Opinião

Maria do Rosário Pedreira

Você (não) está aqui

Até há pouco tempo, quando viajávamos, o recepcionista do hotel tinha sempre à mão para nos entregar um mapa desdobrável que, regra geral, exibia no verso anúncios a restaurantes e espectáculos caça-turistas e uma planta ampliada do centro da cidade onde estavam assinalados com desenhos ingénuos os sítios que não podíamos deixar de visitar. E fazia um círculo a esferográfica na rua do hotel - como quem diz "Você está aqui" - marcando o início da caminhada e mostrando o trajecto até ao destino. Lembro-me também de ser comum encostar o carro à berma numa cidade desconhecida e abrir o vidro para perguntar a um transeunte onde ficava determinada rua. Contávamos connosco e com a bondade de estranhos.

Maria do Rosário Pedreira

Ricardo Paes Mamede

Quem sabe que políticas funcionam em Portugal?

Para que serve esta política? E funciona? Experimente fazer estas duas perguntas sobre uma qualquer política pública a alguém que, em princípio, deveria saber responder. Pergunte a governantes, deputados, especialistas, académicos, auditores, inspectores, directores-gerais, técnicos superiores do Estado, gestores de fundos europeus. Verá que poucos darão uma resposta clara àquelas duas questões, que parecem tão simples. É este o estado da avaliação de políticas públicas em Portugal.

Ricardo Paes Mamede

Viriato Soromenho-Marques

Para onde olha o anjo da história?

Um dos paradoxos do nosso tempo é a contradição entre a acumulação de desafios com impacto global, atual ou futurível, e a ausência ou ingenuidade das meditações acerca do seu diagnóstico e dos meios de os enfrentar. Uma das perdas irreparáveis causadas pelo nazismo foi o desaparecimento da derradeira linhagem de pensadores europeus - grande parte deles judeus completamente integrados na cultura e cidadania germânicas -, que se concentrava na construção de "visões do mundo" (Weltanschauungen), e que quando olhava para o futuro, pensava-o a partir de filosofias integrativas da história. Hoje temos especialistas em desafios titânicos, com risco ontológico planetário, como sejam a aceleração da crise ambiental e climática; a ameaça de grandes catástrofes com raiz nas novas tecnologias, como as nanotecnologias e as biotecnologias; o perigo de nos submetermos à ditadura digital de um sistema unificado de inteligência artificial; ou, ainda, de tropeçarmos no arsenal das armas de destruição maciça, porque elegemos ou consentirmos políticos iliteratos e moralmente grotescos para decidir sobre o seu uso. Mas faltava-nos a capacidade de pensar e dar sentido a tudo isso em conjunto.

Viriato Soromenho-Marques

Helena Tecedeiro

A arte de tirar cortiça do tio Zé

Quando se passa pelas estradas do Alentejo, é cenário comum o daquelas árvores de tronco avermelhado em contraste com os ramos escuros e rugosos. São sobreiros aos quais acabaram de tirar a cortiça. Tirar. Porque a cortiça não se recolhe nem se apanha, tira-se. De nove em nove anos, os homens sobem ao sobreiro e com o seu machado, a sua arte e o seu amor tiram a cortiça, um material usado nas rolhas das garrafas de todo o mundo e de que Portugal é o maior produtor.

Helena Tecedeiro

João Céu e Silva

Grande mesmo era Raul Cortez a fazer de Salieri

Protagonizar os grandes compositores no cinema é uma tarefa tão difícil como a de os próprios comporem grandes sinfonias, nada que tenha proibido vários cineastas de o tentarem. Talvez Mozart seja o mais fácil de replicar, usando os seus traços de genialidade desde criança como fez Milos Forman no premiadíssimo Amadeus. Após 13 nomeações, coisa não tão vulgar assim, levou oito Óscares para várias categorias, e deixou para sempre a imagem na mente dos espectadores do mundo (sur)real de Mozart, fixando a sua vida por várias gerações. No entanto, quando tento recordar o nome do ator que fazia de Mozart, nem uma vaga memória. Após uma busca descobre-se que foi Tom Hulce...

João Céu e Silva

Filomena Naves

Aquelas quatro notas

Pan pan pan paaam... Pan pan pan paam... Quatro notas límpidas - e todo um universo naquela ideia simples. Como uma pergunta lançada no ar, que se vai repetindo nos vários instrumentos de infinitas maneiras, aquele pan pan pan paam sucede-se numa escalada cada vez mais tensa, atravessa a orquestra, reinventa-se em timbres e alturas e, já à beira de não poder prosseguir, atinge um ponto de luz, e espraia-se no horizonte - para logo recomeçar. São talvez as mais famosas quatro notas do nosso imaginário musical, que as tornou suas de muitas maneiras: nas canções pop rock, no cinema, nos desenhos animados, no humor, e até na resistência à tirania. E se um cão chamado Beethoven nos faz sorrir, um cartoon nos arranca uma gargalhada e uma boa rockalhada à base das famosas quatro notas nos enche de pica (talvez não funcione para todos), a sua utilização na luta contra a guerra e a opressão não podia ser mais apropriada ao seu criador - Beethoven, claro.

Filomena Naves

Filipe Gil

Música como nos filmes

Tenho uma relação estranha com a música clássica. De tempos a tempos tenho urgência em ouvir. Seja a conduzir, a escrever ou a ler ou até mesmo nas raras vezes em que cozinho. Serve como uma espécie de "limpador" da música mais plástica que passamos o tempo o ouvir, quer na rádio ou nas listas que o algoritmo do Spotify nos impinge - como se fosse um amigo de longa data. Curiosamente, fui autodidata no que toca a colocar Mozart, Bach, e outros, nos meus ouvidos. Em pequeno, eram os Abba e músicas pop francesas que se ouvia com frequência no gira-discos lá de casa. Clássica nunca.

Filipe Gil

Como funcionam os efeitos visuais no cinema

Como funcionam os efeitos visuais no cinema

Um dos truques visuais que revolucionou a forma de fazer cinema (e, mais tarde, de fazer televisão ou qualquer outra produção audiovisual) foi a chegada do chroma. Esta técnica do "bluescreen" (ecrã azul, embora mais tarde se tenha popularizado o verde) não é nenhuma novidade: foi utilizada pela primeira vez no filme "O Ladrão de Bagdad", de 1940. O responsável pela ideia foi Lawrence W. Butler, embora o verdadeiro impulsionador do chroma tenha sido Petro Vlahos, que ganhou cinco Óscares pelos seus contributos na área dos efeitos visuais entre os anos sessenta e noventa.Já se passaram muitos anos desde então, mas a técnica introduzida por estes pioneiros foi sempre evoluindo, não ficando obsoleta. Agora até nos podem parecer grosseiros alguns dos recortes utilizados para situar os personagens em qualquer cenário sem sair do plateau, mas na época serviam para criar a ilusão necessária. Se há produções atuais em que o chroma brilha de forma especial são os filmes de super-heróis, tanto que no YouTube existem muitos vídeos em que se pode ver o Homem-Aranha ou o Super-Homem presos por cabos sobre um fundo verde. O certo é que, sem alcançar a perfeição nem a sofisticação destes grandes títulos, qualquer um pode fazer um chroma em casa: basta uma tela verde ou azul e um software de edição de vídeo que o suporte. E, para demonstrar como pode ser simples, Natalia Sprenger visitou um plateau para brincar com esta técnica.Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol | Marius Cirja Texto: José L. Álvarez Cedena

A equipa sénior de CS:GO

A equipa sénior de CS:GO

Os futebolistas de elite reformam-se em média aos 32 anos, ligeiramente abaixo da idade média de reforma dos jogadores de basquetebol (cerca de 35) e de alguns atletas, como os corredores de fundo. E, embora se saiba que as carreiras dos desportistas profissionais são cada vez mais longas (Rafael Nadal é o atual número 1 do ranking ATP, com 33 anos, e Lionel Messi, que parece não estar a pensar reformar-se apesar de já estar na casa dos 30), todos já reparámos que apenas alguns privilegiados conseguem manter-se na elite depois dos 40. Esta juventude obrigatória é ainda mais notória entre os desportistas eletrónicos, uma vez que os profissionais dos eSports raramente têm mais de 25 anos. Os motivos para reformas tão antecipadas são variados, embora um dos principais fatores seja a perda de reflexos que todos sofremos com a idade e que, no caso do gaming, se traduz numa menor capacidade para competir.Tendo em conta estes dados, torna-se ainda mais surpreendente o caso dos Silver Snipers, uma equipa sueca de CS:GO cujos cinco membros somam mais de 350 anos entre si. Enquanto outras pessoas da sua idade se dedicam a jogar petanca ou a alimentar os pombos sentados num banco de jardim, eles "vivem, riem, amam e matam terroristas", como diz na sua apresentação Öivind Torevund, o veterano do grupo, com 77 anos. Os seus quatro colegas são Wanja Godänge, Abbe Drakborg, Inger Grotteblad e Baltasar Aguirre. Patrocinados pela marca Lenovo, que reconheceu neles um grande potencial de comunicação, estes cinco avós jogadores transformaram-se em verdadeiras lendas nos torneios profissionais.Os Silver Snipers, começam a ser populares entre os fãs de eSports, são a primeira equipa profissional sénior do mundo, encontrando-se atualmente a fazer uma digressão que os levará a diversos países. Recentemente, partilharam na sua página oficial de Facebook uma reportagem que surgiu na capa do Yomiuri Shimbun, o jornal de maior tiragem do Japão. O responsável por afinar a pontaria e a estratégia destes reformados que garantem ter "tempo para matar" é Fredrik Andresson, uma autêntica lenda do Counter Strike já afastado da competição. Todos os membros da equipa asseguram que o jogo está a ter efeitos positivos na sua saúde. Numa entrevista ao diário chileno La Tercera, Aguirre afirmava que os seus reflexos "funcionam na perfeição, apesar dos anos. Além disso, para melhorar no jogo, é preciso cuidar do físico e, por isso, caminho muito mais do que antes."Joel Dalmau esteve com este grupo de jogadores entusiásticos e descobriu que, apesar do que o seu aspeto possa indicar, ainda "têm a barra de vida a 100%".Entrevista e edição: Joel Dalmau | Azahara Mígel | David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

Insider

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Empresa portuguesa líder em programação low-code abre novas formações em Portugal, expande-se para EUA, Holanda e Alemanha. Gestor explica-nos que esperam criar 500 novos postos de trabalho em Portugal este ano e 5 mil a nível mundial. É uma tecnologia que permite programar e criar em plena era digital de uma forma mais simples do que tem sido a norma quando se fala em programação. É o chamado low code que permitiu à empresa portuguesa OutSystems, criada por Paulo Rosado em 2001, não só tornar-se no segundo unicórnio português - empresa com mais de mil milhões de dólares de valor -, mas também tornar-se [...]

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A chinesa Tencent fez uma oferta de 148 milhões de dólares para comprar todas as ações da produtora de jogos norueguesa Funcom. Criada em 1993, a Funcom é responsável por jogos como Conan Exiles ou Age of Conan. A Tencent, considerada por muitos como a maior empresa de jogos do mundo, já detém uma participação de 29% da Funcom, empresa liderada pelo português Rui Casais. Esta participação foi anunciada em outubro de 2019. Esta quarta-feira, a empresa eleva a fasquia ao fazer uma oferta de 148 milhões de dólares (cerca de 133,5 milhões de euros) para adquirir todas as ações da empresa norueguesa. A Funcom é uma empresa cotada na bolsa de Oslo. A Tencent está [...]

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