Opinião

Porque estão as pessoas a marimbar-se para as europeias?

Sim, eu sei que está farto de ver políticos em arruadas, feiras e mercados. Que já não há paciência para as danças ridículas, para as voltinhas de bicicleta - ou de helicóptero - e para o político que decide tocar bateria, só para garantir que aquela imagem se torna viral. Bem sei que já não se aguentam os discursos inflamados e a reação à reação do outro que disse o que não queria dizer. Eu sei que temos todos bons motivos para não ligar nenhuma às eleições europeias. Mas se o erro de pensar assim não é nosso, as grandes vítimas da abstenção seremos nós.

Anselmo Crespo

Ui, o André Ventura!

Esta semana correu bem. Confirmou-se a radiografia que nos fazem e fazemos de nós: pegamos de cernelha. Vocês sabem, lá fora mata-se o touro, caça-se imigrantes ou vota-se por isso... Já nós somos um povo uno, sem guerras internas vai para dois séculos, somos, enfim, uns suíços que ainda por cima não são maçadores. Nesta semana, uma anunciada extrema-direita morreu na praia como uma alforreca. Nem era uma man-of-war, daquelas de tentáculos com poderes urticantes, era, afinal, só gelatina.

Ferreira Fernandes

Deitar fora a tralha que não interessa

"Não tenho nada em minha casa que não possa transportar no meu carro." Devíamos estar em 2003 ou 2004, conversávamos enquanto íamos andando ao longo de uma rua com poucos automóveis e árvores altas despidas de folhas, ladeada por prédios bonitos com casas de grandes janelas, e a frase da minha amiga mexicana, que eu conhecia há pouco tempo, pareceu-me apenas divertida. Falávamos sobre o tamanho das salas que conseguíamos ver para lá dos vidros das janelas, de como eram estupidamente grandes, quando ela disse aquilo. "Vou mudar de casa em breve. Para uma mais pequena." E, para facilitar a mudança, Selene ia novamente aplicar uma regra que já tinha há uns anos: tudo o que lhe entrava em casa e fazia parte do quotidiano dela tinha de caber no carro - e não, não era uma Ford Transit nem uma Toyota Hiace.

Paulo Farinha

Mon chéri

"Nestas serras o esquecimento está cheio de memória." A cem quilómetros de Cáceres, na Extremadura espanhola, a placa junto ao miradouro é daquelas que fazem pensar. A vista para as tais serras impressiona. Esta é terra de cereja, é o Vale do Jerte, a área de maior produção de cerejas de Espanha, com mais de um milhão e meio de árvores. E é a terra de um dos maiores massacres da história de Espanha. Mirador de la Memória é o nome daquele ponto de vista pejado de estátuas. Foi idealizado por Francisco Cedenilla Carrasco e é uma homenagem às vítimas da Guerra Civil Espanhola e da ditadura franquista. As imponentes estátuas têm marcas de balas do tamanho de cerejas. Em 2011, três anos depois da inauguração do espaço, pai e filho vieram aqui praticar tiro ao alvo, insatisfeitos com a democracia. Vandalizaram o miradouro a tiros de caçadeira. O Agrupamento de Cooperativas do Vale de Jerte tem mais de 3500 sócios, representa 80% da economia local e chega a uma média anual de 15 milhões de quilos de cereja. Feitas as contas, são cerca de 50 milhões de euros arrecadados por ano, fruto (que melhor palavra?) das vendas para o mercado espanhol e internacional. A Ferrero vem aqui buscar cerejas para as enfiar dentro de um bombom de chocolate inundado por licor. É um dos campeões de vendas da marca em cada Natal. E a cada Natal recorda-se por estas terras o 25 de dezembro de 1937, quando um grupo de 60 guardas civis fuzilou 34 homens no campo de tiro de um quartel de Cáceres, a cidade-museu da Extremadura. Eram professores, sindicalistas, militantes de partidos democráticos. E nem o alcaide da cidade escapou. Nos dias seguintes, a cifra chegou às 196 execuções. No tempo das cerejas, que não se esqueça o passado.

Ricardo Santos

A mosca da cereja que veio do Japão para o Fundão

Com Dum Dum não escapa um. Mata moscas, melgas e mosquitos. Recordo-me da embalagem do spray e do cheiro intenso que iria gasear o mosquedo da quinta dos meus avós. Era presença indispensável no cabaz de compras da minha avó Piedade quando se ia aviar à loja do Ti Chico Ferrador, na estação dos comboios de Castelo Novo, aos pés de granito da serra da Gardunha. No cabaz vinham ainda a cera búfalo, o tulicreme e o pão da "arraia". Era o princípio do verão, o junho do nosso contentamento. As tardes ficavam longas e quentes e as moscas começavam a sua lenta invasão, zumbindo em sonolência molengona a perturbar a sesta. A minha avó gaseava-as com "remédio para as moscas". O meu avô Manel preferia um método mais sustentável. Enrolava o Jornal do Fundão como se fosse um taco de basebol e pumba, sem dó nem piedade, acrescentava vírgulas e pontos finais esborrachando-as na capa do JF . Isto no tempo em que os jornais tinham outra utilidade, ou pelo menos alguma. Depois vieram outros métodos drosomicidas, como os sacos de água pendurados à porta ou os esturricantes aparelhos de néon, mas nunca nada foi tão eficiente como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô. Era junho e o ar cheirava a cerejas, que pintavam as árvores cor de rubi e se depenicavam em malgas com água fresca. Não haverá nunca sabor como o dessas cerejas, as dos meus avós. Eram pequenas mas carnudas, com lábios de beijos ternos. Também gostávamos de cuspir os caroços para o quintal para ver se mais nasciam. Quantas mais se cuspiam, mais nasciam. O princípio dos verões na quinta dos meus avós era o tempo das cerejas e das moscas. Agora as moscas são uma das grandes ameaças ao ouro vermelho do Fundão. A insaciável mosca tem nome de moto japonesa, chama-se Drosophila suzukii e, reza a lenda, veio a esvoaçar do Japão, onde a cereja é fruto sagrado de samurai, de vida breve mas intensa. No Japão, as cerejeiras chamam-se sakuras. Existem mais de 600 tipos de sakura, com flores rosa, branca e amarela. As cerejas japonesas chamam-se sakuranbo e são também um símbolo de amor erótico. Há uma sakura com mais de dois mil anos chamada jindai zakura. Tem mais de dez metros de altura e reza a lenda que foi plantada pelo imperador Takeru. Do Japão, voam charters de turistas para o Fundão para ver as cerejeiras em flor e o nosso "hanami beirão" (cerejeiras em flor). E se os turistas são que nem moscas, parece que as moscas do Japão aterraram no Fundão. A voraz suzukii, também conhecida como mosca-da-asa-manchada ou mosca-do-vinagre, é uma praga que perturba a produção de cereja na Cova da Beira. A glutona nipónica perfura o fruto aurífico, colocando lá os seus ovinhos que geram larvas e se alimentam do fruto da nossa seleção, até ele tombar podre e inútil. Há vários meios de combater o mosquedo, mas nenhum seria tão eficaz como o Jornal do Fundão nas mãos do meu avô ou a metralhadora Dum Dum nas mãos da minha avó.

Rui Pelejão

Ver Tudo

Assim são os autocarros sem motorista que já funcionam em Paris

“Senhor condutor, por favor, ponha o pé no acelerador...” A canção infantil que todos já cantámos, aos gritos, fazendo com que os condutores de autocarros ponderassem mudar de profissão, ficava-se por ali. Não equacionava – eram outros tempos – a hipótese de não haver condutor. E, no entanto, parece ser cada vez mais claro que o futuro dos veículos de transporte de passageiros, autocarros incluídos, passará por serem autónomos. Aliás, os autocarros sem condutor são uma realidade que já existe há algum tempo em vários sítios, entre eles no distrito financeiro de Paris.Navya, a companhia responsável por estes veículos a circular na capital francesa, é dirigida por um famoso empreendedor e empresário tecnológico, Christophe Sapet. Ele foi um dos fundadores do Infograme, um prestigiado estudo francês pioneiro sobre a criação de videojogos. Hoje, Sapet está concentrado no mundo da mobilidade urbana e Navya é uma das referências mundiais nesse campo: “Devemos pensar nos nossos sistemas de transporte para as cidades do futuro”, afirma. E um desses sistemas serão os autocarros e os táxis autónomos.No caso dos autocarros, a proposta da Navya, assegura-nos a empresa, é uma solução inovadora, ecológica (são veículos elétricos), eficaz e inteligente. E não só, visto que garantem que é cómoda para os seus passageiros, já que promete uma navegação suave. Além disso, em Paris é grátis, já que se trata de um projeto piloto. O Shuttle da Navya consegue transportar até 15 passageiros e está equipado com tecnologia de vanguarda de mapeamento, câmaras, sensores para evitar colisões e programas de aprendizagem de inteligência artificial que permitirão ao veículo tomar decisões competentes nas diversas situações de condução que poderá enfrentar.A Navya assegura, nos seus documentos, que a era dos veículos autónomos já começou e que nos próximos anos veremos um aumento neste tipo de transportes. E argumenta-o com números categóricos, como as 1 300 000 pessoas que perderam a vida em acidentes de viação do ano passado (uma pessoa a cada 25 segundos), as 1 500 000 que morreram por causa da poluição atmosférica, e as dezenas de horas que os condutores de grandes cidades, como Los Angeles ou Moscovo, perdem em engarrafamentos. Todos estes problemas podem ser atenuados com a consolidação de carros elétricos sem condutor: “E a Navya terá um papel predominante nesse mercado.”Entrevista e edição:  Noelia Núñez, David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

Máquinas Inteligentes para ajudar a salvar o planeta

Em 2015, Elon Musk e Steve Wozniak, entre outros 8 000 cientistas e líderes tecnológicos, assinaram uma carta aberta na qual alertavam para os riscos da inteligência artificial. Tratava-se de um alerta para a possibilidade de as máquinas virem a ser prejudiciais para os nossos interesses enquanto espécie, também partilhado pelo físico britânico Stephen Hawking, que garantia que a inteligência artificial podia ser “o melhor ou o pior que podia acontecer à espécie humana”. No entanto, gostemos mais ou menos, o futuro parece passar obrigatoriamente pelo convívio com máquinas responsáveis por fazerem parte do nosso trabalho, incluindo tarefas importantes, e não apenas tarefas mecânicas e repetitivas. Um artigo publicado na página online do Fórum Económico Mundial garantia que vivemos um momento histórico em termos de inteligência artificial, graças ao big data, aos avanços no hardware, a algoritmos cada vez mais potentes e ao desenvolvimento de programas de código aberto que reduzem as barreiras para entrar na indústria tecnológica. O artigo garantia que estas condições beneficiavam oito áreas em que a inteligência artificial podia ajudar a salvar o nosso planeta: veículos elétricos e autónomos, novas redes energéticas, agricultura inteligente, melhores previsões climáticas, resposta perante catástrofes naturais, cidades ligadas e sustentáveis, transparência digital e desenvolvimento científico. Claro que a inclusão da inteligência artificial na equação ambiental não é uma atualização futurista forçada da ideia “eles que inventem!”, de Unamuno. Não são as máquinas que vão resolver os problemas criados pelos humanos, e sim nós que as conduziremos para essa resolução. Aliás, há já várias iniciativas e propostas neste sentido. Uma delas é dirigida por Lucas Joppa, na Microsoft: “Estamos perante uma oportunidade fantástica para alocarmos alguma da nossa tecnologia mais sofisticada e algumas das nossas ferramentas à resolução de alguns dos desafios ambientais que enfrentamos atualmente.” Joppa é responsável de Meio Ambiente na empresa de Redmond e diretor do projeto AI for Earth, um compromisso de 50 milhões de dólares a cinco anos no qual a Microsoft centra as suas investigações no campo da inteligência artificial em quatro áreas específicas: agricultura, água, biodiversidade e alterações climáticas. O programa da Microsoft disponibiliza subsídios e acesso aos imensos recursos tecnológicos e de computação da empresa para projetos que procuram alterar os atuais modelos de gestão e exploração de recursos. Joppa acredita que os governos têm um papel fundamental nas soluções e iniciativas no âmbito das alterações climáticas, mas considera que as empresas não podem ficar paradas e devem assumir um papel de maior intervenção: “As empresas não precisam dos governos para agir. Nós podemos ser agentes de ação. Nós podemos definir a agenda que queremos implementar. Acho que, se olharmos para o sucesso do setor tecnológico em termos globais, vemos que a oportunidade para a tecnologia ajudar a acelerar uma agenda de sustentabilidade global mais vasta é enorme.” Entrevista e edição: Azahara Mígel, Noelia Núñez, Mikel Agirrezabalaga Texto: José L. Álvarez Cedena

Insider

Como o bloqueio à Huawei pode acabar com o domínio do Android e iOS

Com grandes desafios surgem grandes oportunidades. Um novo sistema operativo para smartphones feito pelas marcas chinesas pode dar nova alternativa aos dominantes Android e iOS da Apple e a Huawei está pronta para o lançar já no outono. Os problemas criam novas oportunidades. O recente bloqueio dos EUA à Huawei "é mau para todos". "Se a China retaliar na mesma moeda, tem poder para prejudicar seriamente e no imediato a Apple [que tem toda a sua produção centrada na China], mas também a Google e todo o mercado mundial de smartphones, prejudicando a economia dos EUA, da própria China e [...]

NOS. Testar 5G a conduzir um carro de emergência? "Em breve" poderá ser real

NOS está a testar 5G com Huawei. Teste em ambiente real deverá ser "muito em breve", diz operadora. Parece um jogo de consola, mas do outro lado, numa pista a vários metros de distância, estão a ser conduzidos dois veículos de emergência numa pista de kart. Motivo? Testar a tecnologia 5G que a NOS quer implementar no mercado nacional. "Estamos aqui para mostrar que as cidades também pode ser cidades 5.0", comenta Manuel Ramalho Eanes, administrador da NOS, durante a demonstração de 5G que a operadora está a realizar na FIL, em Lisboa, no Portugal Smart Cities Summit. "É a [...]

9 funcionalidades "secretas" do Google Maps que precisa de conhecer

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Portugueses no Top 10 dos mais interessados nas eleições europeias

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DN Ócio

Os novos pratos do The Insólito: qualidade com nomes estranhos

É insólito e surpreende. Não tanto pela irreverência dos nomes dos pratos mas pela qualidade dos ingredientes. O restaurante The Insólito tem uma das melhores vistas sobre Lisboa mas nem isso desvia a atenção do que nos colocam na mesa. Texto de Filipe Gil A "abertura" de Lisboa ao turismo de massas trouxe consigo um sem número de novos restaurantes, com mais ou menos qualidade. O certo é que, desde há cinco anos o panorama da capital portuguesa é totalmente diferente do que era. Nada de novo nem que surpreenda o leitor. Mas isso trouxe várias divisões nesta nova panóplia [...]

Cerejas: a origem, a história e as regiões de proviniência em Portugal. Um Ensaio de Fernando Melo

"Do cerejo ao castanho bem me amanho, do castanho ao cerejo mal me vejo." Assim glosa o povo português, estabelecendo o período da abundância entre a época da cereja, que já começou, e a da castanha, quando chegam os rigores de outono. Cereja é alegria, princípio e festa, pelo país inteiro. O crítico de comida e vinhos Fernando Melo escreve sobre o calendário - e as regiões - desse fruto tão apetecido. Os ciclos da natureza já são em si mesmo vibrantes e cheios de novidade, dia após dia, e nós humanos, que de certa forma insistimos em ser centro [...]

Joias de autor contra o estigma das doenças mentais

No dia 30 de maio a loja da Elements Contemporary Jewellery, no centro comercial Amoreiras, vai assumir o formato de galeria de arte e expor as obras originais dos artistas do Manicómio Lisboa. Manicómio with Elements, o nome do projeto, tem como objetivo a inclusão de pessoas com doenças mentais através da arte. Cada peça de autor é transportada para o universo das joias, resultando numa coleção de cinco peças, em séries limitadas de cinco exemplares numerados, acompanhadas de um certificado. 15% do valor de venda das peças diretamente para os artistas. Para mais tarde, noutro momento, está previsto a [...]

Elemento: o restaurante com a receita para criar com fogo

O chef lisboeta Ricardo Dias Ferreira depois de sete anos a viver na Austrália decidiu pegar fogo no Porto. Mais concretamente no seu restaurante "Elemento" especializado em fire dining. O que é isso? Explicamos nas linhas seguintes. Texto Filipe Gil Numa rua à beira da Avenida dos Aliados, há um restaurante em que o fogo é o elemento principal. Contudo, e apesar do protagonismo são os ingredientes a que dá aval que sobressaem. É isso que é o fire dinning. Um restaurante onde a tecnologia não entra. Nem gás, nem eletricidade. Só o fogo em diálogo próximo com os ingredientes [...]