Há 7800 voluntários nas Forças Armadas na guerra ao covid-19

As Forças Armadas não se mostram surpreendidas com a resposta de milhares de pessoas ao convite lançado para voluntários. Já foram chamados 60, a maioria da área da saúde e para apoio hospitalar.

João Paulo Pinhal diz que "está nas nuvens" a trabalhar oito horas por dia como voluntário na lavandaria do polo do Porto do Hospital das Forças Armadas (HFAR). Carlos Silva, um segurança do Montijo que foi fuzileiro, ainda não foi chamado mas está pronto para vestir de novo a farda e fazer o que lhe destinarem. "Nunca fui homem de ficar nas trincheiras", exclama. Isabel Santiago, uma especialista em comunicação de crise na área da saúde, é "voluntária por natureza" e aguarda a chamada do Estado-Maior-General das Forças Armadas. Pedro Rebelo é enfermeiro, especializado em cuidados intensivos e doenças infetocontagiosas e sentiu que "havia uma missão a cumprir". (ver histórias mais abaixo)

Todos integram a shortlist dos primeiros 60 voluntários que o EMGFA já escolheu e que estão a ser colocados no HFAR de Lisboa e do Porto e em alguns dos centros de acolhimento preparados pelas Forças Armadas em várias unidades por todo o país.

Nesta quarta-feira, segundo os dados facultados ao DN pelo EMGFA, a bolsa de voluntários para apoiar a guerra contra a pandemia provocada pelo novo coronavírus estava quase a bater os 7800 (7797, precisamente), mas "esse número sobe todos os dias", indicou o tenente-coronel Paulo Cruz, coordenador do programa.

Esta bolsa de candidatos, sublinha, por seu lado, o porta-voz do EMGFA, "não são voluntários para as Forças Armadas, mas para uma situação concreta - colaborar especificamente na resposta à pandemia de covid-19". Não está previsto, para já, o aproveitamento desta bolsa para outras ações futuras das FAA, designadamente no apoio à Proteção Civil.

A quantidade de candidatos não surpreendeu este oficial, "pois os portugueses são conhecidos pela sua solidariedade quando há problemas". No entanto, sublinha, "esse número já parece enorme, se tivermos em conta o pânico que está instalado na sociedade em geral".

1162 voluntários da área médica

As seis dezenas de voluntários chamados foram recebidos por Paulo Cruz e foram avisados do que os esperava, que possivelmente iam estar em locais onde estavam pessoas infetadas. "Nenhum desistiu", sublinha o oficial.

Segundo os dados organizados pelo EMGFA, havia, neste recente levantamento, 1162 voluntários da área da saúde: 93 médicos, 95 farmacêuticos, 217 enfermeiros, 266 psicólogos e 491 técnicos e auxiliares de ação médica. Estes são os "prioritários" para as FAA, mas não quer dizer que não sejam utilizadas pessoas com outras competências. A maioria, 6635, são de outras profissões.

Poderão igualmente ser contactados voluntários com outras valências, tais como relações públicas ou gestão de recursos humanos, para colaborarem na gestão da atividade de voluntariado, incluindo a angariação e distribuição dos voluntários pelos vários locais

"Poderão igualmente ser contactados voluntários com outras valências, tais como relações públicas ou gestão de recursos humanos, para colaborarem na gestão da atividade de voluntariado, incluindo a angariação e distribuição dos voluntários pelos vários locais, de acordo com as necessidades", explica o porta-voz do EMGFA.

Neste momento, exemplifica, foram chamados para trabalhar no gabinete do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (Almirante Silva Ribeiro), dois civis voluntários, um especializado em gestão de recursos humanos, outro em gestão de catástrofes.

O plano prevê a utilização dos voluntários em apoio ao HFAR, aos centros de acolhimento militares, aos centros de acolhimento para utentes do Serviço Nacional de Saúde, instalados em unidades militares, e ao hospital de campanha da Cidade Universitária.

Todas as idades e origens

"A seleção e a convocação", sublinha o porta-voz, "serão realizadas com base nas listas divulgadas, sendo o seu acolhimento, enquadramento e coordenação assegurados pelos locais de exercício da atividade de voluntariado. De acordo com a sua experiência profissional, poderão prestar apoio nos diferentes hospitais e centros de acolhimento e do apoio hospitalar - serviços de lavandaria, apoio à segurança, alimentação, secretariado, higienização, transportes, entre outras".

a relação de voluntários inscritos "compreende um universo de cidadãos oriundos das diversas áreas geográficas do território (continente e ilhas), de todas as faixas etárias e com habilitações profissionais variadas. Há de tudo

No que foi possível ao EMGFA analisar, a pedido do DN, a relação de voluntários inscritos "compreende um universo de cidadãos oriundos das diversas áreas geográficas do território (continente e ilhas), de todas as faixas etárias e com habilitações profissionais variadas. Há de tudo", afiança o coordenador do programa: "Motoristas, pintores, eletricistas, bombeiros, cabeleireiros, ex-militares, tudo o que se possa imaginar."

Os primeiros a ser selecionados passaram por uma triagem prévia em que lhes foi perguntado qual a sua disponibilidade durante 30 dias. "É preciso termos uma ideia aproximada do que podemos contar para conseguirmos organizar escalas e turnos. A maior parte das pessoas podem vir dois, três dias por semana, várias estão em teletrabalho e têm mais disponibilidade, e temos também médicos dos centros de saúde que podem vir umas quantas horas", sublinha Paulo Cruz.

"As pessoas sentiram que podem contribuir, não ficaram conformadas em ficar em cada e querem sentir-se úteis", frisa.

Para o João Paulo, que já está a tratar da roupa do hospital do Porto, "não há outro lugar" onde se "sentisse melhor", apesar de a mulher o ter ameaçado que o punha a dormir "noutro quarto", conta, divertido. Mas resolveu-se, "com uma condição: além de me desinfetar todo e tomar banho quando saio do hospital, obriga-me a tomar banho e a desinfetar-me quando chego a casa".

João Paulo Pinhal, trabalhava no ramo automóvel

Este voluntário do Porto, 52 anos, que fabricava peças de automóveis, já está a trabalhar na lavandaria no polo do Hospital Militar daquela cidade. Diz que sempre teve o "bichinho" do voluntariado. Foi bombeiro e socorrista e, quando fez a tropa, em 1989, integrou o batalhão do serviço de saúde do Exército. "Estou nas nuvens aqui neste trabalho", afirma. Conta que foi já "vítima" do covid-19, pois a empresa onde trabalhava fechou. Está "muito contente" por poder estar ali oito horas por dia.

Isabel Santiago, especialista em comunicação

Investigadora da Faculdade de Medicina, é especialista em comunicação de crise em saúde pública. Uma valência que acredita ser de "grande utilidade" nesta pandemia. Isabel Santiago recebeu o e-mail do EMGFA a 24 de março, mas a 28 soube que estava infetada com o covid-19. Mas não desiste e até acha que pode ser uma "vantagem", porque depois poderá ficar imune e não corre riscos. "Não podemos fugir à nossa natureza", afirma Isabel, que também faz voluntariado na Caritas e na Refood.

Carlos Silva, ex-fuzileiro, atual segurança

A mãe quase deixou de falar a Carlos Silva, 41 anos, quando este lhe disse que se tinha voluntariado para ajudar as Forças Armadas no combate à pandemia. "Ficou muito renitente, mas sabe que não sou homem de ficar na trincheira e que dou o corpo às balas", sublinha este ex-oficial fuzileiro, função que desempenhou durante nove anos. Agora é segurança em carrinhas de transporte de valores. "Assim que vi a evolução das coisas, senti logo que tinha de fazer alguma coisa para ajudar", sublinha.

Pedro Rebelo, enfermeiro

Este enfermeiro de 36 anos trabalha diariamente no Hospital de Santa Maria, na unidade de cuidados intensivos. Ofereceu-se para voluntário e será nos seis dias de folga que vai dar o seu contributo. Filho de militar, não fez a tropa, por decisão do próprio pai, mas sente que "havia uma missão por cumprir". A sua especialidade é de grande importância no Hospital das Forças Armadas e por isso foi um dos primeiros a serem chamados. "Fazia todo o sentido", diz.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG