Silva Ribeiro: "Conseguimos estancar a saída de militares das Forças Armadas"

Nesta entrevista que marca o 70.º aniversário da criação do cargo de CEMGFA, o almirante Silva Ribeiro admite que foi difícil "resgatar" o prestígio das Forças Armadas do caso de Tancos. E avisa que a espionagem de potências estrangeiras está a aumentar

António Silva Ribeiro, oficial-general da Marinha, é, desde 2018, chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas. Tem 63 anos, é doutorado em Ciência Política e professor catedrático convidado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, onde leciona Relações Internacionais e Estudos Estratégicos.

A entrar nos últimos meses do seu mandato, que termina em março do próximo ano, faz uma avaliação objetiva das dificuldades das Forças Armadas, mas também da forma de as superar.

As qualidades de comunicador e estratega deram a este almirante vantagens ímpares no comando e coordenação dos militares.


Assinala-se neste ano o 70.º aniversário da criação do seu cargo - chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA). Há uma relação direta entre este momento e Portugal tornar-se membro da NATO?
Sim, é uma consequência direta da adesão de Portugal à NATO, em abril de 1949. Tivemos de criar um conjunto de órgãos para poder participar nos trabalhos da Aliança. Portugal, nessa altura, não tinha um chefe militar que representasse as Forças Armadas. Tínhamos o ministro da Marinha, o do Exército e o secretário de Estado da Aeronáutica.

Mas neste ano também se comemoram os 46 anos da criação do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), o que até pode parecer um pouco absurdo. Então havia um CEMGFA e não havia o Estado-Maior? É que quando foi criado, em 1950, o CEMGFA era apenas chefe de um pequeno órgão que apoiava o ministro da Defesa Nacional, o Secretariado-Geral da Defesa Nacional.

A seguir ao 25 de Abril é que foi criado o Estado-Maior-General, para participar não só no planeamento e no aprontamento das Forças Armadas, em território nacional, mas também em todos os trabalhos da NATO. Começámos a adaptar-nos àquilo que eram as exigências do novo Portugal, que surge após a independência das colónias.

Até aí, a atividade das Forças Armadas era, essencialmente, de aprontamento das forças para empenhar os três teatros operacionais: Guiné, Angola e Moçambique. Só para ter uma ideia, em 1974 tínhamos cerca de 244 mil militares no ativo, hoje temos cerca de 25 mil. As Forças Armadas são hoje dez vezes mais pequenas.

Desse esforço militar, em cenários de guerra tradicionais, passámos, neste ano, para uma nova realidade. Foi um grande esforço para as Forças Armadas adaptarem-se a esta nova realidade ditada pela pandemia?
Foi, porque a pandemia apanhou-nos a todos de surpresa. A todos, em todo o mundo. Aquilo que fizemos foi, a partir de fevereiro, começar a desenvolver um conjunto de trabalhos de planeamento para criar capacidades que permitissem acorrer às necessidades do país. Definimos uma estratégia baseada em três pilares - prevenir, preservar e responder - que ainda está em vigor e que será atualizada para uma putativa segunda vaga.

Começámos por prevenir o contágio dos nossos militares, para que pudéssemos acorrer às necessidades do país, e preservar, também, ao máximo, as nossas capacidades operacionais.

Não interrompemos a atividade operacional das Forças Armadas e temos militares em quatro continentes, além das atividades normais de treino, em Portugal, e todas as ações de busca e salvamento e de vigilância do nosso espaço aéreo e marítimo, que nunca foram interrompidas.

Depois, responder. E o responder, nessa altura, era uma incógnita. Mas, fruto da criação, aqui no Estado-Maior, de um grupo de especialistas que foi lendo a literatura mundial e acompanhando a situação nos outros países - uma espécie de um radar que nos avisou, com antecedência, dos perigos que podiam chegar a Portugal -, percebemos rapidamente o que podia aí vir, pelo que estava a acontecer noutros países.

Fomos tomando medidas, como a criação de centros de acolhimento de doentes, e como aquela solicitação de voluntários que fizemos à família militar. Sabíamos que havia a possibilidade de o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e até do Sistema de Saúde das Forças Armadas entrarem numa situação de esforço máximo.

Ativámos também o Comando Conjunto de Operações Militares (CCOM) para que pudéssemos ter tudo controlado e planeado e agir de forma coesa, e não cada ramo por si. Estas medidas ajudaram a responder rapidamente logo que os problemas iam surgindo.

É por isso que, quando surgiram os problemas nos lares, como em Albergaria, Vila Real, nós imediatamente empenhámos o Hospital Militar das Forças Armadas (HFAR), no Porto, até à nossa capacidade máxima.

Foi assim também quando fizemos as desinfeções dos lares e das escolas. Como temos o Laboratório Militar, também começámos a produzir desinfetante e medicamentos.

Direcionámos as nossas capacidades de combate à guerra nuclear, biológica, química e radiológica, para esta nova ameaça, que tem particularidades semelhantes. Fomos adaptando as nossas capacidades militares àquilo que eram os desafios da crise. E esta é a grande vantagem da instituição militar.

"É que esta capacidade ímpar de apoiarmos as necessidades do país em situações imprevistas só é possível porque treinamos para combater."

É que esta capacidade ímpar de apoiarmos as necessidades do país em situações imprevistas só é possível porque treinamos para combater.

E como é que se estão a preparar para a "putativa" segunda vaga?
Mantivemos a estratégia que defini, a de prevenir, preservar e responder. Estamos agora a afiná-la, com base nas lições aprendidas do que se verificou no período de março a julho.

Por exemplo, já temos um centro de acolhimento de doentes em prontidão de seis horas, outros em prontidão de 72 horas. Há também procedimentos que necessitavam de ser melhorados e que foram afinados, e que, agora, nesta eventual segunda vaga, vão ser postos em prática, para garantir um melhor comando e controlo das Forças Armadas.

Esta maior presença na sociedade civil é algo que pode continuar para o futuro, não falando só em relação à pandemia?
Uma das missões das Forças Armadas é contribuir para o desenvolvimento e o bem-estar da população. Fazemo-lo tradicionalmente dentro das missões que eram os apoios à Proteção Civil.

Agora, evidentemente que esta pandemia veio lançar um conjunto de desafios diferentes daqueles a que estávamos habituados. Todos sabemos que as questões de natureza ambiental e sanitária se estão a tornar preocupações securitárias em todo o mundo.

Temos de ter consciência de que os Estados têm os seus instrumentos militares e que eles são muito úteis para ser empenhados nestas circunstâncias. Estas questões estão a ser debatidas com grande profundidade a nível militar, inclusivamente na NATO.

"Este conceito de duplo uso das forças militares é algo que está a ser trabalhado há mais de uma década no nosso país."

Este conceito de duplo uso das forças militares é algo que está a ser trabalhado há mais de uma década no nosso país. Empenhar as as Forças Armadas em operações militares, mas, ao mesmo tempo, aproveitar essas competências excecionais que as Forças Armadas têm para servir os cidadãos nas emergências civis de qualquer natureza.

Pode dar algum exemplo de novos meios que podem empenhar nesse tipo de missões?
Além de tudo o que já referi em relação ao desempenho extraordinário do HFAR no apoio aos lares, ao trabalho do Laboratório Militar e à adaptação para a desinfeção das escolas e das nossas capacidades de combate para a guerra química, temos também o reforço dos meios aéreos da Força Aérea para o combate aos incêndios, quer com helicópteros quer com os 12 drones adquiridos.

Em relação aos drones, ainda não estão todos operacionais. Há atrasos na entrega, até...
Há uma questão que é importante clarificar a esse respeito. Neste momento estão a operar três drones, que são a capacidade inicial. Quando nas Forças Armadas se desenvolve uma capacidade tem de se desenvolver um conjunto de aspetos, relacionados com a doutrina, com a organização, com o treino, com a logística, etc.

Neste mês, vamos realizar um exercício para desenvolver o conceito de emprego desses drones, por determinação do senhor ministro da Defesa. Este período inicial de avaliação, do emprego operacional, já permitiu esboçar um projeto de conceito de emprego.

"Os drones vão ser operados por pilotos da Força Aérea, do Exército e da Marinha, e vão ser conjugados com equipas em terra, porque é assim que se tira um verdadeiro resultado da utilização dos drones."

Vai ter, genericamente, as seguintes características: os drones vão ser operados por pilotos da Força Aérea, do Exército e da Marinha, e vão ser conjugados com equipas em terra, porque é assim que se tira um verdadeiro resultado da utilização dos drones.

Os drones vêm o panorama em altitude e, depois, as equipas por terra, dirigem-se aos locais onde existem eventuais problemas, para tomar as ações que forem necessárias. Isto, evidentemente, é o emprego conjunto dos três ramos das Forças Armadas na utilização destes drones, e não apenas da Força Aérea.

Na sua diretiva estratégica 2018-2020 ambicionava, entre outros, a reforma no sistema de saúde das Forças Armadas. Em que ponto estamos?
A reforma do sistema de saúde foi iniciada há mais de uma década. Quando assumi o cargo, em 2018, subsistiam problemas graves, até por interrupção de algumas medidas que tinham sido iniciadas no passado.

Criámos um grupo de trabalho que apresentou um conjunto de propostas, ao então ministro da Defesa, professor Azeredo Lopes, que deu novas orientações. Trabalhámos nessas orientações e apresentámos os resultados ao novo ministro, Dr. João Cravinho, o qual deu também novas orientações.

Na sequência disso, apresentámos, com algum atraso devido à pandemia, dez relatórios, cobertos por um memorando e um parecer do CEMGFA, sobre o caminho que nos afigura que deve ser seguido. Esse memorando e esses relatórios estão na posse do senhor ministro. Não sei qual vai ser a decisão, pois foi entregue muito recentemente, no passado dia 2.

E quais são essas propostas?
Criar sinergias entre as unidades dos diferentes ramos é uma delas. Há localidades sem serviços de saúde, mas há outras com serviços dos três ramos, e isso, no nosso entender, não deve acontecer.

Aqui rentabiliza-se, porque o que nos interessa é colocar médicos militares no HFAR, onde temos carência. Mas não queria estar a adiantar mais. Será o senhor ministro a anunciar as decisões.

"O que posso dizer é que as Forças Armadas entregaram um conjunto de relatórios com soluções destinadas a resolver problemas, alguns deles que se arrastam há uma década no sistema de saúde."

O que posso dizer é que as Forças Armadas entregaram um conjunto de relatórios com soluções destinadas a resolver problemas, alguns deles que se arrastam há uma década no sistema de saúde.

E eu estou perfeitamente convencido de que vão ser encontradas soluções e o sistema de saúde militar vai começar a funcionar com muito mais eficácia e eficiência do que funciona hoje.

E o reabilitado antigo Hospital Militar de Belém, sob coordenação do Exército, está associado a este plano de sinergia entre todos os ramos?
Sim, está prevista a hipótese de essa infraestrutura vir a desempenhar uma nova função no quadro do sistema de saúde militar.

Uma melhor articulação com o Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) e com as polícias do Sistema de Segurança Interna (SSI) era outra ambição da sua diretiva. O que temos na prática?
Começando pelos serviços de informações, a coordenação entre o nosso Centro de Informações e Segurança Militares [CISMIL] e o SIRP é excelente. Já temos até atividade conjunta, por exemplo, para apoiar as nossas forças nacionais destacadas.

Uma das transformações concretizadas foi focalizar o CISMIL nas operações militares, fazendo, com o pessoal que temos, aquilo que era prioritário. Contamos com as informações estratégicas do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa [SIED] do SIRP para percebermos a conjuntura política e estratégica dos países onde temos operações militares.

Mas não só. Também entre o CISMIL e o Serviço de Informações de Segurança [SIS], o braço interno do SIRP, se aprofundou o trabalho conjunto.

"Temos de ter consciência de que as atividades de espionagem no nosso país incrementaram e algumas delas incidem sobre capacidades militares."

Temos de ter consciência de que as atividades de espionagem no nosso país incrementaram e algumas delas incidem sobre capacidades militares. Isto exige uma grande articulação entre CISMIL, que tem essa responsabilidade dentro das Forças Armadas, e o SIS, que é uma ajuda essencial a garantir a segurança militar do país.

Consegue dizer desde que momento se notou esse aumento da espionagem?
Nota-se de há quatro, cinco anos para cá. Com atores distintos. Um há mais tempo, outro há dois anos.

Está a falar de potências diferentes.
Exatamente, potências diferentes que eu não quero caracterizar, e em áreas muito distintas. São ações de espionagem feitas por agentes e também no campo da ciberdefesa. Estou a falar em ações militares, que é aquilo que nós trabalhamos, exclusivamente.


Que género de missões têm os espiões militares junto das forças nacionais destacadas?
Temos um grande desafio, neste momento, na República Centro-Africana [RCA]. O conflito tem evoluído quer na introdução de armas quer no aparecimento de novos atores.

"Em relação à perigosidade das ações, muito recentemente começaram a aparecer engenhos explosivos nas bermas das estradas, como os que existem no Iraque e no Afeganistão."

Por exemplo, em relação à perigosidade das ações, muito recentemente começaram a aparecer engenhos explosivos nas bermas das estradas, como os que existem no Iraque e no Afeganistão.

Por isso, temos de nos adaptar, não só os nossos equipamentos, os nossos armamentos, mas também na nossa necessidade de informações. É aquele lema que o SIED tem: "Adivinhar perigos e evitá-los." É o que nós procuramos fazer para que os nossos militares estejam em segurança.

E em relação à articulação com as polícias? Desde que foi assinado um protocolo em fevereiro passado, já foram definidas as regras com que podem acontecer possíveis operações conjuntas? No início da pandemia houve um episódio com a PSP que revelou alguma falta de coordenação...
Muito em breve vou propor à senhora secretária-geral do SSI a realização de um seminário, talvez em novembro, e de um exercício CPX, que é um exercício em gabinete, para trabalharmos em conjunto com as forças de segurança e debatermos todas as formas de implementação do documento de articulação operacional.

Não podemos pegar nesse documento e levá-lo para a aplicação prática de forma imediata sem termos treinado, testado e desenvolvido entendimentos comuns.

"O documento de articulação operacional não é para o emprego das Forças Armadas na pandemia, mas sim para o combate às ameaças transnacionais."

Quanto às dificuldades que referiu na parte inicial da pandemia, quero distinguir, claramente, o seguinte: o documento de articulação operacional não é para o emprego das Forças Armadas na pandemia, mas sim para o combate às ameaças transnacionais.

Para o emprego das Forças Armadas em situação de estado de emergência, que é o que estava em causa - era necessário ter havido um decreto que desse legitimidade às Forças Armadas para atuar.

E esse documento nunca existiu, embora as Forças Armadas tivessem feito o seu trabalho. Dialoguei, várias vezes, com o senhor ministro da Defesa sobre essa problemática.

Fizemos o estudo necessário para que, se ela viesse a ser premente, todo o trabalho de planeamento estivesse feito. Agora, ainda bem que as Forças Armadas não foram empregues.

Quer dizer que as forças de segurança cumpriram exemplarmente a sua missão e que os cidadãos acataram, muito bem, todas as recomendações que o Governo fez.

Não temos nenhuma preocupação com o emprego. Queremos é estar prontos para quando o país precisa. E foi isso que nós acautelámos.

Há cerca de um ano disse que a situação das Forças Armadas era "insustentável" devido à falta de recursos humanos. Mais de 15 mil militares tinham, até ao final do ano passado, abandonado as fileiras e existiam menos seis mil nos três ramos do que era suposto. A pandemia foi um teste a esta capacidade humana?
Sim, foi. Há um ano referia-me a um fenómeno que, felizmente, foi travado. Na última década, sensivelmente, estávamos a perder cerca de mil militares todos os anos. E conseguimos estancar a saída de militares das Forças Armadas.

O Ministério da Defesa fez um plano para recrutar, reter e reinserir, baseado em 34 medidas, que começam agora a ter efeito. Aquilo que aconteceu foi que de 2019 para 2020 estancou-se essa perda anual de mil militares. Neste ano até temos cerca 25 600 militares, mais 200 do que tínhamos no ano passado.

Quais são os fatores que mais podem influenciar essa recuperação? Salários? Melhores condições?
É o conjunto de 34 medidas que foram aprovadas. Vou destacar cinco, que são estruturantes para a capacidade de recrutar e reter. Em primeiro lugar, criar os quadros permanentes de praças no Exército e na Força Aérea. É um trabalho que está a ser feito e que terá conclusão a breve prazo.

"Na Marinha faltam 700 praças, no Exército cerca de 4000, e na Força Aérea cerca de mil."

Só a Marinha é que tem, e isso, de alguma forma, pode justificar o menor impacto que as saídas têm neste ramo. Na Marinha faltam 700 praças, no Exército cerca de 4000, e na Força Aérea cerca de mil - neste último caso falamos de um ramo com um efetivo de apenas 7000. São situações muito delicadas no Exército e na Força Aérea.

Se houver carreiras de praças, esta situação vai melhorar. Depois, temos de criar melhores condições de habitabilidade nas nossas unidades, o que está a ser feito através da lei das infraestruturas militares, na qual estão consignadas verbas da ordem dos 20 milhões de euros para essa tarefa.

Outra medida essencial é a realização profissional dos militares. E este ponto está intimamente ligado às operações militares e ao emprego dos militares nas forças nacionais destacadas em quatro continentes.

Nós empenhamos cerca de 2000 militares por ano no estrangeiro, para além daquilo que são as missões operacionais em território nacional. Isso é um motivo de orgulho. O problema que temos é ao nível das praças, e os jovens vêm para as Forças Armadas para realizar operações militares.

Evidentemente que se empenham com grande brio, coragem e dedicação também nas operações de apoio à Proteção Civil. Mas não podemos esquecer que as operações militares são aquilo que atrai.

Outra condição é o prestígio das Forças Armadas. Apesar do problema gravíssimo que vivemos, associado a Tancos, com o contributo, que eu destacaria, relevantíssimo, do senhor Presidente da República, do senhor primeiro-ministro, dos membros do Governo, e também do empenhamento direto dos chefes militares, e fruto do desempenho nas operações, tanto em território nacional como no estrangeiro, houve uma recuperação do prestígio das Forças Armada.

Por último, como referiram, as remunerações. Verifica-se, de facto, algum desfasamento entre as compensações que os militares têm, sobretudo aos mais baixos níveis de praças e nos postos iniciais, com aquilo que são as compensações em forças congéneres, como as polícias, que ganham verbas mais elevadas.

Já houve uma primeira correção em relação aos militares que, quando faziam a recruta, recebiam abaixo do salário mínimo. Já não acontece. Mas há outros aspetos que foram estudados; as propostas já foram apresentadas ao senhor ministro e estão a ser trabalhadas pela senhora secretária de Estado de Recursos Humanos e Antigos Combatentes.

Em relação aos antigos combatentes já se resolveu um conjunto de problemas, e estou convencido de que as questões de natureza contributiva e estatutária também vão ser resolvidas.

Há algum plano especial para atrair as jovens mulheres? Como tem evoluído o recrutamento de mulheres?
Existem dois planos que contribuem para atrair as jovens mulheres para as Forças Armadas: o Plano de Ação para a Profissionalização e o Plano Setorial da Defesa Nacional para a Igualdade.

Estão previstas, entre outras, medidas de proteção na parentalidade, criação de equipamentos sociais, como creches e espaços de acolhimento de atividades de tempos livres, junto das unidades militares.

O EMGFA já avançou também com algumas iniciativas de aproximação das Forças Armadas à sociedade, que também contribuem para o reforço das mulheres nas fileiras, de que saliento: o Programa de Divulgação das Forças Armadas, em coordenação com os três ramos, com as iniciativas, "Alista-te por um dia", "Cidadania e Forças Armadas", "Portugal e Forças Armadas"; e a criação de estágios curriculares no EMGFA, que teve uma enorme adesão de alunas de várias universidades das áreas de Relações Internacionais, Estratégia, Gestão e Comunicação.

"Na última década, a percentagem de militares do sexo feminino nas Forças Armadas tem-se mantido nos 11%, situação similar à de outros países europeus."

Na última década, a percentagem de militares do sexo feminino nas Forças Armadas tem-se mantido nos 11%, situação similar à de outros países europeus.

E quanto à falta de meios materiais nas Forças Armadas em geral - temos escrito mais particularmente sobre a Marinha e sobre o diminuto número de navios operacionais -, o que pode dizer sobre isto e como é que se pode inverter esta situação?
É uma situação que afeta de forma diferente os ramos. O grande instrumento para inversão desta situação é a Lei da Programação Militar [LPM]. Para o quadriénio em que estamos está prevista, para a Marinha, a construção de seis navios patrulha oceânicos e o início dos trabalhos de construção do navio reabastecedor com capacidades logísticas acrescidas.

Porque, como se sabe, coma perda do Bérrio [navio reabastecedor], a Marinha perdeu uma capacidade operacional considerável. O Exército já começou a receber as viaturas táticas blindadas, que estão empenhadas na RCA, e estão a ser adquiridos equipamentos relacionados com o programa Soldado do Futuro e que vão dar condições de segurança e desempenho operacional aos nossos militares.

Para a Força Aérea são os KC-390 e os helicópteros Koala. Claro que temos consciência das limitações de um plano que se estende por quatro quadriénios. Por isso, o que há a fazer é, na próxima revisão da LPM, definir prioridades e direcionar o dinheiro para outros meios.

Já foram recusadas ou suspensas missões devido a falta de meios?
Não foram, mas o esforço que, nomeadamente, a Marinha está a fazer é muito grande. Estive na semana passada no Funchal e vi que o navio que assegura o dispositivo no Funchal é um navio hidrográfico.

Que está a fazer fiscalização...
... e isso é sinal de que há deficiência de patrulhas. Mas tenho a certeza de que a Marinha e o Ministério da Defesa, em conjunto, estão profundamente empenhados em criar condições para que haja ou se retome os projetos de construção dos seis patrulhas oceânicos, que tanta falta fazem à Marinha.

Há alguma hipótese de não se concretizar a construção do navio multiúsos, que pode ser usado para situações de emergência, evacuação, deslocação de tropas, dado ao avultado custo?
Não creio. Acredito que poderá ser encontrada uma solução semelhante à de outros países, ou seja, um navio que desempenhe, simultaneamente, as funções de navio polivalente, para transporte de carga mas que também faça reabastecimento.

Isto é, conjugar, num só navio, as capacidades de reabastecedor, que era aquelas que o Bérrio tinha, com as capacidades que a Marinha pretendia - e estava nos seus planos estratégicos - do navio polivalente logístico, podia ser para transportar os fuzileiros, para acorrer a essas emergências civis. Eu julgo que será esse o caminho que se seguirá.

Por falar em projeção de militares, como se explica aos portugueses que tenhamos militares na RCA e não em Moçambique, país com o qual temos afinidades históricas, para apoiar no combate contra os terroristas em Cabo Delgado? Não estamos onde queremos, mas onde os governos pedem para estarmos?
Exatamente. A situação que se verifica em Moçambique é muito preocupante, aflige-nos a todos, pelo conhecimento, pelos nossos laços culturais e pelas relações que temos com aquele país irmão.

Mas é uma questão soberana de Moçambique. Terá Moçambique de dialogar com países amigos, com as Nações Unidas, com organizações internacionais, se entender que necessita de apoio para acorrer àqueles problemas. Agora, que o problema é complexo, é.

Não existe nenhuma preocupação especial em não enviar forças para países que foram colónias portuguesas?
Não existe preocupação nenhuma. Temos tido todo o apoio de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, sempre que nós precisamos de apoio para projetar as nossas forças. Temos em São Tomé um navio de guerra, o patrulha Zaire, que, no tempo colonial, tinha feito comissões no país.

Há elogios sistemáticos às nossas forças na RCA. Baseiam-se em quê? Numa capacidade realmente de intervenção diferente das outras forças que lá estão?
Nós temos soldados que são altamente competentes e ser humanos extraordinários. É isso que distingue os militares portugueses. São competentes porque, em primeiro lugar, são educados na nossa sociedade, e são gente corajosa, brava, abnegada, disposta a fazer grandes sacrifícios.

Depois, são objeto de um aprontamento muito cuidado. A força na RCA tem 190 militares - três controladores aéreos da Força Aérea, 90 militares combatentes (comandos e paraquedistas do Exército) e pessoal de apoio, porque para aquela máquina de guerra funcionar tem de estar muito bem apoiada logisticamente, entre outros, no campo sanitário e em cuidados médicos, de manutenção das 45 viaturas que ali estão, alimentação, etc.

Esta companhia tem também o melhor armamento e equipamento. Depois, como seres humanos, de facto, são extraordinários. Nós, portugueses, temos uma maneira de estar no mundo que é diferente, de grande fraternidade, de grande ligação às populações locais.

Os nossos militares organizam campanhas de recolha de material escolar, de brinquedos, de camisolas das nossas equipas de futebol, e depois oferecem em ações nas escolas. Tratam com grande humanidade os cidadãos da RCA, incluindo os próprios inimigos.

O compromisso com a NATO de aumentar para 2% o PIB da Defesa vai ser cumprido? E de que forma vão as Forças Armadas beneficiar?
Estamos a aproximar-nos, sim, mas temos de ter consciência da situação em que o país está, com uma crise financeira que se arrasta desde 2010.

"Essa meta da NATO não pode, evidentemente, comprometer aquilo que são as condições de vida dos nossos cidadãos."

Essa meta da NATO não pode, evidentemente, comprometer aquilo que são as condições de vida dos nossos cidadãos. Essa é que é a primeira prioridade. E as Forças Armadas estão perfeitamente conscientes disso e não querem nenhum estatuto particular.

O que foi mais difícil para si desde que tomou posse, em 2018?
O mais difícil foi o esforço que fizemos para resgatar as Forças Armadas da situação de Tancos. Foi uma situação inadmissível que afetou o prestígio das Forças Armadas. Isso foi muito difícil e obrigou a um esforço coletivo de muita gente para que essa situação fosse ultrapassada.

Mas também foram muito difíceis os trabalhos da reforma da saúde. Gerar os consensos necessários nas Forças Armadas, nos três ramos, para termos o conjunto de propostas que foi apresentado ao senhor ministro.

Como viu a notícia, que demos há uma semana, da investigação às suspeitas de infiltração da extrema-direita nas Forças Armadas?
As Forças Armadas pautam-se por atuações de acordo com a Constituição, com a lei e com os seus regulamentos. Qualquer desvio, de qualquer natureza, dentro das Forças Armadas será punido pelos regulamentos. Serão objeto de participações ao Ministério Público, e aquilo que os chefes militares procurarão fazer é aplicar a Constituição e a lei com todo o rigor. Portanto, não há qualquer tolerância para desvios comportamentais dentro das Forças Armadas. Porque é isso que se espera de umas Forças Armadas num país democrático.

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