Atualidade

Opinião

José Ribeiro e Castro

Olivença, esse outro pedaço de Alentejo

Olivença suscita facilmente emoções imediatas. Na precipitação de as exprimirem, nas caixas de comentários a notícias e artigos online ou no ping-pong das redes sociais, a maioria cede à tentação repentista, em lugar de ponderar o melhor interesse para a terra e suas gentes. Já me deparei com isto dezenas, senão centenas de vezes, nos últimos dez anos. Muitos limitam-se a reagir, sem pensar como agir. Debitam velhas ideias feitas. Renunciam a procurar e a compreender qual a melhor ideia que serve, hoje, esta questão.

José Ribeiro e Castro

Ruy Castro

Vinicius por Francisco

É a glória. Vinicius de Moraes, poeta, letrista da bossa nova, diplomata de carreira, músico - o seu instrumento era o uísque - e irresistível sedutor, acaba de ser citado pelo Papa Francisco na sua nova encíclica, Todos Irmãos, divulgada há alguns dias pelo Vaticano. O texto de Vinicius a que o Papa se referiu foi "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". É um trecho do monólogo em meio à letra do Samba da Bênção, que ele e o violonista Baden Powell compuseram em 1962 - uma das primeiras entre as mais de 30 canções que fariam juntos nos dois anos seguintes e que incluíram pequenas obras-primas como Apelo, Consolação, Berimbau, Deixa, Samba em Prelúdio, O Astronauta, Formosa, Amei Tanto e Tempo Feliz. E não sejamos soberbos, mas, se se tivesse dedicado mais a fundo, o Papa acharia outros versos dignos de citação nesses sambas.

Ruy Castro

Victor Ângelo

As fragilidades de um gigante

Os corredores económicos que a China está a construir através de Myanmar e do Paquistão são dois pilares da Nova Rota da Seda, a ambição gigantesca que o presidente Xi Jinping formulou, após chegar ao poder em 2012. Gigantesca é, aliás, uma adjetivação insuficiente, minúscula mesmo, perante a enormidade e a complexidade dessa ambição. Mais ainda, a envergadura da Nova Rota da Seda tem causado ansiedades em muitos círculos de decisão geopolítica na Europa, na América e na Ásia, e explica uma boa parte do sentimento de desaprovação, de oposição mesmo, que agora existe em relação à China. Em política, como na vida, a ambição desmesurada acaba por ser uma fonte de grandes conflitos.

Victor Ângelo

Mais atualidade

Viriato Soromenho-Marques

Pandemia e hierarquia de valores

Se o SARS-CoV 2 fosse uma arma, seria quase perfeita. A arma mais eficaz não é a mais letal, mas aquela que causa mais feridos de longa duração, que sobrecarrega as estruturas logísticas e hospitalares, que semeia o medo e a discórdia, que diminui a capacidade de luta através da entropia e desmoralização da sociedade. É exatamente o que estamos a observar - de modo ainda mais refinado do que na primavera - nestes primeiros passos da segunda vaga da covid-19. Estamos num momento de encruzilhada em toda a Europa. Seria conveniente analisarmos dois "pontos cegos" fundamentais no modo como encaramos o que está a acontecer. A sua elucidação poderá ajudar-nos, como cidadãos, a fazer um juízo crítico e a agir em conformidade. O primeiro aspeto negligenciado prende-se com a falta de humildade de muitas das opiniões e críticas à ação dos governos. É claro que os governos devem ser escrutinados e criticados, o que é inadmissível é o caudal de críticas insensatas, vindas também de peritos, que arrogantemente escamoteiam a colossal ignorância que ainda temos sobre este novo coronavírus. Recordo a ligeireza como alguns especialistas se têm atrevido a prometer vacinas para datas próximas, mantendo-se imperturbáveis perante o número crescente de testes que são interrompidos por efeitos indesejáveis na saúde dos voluntários. Ou ainda a sobranceria como responsáveis de saúde pública falam em "imunidade de grupo", para justificar os erros grosseiros cometidos, por exemplo, pelas autoridades de saúde suecas. O outro pressuposto inconsciente, que tem gerado muitos equívocos, é a recalcada necessidade de reconhecer a existência de uma hierarquia de valores nas políticas de combate à covid-19. Nas novas medidas propostas pelo governo - de tornar obrigatório o uso de máscaras em mais locais, assim como o download da aplicação StayAway Covid - importa ter em conta que os direitos de privacidade, devendo ser salvaguardados, têm, contudo, um peso inferior ao do direito à vida, sobretudo quando este depender da capacidade de evitar a propagação da doença. A questão correta é a de saber se essa aplicação tem ou não eficácia, mesmo depois de ser universalizada (o que parece não estar ainda esclarecido). O desprezo pelo direito à vida tem unido uma frente bastante insólita e disparatada que vai de Trump e Bolsonaro a intelectuais de "esquerda", como Giorgio Agamben. Para Trump, a vida dos mais frágeis não pode parar o curso normal dos negócios. Para Agamben, só um Leviatã tirânico seria capaz, para salvar a "vida nua" dos cidadãos, de os confinar compulsivamente... Os Estados europeus estão a devolver à autodisciplina dos cidadãos a tarefa de evitar novo confinamento. Trata-se de conciliar a liberdade individual com a responsabilidade que, em tempos pandémicos, cada um tem pelo direito à vida de todos os outros. Se as democracias europeias falharem na defesa da vida, todos conhecemos como abundam autoritarismos que a prometem salvar, em troca do sacrifício de todos os outros direitos que a tornam digna de ser vivida. Professor universitário

Viriato Soromenho-Marques

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