Atualidade

Opinião

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Maria do Rosário Pedreira

Ricardo Paes Mamede

A longa marcha da educação em Portugal

Dois relatórios publicados na última semana - a edição de 2018 do estudo internacional PISA e o relatório anual do Conselho Nacional de Educação (CNE) - mostram os enormes avanços que tem havido na qualificação dos portugueses. Permitem-nos também identificar os problemas que persistem e alguns que se agravam. E apontam novos desafios que devem merecer a nossa atenção. Porventura, mais do que lhes têm dedicado as opções políticas recentes.

Ricardo Paes Mamede

Viriato Soromenho-Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Viriato Soromenho-Marques

Filomena Naves

Compras de Natal 

O bulício habitual já de si é pesado. Trânsito compacto logo cedo pela manhã, o para-arranca do escoar-se a cidade ao fim do dia, os comboios e o metro cheios de gente, os solavancos lentos dos autocarros - um movimento intenso, permanente, que atordoa. Mas à aproximação do Natal - e antes disso os saldos e as promoções, mais a Black Friday que se eterniza num fim de semana - parece que tudo ganha ainda mais velocidade, numa vertigem de compras que chega sem aviso e se instala, senhora dos nossos dias.

Filomena Naves

Ricardo Santos

Os meus 387 euros

Leio no Dinheiro Vivo (28-11-2019) que "os portugueses deverão gastar neste ano uma média de 387 euros em compras de Natal por agregado familiar". Diz a mesma notícia, baseada num estudo da Deloitte, que serão mais nove euros do que em 2018 e que a média europeia é de 461 euros. Tenho muito medo de médias, assustam-me. Se alguém receber cinco mil euros por mês e outra pessoa levar para casa 600, a média de ambos os ordenados é de 2800 euros. Parece simplista, não é? Mas é a verdade dos números.

Ricardo Santos

O circo com animais virtuais

O circo com animais virtuais

Alonso Trenado questiona o palhaço Fofito quanto á possibilidade de o Circo Roncalli substituir os tradicionais números com animais por sofisticados hologramas. O palhaço veterano não podia ter ficado mais entusiasmado: "Quem diria que podíamos ter um elefante na pista e que ninguém lhe consegue tocar".Aos habituais acrobatas, malabaristas, palhaços, equilibristas ou ilusionistas, juntam-se neste circo alemão gigantescos animais holográficos com mais de seis metros de altura. Para o conseguir, instalaram na parte superior da tenda onze lasers que projetam uma imagem de alta definição com 13.000 por 1.900 pixéis. A mais avançada tecnologia inserida num espetáculo tradicional com vários séculos de história, que se moderniza desta forma e evita uma das maiores polémicas que perseguiu o circo nos últimos anos, a dos maus-tratos a animais. E o melhor é que, no fim de contas, o espetáculo apresentado na pista do Roncalli através dos seus seres virtuais conseguiu o seu objetivo. Um objetivo que, sem dúvida, se manterá inalterado por muitos anos que passem: iludir, emocionar, entreter.Reportagem e edição: Alonso Trenado, Noelia Núñez, Ainara Nieves, Douglas Belisario, Cris del MoralTexto: José L. Álvarez Cedena

O rapaz de 15 anos que é especialista em Realidade Virtual

O rapaz de 15 anos que é especialista em Realidade Virtual

Sabarish é um dos jovens mais precoces em todo o mundo na criação de aplicações para VR e AR, e um dos programadores das HoloLens, o novo dispositivo da Microsoft. O adolescente de apenas 15 anos é fundador da WaypointAR, uma empresa que está a desenvolver uma solução para nos orientarmos e deslocarmos em grandes espaços fechados (como aeroportos ou centros comerciais) utilizando a realidade aumentada. A teoria de Sabarish é que, atualmente, os nossos smartphones são mais "uma interferência do que uma integração", já que interagimos com eles através de um ecrã bidimensional, algo que passará à história com a chegada do 3D e da realidade virtual. As grandes empresas tecnológicas como a Google, Apple, Facebook ou Microsoft concordam com a sua análise, daí os grandes investimentos que estão a fazer nestes setores e a importância de "aprender a criar aplicações para o mundo real que não existem em videojogos, marketing, entretenimento ou publicidade".A confiança demonstrada por Sabarish nas suas afirmações acerca do que considera que será a próxima "explosão tecnológica" não surpreende se tivermos em conta a determinação com que entrou neste território. Segundo escreveu no seu blogue em julho de 2017: "Quando comecei no mundo das aplicações de realidade virtual, não encontrava uma fonte que explicasse claramente os passos que devia seguir. Por isso, inventei-os eu mesmo." Apesar de ser considerado uma das pessoas mais influentes do mundo na área da VR, acredita que o que fez até agora é "um pouco banal" e, por isso, está empenhado em fazer algo nos próximos anos que ajude a tornar um pouco mais fácil a vida de milhões de pessoas.Entrevista e edição: Azahara Mígel, Noelia Núñez, Ainara NievesTexto: José L. Álvarez Cedena