Opinião

Victor Ângelo

O presidente Trump e as Nações Unidas

O nome do laureado com o Prémio Nobel da Paz deste ano será anunciado a 9 de outubro. A lista de candidatos conta com 318 nomes, um número impressionante. Ao que parece, o nome de Donald Trump estaria incluído no rol dos nomeados, o que não é impossível, pois um membro do seu governo, do Congresso ou qualquer outra personalidade, têm a faculdade de nomear. O facto é que o presidente veria com muito agrado a atribuição do Nobel. Calhava que nem ginjas, menos de um mês antes da eleição presidencial.

Victor Ângelo
Adriano Moreira

Os norte-americanos negros

Entre os numerosos problemas ameaçadores da vida habitual dos brancos que anunciaram a ocidentalização do globo, são frequentes as questões suscitadas pela assumida visão da história, que agora parece orientar intervenções de destruição de monumentos, talvez tendo como referência significativa atirar com a estátua de Colombo ao mar. Não é apenas naquela região que estão a verificar-se ações que parecem inspiradas pelo que se vai chamando populismo, uma expressão que deve investigações valiosas ao professor José Pinto, mas que não consegue abranger toda a ação do atual Governo dos EUA. O ganho da presidência de Trump, que nunca executara funções políticas, foi uma ação, facilmente considerada populista, mas, assumindo o poder, aquilo que aconteceu foi confirmar o dito de Canovan, que considerou o populismo uma sombra da democracia que pretende dominar. Neste período mais dominado pela destruidora covid-19, acontece que todo o processo parece mais utilizador do Estado espetáculo de Schwartzenberg. Uma das primeiras demonstrações está na questão do muro impeditivo das migrações, de custo financeiro transferido para sul.

Adriano Moreira
João Melo

Entre o silêncio e o gueto

PremiumEm texto anterior, lembrei que a presença africana em Portugal, incluindo quer os berberes e os árabes do norte de África quer os indivíduos originários da região subsariana do referido continente, remonta ao século VII. Talvez devido ao atual aspeto cromático dos árabes e berberes do norte, em particular as suas elites, que passaram por um processo de embranquecimento histórico, a sua condição de indivíduos africanos tende a ser omitida, o que serve ao mesmo tempo para silenciar a contribuição africana em geral para a formação portuguesa e para alimentar o preconceito racial contra os africanos negros, na sua maioria oriundos do sul do Sara.

João Melo
Rogério Casanova

O algoritmo mau e os capuchinhos vermelhos

PremiumAntes de começarem a ser filmadas e transmitidas, as advertências alarmistas e simplistas declamadas com sentido de dever cívico não se costumavam chamar "documentários". Mesmo depois de começarem a apontar-lhes câmaras, muitas tiveram o cuidado de escolher designações mais modestas e realistas, como "anúncios", ou "direitos de antena". Um dos mais populares, sobre os perigos da droga, passou nas televisões americanas nos anos de 1980 e foi depois imortalizado em inúmeras paródias e recriações; mostrava um ovo a ser despejado numa frigideira quente: "This is your brain on drugs", informava uma voz solene.

Rogério Casanova
Viriato Soromenho-Marques

Duas lições de Vénus

Causou sensação mediática a revelação da descoberta da molécula fosfina na atmosfera de Vénus, por parte de uma equipa multidisciplinar de cientistas. Contudo, mais do que uma descoberta, trata-se da identificação de uma hipótese: a fosfina poderia (falta prová-lo) ser um indicador da existência em Vénus de micro-organismos elementares, capazes de sobreviver sem oxigénio. Sem retirar valor à nova hipótese, julgo que ela vale, sobretudo, por duas outras razões que ficaram ausentes das notícias: a constatação da imensa solidão humana no universo e o que Vénus já nos ensinou sobre o futuro da Terra.

Viriato Soromenho-Marques
Daniel Deusdado

Como é possível testar-se toda a gente menos os médicos e enfermeiros?

A comissária europeia da Saúde, Stella Kiryakides, disse ontem com total clareza que estamos a viver os dias decisivos para conseguir aguentar a pandemia dentro de controlo na Europa. Porque, tudo indica, a situação de contágio é de tal forma grave (sobretudo por via dos assintomáticos) que ninguém sabe ao certo o que pode acontecer nos hospitais. França bateu ontem o recorde, com mil pessoas internadas nas unidades de cuidados intensivos (UCI), e o Reino Unido está no mesmo caminho. Madrid está já no limite da capacidade de resposta nas UCI. A curva de internamentos na Europa não para de crescer. A espiral é fortíssima, quase exponencial. Ninguém consegue avançar um antídoto, até porque o confinamento também mata.

Daniel Deusdado
Raúl M. Braga Pires

KNESSET: Um bom exemplo vindo de Israel

Em rigor este bom exemplo não vem apenas do Knesset, o Parlamento de Israel, mas também do Executivo, já que ministros e deputados decidiram cortar 10% nos seus próprios salários, em prol e em sintonia com os seus compatriotas, que mais foram afectados do ponto de vista económico pela pandemia. Há também 4 ministros que pressionam agora para que os magistrados sigam o mesmo exemplo. Não deverá ser difícil atingir este conseguimento, já que país que mantém o Serviço Militar Obrigatório faz Escola junto das fileiras sobre o Espírito de Corpo e seu imperativo na construção de um sentimento de Comunidade que, quando bem alicerçado a torna mais solidária e justa.

Raúl M. Braga Pires
Paulo Pedroso

Ana Gomes e o civismo democrático

Defendi aqui no DN a 14 de fevereiro que faltava um candidato no quadro que se apresentava. Questionado nessa altura pelo Público sobre se Ana Gomes preenchia os critérios que propunha então, respondi inequivocamente que sim. Entretanto os meses passaram, são conhecidas as condicionantes da sua vida pessoal que não lhe permitiram tomar uma decisão de imediato e apresentou aos cidadãos há alguns dias a sua intenção de ser candidata. Convidou-me para colaborar na estrutura de coordenação da sua campanha, o que aceitei com gosto. Tudo o que escreva sobre Presidenciais, daqui para a frente, é informado por esta perspetiva, pelo que importa deixar expresso este registo de interesses antes de ir ao tema de hoje.

Paulo Pedroso
Rute Agulhas

O meu filho tem pesadelos

As crianças referem muitas vezes que têm «sonhos maus», associados a angústia, medo e ansiedade. Falamos dos pesadelos, que deixam memórias no dia seguinte e que são frequentes em crianças mais novas. Podem relacionar-se com mudanças que a criança esteja a vivenciar, novos desafios ou experiências de vida mais adversas. Como devem os pais reagir? O que fazer? E o que não fazer? Antes de mais, sabemos que os pesadelos estão frequentemente associados a mudanças de escola, ao nascimento de um irmão, à separação dos pais, à morte de alguém próximo ou a conflitos com os colegas e amigos. Podem ainda surgir associados à vivência de experiências mais traumáticas, como o bullying ou outro tipo de violência. Muitas crianças têm pesadelos relacionados com conteúdos que veem na televisão ou na internet, como monstros, lendas ou seres imaginários. Por outro lado, a situação pandémica que ainda vivemos e a incerteza relativamente ao dia de amanhã pode potenciar estados ansiosos que, por sua vez, podem aumentar a probabilidade de ocorrência de pesadelos. Os pais devem encarar os pesadelos recorrentes da criança como um sinal de alerta de que algo a preocupa. Em primeiro lugar, devem reflectir sobre eventuais circunstâncias indutoras de stress na vida da criança. Está a atravessar mudanças significativas? Está exposta a alguma situação que possa gerar ansiedade? Manifesta algum tipo de medo ou dificuldade? A que vídeos e jogos tem acesso? Intervir no sentido de minimizar as potenciais situações indutoras de stress na vida da criança será sempre o primeiro passo. Incentive a criança a falar sobre o seu pesadelo. Dizer «esquece, não penses mais nisso» não costuma ser eficaz, podendo inclusive ter o efeito contrário. Ao falar sobre o seu conteúdo, o pesadelo pode até parecer menos grave e assustador, na medida em que a criança se vai dessensibilizando gradualmente face ao mesmo. Ao deitar, os pais devem conversar com a criança, validando eventuais emoções mais desagradáveis que possa estar a sentir e incentivando-a a falar sobre elas. Ao verbalizar o que pensa e sente, é natural que a criança se sinta mais relaxada e confiante. A meio da noite, se a criança chorar e chamar por si ou aparecer no seu quarto, tranquilize-a, mantendo sempre um tom de voz baixo e pausado. Não é hora de lhe pedir para relatar o pesadelo, mas sim de a acalmar, ajudando-a a perceber que o pesadelo não corresponde à realidade. Se for necessário, fique ao seu lado algum tempo até que volte a adormecer.

Rute Agulhas
Jaime-Axel Ruiz Baudrihaye

A visão pessimista de Unamuno sobre Portugal

Miguel de Unamuno foi provavelmente o escritor espanhol que mais amou Portugal. Mas pode tê-lo amado sem o entender, como nem sempre compreendeu bem os problemas espanhóis. Grande escritor e para mim grande poeta, teve, para além disso, o mérito de olhar Portugal, de ter amigos portugueses, de conhecer profundamente a Literatura e a História portuguesas. Fizeram-no pouquíssimos espanhóis, que sempre preferiram olhar para Norte e raramente para Ocidente. Por isso me parece pouco representativo que nas livrarias portuguesas se destaque o pequeno panfleto de Unamuno, Portugal, povo de suicidas. Na realidade, trata-se do artigo "Um povo suicida", escrito em Lisboa em 1908 e incluído no livro Por terras de Portugal e Espanha. Além do mais, o título sensacionalista não reflete bem o conteúdo do artigo porque o autor não pensa que todo Portugal é suicida. É um título chamativo. O facto de alguns portugueses, amigos ou conhecidos seus, se suicidassem (Laranjeira, Antero, Espanca, Sá Carneiro) não lhe permite a extrapolação a todo um povo. Porque não olhou para todos os franceses, alemães, escandinavos, ou a espanhóis, como Ganivet, entre outros que se suicidaram nesses tempos, com esse mal de "fin de siècle" que tantos partilharam, essa espécie de "lacrime di intellettuale" que denunciaria Pasolini? Esse artigo dá uma imagem bastante incorrecta de Unamuno pensador, ainda que contribua para essa espécie de autoflagelação tão própria dos portugueses a quem parece que agrada, como a nós espanhóis, "seus irmãos", recrear-se com o desastre, acreditar que somos piores que os europeus do norte, que somos incultos, pouco sérios, pouco de fiar. No fundo, flagelamo-nos, como se quiséssemos dar razão aos holandeses, a personagens como Hoekstra e Rutte. Don Miguel de Unamuno não era um pensador otimista. Pertenceu à chamada Geração de 98. Com o seu grande conhecimento dos clássicos e contemporâneos, com uma grande carga ética, inquietava-o o problema de Espanha, que foi praticamente a sua principal preocupação. Pensava que éramos todos decadentes. O tema dos suicidas serve a Unamuno para justificar a sua visão melancólica de Portugal que ele amplifica, considerando que muitos portugueses se comprazem quase de maneira masoquista ("em Portugal amam as lágrimas", diz). O saudosismo fascina Unamuno, porque ele próprio é um homem de saudades, saudades do cristianismo, saudades de Castela, saudades da sua Bilbau.. Como mostra no seu belo mas fúnebre soneto "Portugal": "O atlântico mar na praia areosa uma matrona descalça e desgrenhada senta-se ao pé de uma serra coroada por triste pinheiral. (...) enquanto ela, seus pés nessas espumas banhando, sonha no fatal império que se sumiu nos tenebrosos mares, e olha como entre agoureiras brumas se ergue D. Sebastião, rei do mistério." É a visão de um país que ele considera pobre e decadente (desgrenhada e descalça) que contempla o pôr-de-sol, o ocaso. Isto resume a sua ideia sobre o país e converteu-se quase num estereótipo. Mas não se alarmem os leitores portugueses, Dom Miguel tem também muitos poemas tristes, quase desesperados, sobre Espanha. Era o seu caráter, daí que forme parte dessa "literatura do desastre", como lhe chamou Manuel Azaña. E, para além disso, Unamuno podia dizer uma coisa e o seu contrário. Assim, podia ser iberista (quase partidário da unificação da Península) e ao mesmo tempo reivindicar a independência de Portugal frente à "velha e apodrecida Espanha oficial, ainda não refeita das suas seculares manias ... que ainda não reconhecia sincera y lealmente a independência portuguesa" (Portugal independente, 1917). Seria bom que, à margem do impacto mediático que produz um panfleto sobre essa suposta mania suicida, se editassem em português mais obras de Unamuno, tanto as que se referem a Portugal (que a Fundação Gulbenkian publicou em 1985) como muitas outras. Ler Unamuno é um convite à reflexão fora dos caminhos mais percorridos. Miguel de Unamuno dizia o que pensava em voz alta e isso valeu-lhe que Primo de Rivera o desterrasse, que a Segunda República o expulsasse da cátedra e enfrentasse no final dos seus dias o general insurrecto, ao lado dos nacionalistas, Millán-Astray. Unamuno foi o exemplo do intelectual comprometido com o seu tempo, algo que agora em Espanha -e mais ainda na Catalunha - parece brilhar pela escassez.

Jaime-Axel Ruiz Baudrihaye
Ana Paula Laborinho

"Vacina para Todos": uma luta pelo futuro

Um dos filmes que mais me impressionou do nosso centenário realizador Manoel de Oliveira (1908-2015) foi O Meu Caso, que se estreou em 1986. Na altura, não entendi o filme e saí da sala irritada por aquela montagem em palco de uma peça que parecia estar sempre a voltar atrás e não saía da repetição obsessiva "o meu caso" por personagens que queriam demonstrar que o seu caso era mais importante do que o do outro. Só depois fui ler a peça de José Régio com o mesmo título, que serve de guião desconstruído ao filme. José Régio (1901-1969) é mais um dos escritores que fomos deixando de ler e, no entanto, nada mais atual nestes tempos que vivemos. O Meu Caso (1957) é uma peça cómica que se vai adensando em reflexão sobre a condição humana, o que também acontece no filme de Oliveira, com citações ao Livro de Job que servem para traçar um quadro crepuscular da civilização moderna. Termina com a recriação de Piero della Francesca, o pintor do quattrocento italiano, que para mim significa essa transição eufórica do final da Idade Média para uma Idade Moderna humanista, atenta ao homem e à natureza. Neste tempo de pandemia, é a nossa condição humana que vai sendo posta à prova, entre a tendência para cada um se fechar no "seu caso" e a imensa solidariedade a que temos assistido. A pandemia põe à prova, de uma forma global, o nosso modo de vida, antes de mais a liberdade de circulação e de reunião, a proximidade humana, criando uma desconfiança que tentamos civilizadamente disfarçar, reprimir ou ignorar, mas sempre surge nem que seja através das recomendações necessárias para mantermos uma vida comum.

Ana Paula Laborinho
Mirko Stefanovic

Equilíbrio no Médio Oriente

Tudo o que é virado de pernas para o ar, dificilmente se manterá de pé. Pelo menos, a longo prazo. Esse o aspecto que o Médio Oriente hoje apresenta , tentando ajustar-se ao novo equilíbrio, criado pela administração norte-americana. Durante algum tempo o cenário pode parecer prometedor, porque qualquer tipo de cooperação entre Israel e os Estados árabes tem aspectos positivos importantes. Mas se tentarmos qualquer análise mais profunda, muitas perguntas ficarão sem resposta.

Mirko Stefanovic
Pedro Marques Lopes

A vergonha de António Costa

Há poucas coisas mais excitantes para os vendedores do "anda tudo a roubar" e do "vivemos na promiscuidade" do que um acontecimento que envolva políticos e futebol. Portugal é um país que tem problemas evidentes de corrupção e de promiscuidade entre os vários poderes, como qualquer democracia. A minha memória não é das melhores, mas eu vivi neste país toda a minha vida e só alguém que aqui não esteve ou é muito esquecida pode negar os significativos avanços na luta contra estes cancros, que tem de ser constante e sem descanso.

Pedro Marques Lopes
Paulo Baldaia

Enxotado como cão com pulgas

O episódio do apoio do primeiro-ministro a um candidato à presidência do Benfica mostrou, uma vez mais, que os interesses dos homens do futebol prevalecem sobre o interesse geral. O mais importante acabou por ser a defesa de Luís Filipe Vieira. Já António Costa podia ser tratado como acabou por ser, enxotado como cão com pulgas. Não é de excluir (é até muito provável) que a expulsão dos políticos da comissão de honra tenha sido concertada, mas imaginar que o primeiro-ministro se deixou subalternizar deve deixar-nos ainda mais perplexos. Política e futebol são como água e azeite, não se misturam. Como a água, a política é mais densa e sempre que alguém insiste em misturá-los acontece que o futebol, como o azeite, fica por cima. A perversidade destas relações revela-se nisso mesmo, na pouca importância dos representantes do povo quando aceitam fazer parte do séquito.

Paulo Baldaia