Atualidade

Opinião

Ferreira Fernandes

Marega no país que o merece

Sou do país em que, ainda há meses, uma varina, no Lavadouro da Afurada, frente à cidade do Porto, abanava as ancas e o avental, suspirava "ó o Marega...", e gritava: "Coisa mai linda não há!" E eu, sinceramente admirado: o Marega, lindo? A varina rapou do jornal O Jogo e beijou-o todo na fotografia da capa. Sou o miúdo que passeava com a mãe pela Avenida dos Aliados, 1958. Cruzou-se connosco um anjo negro vestido como um príncipe, reconheci-o. Empanquei, vidrado: Miguel Arcanjo, o defesa central do clube que nem era o meu, mas o do meu pai, o Porto. Ele pôs-me a mão na cabeça, a minha mãe sorriu-me e sorriu-lhe, eu continuava nas nuvens. Mas ainda disse: "Ele também é de Angola...", a minha mãe não lia o Ídolos do Desporto. E ficaram a falar da nossa terra, eles; eu guardando no cabelo o afago.

Ferreira Fernandes

Viriato Soromenho-Marques

Quem salvará Sodoma?

O cinema é a arte filosófica por excelência. Uma espécie de estética total, que permite visualizar e dramatizar conceitos e ideias, fazer a razão e o entendimento ganharem rosto, voz e movimento. Quatro filmes recentes atingem o centro nevrálgico da angústia ética da nossa contemporaneidade: O Caso de Richard Jewell, de Clint Eastwood; Dark Waters, de Todd Haynes; Uma Vida Escondida, de Terrence Malick; J'Accuse, de Roman Polanski. O fio que entrelaça esses filmes, pensados e produzidos quase em simultâneo, é o de todos eles celebrarem exemplos reais de grandeza e coragem moral. O advogado Watson Bryant, erguendo-se em defesa de um pobre segurança que estava a ser imolado pela máquinas policial e mediática como bode expiatório do atentado terrorista nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996). O causídico Robert Bilott, que arrisca tudo para defender as vítimas de um gigantesco crime ambiental, dolosamente cometido e prolongado pela inimputável empresa química DuPont. Franz Jägerstätter, um anónimo camponês austríaco, que se recusa a prestar o juramento de fidelidade a Hitler, pagando com a vida, em 1943, por esse ato que já lhe mereceu a beatificação pela Igreja Católica (2007). O major Marie-Georges Picquart, que ao assumir o comando de um serviço militar de informações se apercebe da conspiração antijudaica no seio das altas patentes militares, no famoso caso Dreyfus (1894-1906). Intimado a calar-se, Picquart, com imensa bravura, tudo faz até conseguir resgatar a vítima inocente da sua agonia perpétua na Guiana Francesa.

Viriato Soromenho-Marques

Henrique Burnay

O triunfo dos poucos

Rui Tavares contou, há duas semanas, no Público, uma história deliciosa sobre a ida de Natália Correia aos Estados Unidos da América em 1950. Na altura encontrou-se com Norman Thomas, líder dos socialistas americanos, a quem pediu apoio para a oposição portuguesa a Salazar. Norman Thomas levou a poetisa portuguesa a um subúrbio operário, mostrou-lhe as casas com carro à porta, jardim à volta e eletrodomésticos lá dentro e explicou-lhe que num ambiente assim o socialismo não florescia.

Henrique Burnay

João Céu e Silva

As epidemias preguiçosas da modernidade

Num país atrasado como era Portugal no tempo do anterior regime era normal que as novidades fossem um sinal da modernidade a que os portugueses não tinham acesso e, portanto, estivessem muito disponíveis para abraçar. Fazer bandas como as dos Beatles mesmo que os discos deles só chegassem meses depois, por exemplo. Após a Revolução de Abril, ao olharem para as fotografias dos revolucionários, todos os homens deixaram crescer os cabelos e as barbas desordenadamente como as de Che Guevara e Fidel, por exemplo. Quando chegaram os CD, 99% abandonarem o vinil em pouco tempo, depois o MP3 e os downloads, por exemplo...

João Céu e Silva

Filomena Naves

"Gripado"

Era o tempo dos liceus e dos contínuos - não havia cá escolas secundárias nem auxiliares educativos -, e o senhor Simão, a quem todos chamavam o Gripado, era figura central daquele nosso pequeno grande mundo, em que tudo assumia proporções imensas e definitivas. Mesmo tudo: as injustiças e a vontade de as mudar; as músicas rebeldes "que vinham de fora" e que o núcleo de rádio passava em afronta ao reitor, que se fazia de surdo para manter a autoridade; os panfletos clandestinos de impressão mal-amanhada que em gestos secretos, e crendo salvar o mundo, trocávamos febrilmente atrás do pavilhão, e as amizades intensas, os segredos, as gargalhadas e as lágrimas, os primeiros amores e os primeiros beijos. Um mundo inteiro a girar no nosso pequeno mundo, que para nós era único, e para sempre o seria.

Filomena Naves

Carla Bernardino

O corte e a faca

A violência em contexto de intimidade já começa a somar vítimas em 2020. Desde denúncias previamente conhecidas às que ainda estão por denunciar, os cortes no amor feitos à faca começam cada vez mais cedo, na adolescência, e prosseguem vida fora, até ao limite da (des)esperança média de vida. Nesta semana acordámos com mais uma vítima, mulher, de 80 anos, que sucumbiu fatalmente às mãos do marido, também octogenário, e de uma faca. A seis cortes e uma separação decisiva e eterna.

Carla Bernardino

Aplicações pensadas para que nada nos tire o sono

Aplicações pensadas para que nada nos tire o sono

Se mantivermos uma média de oito horas de sono (entre seis e oito por dia para um adulto), passaremos mais de um quarto de século a dormir, nada menos do que um terço das nossas vidas. Um tempo que não é, de todo, um desperdício. Durante o sono, ocorrem funções imunológicas, endócrinas, de aprendizagem e de memória, recuperam-se energias e descontraem-se os músculos. Dormir ajuda a consolidar as novas recordações e a atualizar as antigas. De algum modo, o nosso cérebro sabe o que é importante para o nosso equilíbrio mental e o que é melhor descartar através do esquecimento. Doenças como a ansiedade ou a depressão estão, por vezes, relacionadas com maus hábitos de sono. Por isso, é fundamental dormir o suficiente e dormir bem.Nos últimos anos, surgiram algumas aplicações e dispositivos tecnológicos para nos ajudar a fazer algo que devia ser tão natural como beber ou comer e que, no entanto, com o ritmo acelerado da sociedade ocidental, se está a tornar num problema que afeta cada vez mais pessoas. De facto, segundo a Sociedade Espanhola de Neurologia, entre 20% e 48% da população adulta sofre, em algum momento da sua vida, de dificuldades em iniciar ou manter o sono. Entre estas invenções pensadas para nos ajudar a ter um sono de qualidade, incluem-se um dispositivo que pode ser colocado na testa, um tapete e uma almofada inteligente, todos eles ligados a aplicações móveis. América Valenzuela foi experimentá-los e analisou os seus resultados com Celia García Malo, uma neurologista especialista em sono.Edição: Azahara Mígel | Ainara NievesTexto: José L. Álvarez Cedena

A app que mostra o ângulo de inclinação da sua moto

A app que mostra o ângulo de inclinação da sua moto

"Há duas formas de chegar a casa. A primeira consiste em nunca sair. A outra consiste em dar a volta ao mundo até chegar ao ponto de partida." Esta frase, tão cheia de humor como de rebeldia meramente dissimulada, pertence à introdução de "O Homem Eterno", um dos livros mais conhecidos de um dos autores mais famosos do Reino Unido, G. K. Chesterton. O britânico foi um escritor notável e um destacado criador de aforismos: não há nenhuma página de citações na internet que não inclua algumas dezenas de frases suas. Não pelos pensamentos, mas sim pela descrição da paixão do viajante, a espanhola Alicia Sornosa tem muito em comum com Chesterton. Porque ela é uma daquelas mulheres que escolhe sempre o caminho mais longo para regressar a casa. Tanto que esse caminho a levou, há uns anos, a demonstrar a veracidade do aforismo, pois tal como ela própria descreve no seu website: "Saí em plena crise para dar 'uma volta de moto'. Em outubro de 2013, regressei a Espanha após ter percorrido os cinco continentes, conquistando o título de primeira europeia e mulher de língua espanhola deste século a dar uma volta ao mundo na sua moto."Acompanhados por Alicia, visitámos o quartel-general de uma marca mítica para os motards, a italiana Ducati. Foi lá que pôde testar a tecnologia instalada numa das melhores motos da marca, a Multistrada, equipada com vários sensores e ligações que permitem a comunicação entre a máquina e um dispositivo móvel. Através da tecnologia Bluetooth e de uma aplicação, o condutor pode não só ouvir música ou atender chamadas, como também registar várias informações, como a velocidade, o ângulo de inclinação, a aceleração ou a potência média utilizada num percurso. Esta aplicação permite ainda partilhar detalhes dos itinerários, imagens e comentários com a restante comunidade Ducati. Alicia, que percorreu estradas muito complicadas em países como o Quénia ou a Índia, conduziu esta moto pelos arredores de Bolonha e as suas impressões não podiam ser melhores.Entrevista e edição: Alicia Sornosa | Azahara Mígel | Ainara NievesTexto: José L. Álvarez Cedena

Insider

Bruxelas prepara plano para área da inteligência artificial

Bruxelas prepara plano para área da inteligência artificial

A União Europeia prepara-se para lançar um plano para a área da inteligência artificial, com o intuito de competir com a China e EUA. Não é segredo que a União Europeia tem vindo a desenvolver esforços na área da inteligência artificial, com o grande objetivo de reduzir a desvantagem europeia e combater as posições dominantes da China e dos Estados Unidos neste tema. Depois de já ter apresentado planos para o desenvolvimento de inteligência artificial ética, em janeiro do ano passado, a Comissão Europeia estará agora a preparar um novo plano para a IA. Segundo avança a Bloomberg, este plano poderá ser desvendado [...]

ISEC debate questões éticas e necessidade de regulação da transformação digital

ISEC debate questões éticas e necessidade de regulação da transformação digital

O Instituto Superior de Engenharia de Coimbra discute o impacto da transformação digital na sociedade esta quarta-feira. Com temas como a inteligência artificial, automação ou robótica na ordem do dia, o Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC) debate esta quarta-feira, dia 19 de fevereiro, os desafios éticos que surgem com a inovação e desenvolvimento da tecnologia. "Há valores a preservar na relação entre o Humano e a máquina", ressalva António Cunha, professor catedrático e especialista em investigação ligada à transformação digital, que será orador na conferência "Engenharia e Inovação no Contexto da Transformação Digital". Em nota de imprensa, António [...]

Mark Zuckerberg quer tratamento regulatório mais apertado para o Facebook

Mark Zuckerberg quer tratamento regulatório mais apertado para o Facebook

Durante um discurso em Munique, na Alemanha, Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, voltou a pedir um novo enquadramento regulatório para a rede social. Num artigo de opinião no Financial Times, já tinha pedido nova regulação, mesmo que isso seja prejudicial para o negócio, notou. Em declarações feitas durante a Conferência de Segurança de Munique, o líder da maior rede social do mundo indicou que pensa "que deveria haver maior regulação em relação a conteúdos perigosos... mas há a questão de que enquadramento é que deve ser usado". "Neste momento, há dois enquadramentos existente para a indústrias - como [...]

Banco Cambridge & Counties vai usar tecnologia low-code da portuguesa OutSystems

Banco Cambridge & Counties vai usar tecnologia low-code da portuguesa OutSystems

O Cambridge & Counties Bank passará a recorrer à plataforma de low-code criada pela portuguesa OutSystems, com o objetivo de impulsionar a transformação digital do banco sediado em Leicester. Através de comunicado, a OutSystems indica que, numa fase inicial, a instituição bancária usará a tecnologia da empresa portuguesa para "desenvolver quatro componentes principais da sua plataforma digital de front-end: uma aplicação de registo online, uma aplicação interna para agentes, avaliação de risco de clientes e um portal de serviços". O Cambridge & Counties Bank foi criado em 2012, resultante de uma parceria entre a Universidade de Cambridge Trinitty Hall e o fundo de pensões locais do governo de Cambridge e Cambridgeshire. Cada uma das partes [...]

V Digital

O Pagani Imola é a variante mais radical do Huayra

Pagani Imola: o superdesportivo que custa 6 milhões e já está esgotado

A empresa italiana revelou imagens do Pagani Imola, a variante mais radical do Huayra, pensada para condução em circuito, ainda que a marca o anuncie como superdesportivo homologado para estrada. Chama-se Imola porque foi na famosa pista italiana que foi desenvolvido, afinado e testado. Segundo o fabricante, o modelo completou cerca de 16.000 km naquele traçado, distância mais do que suficiente para cumprir por três vezes as 24 Horas de Le Mans. O Imola tem um preço que rondará os 6 milhões euros (sem extras...) e será fabricado numa edição limitada a apenas 5 unidades, todas já com dono...

Na China, o Mi 10 mais barato custa o equivalente a 530 euros

Com o Xiaomi Mi 10, a marca chinesa está cada vez menos "lowcost"

A Xiaomi quer vender cada vez mais em todo mundo e ganhar credibilidade. E um dos caminhos para lá chegar é fazer equipamentos com qualidade e que muitos utilizadores querem. Uma qualidade, que apesar de tudo, tem faltado à marca chinesa. Resta é saber se com os novos topo-de-gama, a família Mi 10, a Xiaomi consegue lá chegar e isso, só se saberá quando forem postos à venda na Europa. A data da apresentação é ainda uma incógnita, graças ao coronavírus.