Opinião

Rosália Amorim

O caldeirão de Marcelo e quem será o Ideiafix de Costa e de Rio?

A campanha eleitoral está a chegar ao fim. Em plena nova vaga de pandemia, com cada vez mais portugueses a testar positivo à covid-19, a fase final das legislativas de 2022 ficou marcada por episódios invulgares como o protagonismo dos animais de estimação dos líderes dos principais partidos, em vez de séria reflexão sobre o conteúdos dos programas, diálogo construtivo sobre propostas para os problemas dos cidadãos (além de impostos e SNS) e da partilha de quem será a equipa que PS e PSD pensam apresentar para governar o país até 2026.

Rosália Amorim
Jorge Moreira da Silva

O único voto que é verdadeiramente "inútil"

Acredito que, ao contrário do que sucedeu em 2015, manteremos a boa prática democrática de permitir que governe (mesmo em minoria) o partido que vencer as eleições e que a estabilidade do governo seja alcançada pela capacidade de diálogo do governo minoritário. Logo, no essencial importa saber qual dos partidos ficará à frente - PS ou PSD - e não tanto se existirá uma maioria de partidos de direita ou de esquerda que possa sustentar ou derrubar o governo saído das urnas. Por essa razão, a discussão sobre o voto útil voltou a ganhar a relevância que era tradicional até 2015 (quando a geringonça, com dissimulação e sem pré-aviso, derrubou, no parlamento, a coligação que saíra vitoriosa das urnas). Mas é um erro simplificar a discussão sobre o voto útil (como se constatou a partir da fraca reação obtida - de acordo com os estudos de opinião - pela dramatização do PS em torno de uma inverosímil maioria absoluta). Considero que a proliferação de partidos, desde que fundados no escrupuloso respeito pelos direitos fundamentais e por uma visão aberta da sociedade, qualifica a democracia e combate a abstenção. Pelo que, na minha opinião, qualquer tentativa de dramatização ou condicionamento dos eleitores, por parte dos dois grandes partidos, procurando restringir as suas opções, além de errado, é eleitoralmente ineficiente.

Jorge Moreira da Silva
Marcio Pitliuk

Dia Mundial em Memória das Vítimas do Holocausto

No dia 27 de Janeiro de 1945, os soldados do Exército Soviético, que já tinham visto as piores atrocidades durante a II Guerra Mundial e estavam imunes a qualquer tipo de violência, ficaram chocados ao chegar a um campo de prisioneiros alemão na cidade polaca de Oswiecim. As cenas dantescas de milhares de cadáveres empilhados e oito mil homens, mulheres e crianças quase mortas, magérrimos, como zombies, levaram às lágrimas os embrutecidos soldados do Exército Vermelho.

Marcio Pitliuk
Isabel Capeloa Gil

Última hora

Falar de humanismo nos dias que correm parece ser exercício para académicos ou para filósofos. O termo acarreta uma carga intelectual que a maioria desconhece e muitos da minoria restante rejeitam, por desconhecimento ou ativismo. Na moda está aliás a crítica do humanismo e do seu étimo demoníaco - o humano - em nome justamente da afirmação do não humano, seja ele o animal, a natureza ou a máquina. O interessante é que o louvor do não humano se faz com uma linguagem que nada mais faz do que aplicar características humanas a esses outros. A gramática chama a tal ato personificação e somos diariamente confrontados com esta gesta. Os programas eleitorais e os placards das campanhas querem "dar voz aos animais, às pessoas e à natureza", ao mesmo tempo que clamam contra a toxicidade do ser humano. J.M. Coetzee no seu discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura comparou a condição humana no tempo da exaustão planetária à de um novo Robinson, sozinho num mundo selvagem, "com possibilidade de perecer e sem esperança de salvação".

Isabel Capeloa Gil
Leonídio Paulo Ferreira

Bússola da UE demasiado apontada à Ucrânia

Não é um bom exemplo usar a atual tensão na Ucrânia para justificar a necessidade de uma estrutura de defesa comum da União Europeia, como fez Josep Borrell, o alto representante para a Política Externa e de Segurança dos 27. Num debate em Bruxelas em torno da Bússola Estratégica, o documento que deverá ser assinado em março e corporizar a tal política externa e de defesa de que tanto se diz a Europa precisar, o diplomata espanhol apontou a hipótese de uma intervenção russa dentro das fronteiras ucranianas como a mais recente das ameaças à paz no continente e esqueceu as divisões nos próprios 27 sobre a resposta a Moscovo.

Leonídio Paulo Ferreira
Guilherme de Oliveira Martins

"Antes de começar"

A obra do pintor Manuel Amado tem uma marca muito própria. Mais do que o arquiteto, evidencia-se quem procurou incessantemente a essência das coisas, dos espaços, dos caminhos e da humanidade que com eles se relaciona. Como disse José-Augusto França, "a técnica deste pintar é (...) lisa e impessoalmente serena, de luz igual, angular, na sua bastante aparência - como se nada o pintor quisesse acrescentar à imagem em si próprio nascida, na simplicidade dos elementos cenográficos, que outros não poderiam nunca ser". E Manuel Amado costumava dizer que a pintura "é o modo mais direto que existe para representar a realidade, considerando que a realidade somos nós que a fazemos. Sem interferência de palavra ou de ficções".

Guilherme d'Oliveira Martins
João Melo

O exemplo da Líbia

O caso da Líbia é um exemplo de que a retórica ocidental acerca da democratização dos países africanos e de outros com idêntico percurso histórico e que estão no mesmo estágio de desenvolvimento social não passa de uma grande mistificação. Impor a democracia a esses países a partir do exterior e, pior ainda, à força da bala, não funciona. Além disso, a mistificação e a hipocrisia ficam totalmente a nu quando se observa que essa estratégia é usada em relação a alguns países e a outros, não. A conclusão só pode ser uma: não é na democracia que o Ocidente está interessado.

João Melo
Luís Gomes

Regionalização. Porquê? Por quem está longe de Lisboa

O tema é recorrente e, à boleia das eleições legislativas, lá vai ganhando destaque no espaço mediático. Foi assim, no passado recente, e é-o agora, também. Mas é, constantemente, discutido na sua centralidade. Nas ruas de Lisboa. Nas ruas de um país cada vez mais central, afastado das suas gentes. Nas ruas de um país cada vez mais afastado de si. A regionalização é mais, deve ser mais. Deve sair do Chiado e de São Bento. Deve ir pelas estradas nacionais, regionais e municipais ao encontro do país real, do país que não é a capital. Do país longe das sedes das grandes empresas, mas do país que, de sol a sol, luta para ser visto e ouvido.

Luís Gomes
Afonso Camões

A barraquinha das farturas

A cinco dias da contagem de votos, estas são as eleições mais incertas e imprevisíveis dos últimos 20 anos. Está tudo em aberto: a sondagem do dia, da Aximage para DN/JN/TSF, dá conta de uma reviravolta nas intenções e, pela primeira vez em seis anos, coloca Rio e PSD à frente de Costa e PS - na realidade em empate técnico, já que ambos se encontram dentro da margem de erro e ainda é significativo o número de indecisos. É nestes que se vão concentrar as campanhas nos próximos dias, confirmando, também na política, aquele clássico da estatística segundo o qual o melhor lugar da feira para instalar a barraquinha das farturas é colocá-la ao centro, para melhor atrair os clientes, venham eles da esquerda ou da direita.

Afonso Camões
Joana Petiz

Aprender, não decorar

Há 20 anos, os miúdos da Escola da Ponte sentavam-se em mesas redondas e participavam na sua própria aprendizagem, contribuindo com ideias e, na prática, para os programas e o ritmo a que assimilavam informação capaz de os fazer gente. Não havia filas direitas de alunos silenciosos e aborrecidos em frente a um professor que despejava matéria - não havia nada disso. Mas havia ordem, disciplina, respeito e a aprendizagem era real. As turmas juntavam crianças de várias idades e em vários estádios de ensino e eram elas próprias, quando sentiam que o conhecimento tinha passado, que se propunham para as avaliações que as fariam progredir, não em anos letivos, mas em blocos de conhecimento.

Joana Petiz
Gordon Brown e Martin Griffiths

Salvar o Afeganistão

Já se passaram mais de quatro meses desde a dramática saída dos EUA e de outras forças ocidentais do Afeganistão. Ao fretarem voos especiais, afrouxarem as regras de asilo e libertarem fundos, os países ocidentais transportaram alguns milhares de afegãos bafejados pela sorte para a segurança, quando os talibãs reconquistaram o controlo do país. Mas aqueles que ficaram para trás foram isolados do resto do mundo - sejam ou não apoiantes dos talibãs.

Gordon Brown e Martin Griffiths
Margarita Correia

Política linguística nos programas eleitorais dos partidos

A abrir a última semana de campanha eleitoral e depois de eu própria ter votado antecipadamente, decidi partilhar os resultados da minha leitura dos programas eleitorais (ou similares) dos principais partidos, no que respeita às línguas oficial (a portuguesa) e com reconhecimento oficial (a língua gestual portuguesa, LGP, e o mirandês). Limitei a análise (mas não a leitura) aos quatro partidos mais votados em 2019, PS, PSD, BE e PCP; como expressões de pesquisa, usei "língua", "português", "gestual portuguesa" (LGP), "mirandês" e seus sinónimos. O objetivo é apreender a importância que cada partido dá à(s) língua(s) e à política linguística.

Margarita Correia
Paulo Baldaia

A geringonça está a renascer?

A maioria absoluta com que António Costa sonhou e (desconfio) Marcelo Rebelo de Sousa lhe vendeu como sonho realizável não existe nem nunca existiu. A geringonça, como fórmula de poder, nunca deixou de ser a solução mais viável para António Costa. E, por isso, na próxima semana, o país pode acordar com a sensação de que nada mudou, mesmo que mude o vencedor das eleições. A crise política que resultou do chumbo do orçamento, com destino traçado a partir do momento que o Presidente da República sentenciou que seria necessário fazer "reset" no xadrez político, não servirá para acrescentar estabilidade ao Parlamento. Do que nos dizem todas as sondagens, em nenhum dos cenários possíveis, a situação ficará melhor do que estava e esse é só o primeiro dos problemas de Marcelo.

Paulo Baldaia
Joana Petiz

Se o gato Mikas foge, só sobra Rio

Há um par de dias, António Costa lembrou a "experiência muito dolorosa" das autárquicas e a "ilusão das sondagens" que fez o PS perder a Câmara de Lisboa. Fê-lo apenas horas depois de o seu PS ter dado o dito por não dito, recusando a prometida abstenção que viabilizaria o orçamento da Câmara de Lisboa, ter feito um banzé e ter voltado à posição viabilizadora - depois de ter percebido que o golpe palaciano tinha feito ricochete e os lisboetas estavam irritados com tudo o que ficaria congelado ou perdido à conta dos socialistas, se Moedas não tivesse deitado mãos à obra para corrigir o alegado ponto de tensão e reagendado o documento já para terça-feira.

Joana Petiz
Daniel Deusdado

"Se perder, sairei". Geringonça nunca. Rio?

1. Não sei quanto custa a estratégia de "spin doctor" ao PS, mas é dinheiro deitado ao lixo. A António Costa bastaria ser o homem de Estado, fazer menos promessas, não reagir a tudo o que mexe, e talvez as pessoas percebessem que também tem o perfil do homem sério. Os homens sérios comprometem-se com pouco e debatem ainda menos. Cavaco mandava os opositores falarem sozinhos. Já o líder do PS vai a todas (incluindo o humilde debate da rádio), atira pedradas como um adolescente irrequieto e pede uma maioria impossível. E se não a conseguir, sai. Ou melhor - isso foi ao princípio. Agora, à Guterres, talvez fique. E, portanto, não se sabendo muito se fica ou não fica, o povo está a descobrir o outro senhor, mais comedido e remediado nas promessas, seguindo o perfil sóbrio de Cavaco e Passos, onde a contenção era uma ideologia. O PS está a construir um caso de estudo de como governar razoavelmente durante seis anos e perder tudo num mês.

Daniel Deusdado