Opinião

Viriato Soromenho-Marques

Os industriais do otimismo

Na sua autobiografia literária, Ecce Homo (1888), Nietzsche defendeu que a verdade não dependeria tanto da questão gnosiológica da adequação entre a nossa representação e a realidade objetiva, mas antes da coragem moral para ousar suportar o seu peso tantas vezes amargo. O erro não seria, desse modo, um problema de cegueira ou falta de rigor, mas teria origem no mal moral da "cobardia" (feigheit), na recusa em olhar a verdade de frente, delineando a partir dessa contemplação todas as consequências práticas e existenciais necessárias.

Viriato Soromenho-Marques

Henrique Burnay

A partidarização europeia

Sylvie Goulard, a candidata francesa a comissária europeia, foi chumbada pelo Parlamento europeu porque tinha problemas éticos, porque Macron tem vários anticorpos em Bruxelas e porque Ursula von der Leyen, a candidata a presidente da Comissão, não quis defendê-la mais do que o necessário. Essa é parte da explicação. A restante é que esta foi uma decisão dos parlamentares populares e socialistas, apesar ou mesmo ao arrepio das lideranças nacionais. É uma transformação da política europeia em curso.

Henrique Burnay

Maria João Caetano

Governantas

"Um homem não se consegue governar sozinho", resignava-se a minha avó, que passou grande parte da vida a cozinhar, a limpar e a arrumar. Dizia governar-se como quem queria dizer arranjar-se ou orientar-se. E dizia-o com uma certa condescendência. Coitados dos homens, como haveriam eles de se governar sem uma mulher em casa a passar-lhes as camisas a ferro e a fazer-lhes o almoço? Um homem tinha de pensar em assuntos importantes, tinha de trabalhar e ganhar dinheiro, tinha lá "as coisas dele" para fazer, precisava de alguém que lhe cuidasse das minudências. Alguém que tratasse do "governo da casa", essa arte cultivada pelas mulheres que (ainda há pouco tempo) liam os livros da Laura Santos, com títulos como Noiva, Esposa, Mãe ou A Mulher na Sala e na Cozinha, livros com capas duras e imagens de mulheres perfeitas, que ensinavam a tratar de bebés e a limpar os estanhos.

Maria João Caetano

Filipe Gil

Corridas de cowboys

Desde 1955 que a corrida anual de 100 milhas, cerca de 160 quilómetros, é um momento atual da região da Sierra Nevada, na Califórnia, nos Estados Unidos. A prova, conhecida como Tevis Cup Challenge é feita a cavalo e considerada uma das mais duras do mundo. Cavalo e cavaleiros têm 24 horas para percorrer a distância, caso contrário são desclassificados. Um dos fãs da prova e natural da zona, Gordy Ainsleigh, participou na edição de 1971 e 72, 73. No ano seguinte, e sem perceber que estava a inventar um novo desporto, Ainsleigh foi convidado a participar, mas, como na [...]

Filipe Gil

João Céu e Silva

"Não estou a fazer nada"

As oito letras da palavra "governar" correspondem, segundo o dicionário, a "exercer o governo de, administrar, gerir, dominar ou imperar", entre outras possibilidades. É verdade que estes significados não são desconhecidos da maioria dos portugueses, no entanto, as recentes eleições explicaram melhor que, ao verem surgir os resultados eleitorais, "exercer o governo" não era a primeira preocupação dos eleitores (e comentadores), preferindo antes conjugar os dois últimos significados: dominar ou imperar. Era só disso que se falava face aos números que o governo precisava para ser o dono do país durante quatro anos enquanto se faziam apostas sobre os partidos que teriam de se deixar "dominar" para que houvesse um futuro a quatro anos.

João Céu e Silva

David Pereira

Tocar o céu na maratona

Uma necessidade que se tornou um vício e um sinónimo de desafio, alegria e bem-estar. Comecei a correr para perder peso e conseguir passar nos testes práticos de Educação Física. Corria 15 ou 20 minutos a um ritmo baixo e chegava-me, não conseguia mais. E, quando o secundário terminou, correr por correr parecia não fazer sentido e o que escasseava de motivação sobrava em outras formas de passar o tempo, embora a corrida seja o desporto mais simples e barato de se praticar. A dada altura, fez-se luz na minha cabeça: porque não participar numa prova? O objetivo de completar sete quilómetros ao lado do meu pai foi o início de uma história de amor.

David Pereira

O estúdio de efeitos especiais que criou a personagem Benjamin Button

O estúdio de efeitos especiais que criou a personagem Benjamin Button

Muitos dos filmes que melhores (e também piores) momentos proporcionaram aos espectadores têm como elemento comum a utilização dos efeitos visuais ou efeitos especiais para criar a ilusão de mundos ou criaturas imaginárias. Por vezes belos, por vezes terríveis, mas sempre – mesmo com recurso a tecnologias muito rudimentares – assombrosos. Já num ano tão longínquo como 1933, Merian C. Cooper conseguiu aterrorizar meio mundo com o seu King Kong, o gigantesco símio que se tornou, desde então, um ícone da cultura popular. Diz-se mesmo que, numa primeira edição do filme, o público desmaiava ou saía espavorido da sala perante algumas cenas que foram posteriormente eliminadas. Na verdade, a lenda soa melhor do que a realidade, dado que, ao que parece, as míticas cenas foram cortadas por Cooper por um motivo muito mais prosaico: abrandavam o ritmo da história. Outros pioneiros, como George Pal ou Ray Harryhausen, conseguiram criar autênticas fantasias visuais com marionetas, desenhos, miniaturas, látex, maquetas e explosões. Hoje em dia, todos estes truques foram substituídos por software muito sofisticado e por potência de computação, mas há algo que permanece: a imaginação para fazer parecer real algo que não existe. Darren Hendler, diretor do Digital Human Group na Digital Domain, dedica-se há 25 anos aos efeitos especiais no cinema, tendo participado em alguns dos maiores sucessos de bilheteira das últimas décadas. Pelas suas mãos – e pelos seus computadores – passaram monstros e personagens que fazem parte da nossa memória cinematográfica. Precisamente para se manter na vanguarda da indústria, o seu trabalho teve de evoluir: "Nos dois últimos anos, centrei-me mais na parte tecnológica do cinema, no que é possível fazer, e, sobretudo, na chegada da aprendizagem automática e no modo como podemos transformar o que fazemos e levá-lo mais longe."As proezas tecnológicas da Digital Domain incluem ter tornado credível um Brad Pitt idoso na notável fantasia de David Fincher "O Estanho Caso de Benjamin Button" ou ter permitido que Josh Brolin desse alma a Thanos, um personagem incontornável da saga Vingadores, graças aos sofisticados sistemas de captura de movimento com que registaram todos os gestos do ator. Porém, uma das mais comentadas contribuições do estúdio para a história recente do cinema foi, sem dúvida, ter "ressuscitado" uma Carrie Fisher jovem para fazer uma aparição estelar em "Rogue One: Uma História de Star Wars". Por trás do rosto de Fisher, escondia-se a atriz norueguesa Ingvild Deila, que garante ter enfrentado o desafio de interpretação de uma forma "muito mais técnica" do que o habitual, concentrando-se "nas coisas que Carrie fazia com os olhos ou no modo como mexia a boca."A possibilidade de voltar a contar com rostos icónicos da história do cinema graças à tecnologia, apesar de os atores ou atrizes já terem falecido, abriu um debate na indústria que, pelos vistos, não terá fim tão cedo. Entretanto, Darren Hendler acredita que as possibilidades dos efeitos visuais continuarão a crescer: "Vai demorar algum tempo até alcançarmos os 5% que faltam para que alguém possa entrar em cena e interpretar em direto uma pessoa diferente." Quando esse limite for superado, todos teremos de começar a preparar-nos para a invasão de ressuscitados que nos cairá em cima.Entrevista e edição: Zuberoa Marcos, Noelia Núñez, Douglas BelisarioTexto: José L. Álvarez Cedena

A programadora prodígio de 11 anos que já tem a sua própria empresa

A programadora prodígio de 11 anos que já tem a sua própria empresa

O verão é a época alta das contratações futebolísticas. À falta de outras notícias relevantes, os meios de comunicação social dedicam muito tempo aos vaivéns do mercado de jogadores. Nomes importantes e números milionários entretêm os adeptos de futebol até ao início do campeonato. Mas o tema das contratações não é exclusivo do desporto. No mundo empresarial em geral, e no das grandes empresas tecnológicas em particular, a busca de talento jovem é uma constante. Descobrir os mais novos com aptidões especiais e convidá-los a entrar para as suas empresas é um investimento de futuro que pode marcar a diferença em relação aos concorrentes dentro de alguns anos. Nesta corrida, Samaira Mehta, uma pequena programadora de onze anos, é uma das estrelas mais cobiçadas. Não é em vão que os seus passos já são seguidos de perto por dois gigantes como a Google e a Microsoft.Os feitos que levaram Samaira a estar em todas as listas de futuras figuras relevantes na tecnologia são impressionantes devido à sua tenra idade. É a fundadora e diretora executiva da CoderBunnyz, uma empresa que se dedica a ensinar programação através do jogo, já deu mais de 50 aulas a cerca de 2000 raparigas e rapazes, os seus jogos são utilizados em mais de cem escolas dos Estados Unidos e foi a vencedora do prémio Youth Entrepreneur. A sua história até chamou a atenção de Michelle Obama, que lhe enviou uma carta em 2016 para a felicitar e incentivar a continuar a progredir.Se, com o seu primeiro jogo de tabuleiro, o objetivo de Samaira era conseguir que as crianças aprendessem a escrever código, com o segundo (chamado CoderMindz) quer ensinar-lhes noções de inteligência artificial. E nada parece deter esta pequena programadora que se afeiçoou aos computadores e às linguagens informáticas aos seis anos, graças ao seu pai Rakesh Mehta, engenheiro na Intel. Samaira continua a inventar e a espremer tudo o que acontece ao seu redor para o transformar numa aprendizagem contínua que lhe permita avançar. O seu objetivo é ajudar o mundo através da tecnologia e já demonstrou que não é das que se rendem, tal como expressa na sua frase preferida: "Não te preocupes com o fracasso. Preocupa-te com as oportunidades que perdes por não tentares."Entrevista e edição: Zuberoa Marcos, Azahara Mígel, Pedro García Campos, Cris López Texto: José L. Álvarez Cedena

Insider

Hackers russos mascaram-se de iranianos em ataque de espionagem global

Hackers russos mascaram-se de iranianos em ataque de espionagem global

Um grupo de hackers iranianos foi invadido por um grupo de hackers russos para vigiar vários países, revelaram agências de inteligência do Reino Unido e dos EUA. Uma unidade de espionagem cibernética russa liderou ataques em mais de 35 países ao conseguir invadir um grupo de hackers iranianos com o objetivo de esconder a sua operação. O chamado grupo Turla, associado às agências secretas russas, terá sequestrado as ferramentas do Oilrig, um grupo associado ao governo iraniano, de acordo com uma investigação que durou dois anos realizada pelo Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido (NCSC) em colaboração com [...]

V Digital

Lisboa-16/10/2019  -A Vida do Dinheiro, com Nuno Fernandes Thomaz..
(PAULO SPRANGER/Global Imagens)

"Somos altamente dependentes das promoções"

Nuno Fernandes Thomaz, presidente da Centromarca - a associação de empresas de produtos de marca - avisa que a entrada dos espanhóis da Mercadona em Portugal vai levar a maior pressão sobre os produtores, que muitas vezes são empresas familiares dependentes de gigantes como o Continente ou o Pingo Doce. Em entrevista ao Dinheiro Vivo e TSF, o antigo secretário de Estado dos Assuntos do Mar e ex-vice-presidente da CGD realça uma característica do consumidor português: em cada 100 euros de compras, compra 48 euros em promoção. E a Mercadona tem um modelo contrário à promoção.

Tem 50 anos, 2 lugares, 3 rodas e um motor de 300 cv

Tem 50 anos, 2 lugares, 3 rodas e um motor de 300 cv

O Bond Bug foi um dos veículos de três rodas mais carismáticos da indústria automóvel britânica do século passado. O veículo de dimensões muito compactas estava pensado para desenrascar as voltinhas urbanas de todos os dias, a custo muito acessível. No lançamento, o Bug contava com económico motor de 700 cc, a debitar 29 cv. Agora, a mecânica foi totalmente revista e adaptada com sistema de sobrealimentação da BorgWarner para debitar uns incríveis 300 cv.