Opinião

Filipe Gil

Corridas de cowboys

Desde 1955 que a corrida anual de 100 milhas, cerca de 160 quilómetros, é um momento atual da região da Sierra Nevada, na Califórnia, nos Estados Unidos. A prova, conhecida como Tevis Cup Challenge é feita a cavalo e considerada uma das mais duras do mundo. Cavalo e cavaleiros têm 24 horas para percorrer a distância, caso contrário são desclassificados. Um dos fãs da prova e natural da zona, Gordy Ainsleigh, participou na edição de 1971 e 72, 73. No ano seguinte, e sem perceber que estava a inventar um novo desporto, Ainsleigh foi convidado a participar, mas, como na [...]

Filipe Gil
Henrique Burnay

A partidarização europeia

Sylvie Goulard, a candidata francesa a comissária europeia, foi chumbada pelo Parlamento europeu porque tinha problemas éticos, porque Macron tem vários anticorpos em Bruxelas e porque Ursula von der Leyen, a candidata a presidente da Comissão, não quis defendê-la mais do que o necessário. Essa é parte da explicação. A restante é que esta foi uma decisão dos parlamentares populares e socialistas, apesar ou mesmo ao arrepio das lideranças nacionais. É uma transformação da política europeia em curso.

Henrique Burnay
Bernardo Ivo Cruz

Poderá Boris ter sucesso onde outros falharam?

Sábado, pela quinta vez seguida, um acordo assinado pelo Governo Britânico e pela União Europeia não obteve a maioria necessária do lado de lá do Canal da Mancha. Desde as propostas desenhadas com David Cameron ainda antes do Referendo de 2016, passando pelas 3 derrotas sofridas por Theresa May às mãos do Parlamento de Westminster e até ao adiamento da votação prevista para a primeira reunião da Câmara dos Comuns a um sábado desde a Guerra das Falkland (ou das Malvinas) há mais de 30 anos, nada que diga respeito ao futuro das relações entre Londres e Bruxelas tem merecido o apoio maioritário da Câmara dos Comuns.

Bernardo Ivo Cruz
Adriano Moreira

As fraturas do mundo único

A utopia da ONU, no sentido mais animador da expressão, que admite referir uma ordem possível na Terra, e não apenas um sonho para um lugar inexistente, defronta-se com fraturas inquietantes que ameaçam o sonho do "mundo único" dos fundadores. O mais recente alarme é o que diz respeito ao próprio orçamento da instituição, que pode afetar não apenas a sustentabilidade das ações em curso ou projetadas, mas, e isso mais gravemente, o espírito com fé nos projetos e esperança nos resultados, que animam historicamente os servidores.

Adriano Moreira
Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

PremiumJá era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Maria Antónia de Almeida Santos
Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

PremiumHá uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.

Marisa Matias
João Taborda da Gama

Coisas para nós

PremiumO pior que há é termos a oportunidade de dizer uma coisa, querermos dizê-la, e de nos esquecermos de a dizer. E eu ia dizer aquilo dos carros naquela coisa da Deco. Pior quando são duas as coisas que nos esquecemos de dizer. Aquela coisa da Deco foi uma simpática conferência para onde simpaticamente me convidaram como ser orante, painelista. O nome do painel, Transportes para que Públicos, e os temas eram estes: "A centralidade do cidadão nas decisões estratégicas. Necessidades e propostas. Áreas de melhoria e orçamentos disponíveis. Dificultar a vida aos cidadãos sem alternativas claras. Capacidade financeira das famílias e mobilidade. Novos valores do passe social, reflexo no tráfego rodoviário. O que vai ser o transporte público no futuro".

João Taborda da Gama
Viriato Soromenho-Marques

Os industriais do otimismo

Na sua autobiografia literária, Ecce Homo (1888), Nietzsche defendeu que a verdade não dependeria tanto da questão gnosiológica da adequação entre a nossa representação e a realidade objetiva, mas antes da coragem moral para ousar suportar o seu peso tantas vezes amargo. O erro não seria, desse modo, um problema de cegueira ou falta de rigor, mas teria origem no mal moral da "cobardia" (feigheit), na recusa em olhar a verdade de frente, delineando a partir dessa contemplação todas as consequências práticas e existenciais necessárias.

Viriato Soromenho-Marques
Maria do Rosário Pedreira

Os sapatos de Deus

Regra geral, ouço o noticiário da rádio porque me cansei de telejornais demasiado longos e cheios de falsas notícias, bem como dos erros de ortografia nos rodapés. Em minha casa, o televisor não tem, aliás, grande serventia, pois liga-se quase só para o futebol - e não é que eu aprecie muito, mas pelo menos o ruído de fundo não me incomoda enquanto leio. Além disso, quando vivemos com alguém, se não queremos que a relação estiole, temos de ceder em alguma coisa - e esta, confesso, é uma cedência que não me custa nada fazer ao Manel que, enquanto dura o desafio, dá pontapés no ar cheio de nervoso miudinho e enche o cinzeiro de beatas.

Maria do Rosário Pedreira
Leonídio Paulo Ferreira

Cuidado com a máquina multiplicadora de países

Não vale a pena procurar a Finlândia, a Polónia, a Albânia, a Eslovénia, nem sequer a Noruega ou a Irlanda com cores próprias. Quem olhar para um mapa da Europa datado de 1900 vai ter dificuldade em contar 20 países independentes, e de certeza não encontrará 24, que será o número daqueles que participarão no próximo ano na fase final no Europeu de Futebol. Hoje o continente conta com mais de meia centena de países, com a última vaga de novidades a ter surgido na década de 1990, quando três federações comunistas implodiram, uma delas, a Jugoslávia, de forma violenta, outra, a Checoslováquia, por via pacífica, e a terceira, a gigantesca União Soviética, de forma híbrida, com conflitos nacionalistas mais ou menos localizados, alguns a perdurar até hoje. Sim, houve a reunificação alemã, uma exceção.

Leonídio Paulo Ferreira
Paulo Pedroso

Na Catalunha joga-se Espanha

Aparentemente nada liga a exumação de Franco do Vale dos Caídos e as pesadas penas determinadas pelos tribunais espanhóis contra um grupo de independentistas catalães. Mas os dois acontecimentos estão umbilicalmente ligados ao modo como Espanha fez a sua transição para a democracia, por uma evolução outorgada pelo caudillo e conduzida nos seus primeiros passos em total respeito pelas suas determinações e por homens que foram da sua confiança e escolha. Esses homens co-criaram com todas as forças da oposição, legal e ilegal e com os regressados do exílio, um sistema constitucional e um Estado social e democrático de direito, que levou Espanha à rota do sucesso económico, à modernização social e à União Europeia. Uma história de sucesso, portanto. Mas um sucesso que se fez da manutenção de muitos tabus que uma revolução teria derrubado e produziu soluções sub-ótimas para questões essenciais.

Paulo Pedroso
Maria João Caetano

Governantas

"Um homem não se consegue governar sozinho", resignava-se a minha avó, que passou grande parte da vida a cozinhar, a limpar e a arrumar. Dizia governar-se como quem queria dizer arranjar-se ou orientar-se. E dizia-o com uma certa condescendência. Coitados dos homens, como haveriam eles de se governar sem uma mulher em casa a passar-lhes as camisas a ferro e a fazer-lhes o almoço? Um homem tinha de pensar em assuntos importantes, tinha de trabalhar e ganhar dinheiro, tinha lá "as coisas dele" para fazer, precisava de alguém que lhe cuidasse das minudências. Alguém que tratasse do "governo da casa", essa arte cultivada pelas mulheres que (ainda há pouco tempo) liam os livros da Laura Santos, com títulos como Noiva, Esposa, Mãe ou A Mulher na Sala e na Cozinha, livros com capas duras e imagens de mulheres perfeitas, que ensinavam a tratar de bebés e a limpar os estanhos.

Maria João Caetano
João Céu e Silva

"Não estou a fazer nada"

As oito letras da palavra "governar" correspondem, segundo o dicionário, a "exercer o governo de, administrar, gerir, dominar ou imperar", entre outras possibilidades. É verdade que estes significados não são desconhecidos da maioria dos portugueses, no entanto, as recentes eleições explicaram melhor que, ao verem surgir os resultados eleitorais, "exercer o governo" não era a primeira preocupação dos eleitores (e comentadores), preferindo antes conjugar os dois últimos significados: dominar ou imperar. Era só disso que se falava face aos números que o governo precisava para ser o dono do país durante quatro anos enquanto se faziam apostas sobre os partidos que teriam de se deixar "dominar" para que houvesse um futuro a quatro anos.

João Céu e Silva