriato Soromenho-Marques
Maria do Rosário Pedreira

Agendas

PremiumDisse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Maria do Rosário Pedreira
Adolfo Mesquita Nunes

Adelino Amaro da Costa e a moderação

Nunca me vi como especial cultor da moderação em política, talvez porque tivesse crescido para ela em tempos de moderação, uma espécie de dado adquirido que não distingue ninguém. Cheguei mesmo a ser acusado do contrário, pela forma enfática como fui dando conta das minhas ideias, tantas vezes mais liberais do que a norma, ou ainda pelo meu especial gosto em contextualizar a minha ação política e governativa numa luta pela liberdade.

Adolfo Mesquita Nunes
Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

PremiumGreta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Maria Antónia de Almeida Santos
Rogério Casanova

Cabeças voadoras

PremiumJá que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.

Rogério Casanova
João Taborda da Gama

Aceleras

Uma mudança de casa para uma zona rodeada de radares fez que as multas por excesso de velocidade se fossem acumulando, umas atrás das outras, umas em cima das outras; o carro sempre o mesmo, o condutor, presumivelmente eu, dado à morte das sanções estradais. Diz o código, algures, fiquei a saber, que se pode escolher a carta ou o curso. Ou se entrega a carta, quarenta e cinco dias no meu caso, ou se faz um curso sobre velocidade, dois sábados, das nove às cinco, na Prevenção Rodoviária Portuguesa.

João Taborda da Gama
Catarina Carvalho

Querem saber como apoiar os media? Perguntem aos leitores

PremiumNão há nenhum negócio que possa funcionar sem que quem o consome lhe dê algum valor. Carros que não andam não são vendidos. Sapatos que deixam entrar água podem enganar os primeiros que os compram mas não terão futuro. Então, o que há de diferente com o jornalismo? Vale a pena perguntar, depois de uma semana em que, em Portugal, o Sindicato dos Jornalistas debateu o financiamento dos media, e, em Espanha, a Associação Internacional dos Editores (Wan-Ifra) debateu o negócio das subscrições eletrónicas.

Catarina Carvalho
Victor Ângelo

Uma estranha festa de aniversário

A doutrina militar moderna aprendeu muito com as operações no Afeganistão, no Iraque e mesmo, há vinte anos atrás, nos Balcãs. Uma das novas exigências tem que ver com o impacto estratégico de cada uma das acções tácticas levadas a cabo no terreno. Passou a ser conhecida como a teoria do "Primeiro-Cabo Estratégico". O nosso Cabo, que comanda quatro ou cinco soldados apenas, tem que manter um olho no inimigo e outro nas consequências mais gerais que cada tiro possa acarretar. Tem que prestar atenção, em simultâneo, ao pormenor e ao contexto.

Victor Ângelo
Anselmo Crespo

Quem nos salva de nós próprios?

O debate dos últimos dias sobre o futuro dos órgãos de comunicação social tem um pecado original: nunca, em momento algum, se fez uma verdadeira introspeção sobre as responsabilidades que jornalistas, direções, administradores e acionistas têm no estado a que chegou este setor. Pede-se ao Governo medidas de apoio, à União Europeia que imponha regras, aos anunciantes que invistam mais. Definem-se inimigos como o Google, o Facebook ou as empresas de clipping, mendiga-se aos leitores, ouvintes e telespectadores que valorizem o produto jornalístico e que o paguem, mas nunca se olha para dentro do setor. Nunca se identificam os erros que nós próprios cometemos e que só nós, como um todo, podemos corrigir.

Anselmo Crespo
Rosália Amorim

Incertezas e contorcionismo

A nota de conjuntura do Fórum para a Competitividade relativa ao terceiro trimestre inquietou vários economistas ontem, ao ser divulgada. A economia portuguesa manteve um crescimento homólogo de 1,9%, mas com uma desaceleração trimestral de 0,6% para 0,3%. Mais, a qualidade do perfil de crescimento mostra deterioração, no mesmo período, com a aceleração do consumo privado, de 2% para 2,3%, e desaceleração do investimento de 10,5% para 8,8%. São demasiadas desacelerações juntas.

Rosália Amorim
Ricardo Paes Mamede

A solução é regionalizar. Mas qual é o problema?

Mais de duas décadas após ter sido recusada em referendo, a regionalização é outra vez tema de debate. Grande parte dos actores políticos mostra-se favorável à criação de regiões administrativas. Não faltam argumentos para defender a concretização de um objectivo que, para além do mais, está inscrito na Constituição. É menos fácil perceber os propósitos e os cuidados que deveriam guiar esta mudança na forma de governar o país.

Ricardo Paes Mamede
Adriano Moreira

Contra o desastre

A ordem mundial no modelo da utopia da ONU continua, pela gravidade de ruturas se multiplicarem, tendo frequentemente como dinamização a revolta que o programa da descolonização não evitou do chamado terceiro mundo contra a pluralidade de soberanias que vieram a convergir na tarefa de ocidentalizar o mundo. A gravidade dessas fraturas faz sempre lembrar as palavras de Anatole France quando, pelos indícios do seu tempo, advertiu no seu Sur la Pierre Blanche contra o que chamou "La folie colonial".

Adriano Moreira
Anselmo Borges

Francisco na Tailândia: o diálogo inter-religioso

Era um sonho desde os tempos da juventude: ser missionário no Japão. A vida não o permitiu, mas Francisco acabou por realizar em parte, na semana passada, esse sonho, ao visitar durante sete dias (19 a 26 de Novembro) a Tailândia e o Japão. A partir da Ásia, Francisco deixou mensagens decisivas para o mundo, acentuando, na Tailândia, a importância fundamental do diálogo inter-religioso, e, no Japão, condenando como crime imoral não só a guerra nuclear mas também a simples posse de armamento atómico.

Anselmo Borges
Margarida Balseiro Lopes

Caos na saúde

Nesta semana tornou mais uma vez evidente que o setor onde a degradação da qualidade dos serviços públicos mais se tem sentido é o da saúde. Um relatório da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) apontou deficiências graves na prestação de cuidados de saúde de qualidade e em tempo adequado a doentes em várias unidades de saúde. Em dois casos, os doentes faleceram devido a falhas no tratamento. Seja por falta de acompanhamento dos doentes, seja por falta de exames ou tratamentos em tempo útil, o custo da degradação do Serviço Nacional de Saúde está à vista e é reconhecido pela própria ERS. Também por estes dias foi público que a falta de enfermeiros num dos hospitais de referência da região de Lisboa levou a que numa unidade de cuidados intensivos pediátricos, a maior do país, com oito vagas, não esteja a funcionar em pleno desde 2018. Estas debilidades foram também denunciadas por Ana Rita Cavaco, bastonária dos Enfermeiros, que alertou para o encerramento de camas perante a insuficiência das equipas, o que tem vindo a ser recomendado pela ordem e se tem repetido em diferentes serviços. Denunciou ainda que há hospitais onde mesmo sem enfermeiros se mantêm as valências abertas, com risco para os doentes e profissionais. Todos estes casos que têm sido conhecidos revelam problemas estruturais do setor que não começaram em 2015. Mas será inegável afirmar que nos últimos quatro anos a situação se agravou e degradou brutalmente. O desinvestimento e as cativações ajudam a explicar esta realidade. Ainda nesta semana a Unidade Técnica do Parlamento (UTAO) referiu que os pequenos reforços de capital não resolvem a situação e apenas servem para minorar o descontentamento de fornecedores, gestores, trabalhadores e utentes. Esta é uma dura crítica à forma como tem sido gerido o Serviço Nacional de Saúde ao longo dos últimos anos. No relatório da evolução orçamental de janeiro a setembro divulgado recentemente, a UTAO faz, pela primeira vez, uma análise do SNS e volta a sublinhar a suborçamentação sistemática do Serviço Nacional de Saúde, que tem resultado em sucessivas injeções de capital. No período de 2014 a 2018, o Serviço Nacional de Saúde registou prejuízos acumulados de 2260 milhões de euros, sendo, neste hiato temporal, o resultado líquido do exercício negativo todos os anos, com particular destaque para o ano passado (848,2 milhões de euros), um agravamento 2,5 vezes superior ao verificado no ano anterior, quando foi apurado um prejuízo de 345,8 milhões de euros. Este é mais um exemplo da forma como o governo tem gerido os destinos do país. Sem acautelar a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e contribuindo para que quem mais precisa fique em situação de maior vulnerabilidade no acesso aos cuidados de saúde.Presidente da JSD

Margarida Balseiro Lopes
Maria do Rosário Pedreira

Vergonha

Conta-se a história - provavelmente é apenas uma lenda, mas pouco importa - de um rapazinho que, estando a brincar no lugar onde o grande Miguel Ângelo tinha o seu estúdio, se deixou maravilhar pela visão de um enorme bloco de mármore a ser transportado por uma dezena de homens até aos domínios do artista; e que, vendo esses homens à beira de soçobrar, desafiou os amigos - todos jovens como ele - a irem ajudá-los, sabendo embora que a sua força era quase nenhuma. Contudo, tal foi a insistência que os companheiros concordaram em participar daquele empurrão colectivo, e a pedra pareceu então rolar sobre rodas até ao ateliê do mestre que, assistindo ao milagre, levou os garotos a conhecer as esculturas em que então trabalhava para decorar uma praça de Roma. Conta-se também que, passando por ali de novo umas quantas luas mais tarde, o mesmo rapaz terá decidido visitar o escultor, sendo surpreendido logo à entrada do estúdio por um magnífico cavalo branco escapando-se do bloco de mármore, de crina ao vento e patas da frente empinadas no ar. E, espantadíssimo, chamou por Miguel Ângelo para que ele lhe respondesse a uma pergunta admirável: "Ó mestre, mas como é que tu sabias que havia um cavalo dentro dessa pedra?"

Maria do Rosário Pedreira
Marisa Matias

Emergências

Há dez anos participei, em Copenhaga, na conferência anual das Nações Unidas para o combate às alterações climáticas, a COP15. Na altura, chegava ao fim o Protocolo de Quioto e o desfecho foi uma gigantesca desilusão. Nenhuma alternativa foi criada, nenhuma medida concreta foi avançada e dez anos volvidos aqui seguimos, retidos entre as promessas e o pouco feito. Na semana que antecede mais uma COP, desta feita em Madrid, voltamos às discussões sobre o que está em cima da mesa. Não houve muito caminho feito, mas há hoje a perceção de que vivemos tempos de emergência.

Marisa Matias