Opinião

"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

Ferreira Fernandes

Um retrato de mulher

Estamos a deixar passar na Europa quase em branco o centenário do assassínio de Rosa Luxemburgo (1871-1919). É um esquecimento que diz mais sobre nós e o nosso tempo do que sobre a economista, ativista política, filósofa e muitas outras coisas, cujo lugar e grandeza peculiares estão bem protegidos numa vastíssima obra publicada, ainda que não suficientemente estudada. Embora tenha vivido a maior parte da sua curta vida em Berlim, Rosa nasceu na Polónia russa, originária de uma família judia abastada, cedo se revelou cosmopolita e poliglota (incluindo um domínio perfeito do alemão, russo e polaco). Foi das primeiras mulheres doutoradas pela Universidade de Zurique, entregando-se desde os 15 anos a uma militância socialista, inspirada por um sentimento de perigo e urgência que a eclosão da I Guerra Mundial mostraria ser inteiramente justificado.

Viriato Soromenho-Marques

O voluntariado

A voracidade das transformações que as sociedades têm sofrido nos últimos anos exigiu ao legislador que as fosse acompanhando por via de várias alterações profundas à respetiva legislação. Mas há áreas e matérias em que o legislador não o fez e o respetivo enquadramento legal está manifestamente desfasado da realidade atual. Uma dessas áreas é a do voluntariado. A lei publicada em 1998 é a mesma ao longo destes 20 anos, estando assim obsoleta perante a realidade atual.

Margarida Balseiro Lopes

Voar ou o Euromilhões ao contrário

Aperto o cinto, fecho os olhos, agarro-me aos braços da cadeira e tento apagar o cérebro (o que no meu caso é quase impossível, dado o nível de overthinking que o encharca). Isto acontece em todas as descolagens e aterragens. Ao mínimo solavanco, sobressalto-me de tal forma que o vizinho do lado, conhecido ou desconhecido, dá sinal de contágio. O medo tem esse efeito. Durante a viagem vou de olhos postos no ecrã com o aviãozinho, a ver em que ponto da rota estou e o tempo que falta para chegar. De tempos a tempos, observo, perscrutante, o estado de espírito da tripulação. Nem as refeições nem o chá, café ou laranjada me distraem.

Catarina Pires

Uma piscina em Braga

Que querem? Quando me lembro do longínquo dia 12 de agosto de 2006 em que voei num avião da Red Bull, o que de imediato me vem à memória é uma piscina azul. Foi a primeira coisa que vi depois de descolar da pista do aeródromo de Braga e de conseguir voltar a mim, depois da abrupta apresentação às insuportáveis forças G. Quando vislumbrei a piscina, o aviãozinho fazia o pino nos céus comigo lá dentro e eu vi azul no meio de castanho. Estranhei a piscina ali tão azul e eu sentada no céu, com a barriga virada para terra. O retângulo aquático era uma espécie de alvo, (felizmente) improvável, como tudo o que se passa dentro da chapa com asas que voa como uma mosca furiosa.

Marina Almeida

Agostar

Em francês há um nome para as pessoas que tiram férias em agosto: aoûtiens, qualquer coisa como agostianos ou, porque não, agostinhos, que também serve, indica-me o dicionário, para frutos que aparecem em agosto. Ora eu não sou agostinha, sou mais juinetiste ou até mesmo junina (para os adeptos das férias neste mês os franceses já não têm nome). Ou seja, faço parte dos que estão com pressa para ir de férias, gostam dos dias mais longos, querem evitar multidões e os preços exorbitantes da época alta. Espera-me depois um agosto tranquilo na cidade e geralmente complicado no trabalho... porque está toda a gente de férias. Mas claro que quando era pequena pertenci muitas vezes à maioria moral de agostinhos e acho que um nome faz mesmo falta. É daquelas palavras que não sabíamos que faziam falta até vermos que os outros têm, como quando os estrangeiros ficam apaixonados pela nossa saudade. E esta nem sequer é intraduzível. Intraduzível sim foi o meu espanto ao procurar sítios para ficar na primeira semana de agosto: pagar por uma semana o dobro do que pago de renda não é uma opção e uma tenda no quintal de alguém por 40 euros por noite só me faz rir.

Patrícia Jesus

Ver Tudo

A equipa feminina de CS:GO da Vodafone Giants

Aidy é a capitã da equipa profissional feminina de CS:GO da Vodafone Giants e teve de lutar muito para mostrar que as raparigas, se quiserem, jogam tão bem como os rapazes - ou até melhor do que eles. "Tive situações um pouco incómodas, ao longo da minha trajetória no mundo dos videojogos. Houve momentos em que me senti pequena e creio que todas temos o mesmo direito de jogar, de poder demonstrar o que queremos e de poder ir atrás dos nossos sonhos."O seu sonho (conquistado) é ser gamer profissional. E como ela há muitas que se esforçam para se destacarem num ambiente que ainda é maioritariamente masculino, embora cada vez menos. Um artigo publicado na VentureBeat, uma página dedicada à tecnologia, baseado em dados recolhidos pela consultora Interpret, indicava que 30,4% das mulheres e 69,6% dos homens viam desporto com regularidade. A distribuição é desigual, mas o mesmo artigo assinalava que a percentagem de mulheres aumentou quase seis pontos desde 2016, um aumento assinalável, que aponta para uma rápida integração das mulheres na indústria.A paridade em termos de presença está, portanto, cada vez mais perto. No entanto, os esports não são tão equitativos - como sucede nos desportos tradicionais - quando se fala de dinheiro.Embora não exista um ranking oficial que permita saber com certeza quanto ganham os jogadores profissionais, a página especializada esportsearnings.com mostra o fosso que separa homens e mulheres. Enquanto o Alemão Turo Takhasomi, líder em termos de receitas, arrecadou, até à data, mais de quatro milhões de dólares em prémios, a Canadiana Sasha Hostyn, que encabeça a lista feminina, ganhou 323 mil dólares no mesmo período de tempo. Laia Miralles, a outra espanhola da equipa, acredita que tanto ela quanto as suas colegas estão preparadas para enfrentar a competitividade do mundo profissional dos esports: "Sim, sofremos um pouco com o machismo. No entanto, tentamos passar ao lado disso e seguir o nosso caminho, porque, se quisermos ser jogadoras profissionais, temos de superar essas barreiras e seguir em frente."Esse exemplo de determinação é o que faz das jogadoras da Vodafone Giants um espelho em que podem ver-se refletidas todas as jovens queiram ser jogadoras profissionais de videojogos. Esse papel de referência, de pioneiras, nas palavras de Virginia Calvo, coproprietária da equipa, está bem presente desde o nascimento da equipa. "Sentíamo-nos responsáveis por dar voz e visibilidade às mulheres da esfera competitiva profissional."Entrevista e edição: Azahara Mígel, Douglas BelisarioTexto: José L. Álvarez Cedena

ANYmal, o robô todo terreno de quatro patas

O ANYmal tem o aspeto de um cão robótico inofensivo. A forma como anda é engraçada e os seus gestos (se é que se pode aplicar esse termo a uma máquina com as suas características, já que não tenta imitar os comportamentos humanos) não são intimidantes.Apesar disso, há quem o tenha considerado assustador e houve até uma página sobre tecnologia que o incluiu entre os robôs mais "aterrorizadores". A culpa não foi dos criadores, a empresa suíça ANYbotics, centrada numa robótica útil, mas sim de um episódio da serie Black Mirror (concretamente, o quinto episódio da quarta temporada, cujo título é "Cabeça de Metal") em que um grupo de engenhos robóticos semelhantes a cães dominam a espécie humana pela força e a deixam à beira da extinção. O lema da ANYbotic, por sua vez, é: "Permitimos que os robôs cheguem a qualquer lugar". Talvez seja uma forma de manifestarem confiança numa tecnologia que não para de crescer e que deveria servir apenas para nos facilitar a vida. E é precisamente isso que se pretende com o ANYmal, um quadrúpede com capacidades impressionantes."Um robô comum tem rodas, o que é bastante bom" - assegura Peter Fankhauser, um dos cofundadores da empresa. "Tem inúmeras funções e bateria suficiente para operar durante horas. Porém, não pode ser usado à chuva nem em lugares com escadas. Por outro lado, os drones funcionam muito bem, trabalham de vários ângulos e proporcionam imagens incríveis. Contudo, a autonomia e a capacidade de carga são limitadas. O nosso robô é uma combinação de ambos. Desloca-se em qualquer tipo de terreno e, ao mesmo tempo, é capaz de transportar cargas significativas e a sua bateria tem bastante autonomia. Dura três horas e, como é autónomo, é capaz de regressar sozinho e recarregar-se numa estação.A versatilidade do ANYmal faz dele o robô perfeito para uma grande variedade de tarefas industriais, em interior ou exterior, para trabalhos de distribuição, de resgate, trabalhos agrícolas, florestais ou até para entretenimento. As quatro patas permitem-lhe caminhar, correr, saltar, escalar ou... dançar. Embora a mobilidade seja, obviamente, um dos pontos fortes do robô, é o restante equipamento que lhe permite ser uma ferramenta tão poderosa. Graças aos seus vários sensores, câmaras e aplicações, o ANYmal é capaz de traçar mapas, detetar mudanças de temperatura ou variações sonoras, o que lhe permite aplicar diferentes soluções no espaço em que se encontra a trabalhar.Embora, nesta fase, o ANYmal ainda seja uma versão beta, os seus criadores esperam comercializá-lo em breve. Para isso, estão concentrados em melhorar a sua robustez e algumas das suas competências.Além disso, a ideia é que funcione com API aberta, que permita aos clientes programá-lo para que possam adaptar-se a distintos tipos de tarefas. Porém... que não se gere o pânico, porque ninguém tenciona criar um exército de assassinos dispostos a espalhar o caos pelo mundo.Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol, Noelia Núñez, David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

DN Ócio

BMW 840d Cabrio: sinfonia ao ar livre

As temperaturas começam a subir, coisa que parecia difícil neste verão de 2019, e com isso os descapotáveis saem dos locais onde estiveram a hibernar. De um momento para o outro, basta prestarmos um pouco atenção, vemos carros com ou sem capota em todo o lado. Mas há que escrever: há descapotáveis diferentes, como este BMW M8. Ninguém lhe fica indiferente, esteja ou não dentro do automóvel. Texto Filipe Gil Quando nos desafiam para conduzir e escrever sobre um descapotável topo de gama o difícil é conter o sorriso e a excitação. Mal nos sentamos, a primeira ação, qual crianças [...]

Próxima paragem: vindimas

Não se distraia com o agosto estival: as vindimas estão a começar. São várias as propostas para aproveitar esta altura especial e única do ano, em que é momento de apanhar as uvas, conhecer a histórias dos vinhos e desfrutar de um ambiente invulgar. De norte a sul do país, são muitas as propostas para acompanhar as vindimas. O melhor é tratar já de marcar lugar nesta aventura. Leve energia e muita vontade de conhecer. Adega José de Sousa Reguengos de Monsaraz Pela primeira vez, esta adega disponibiliza um programa de vindimas para o público, respondendo ao interesse dos [...]

É aqui que se guardam alguns dos maiores tesouros da arquitetura

Inaugurada em 2017, a Casa da Arquitectura tem a dupla função de preservar e mostrar a obra dos arquitetos (que não se esgota no edificado). Uma delicada memória de milhares de desenhos, maquetes e fotografias que recentemente ganhou um importante inquilino: quarenta anos de desenhos de Eduardo Souto Moura. Reportagem de Marina Almeida Fotografias de Igor Martins/Global Imagens Quando se entra na receção da Casa da Arquitectura, em Matosinhos, há um enorme vidro que é um miradouro para o arquivo, aquilo que supostamente não se vê. Ali veem-se maquetes, algumas facilmente reconhecíveis, como a Casa das Histórias Paula Rego, ou [...]