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Opinião

Raúl M. Braga Pires

Marrocos-Espanha: nova crise diplomática

Decorrente do internamento em Espanha do líder sarauí Brahim Ghali, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos, Nasser Bourita, chegou mesmo a perguntar se a Espanha está disposta a sacrificar a sua relação com Marrocos, por causa do líder da POLISARIO. Indo de novo aos factos, já que há uma semana também referi o início deste episódio, indicam que Brahim Ghali terá entrado em Espanha no dia 22 de Abril, com identidade argelina (nome falso, portanto) e após contacto do governo argelino com as autoridades espanholas, solicitando autorização para o voo necessário e recepção do referido líder, tendo sido invocadas razões humanitárias. Infectado com covid, mas também a braços com um cancro, o paciente Ghali foi admitido numa clínica próxima de Saragoça. É a partir daqui que o imbróglio diplomático se começa a desenrolar, já que o actual líder da POLISARIO tem pendente na justiça espanhola um processo decorrente de uma queixa apresentada por um sarauí naturalizado espanhol, que o acusa, juntamente com outros 24 "polisários" e três generais argelinos de agressão, terrorismo, sequestro, desaparecimentos e assassinatos.Marrocos, actualmente em guerra com a República Árabe Sarauí Democrática, no território disputado por ambos, vulgo Sara Ocidental, não quer perder esta oportunidade para, de forma legal e com a visibilidade mediática mundial que lhe assiste, cortar a cabeça da sua "serpente de estimação", acrescentando este ganho aos restantes no terreno e nas Nações Unidas. Nesse sentido, pressiona as autoridades espanholas, elevando a fasquia ao limite possível, enquanto nuestros hermanos se embrulham em contradições, com a Audiência Nacional (o tribunal) a desmentir no passado dia 5 ter convocado Ghali para comparecer perante a justiça, quando no dia 3 fonte judiciária ligada ao processo tinha confirmado tal convocatória para o dia 5, em virtude das já referidas queixas apresentadas pelo cidadão Fadel Breika, dissidente sarauí naturalizado espanhol.Que vantagens esta disputa poderá trazer a Portugal? É preciso relativizar este elevar de tom marroquino, já que episódios anteriores semelhantes, como foram os casos do diferendo territorial sobre o rochedo Leila/Perejil em 2002, ou o do caso do pedófilo de Kenitra, Daniel Galvan Viña, em 2013, o que aconteceu na realidade, paralelamente ao subir de tom diplomático entre ambos os países, assistiu-se também a um aumento significativo do investimento de empresas espanholas no reino cherifiano. No entanto, Portugal não deverá descartar o facto de os marroquinos não perderem a oportunidade de se vingarem de espanhóis e franceses, sempre através dos portugueses e de actualmente estarem em cima da mesa dos grandes negócios e decisões megaprojectos relacionados com o cluster do hidrogénio verde e da produção de vacinas anticovid, a bomba atómica dos tempos modernos. Por outro lado, sempre defendi que o AICEP deverá ter preparado um plano de acção para, em ocasiões cíclicas como esta, avançar com a agressividade necessária em sectores nada negligenciáveis como o comércio de vinho, queijo, mel, azeite e até das carnes, inclusivamente sem descartar a salsicharia. Afinal, é disto que se trata a diplomacia económica!Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Raul M. Braga Pires

Miguel Romão

Trio Odemira: exploração, conveniência e acomodação

Em maio de 2020, há um ano, o presidente da Câmara Municipal de Odemira exigia, nos noticiários das televisões, uma quarentena obrigatória para quem chegasse ao "seu" concelho. "São muitos a viver em pequenos espaços, sem condições, cerca de 10 mil", em Odemira, reportava-se há um ano, com declarações desse aurífico autarca. Basta rever as reportagens disponíveis na internet (designadamente na TVI24, de 11 de maio de 2020). E essa suposta exigência de quarentena, na verdade, seria ilegal. E o próprio autarca tinha o dever de o saber, para mais afirmando que essa quarentena se deveria estender a qualquer pessoa que pretendesse entrar em Odemira, esse absurdo ilegal, mas à época, na competição sanitária a que assistíamos entre autarcas, provavelmente bem recebido.

Miguel Romão

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Sebastião Bugalho

Bonaparte, 200 anos depois

Cumprem-se hoje dois séculos da morte de Napoleão Bonaparte, corso, francês e europeu, falecido na remota ilha de Santa Helena em maio de 1821, calvo, obeso e doente. Imperador originalmente jacobino, tirano e homem de Estado, génio militar derrotado por distração, libertador e invasor, romântico e mulherengo, anónimo feito imortal, saiu deste mundo com 51 anos e um cancro, que autodiagnosticara com uma certeza que a autópsia confirmaria. Os seus últimos dias, no derradeiro exílio a que Inglaterra o sujeitou, foram tristes, ébrios e solitários, com avolumadas encomendas de vinho, longos banhos de imersão e um clima atlântico a que realmente nunca se acomodou. "Este calhau miserável" era a descrição que escarnecia da sua morada final. Os visitantes, quando os havia, pediam-lhe que relatasse batalhas e feitos do seu tempo, aos quais correspondia, abrindo mapas em cima da mesa de bilhar, segurando-os ao tapete com o peso das bolas e tratando a memória das suas vitórias "como um amante se lembra das suas paixões".

Sebastião Bugalho

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