Opinião

A falsa polémica sobre o Nosso Modo de Vida

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs novos nomes aos diversos pelouros do seu governo. Acabou em polémica. Em geral costumo gostar da imaginação ao serviço dos nomes. Se os nomes dos condomínios de luxo são quase sempre pretensiosos (Varandas das Buganvílias...), já os das operações da PJ costumam ser bem esgalhados: chamar Cartas Fora do Baralho a um vulgar desvio de correspondência deram ao caso um não sei quê de poético. O angolano José Vieira Mateus da Graça, quando virou escritor, rebatizou-se Luandino Vieira, o que fez de uma sua condição fundamental, ser luandino (luandense), também sua identidade pública e reconhecida. Para muitos, o nome é acaso, mas outros exigem-lhe mais, um real significado.

Ferreira Fernandes

O entorpecimento da humanidade face ao grande embuste global

1. O problema começou muito antes das acções criminosas dos palhaços Trump e Bolsonaro (o primeiro rasgando o Acordo de Paris, de 2015, que Obama assinara, tal como a União Europeia; o segundo a destruir conscientemente a Amazónia - ambos por motivos aparentes de desenvolvimento económico dos respectivos países, e que se lixe o mundo como um todo). O principal objectivo deste Acordo é "travar" o aquecimento global obrigando a medidas que não o deixem chegar aos 2º C, mantendo-o preferencialmente em 1,5º C, e entrando em vigor a partir de 2020.

Miguel Graça Moura

Envelhecer, entre Almodóvar, o espelho e o SNS

Quando é que começamos a pensar que gostávamos de ter menos uns anos? Em que fase a vida nos parece crescer para trás e encurtar para a frente? Algumas pessoas responderão a estas perguntas com negativismo, acentuando a inadaptação a novos tempos. Outras terão ideia contrária: por vezes percebemos que os desafios a que estamos sujeitos precisavam de mais tempo para os resolvermos do que o que vamos ter. E é nestas duas ideias que se traçam, não só a personalidade de quem vai envelhecendo, como as tendências sociológicas que determinam a forma como olhamos para os mais velhos - e, nelas, as políticas que se seguem a este respeito.

Catarina Carvalho

A salto

Um dia desapareceu. Não fez avisos, não deixou carta, nenhuma explicação. Simplesmente deixou de aparecer na loja de tecidos do velho tio que, mais por piedade, o acolhera. António atendia às vezes ao balcão e até encantava as senhoras da boa sociedade provinciana, mas quando a conversa passava para os tecidos a coisa descarrilava. António não distinguia um tweed de um algodão, uma seda de um linho fino, ou de uma chita barata. E o pior, invetivava o tio, irrepreensível no seu fato de bom corte, era que António não queria aprender. O jovem olhava-o com um olhar sonhador, dizia "sim, meu tio", e calava-se.

Filomena Naves

Comprar um bilhete para a ficção real

Há uma comédia de Arnold Schwarzenegger em que um jovem que adora filmes recebe do projetista do cinema aonde vai frequentemente um bilhete especial, que tem o dom de o transportar para dentro da ação do que está a passar na tela. Em Last Action Hero, Schwarzenegger faz o seu habitual papel, o de um polícia que luta contra o mal, afinal o objetivo de quase todos os filmes do género, mesmo que pelo meio mate dezenas de bandidos, dispare centenas de balas e destrua cenários e carros sucessivos. O jovem participa do que vai acontecer no filme e diz algumas das deixas habituais do ator, como se fizesse parte da aventura cinematográfica e conhecesse os seus tiques habituais: "I'll be back", por exemplo.

João Céu e Silva

Voar ou o Euromilhões ao contrário

Aperto o cinto, fecho os olhos, agarro-me aos braços da cadeira e tento apagar o cérebro (o que no meu caso é quase impossível, dado o nível de overthinking que o encharca). Isto acontece em todas as descolagens e aterragens. Ao mínimo solavanco, sobressalto-me de tal forma que o vizinho do lado, conhecido ou desconhecido, dá sinal de contágio. O medo tem esse efeito. Durante a viagem vou de olhos postos no ecrã com o aviãozinho, a ver em que ponto da rota estou e o tempo que falta para chegar. De tempos a tempos, observo, perscrutante, o estado de espírito da tripulação. Nem as refeições nem o chá, café ou laranjada me distraem.

Catarina Pires

Ver Tudo

Apps para aproveitar a comida que vai ser desperdiçada

Nada reflete melhor a enorme e injusta desigualdade em que vivem os habitantes deste planeta do que o número de seres humanos que morre anualmente devido à fome. Na apresentação do último relatório da FAO (a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o seu diretor de Estatística, Pietro Gennari, falava de um "panorama sombrio". "Quatro anos após o lançamento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, retrocedemos no que se refere a acabar com a fome e a tornar sustentáveis a agricultura e a gestão dos recursos naturais, tanto terrestres como dos nossos oceanos." De acordo com a FAO, atualmente mais de 820 milhões de pessoas sofrem de fome no mundo e, além disso, o número de vítimas aumentou pelo terceiro ano consecutivo. Este número arrepiante transforma-se em indignação quando o cruzamos com os dados relativos aos alimentos que são desperdiçados diariamente no mundo. Alguns estudos, como o publicado por Tristram Stuart no seu livro Waste: Uncovering the Global Food Scandal, asseguram que a quantidade de comida desperdiçada anualmente no planeta é superior à necessária para matar a fome a essas pessoas. Produzimos em excesso e deitamos fora. É esse o absurdo. Na Europa, são desperdiçados todos os anos 89 milhões de toneladas de alimentos avaliados em 143 mil milhões de euros.Face à ridícula e imoral inação de quem poderia adotar soluções de fundo, há quem se organize com recurso à tecnologia para dar um pequeno contributo na direção certa. Nada melhor para evitar que a comida acabe no caixote do lixo do que oferecê-la a quem está mais próximo. É uma espécie de versão millennial da senhora dos filmes americanos que oferece uma tarte de maçã para dar as boas-vindas à vizinhança. Trata-se da Olio, uma aplicação criada por duas empreendedoras (Tessa Clarke e Saasha Celestial-One) que ajuda os vizinhos a partilhar a comida que não vão consumir. As trocas são totalmente gratuitas e a ideia seduziu mais de um milhão de pessoas em 49 países, baseando-se em algo realmente inspirador: fazer uma coisa boa pelo planeta e, ao mesmo, conhecer as pessoas que vivem perto de nós e com as quais estabelecemos uma relação mais próxima.Se a Olio assenta no contacto entre vizinhos, a Too Good To Go procura um impacto global através daquilo a que chama "the food waste revolution". Esta aplicação móvel, que encabeça o movimento, também é simples: o utilizador paga através da aplicação um pacote de comida de um estabelecimento local (restaurantes, frutarias, padarias, etc.), com a particularidade de o fazer a um preço mais baixo, já que se trata dos excedentes dos estabelecimentos. Ao mesmo tempo que poupa dinheiro, colabora para uma boa causa. O movimento Too Good To Go pretende lutar contra o desperdício alimentar, trabalhando com base em quatro pilares: famílias, empresas, escolas e regulação política. Uma luta que nos diz respeito a todos, sobretudo se atentarmos às recomendações de Chad Frischmann, reconhecido perito ambientalista, que apoia online este movimento: "Reduzir o desperdício alimentar é uma das medidas mais importantes que podemos tomar para reverter as alterações climáticas."Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol, Cristina LópezTexto: José L. Álvarez Cedena

Drones impressos em 3D para as crianças programarem nas escolas

O acrónimo STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é uma das palavras da moda. Cada vez que alguém pergunta como enfrentar as futuras revoluções digitais ou se formulam cenários de profissões do futuro, o STEM surge como estrela. Trata-se de um simples capricho ou de uma evidência comprovada? De acordo com um estudo da Randstad Research, em 2022 serão necessários em Espanha 1.25 milhões de postos de trabalho qualificados para fazer face à digitalização e robotização da grande maioria das tarefas produtivas. Neste caso, poderia afirmar-se que, para evitar que os robôs acabem por nos roubar o trabalho, o melhor é aprender a construí-los e programá-los. Curiosamente, embora se conheça a necessidade de formação em STEM para enfrentar esta grande mudança, o número de licenciados nestas áreas não aumenta de ano para ano. Antes pelo contrário: em 2021, espera-se que se formem cerca de 57 600 estudantes, um número bastante inferior aos 69 113 que o fizeram em 2016. Este défice também pode ser observado no mercado de trabalho, onde, segundo a Adecco, existem menos 60% de engenheiros informáticos do que os atualmente necessários em toda a Europa.Geralmente consideradas matérias difíceis, a ciência em geral (e a matemática em particular) despertaram demasiadas vezes a antipatia dos mais jovens. É uma ideia injusta que esconde, sem dúvida, uma forma pouco feliz de as ensinar que talvez tenha travado um bom número de vocações. A empresa catalã Bonadrone nasce precisamente com o objetivo de despertar vocações científicas. Para isso, desenvolveu kits de construção de drones que incluem material docente centrado no desenho CAD, na impressão 3D, na eletrónica ou na programação. "Queremos levar as novas tecnologias aos estabelecimentos de ensino, pois é lá que se cria o potencial do futuro", garante Alex Cazorla, cofundador da Bonadrone. "O que vemos hoje é que muitos professores querem ensinar novas tecnologias, mas não sabem como. Queremos disponibilizar todas as ferramentas para que isso seja possível." Com a ajuda dos professores, os alunos não só montarão os seus drones, como terão também a tarefa contínua de programar o aparelho e de incluir sensores que lhes permitirão desenvolver diferentes projetos.Segundo Cazorla é necessária uma mudança de mentalidade em relação a uma forma de ensino que se está a tornar obsoleta: "O ensino ainda é unidirecional, ou seja, o professor explica e os alunos ouvem. Não consideramos que seja um bom sistema de aprendizagem." Defende uma mudança de sistema segundo a qual "o protagonista será o aluno e não o professor. O professor tem de ser apenas mais uma ferramenta do sistema educativo."Entrevista e edição: Azahara Mígel, Cristina del Moral Texto: José L. Álvarez Cedena