Opinião

Navegantes da fé

Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.

Adriano Moreira

Decálogo para os núncios

1. A Igreja tem dentro dela, inevitavelmente, uma tensão que a conduz a um paradoxo. Esta tensão e este paradoxo foram descritos de modo penetrante, preciso e límpido pelo sociólogo Olivier Robineau, nestes termos: "A Igreja Católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção - o descentramento segundo o amor - e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial - de que a confissão é o arquétipo - colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada."

Anselmo Borges

Uma costureira, um sexólogo e a nossa generosidade

Numa redação de colegas doutos e experientes, eu, jovem jornalista, fui atirada às feras. Enviada ao Porto para cobrir um congresso de sexologia - tema apelativo mas sem especialistas ou voluntários para o tratar -, cheguei à estação de São Bento muito em cima da hora. Quando tudo podia correr mal, com um frio de rachar, do meu casacão caiu o único botão que impedia o vento gélido de me enregelar. Corri para a Baixa e entrei numa retrosaria esbaforida. Contei a minha desgraça à empregada de balcão e pedi um carro de linhas e uma agulha.

Paula Sá

Portugal visto pelos olhos dos outros

Estava em plena mata atlântica perto de Ilhéus, em Salvador da Bahia. Depois de dias a ler e a espreguiçar num resort, decidi explorar as zonas em redor com um grupo de turistas. Às tantas comecei uma conversa com um casal de argentinos. Ele médico, ela professora. Conversa agradável, que passou pelo deus Maradona, o tango, o fado e o vinho. Falei do Porto e aí a conversa sofreu uma reviravolta. O homem argentino afirmou, sublinhou e teimou a pés juntos que o vinho do porto era chileno e não português. Fiquei incrédulo. Retorqui e discuti e mesmo assim ele ficou na dúvida. E admito, a conversa ficou por ali.

Filipe Gil

Onde anda o livro?

Quando a memória da leitura se perde no tempo, nada como regressar aos livros com a miúda, aqueles livros que fizeram a nossa infância, agora que ela também vai descobrindo as palavras encadeadas umas nas outras. Há tempos, depois de ter visto um espetáculo de dança que relatava a viagem de 80 dias à volta do mundo, a partir da obra que Júlio Verne tinha escrito em 1872, contei-lhe algumas dessas peripécias, a partir do relato parcelar que a dança tinha reavivado. Teve uma única pergunta para me fazer: consegue dar-se a volta ao mundo em 80 dias? Se isto é tão grande, é mais do que legítima a questão, pensei. Que sim, que hoje em dia até se pode fazer em menos tempo.

Miguel Marujo

Esta música não soa bem com aquela pessoa

- Isso não soa bem. Podes escolher outra? - Escolher outra quê? Outra música? - Sim. Escolhe outra. - Mas para que é que eu vou escolher outra? É essa. A minha canção preferida do George Michael é o Faith. Qual é a questão? - Esta não pode ser. Não soa bem. Quer dizer. Não te soa bem. Não. Não soa bem para ti. Não é uma boa canção para ti, pronto. Não te assenta bem. - Mas não é uma boa canção para mim porquê? É a minha canção preferida dele. Qual é o teu problema? Mas agora mandas nas canções de que eu gosto? - Ele tem tantas. Escolhe outra. Olha aquela com as modelos boazonas, o Freedom! Isso é uma grande canção. Ou o Jesus to a Child. Ou o Careless Whisper. - Mas tu estás parvo? Qual é o problema desta canção? A escolha é minha, não é tua. Perguntaste-me qual é a minha canção preferida do George Michael. E eu respondo: é o Faith. Se não gostas dela, paciência. - Não, não, eu gosto muito. É uma música do caraças. - Então??!!!! Hello??!!! O que é que se passa? Porque é que não posso escolher esta? - É que essa é a canção preferida da Cláudia. - Qual Cláudia? A tua Cláudia? - Ela não é a minha Cláudia. É a minha ex-Cláudia. Quer dizer, é a ex-minha Cláudia. Já não somos casados. - Eu sei que não são casados. És casado comigo, lembras-te? Casámos ao som do Barry White. E abrimos a pista do copo-de-água com o Never Can Tell do Chuck Berry. Lembras-te disso ou essas canções também te fazem lembrar a tua ex-mulher? Diz-me agora, não me digas só quando eu morrer ou no dia em que nos divorciarmos. - Nós não nos vamos divorciar. - Se houver mais alguma música de que eu goste e que tu digas que te faz lembrar a tua ex-mulher, garanto-te que nos divorciamos. - Não é isso. Não é que me faça lembrar a Cláudia. Mas é a canção do George Michael de que ela mais gosta. E a ela assenta bem. Ou melhor, ela escolheu primeiro. E na minha cabeça... - A tua cabeça daqui a bocado leva com um CD porque me está a irritar? - As pessoas têm canções próprias. Cada pessoa tem a sua. Ou várias. E aquela é dela e associo-a a ela. Desculpa. Não posso associar a ti também. - Isso é um problema teu. E é uma estupidez. - Sabes qual é a minha canção preferida? - A Canção de Embalar, do Zeca Afonso. - Pronto. Agora imagina que essa era a canção preferida de um ex-namorado teu. Ou do teu ex-marido. - E é. É a canção de embalar preferida do João. Ele cantava-a muitas vezes para adormecer o miúdo. - Qual miúdo? O Pedro? - Sim, o Pedro. O meu filho. O teu enteado. - Mas eu punha essa canção para adormecer a Matilde. - Sim. E eu adorava isso. Os meus filhos adormeciam os dois ao som do Zeca. É bonito. - Mas os teus dois maridos preferiam esta canção? - Eu não tenho dois maridos. Tive um, agora tenho outro. E sim, gostavam os dois da canção. E adormeceram os filhos ao som dessa canção. De que gostam os dois. E então? - Então?! Como então?! Não pode ser. Isso é errado. - Tu estás um melómano sentimental. Aliás, tu estás é parvo, a verdade é essa. - Não podemos ter a mesma canção. Não posso ter a mesma canção do teu ex-marido. Devias ter-me dito. Cada pessoa tem a sua canção. Não podemos ter a mesma. A Cláudia tem o Faith. A Filipa, com quem namorei na faculdade, tinha o Billy Jean, do Michael Jackson. E a Andreia gostava da Canção do Engate, do Variações. Cada namorada, cada canção. - Esta conversa acaba aqui. - Olha, e o I Want Your Sex, do George Michael? Também é gira. Não queres trocar? Vá lá. - Esta conversa acabou. Se voltas a falar nas canções da Cláudia, da Andreia ou da Filipa, atiro a tua aparelhagem pela janela.

Paulo Farinha

Ver Tudo

ANYmal, o robô todo terreno de quatro patas

O ANYmal tem o aspeto de um cão robótico inofensivo. A forma como anda é engraçada e os seus gestos (se é que se pode aplicar esse termo a uma máquina com as suas características, já que não tenta imitar os comportamentos humanos) não são intimidantes.Apesar disso, há quem o tenha considerado assustador e houve até uma página sobre tecnologia que o incluiu entre os robôs mais "aterrorizadores". A culpa não foi dos criadores, a empresa suíça ANYbotics, centrada numa robótica útil, mas sim de um episódio da serie Black Mirror (concretamente, o quinto episódio da quarta temporada, cujo título é "Cabeça de Metal") em que um grupo de engenhos robóticos semelhantes a cães dominam a espécie humana pela força e a deixam à beira da extinção. O lema da ANYbotic, por sua vez, é: "Permitimos que os robôs cheguem a qualquer lugar". Talvez seja uma forma de manifestarem confiança numa tecnologia que não para de crescer e que deveria servir apenas para nos facilitar a vida. E é precisamente isso que se pretende com o ANYmal, um quadrúpede com capacidades impressionantes."Um robô comum tem rodas, o que é bastante bom" - assegura Peter Fankhauser, um dos cofundadores da empresa. "Tem inúmeras funções e bateria suficiente para operar durante horas. Porém, não pode ser usado à chuva nem em lugares com escadas. Por outro lado, os drones funcionam muito bem, trabalham de vários ângulos e proporcionam imagens incríveis. Contudo, a autonomia e a capacidade de carga são limitadas. O nosso robô é uma combinação de ambos. Desloca-se em qualquer tipo de terreno e, ao mesmo tempo, é capaz de transportar cargas significativas e a sua bateria tem bastante autonomia. Dura três horas e, como é autónomo, é capaz de regressar sozinho e recarregar-se numa estação.A versatilidade do ANYmal faz dele o robô perfeito para uma grande variedade de tarefas industriais, em interior ou exterior, para trabalhos de distribuição, de resgate, trabalhos agrícolas, florestais ou até para entretenimento. As quatro patas permitem-lhe caminhar, correr, saltar, escalar ou... dançar. Embora a mobilidade seja, obviamente, um dos pontos fortes do robô, é o restante equipamento que lhe permite ser uma ferramenta tão poderosa. Graças aos seus vários sensores, câmaras e aplicações, o ANYmal é capaz de traçar mapas, detetar mudanças de temperatura ou variações sonoras, o que lhe permite aplicar diferentes soluções no espaço em que se encontra a trabalhar.Embora, nesta fase, o ANYmal ainda seja uma versão beta, os seus criadores esperam comercializá-lo em breve. Para isso, estão concentrados em melhorar a sua robustez e algumas das suas competências.Além disso, a ideia é que funcione com API aberta, que permita aos clientes programá-lo para que possam adaptar-se a distintos tipos de tarefas. Porém... que não se gere o pânico, porque ninguém tenciona criar um exército de assassinos dispostos a espalhar o caos pelo mundo.Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol, Noelia Núñez, David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

Tecnologia para ajudar a surfar as ondas gigantes da Nazaré

Quando os Europeus pisaram pela primeira vez as ilhas do Havai, na expedição comandada por James Cook, em 1778, viram que os habitantes locais praticavam uma diversão estranha e perigosa. Foi esta a perceção de James King, que assumiu o comando da expedição após a morte do famoso capitão, tendo feito, no seu diário de bordo, a primeira descrição deste desporto: “Um dos seus divertimentos mais comuns é feito dentro de água, durante a maré cheia, quando as ondas rebentam na costa. Os homens entre os 20 e os 30 anos dirigem-se mar adentro, a galgar as ondas; deitam-se sobre uma prancha ovalada, mais ou menos da sua altura e largura, mantêm as pernas juntas, ao alto, e usam os braços para orientar a prancha. Esperam algum tempo até chegarem as ondas maiores e então, todos ao mesmo tempo, remam com os braços, para se manterem em cima da onda, que os impulsiona a uma velocidade impressionante; a arte está em guiar a prancha de forma a manterem-se na direção apropriada, no topo da onda, à medida que esta vai mudando de direção.“À primeira vista, parece um divertimento muito perigoso. Pensei que alguns acabariam por ir embater nas rochas aguçadas, mas, mesmo antes de alcançarem a costa, caso estejam demasiado perto, saltam da tábua e mergulham por baixo da onda, até esta rebentar. Este divertimento é um mero entretenimento, e não tem que ver com provas de destreza. Com boas ondas, imagino que deva ser muito agradável.”Na verdade, a descrição de King acabou por pecar por defeito, uma vez que o surf, com o passar dos anos, acabaria por demonstrar ser muito mais do que apenas “agradável”. A paixão pela arte de cavalgar as ondas é tão viciante que, à sua volta, surgiu toda uma cultura, com a sua própria linguagem, os seus mitos, as suas canções, a sua forma de vestir, os seus filmes e, claro, os seus heróis. Axi Muniain é, sem dúvida, um deles, precisamente porque nunca pôs de lado o tal risco de que falava James King há mais de dois séculos. Muniain esteve já por diversas vezes perto da morte, porque a sua é uma paixão perigosa: dedica-se a surfar as ondas mais difíceis do planeta. Dentro deste ranking, talvez a mais monstruosa de todas seja a da Nazaré, famosa em todo o mundo e apenas ao alcance dos surfistas mais experientes, pois quem se atreve a lançar a prancha à água junto a esta vila portuguesa está a arriscar a vida: “A Nazaré podia ser o Coliseu romano de qualquer gladiador”, afirma Munian. “Isto é particularmente verdade no que toca à dedicação, à alma e à entrega que cada surfista coloca na hora de tentar apanhar uma onda com as dimensões das que existem aqui.”O segredo da formação destas ondas gigantes está no fundo do mar da zona, pois na Nazaré há um canhão subaquático com 230 quilómetros de comprimento e até cinco de profundidade que, aliado aos fortes ventos do Atlântico, faz com que o mar se erga como um muro gigante. Felizmente, agora, os surfistas não enfrentam o oceano de peito descoberto, como faziam os longínquos habitantes do Havai. Agora, os surfistas contam com a ajuda de oceanógrafos como João Vitorino (do Instituto Hidrográfico de Portugal) que, com as suas previsões, antecipam qual o melhor momento para se lançar à água. E contam ainda com novos equipamentos tecnologicamente avançados, como o colete de impacto, que não só permite maior flutuabilidade, como também protege contra os impactos: “Muitos de nós não temos a noção de quantas vezes este colete nos salvou a vida”, garante Muniain, que acrescenta ainda que, graças a este tipo de tecnologia, podem agora enfrentar ondas que, até há muito pouco tempo, eram impossíveis de alcançar, mesmo para os melhores.Texto: José L. Álvarez Cedena

Insider

50 anos depois de o homem lá chegar, o que é que a Lua tem? Pó lunar, água e sonhos

Um pó ou poeira algo misterioso e que cheira mal, muito perto do de pólvora, temperaturas muito díspares entre o frio e o quente e uma história de 4,5 mil milhões de anos ligada à Terra. As missões Apollo levaram há precisamente 50 anos um ser humano para a superfície lunar e permitiram iniciar um caminho simbólico e histórico e só nos próximos anos vai ter os próximos capítulos. O objetivo? Estações lunares com humanos a viverem por lá já a partir de 2024 e, depois, Marte. Foi a 16 de julho de 1969, que começou a viagem que viria [...]

DN Ócio

Azeite: o trunfo mais discreto de Portugal

Somos o sexto maior produtor mundial de azeite, facto pouco ou nada conhecido entre os portugueses, mas a nossa relação com o produto está muito longe do esclarecimento. Está mais do que na hora de começar a olhar para o azeite como ativo, bandeira e aposta, escreve o crítico de comida Fernando Melo*. Quando isso acontecer, seremos os senhores incontestáveis do Mediterrâneo. Quando o autor grego Arquéstrato escreveu o seu extenso e exaustivo poema culinário, cerca de 400 a.C., já o azeite era utilizado há pelo menos dois mil anos como alimento, base de cozinha, tempero, bálsamo ou combustível. A [...]

Jovens, designers e mestres artesãos juntos para salvar a cestaria portuguesa

Primeira edição do Summer School está a decorrer em Lisboa até 2 de agosto. Dez jovens portugueses e internacionais, vão aprender técnicas de cestaria em vias de extinção e desenvolver peças contemporâneas. O resultado pode ser depois visto numa grande exposição no Museu de Arte Popular. Texto de Marina Almeida Em setembro do ano passado, Manuel Ferreira embalou alguns bancos de bunho e mandou-os para o porão do avião que o levaria a Veneza. Durante uma semana, trocou a oficina em Santarém pelos holofotes da Homo Faber, na ilha de San Giorgio Maggiore. O cesteiro foi mostrar à Europa que [...]