Tino de Rans: "Criticam-me por ter estado três meses no Big Brother. O Marcelo está há cinco anos"

Ainda não tem "um tostão" mas sabe que a sua campanha vai custar 16 mil euros. Para Vitorino Silva - Tino de Rans - é "uma vergonha" que neste tempo haja financiamento público das campanhas. O mau resultado nas legislativas explica-o com o facto de ter sido "abafado" pelos media

Vitorino Francisco da Rocha e Silva, nasceu em Penafiel e tem 49 anos. É popularmente conhecido como Tino de Rans - a freguesia em Penafiel onde foi presidente de junta por dois mandatos. É calceteiro e funcionário da Câmara Municipal do Porto. Foi militante do PS mas há um ano e meio fundou o partido RIR (Reagir, Incluir, Reciclar). Em 2016 candidatou-se a Presidente da República, obtendo cerca de 152 mil votos (3,28%), e agora volta a concorrer.

Apresenta-se para dizer o quê de diferente aos portugueses? O que há em si que seja único, face aos outros candidatos? Que bandeira é que o define?
Sou o candidato mais próximo do povo. Quando digo que o meu gabinete é a rua digo que tenho o maior gabinete do que todos os políticos. Estes têm um gabinete num 12º andar e em que saem do elevador para os carros e só aparecem e só mostram a cara em tempo de eleições ou quando estão em televisão. Não se misturam com o povo, no dia-a-dia. No fundo, no fundo, sou um mensageiro da vez e da voz do povo. O povo precisa de ter vez e o povo precisa de ter voz e nos outros candidatos nenhum está em condições...Acho que estou à frente nessa área, sou o candidato que ouve o povo mais vezes.

Então o que o diferencia dos outros é o seu discurso ou é o seu percurso de vida?
É uma mistura dos dois. Muita gente conhece o Vitorino - ou o Tino - do palco. Mas o Tino não é só palco. Por trás do palco há um homem normal, uma pessoa normal com uma vida anormal. Anormal, porquê? Porque o Tino não tem medo de fazer coisas. As pessoas criticam-me por fazer... um livro, um disco. Fico triste quando as pessoas me criticam por fazer. Sei que a vida é só uma, sou um homem que tem a certeza que há muitas oportunidades. A mensagem que quero passar é que as pessoas devem aproveitar as oportunidades que vão surgindo. Hoje em dia um homem ou uma mulher não tem que fazer a mesma coisa a vida inteira. Costumo dizer que um homem que faz a mesma coisa a vida inteira, para ser o melhor naquela coisa, morre analfabeto. Um homem para ser culto tem de fazer um pouco de tudo. No tempo do meu pai, as pessoas trabalhavam a vida inteira na mesma profissão e com o mesmo patrão. A geração a seguir tinha a mesma profissão mas mudava de patrão. Nós hoje em dia temos de nos adaptar porque o tempo corre de uma forma diferente que corria há 50 anos atrás. E eu tenho muito orgulho de ter educado uma filha, que tem hoje 23 anos, que sabe muito mais do que eu. É a minha maior vitória como pai e como educador.

É calceteiro de profissão...
Calceteiro por amor, costumo dizer que sou um tatuador de chãos. Sou um privilegiado, tenho a arte mais bonita que existe, um dia ainda vai ser Património Mundial. E há uma coisa que eu gosto muito na minha profissão. Às vezes as pessoas olham para um calceteiro de maneira redutora. Não. Ser calceteiro é uma profissão muito nobre, é uma profissão com muita dignidade e a minha profissão é o que eu gosto de fazer. E permite-me fazer a coisa que eu mais gosto que é pensar. Enquanto trabalho com o corpo das 8h30 às cinco da tarde liberto a cabeça. Há muita gente que tem profissões de risco e com muito stress e estão sempre a trabalhar com a cabeça e quando chegam às 17h00 estão completamente rotos, cansados. Eu deito-me sempre sem estar cansado e acordo sempre sem estar cansado e há muita gente que acorda já cansada.

Há pouco evocava a sua infância, com uma vida difícil, muitos irmãos. Conhece muito bem a pobreza. Só sendo pobre é que se conseguem fazer políticas a sério contra a pobreza? É preciso conhecer a realidade da pobreza para depois poder agir sobre a pobreza?
Eu não acredito naquilo que vejo. Às vezes penso que vejo - e não vejo. Acredito naquilo que vivo. E vivi muito. Fiquei sem pai quando tinha nove anos. A minha mãe tinha oito filhos pequenos, no tempo em que não havia subsídios, nada, nada, nada. E quem fez de nosso pai quando o nosso pai morreu foi um campo que nós tínhamos e de onde tirávamos o produto para a mesa: onde tínhamos batatas, onde tínhamos o gado.

Parece que é preciso conhecer essa realidade para depois poder agir sobre ela, de alguma forma mudar o mundo, transformá-lo em algo melhor...
Mas nunca fomos coitadinhos. Do meu pai herdei uma samarra para me cobrir e um despertador para me acordar. A minha mãe disse-nos, quando o meu pai morreu: "Há uma coisa que o vosso pai gostava, se fosse vivo, que vocês nunca fizessem: nunca peçam esmola. Porque quem pede esmola perde dignidade". Hoje em dia os políticos de hoje em dia passam muito tempo a pedir esmola - e esmola ao estrangeiro. É essa dignidade que falta a Portugal como um Estado.

A política portuguesa, começando pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e continuando pelo primeiro-ministro António Costa, é excessivamente elitista e por isso não sabe como combater a pobreza?
Todos nós temos histórias, temos altos e baixos, costumo dizer que já estive muitas vezes na valeta. Mas quando estou na valeta o que faço é tirar o melhor da valeta. Não me esqueço que nas últimas legislativas, em que não fui eleito deputado pelo Porto por umas décimas, o telefone deixou de tocar pelas 22h00...

"A minha mensagem é a verdade do povo. Quando digo que sou povo e que estou misturado, toda a gente sabe que muitos dos outros candidatos não são. Eles não se misturam."

Não considera que temos uma classe política dominada por um certo elitismo?
Há muitos nomes de família. Não devemos esquecer que Portugal tem nove séculos. Há mudanças de regime. Mas o povo é sempre o mesmo. E o povo nunca teve poder. Nunca vi nenhum político dar comendas ao povo e o povo é quem mais tem sofrido. Quando vejo o nosso Presidente [da República] a dar medalhas a quem ganha - e quando alguém ganha é porque já não precisa de mais medalhas. O que sinto é que se aproveitam das vitórias. Temos de ter um Presidente para apoiar quem mais perdeu. E quem mais perdeu, que foi o povo. Eu se fosse Presidente da República a primeira coisa que faria era homenagear o povo que nestes nove séculos de história do nosso país sempre pagou a fatura. E ninguém dá comendas a quem mais sofre.

Porque é que no seu entender os restantes candidatos não são o candidato do povo? Dizer que é o candidato do povo não é basicamente o que todos dizem? No que é que isso é diferenciador?
As pessoas sabem muito bem distinguir quando as pessoas dizem isso com sentimento ou sem sentimento. As pessoas ao olharem para o meu discurso e ao ouvirem a minha voz sabem que aqui é a verdade. A minha mensagem é a verdade do povo. Quando digo que sou povo e que estou misturado, toda a gente sabe que muitos dos outros candidatos não são. Eles não se misturam. É claro que aprenderam a tirar selfies, a dar beijinhos - eles também aprenderam. Os doutores não são doutores só para ensinar, também aprenderam há cinco anos com a campanha do Tino. Nesta eleição eles não estavam preparados porque eles pensavam que eu não ia ser candidato. A partir do momento em que me fiz ao caminho eu ia ser candidato. Agora distraíram-se. Não me convidaram para os debates. Não fico triste de não ir a debates. Nem tenho de fazer debates, até posso não querer fazer debates.

Na formalização da sua candidatura disse: "Pensam que o Vitorino Silva é um português de segunda." Quem é que pensa isso? Isso é dirigido a quem?
Eu estudei comunicação, a comunicação tem muito poder. Mas a comunicação não é tão livre como devia ser. Vivemos num país democrático. Mas quem controla a comunicação em Portugal está um bocadinho desfasado da realidade. E claro que alguns - não estou a dizer todos - estão ao serviço de quem os lá põe. Há muita gente que está no cargo, não é pelo valor, muitos deles é por amizade. Eu se for Presidente da República não vou nomear pessoas só porque são amigas. E sinto que às vezes há muito compadrio nos lugares, há interesses em ter ali as pessoas A, B ou C para haver filtros. Em 49 anos nunca disse nada que não fosse pensado e há muita gente que quer passar a imagem que eu sou um totó a falar para o boneco. Falo com verdade. Podia ter outro caminho, podia ir à volta. Mas se posso ir a direito porque não vou a direito? Às vezes os políticos falam difícil porque pensam que o povo não percebe nem sabe. Quando digo que uso só dez por cento das palavras do dicionário de português - que é a minha língua - eu podia usar outras palavras. Mas não quero porque tenho a certeza que quando falo toda a gente me entende. E os políticos em Lisboa sabem que toda a gente me entende só que às vezes tentam-me abafar.

"Estou-me marimbando para a fama. Se quisesse aparecer também saberia como aparecer. Também me escondo. As pessoas criticam-me por estar três meses num programa de televisão. O Marcelo está há cinco anos num Big Brother."

O que diz a quem acha que na verdade só é candidato porque precisa de mais 15 minutos de fama? O que diz a quem acha que aquilo que o leva a ser candidato presidencial não é afinal muito diferente do que o levou a participar num Big Brother?
E participei com muita nobreza. Não tenho problema nenhum em dizer que estive num programa que tinha dois milhões de audiência. E o atual Presidente da República aproveitou-se muito daquele povo que estava à espera do Big Brother para poder falar e mostrar livros. E o Presidente da República até comentou gente que estava no Big Brother. Não me posso esquecer que quanto estive no Big Brother fiz uma calçada à portuguesa. A condição que pus para entrar no Big Brother foi defender a minha arte, uma arte que é bem portuguesa. Foi essa a minha missão. Foi a única coisa que exigi. Mas não posso esquecer que estudei comunicação e quando tenho oportunidade de fazer comunicação para milhões eu quero chegar o mais longe possível. E falei para todos porque o Big Brother é visto pelo Presidente da República, é visto pelo médico, é visto por enfermeiros. Respeito muito este tipo de programas como respeito muito quem está a comentar futebol ou quem está a falar de livros ao domingo à noite. A televisão é mágica, é magia, uma pessoa pode passar uma mensagem e não tenho problemas nenhuns em dizer que estive lá e com todo o gosto do mundo. Um dia disse ao Zé Maria, que entrou no primeiro Big Brother, que a fama é o caminho mais próximo para a desilusão. Estou-me marimbando para a fama. Se quisesse aparecer também saberia como aparecer. Também me escondo. As pessoas criticam-me por estar três meses num programa de televisão. O Marcelo está há cinco anos num Big Brother. Que diferença é que há entre estar fechado numa casa durante três meses ou estar fechado num país durante cinco anos?

Qual será o orçamento da sua campanha?
16 mil euros. Um parte em espécie e em dinheiro cerca de dez mil euros. E chega muito bem.

Quem o apoia financeiramente?
Há gente que faz uma festa numa aldeia e gasta 40 ou 50 ou 100 mil euros foguetes. Na minha candidatura não vai haver foguetes mas vai haver dinheiro para papel, burocracia, e não existirão brindes?

"Acho que não devia haver financiamento para esta campanha, é uma vergonha, em tempo de pandemia, em que é preciso dinheiro para coisa muito mais importantes."

Mas quem ajudará?
Neste momento não tenho um tostão. Quando corremos o país vamos gastar gasóleo - na cidade circularemos em carros elétricos. Não vou dormir em hotéis, tenho amigos em todo o país e que me abrem as portas e não tenho problemas nenhuns em almoçar em casa de amigos e dormir em casa de amigos - e nisso poupa-se muito dinheiro. Posso pôr um ou dois cartazes, simbolicamente, para passar uma mensagem. Acho que não devia haver financiamento para esta campanha, é uma vergonha, em tempo de pandemia, em que é preciso dinheiro para coisa muito mais importantes. Um exemplo de campanha: no primeiro dia irei dar sangue. Não gasto um tostão e tenho a certeza que é importante, hoje em dia é importante, os hospitais precisam de sangue. Os políticos também de dar alguma coisa. Eu vou dar sangue porque sangue é vida.

Ou seja: não admite desistir desta candidatura? É mesmo para levar até ao fim?
A minha mãe teve oito filhos e dizia uma coisa muito engraçada, chamava aos oito filhos pontos cardeais, porque eram todos diferentes. E deu oito educações diferentes. Ela antes de morrer preparou as coisas para ter um momento a sós com cada filho. Quando chegou a minha vez, que sou o sexto, ela disse assim: "Ó rapaz, tu és um lutador, nunca desistas. Há uma coisa que nunca vai faltar à tua frente que é hipocrisia e prepara-te para isso. Mas acorda para a vida e nunca desistas." Eu gostei tanto daquele conselho, foi o conselho mais importante que tive na vida.

"A única coisa que lhe posso dizer é que as sondagens que foram feitas até agora é tudo para rasgar. Porque eles não me puseram lá."

E se houver uma segunda volta? Em quem recomendará o voto? Tudo aponta para que, havendo essa segunda volta, seja entre Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa.
Já sei em quem vou votar! O que estou a dizer é que quando o árbitro apita para o início do jogo tudo pode acontecer. Ainda ninguém ganhou porque o povo ainda não votou. E estou a dizer que já sei em quem vou votar na segunda volta. Não tenho problemas nenhuns em dizer em quem vou votar na segunda volta.

E é quem?
Em mim, em mim, não tenho dúvida nenhuma que vai ser no Tino de Rans.

As sondagens apontam para que, havendo segunda volta, ela seja entre Marcelo e Ana Gomes. Se for esse o cenário, não fará nenhuma indicação de voto?
A única coisa que lhe posso dizer é que as sondagens que foram feitas até agora é tudo para rasgar. Porque eles não me puseram lá. A única sondagem que fizeram comigo foi uma que me dava 0,2% e em que dizia que eu não tinha votos nem no Porto nem nas mulheres.

Em quem recomendará o voto se houver uma segunda volta entre Marcelo e Ana Gomes?
Não vou estar aqui a falar em Ana Gomes. O povo ainda não votou e não vou andar com a carroça à frente dos bois. E estou a dizer isto com muita humildade.

Entregou nove mil assinaturas no Tribunal Constitucional, mas do que as necessárias, 7500. Houve organizações ou militantes do PS a colaborar no esforço de angariação de assinaturas para a sua candidatura?
Houve uma coisa neste processo que gostei muito que foi quando o António Costa fez uma jogada de mestre e deu liberdade de voto às pessoas do PS. O PS é um partido com nome na praça e acho que há muita gente do PS que assinou pelo Tino. E há muita gente do PSD que assinou pelo Tino.

Houve militantes do PS a recolher assinaturas para si ou eventualmente organizações do PS?
Não. Há gente que me ajuda - sou um homem só mas não estou sozinho. A principal pessoa que me ajuda é a minha filha, a nível de internet, a nível de preparar o terreno para ir à junta de freguesia buscar as certidões. Mas eu quis fazer o trabalho de formiga, fui eu que as arranjei, às assinaturas, noventa e tal por cento fui eu que as arranjei, porque só fazia sentido assim. Eu não podia ir para as praças com quatro ou cinco pessoas, porque estamos em tempo de covid, e ninguém ia assinar. Apostei forte nos hipermercados, à beira dos carrinhos, onde as pessoas vão buscar os carrinhos para ir às compras, porque normalmente ao lado do carrinho havia o gel e as pessoas assinavam e desinfetavam as mãos. Isto foi muito difícil em tempo de covid. Mas para mim foi mais fácil. Há cinco anos eu andava a arranjar assinaturas e em dez pessoas assinavam duas. Agora, em vinte pessoas 19 assinavam. Porque as pessoas levam isto muito a sério, as pessoas querem a minha voz e querem que eu vá a jogo. E sabem que não desisti. Há cinco anos, numa sondagem na quinta-feira antes das eleições, davam-me 0,3% e eu tive trinta vezes mais, 3,28%, e isso foi incrível.

"[Nas legislativas de 2019] não tive votos porque as pessoas não sabiam que o Tino era candidato. Só o perceberam quando viram as projeções e os resultados."

Nas presidenciais de 2016 teve esse resultado, 152 mil votos. Mas três anos depois, nas legislativas de 2019, o partido que entretanto formou, o RIR, não chegou aos 36 mil votos. Ficou atrás de todos os partidos parlamentares e ainda da Aliança e do MRPP. Nem em Rans o RIR venceu - venceu o PS. A receita Tino de Rans é já uma receita gasta, uma receita sem novidades?
Hoje sou candidato a Presidente da República e estou a dar uma entrevista, estou a ter voz. Toda a gente sabe que criei um partido e o JN [Jornal de Notícias] não me faz entrevistas, o Porto Canal também não. [Fui] completamente abafado. Se o Tino tivesse mais oportunidades não marcava um golo, marcava dois. Fui abafado e as pessoas não sabiam que havia um partido chamado Reagir, Incluir, Reciclar e que tinha tinha um mês e pouco. Mesmo assim teve um grande resultado. Não me posso esquecer que Santana Lopes, que foi primeiro-ministro e presidente da câmara de Lisboa e da Misericórdia, com uma grande base de apoio e dinheiro e cartazes - e teve o mesmo número de votos que nós ou pouco mais [40, 4 mil votos, contra 35,4 mil para o RIR]. Isto gente que anda aqui há muito tempo e com muito mais experiência. Eu não tive votos porque as pessoas não sabiam que o Tino era candidato. Só perceberam que o Tino era candidato à noite quando viram as projeções e os resultados.

O que o levou a afastar-se do PS? O partido não lhe dava o protagonismo que acha que merecia? O PS é elitista?
Há gente que se encosta. Eu desencosto. As pessoas estão nos partidos e encostam-se, encostam-se, encostam-se. E a coisa que mais gosto é desencostar-me. Quando fui aquele congresso, falei para o povo...

Está a falar do congresso do PS em 1999, quando o país o conheceu, numa célebre intervenção que acabou com um abraço ao então líder do partido, António Guterres...
...e em que levantei um grande estádio que é o Coliseu [dos Recreios, em Lisboa]. Normalmente as pessoas quando vão para os congressos dos partidos vão para falar para o chefe. Eu percebi que havia mais gente fora daquele Coliseu, percebi que havia dez milhões de pessoas à espera daquele discurso. Se eu fosse como os outros militantes, falar para o Guterres, falar para dentro, aquele discurso não passava. O certo é que passaram tantos anos e as pessoas ainda se lembram daquele discurso. E porquê? Porque foi genuíno, foi verdadeiro e é isso que muitas vezes nos congressos não acontece. É tudo feito a régua e a esquadro.

O que o levou a virar costas a esse partido?
Não me custa nada dizer que faço parte da história do PS. Mas houve um momento em que me deixei de rever no partido...Deixei de me rever naquele PS e depois vim a ter razão...Passado uns tempos o partido desmoronou-se...Quando vejo um primeiro-ministro que toma posse e depois deserta...Eu se tomasse posse não desistia a meio...

Foi o voltar de costas de António Guterres à liderança do PS que o levou a deixar o partido?
O que estou a dizer é que a partir do momento em que eu não me revejo no PS então nunca mais lá apareci. Não tenho problema nenhum em dizer que faço parte do PS, gosto de muita gente do PS, e vou ter muito voto do PS, não tenho dúvidas nenhumas. Há um grande filão nestas eleições, um filão muito importante, que não é só para o Marcelo, que é o filão do PS. Uma fatia daquele bolo que é o PS vai recair na candidatura de Vitorino Silva.

Foi em maio de 2019 que fundou o partido RIR, com o objetivo de aproximar os cidadãos da política e a política dos cidadãos. O que de concreto fez o partido ao longo deste ano e meio para cumprir esse objetivo?
Estamos vivos e em lume branco porque toda a gente sabe que se o RIR mandar um comunicado para a TSF ou para a Renascença ou para outros órgãos não aparece ninguém. Tivemos dois congressos, um deles num coreto em que tínhamos mais árvores do que pessoas e ninguém apareceu. Não foi por não saberem. Se convidamos as pessoas e não aparecem como é que os dez milhões sabem que nós estamos vivos? Podem ir à página, temos a nossa voz, criticamos quando temos de criticar...

Ou seja: um objetivo que ainda está por cumprir muito por culpa da comunicação social, pelo modo como lida com o seu partido?
Não é com o meu partido. Tenho muito orgulho em ter sido fundador de um partido. E é um partido de 360 graus. Um dos grandes objetivos desta candidatura é combater os populismos. A grande meta deste partido é incluir - cabemos todos.

O RIR está para durar? Admite extinguir o partido se voltar a ter um mau resultado nas próximas eleições legislativas? E outra pergunta: exclui em absoluto voltar um dia ao PS?
Há muita gente do PS que ainda pensa que eu sou do PS e há muita gente que não sabe que eu tenho um partido, o RIR. Tenho muito orgulho em ser presidente da direção do RIR, tenho a certeza absoluta que o RIR vai ter muitos mais votos nas próximas eleições porque as pessoas com a visibilidade destas presidenciais vão saber que o RIR existe mesmo.

E entre a esquerda e a direita onde é que fica o RIR?
Eu fui soldado e havia uma coisa que gostava muito, marchar quando estávamos na parada. E era "up dois, esquerda, direita / up dois, esquerda, direita". O RIR vai ter sempre um pé direito e um pé esquerdo para poder caminhar seguro.

Ou seja: está ao centro?
É central. Mais importante do que estar ao centro é ser central.

Foi presidente da Junta de Freguesia de Rans, em Penafiel, durante dois mandatos (oito anos). Que ensinamentos recolheu dessa experiência?
Mesmo quando errava, aquela gente ajudava. Foi a coisa mais bonita, porque naqueles oito anos cresci muito. Fui presidente de junta com 22 anos, era o mais novo do país, e nunca me esqueço que quando subi à varanda para fazer o meu primeiro discurso para o meu povo a primeira coisa que disse foi "em Rans não há Rans de cima nem Rans de baixo". Antes de eu ser presidente de junta, Rans era uma terra muito dividida. Havia a parte debaixo e a parte de cima. E também disse: "Quero que a todas as casas de Rans vá uma ambulância." E consegui que a todas as casas de Rans fosse uma ambulância. E depois também havia gente que não sabia ler nem escrever. Um dia era preciso abrir uma escola para as pessoas que não sabiam ler nem escrever e a minha mãe, que tinha 61 anos, até foi para a escola. E o JN, no dia em que fez cem anos, com a maior tiragem de sempre, 500 mil exemplares, foi fazer uma entrevista à escola de Rans e por acaso entrevistou a minha mãe, a dona Gertrudes. E quando a entrevistou, a jornalista Isabel Peixoto, perguntou-lhe qual tinha sido a coisa mais importante que ela tinha tirado da escola. E ela: "Agora a qualquer terra que chegue já sei onde estou." Há muita gente que não sabe onde está.

O que é que dessa experiência pode agora ser transposto para as funções de Presidente da República? O país estará disponível para ajudá-lo no erro, como aconteceu quando era presidente da junta com a população de Rans?
Sou um homem com limitações. Se alguém pensa que eu sou um iluminado - não sou um iluminado. Tenho defeitos e tenho virtudes. E a cada que mais gosto é ter margem de progressão. É sinal de que posso crescer mais um bocadinho. Há muita gente que pensa que sabe tudo. Há políticos que falam como se percebessem de tudo. E há muitos políticos que têm discursos que não foram eles que o fizeram nem sabem o que estão a dizer nem percebem porque estiveram nos copos toda a noite e depois às 8h00 puseram-lhe aquilo à frente e ele está ali a ler. São treinados para ler, para perceber que é verdade. Há muitos discursos que são mentira, são perfeitamente mentira e as pessoas nem sabem o que estão a falar.

Valoriza a colaboração que tem havido entre o Presidente e o Governo no combate à pandemia? Faria o mesmo?
Em tempo de guerra, os soldados têm todos que ir para a linha da frente e claro que muitas vezes concordei. Mas muitas vezes não gostei do aproveitamento. Vi muita gente a pôr-se em bicos de pés para aparecer à custa do covid. O Sol se for demais as pessoas queimam-se. Há muita gente que se aproveitou só para aparecer.

Há quem critique muito a atuação da ministra da Saúde assim como da diretora-geral da Saúde e até quem defenda a demissão de ambas. É também a sua opinião?
Devia haver um Canal Covid-19. Há muita coisa que se podia ter falado e passou ao lado. Se nós tivéssemos um canal na televisão covid-19, com tudo sobre o covid, o país iria ganhar muito.

Mas eu perguntei-lhe se defende as demissões da ministra da Saúde e da diretora-geral de Saúde.
O primeiro-ministro é o António Costa e ele é que escolhe os membros do seu Governo. O Marcelo aprova ou não e não vou ser eu que vou mandar ninguém para a rua. Tenho muito respeito pela nomeação do primeiro-ministro porque ele foi legitimado para poder escolher quem quiser. Enfim, não é da minha área.

"Os grande mentores [do Chega] foram o Ferro Rodrigues e o Marcelo e os deputados e ele aproveitou muito bem. Eles deram importância demais ao André. Quem levou o André Ventura a crescer foi o PS na altura em que o puseram num canto."

Aprovaria um Governo que integrasse o partido Chega?
Eu sou candidato e o André é candidato. Vou tratar todos os candidatos por igual. Gosto de pessoas, gosto de portugueses como eu. Tenho o partido com alvará e os outros têm o mesmo alvará. Tenho muito respeito pela aprovação do Tribunal Constitucional. O Tribunal Constitucional se aprovou o partido Chega eu tenho de respeitar essa decisão. Agora eu não concordo com muitas ideias do partido Chega.

Então como avalia as posições políticas que o Chega tem vindo a assumir?
O André é uma pessoa que sabe muito de comunicação. Os grandes mentores foram o Ferro Rodrigues e o Marcelo e os deputados e ele aproveitou muito bem. Eles deram importância demais ao André. No fundo, no fundo quem levou o André Ventura a crescer foi o PS na altura em que o puseram no canto.

Mas sobre as posições políticas do Chega. Em que não se revê?
Em muito. O meu partido chama-se Incluir. Ora ele defende em muita coisa o Afastar. Aí estamos completamente no oposto. Ele está numa ponta do novelo e eu estou na outra ponta do novelo.

No norte também já houve choques de populações com comunidades ciganas. Se bem me recordo no distrito de Braga, por exemplo. Sendo um homem do norte é compreensivo em relação às posições de André Ventura nesta questão das comunidades ciganas?
Eu já fui a casamentos ciganos, dou-me bem com ciganos, há gente boa em todas as áreas. Eu não gosto de ver ninguém a maltratar pessoas. Há uma coisa que eu gosto muito: de pessoas. Quando o Quaresma marca um golo - e o Quaresma é cigano - é Portugal inteiro que se levanta e grita "golo". E tenho a certeza que mesmo o André se levanta e diz "golo de Portugal!" e não diz "golo de um cigano" ou de um não cigano?

"Eu quero o voto do descontente moderado. Não quero o voto do descontente ressabiado. Há cinco anos não me posso esquecer que o meu voto não foi um voto de protesto. Rasgava-os todos se fossem votos de protesto."

Portanto, não se revê naquele discurso?
​​​​​​​Claro que não me revejo. Mas ele defende a sua dama e está cá o povo para votar ou não votar. Alguns dizem vamos extinguir o partido A, B ou C - isso é tiros nos pés e é que tem acontecido com muitos partidos que estão no Parlamento. E não são tiros nos pés - são no coração. Alguns deles têm dado tiros no próprio coração.

O Chega parece tentar capitalizar o descontentamento de parte do país com a classe política. O RIR não tenta também percorrer o mesmo caminho de exploração do descontentamento do descontentamento.
​​​​​​​Eu quero o voto do descontente moderado. Não quero o voto do descontente ressabiado. Há cinco anos não me posso esquecer que o meu voto não foi um voto de protesto. Rasgava-os todos se fossem votos de protesto. O meu voto é de confiança. Eu quero ter votos de confiança, sou candidato nesta eleição para ter votos de confiança. Para mim, os votos contam.

Em breve chegará ao Palácio de Belém a lei que legaliza a eutanásia. Se fosse Presidente promulgaria a lei? Concorda com a eutanásia?
Concordo. E com a prostituição, com as drogas leves. Porque sou um cidadão do mundo e deste tempo. Este é o tempo certo para uma pessoa evoluir e para Portugal evoluir. Não tenho problemas nenhuns, é uma opção de cada um. Mesmo às vezes não concordando, respeito as opiniões dos outros.

O Presidente da República esteve bem na forma como foi atuando no caso da morte de um cidadão ucraniano às mãos de inspetores do SEF?
Não posso esquecer que há casos isolados. Imagine-se extinguir aquela polícia por causa deste caso. Há gente do SEF com muito valor, que deu o peito às balas por Portugal, que defendeu as nossas fronteiras e que agora estão a ser enxovalhados. Só por haver um caso isolado não extinguir o SEF. Não concordo com a extinção do SEF porque se não houvesse aquele caso o SEF não seria extinto.

Foi um caso isolado?
Foi um caso isolado. Tenho a certeza absoluta que há ali muita gente de bem. Às vezes governa-se ao sabor das marés e há muitos políticos que se limitam a governar ao sabor das marés e do burburinho da população. Quando começa a chama a crescer um bocadinho, tremem.

Trabalha na câmara do Porto. A assinatura de Rui Moreira foi uma das que lhe permitiu formalizar a candidatura
O Rui Moreira não assinou porque não fui ter com ele. Mas não tenho dúvidas nenhumas que ele não teria problemas nenhuns em assinar porque ele é um homem livre. Como o Porto é uma cidade livre.

Vai apoiá-lo nas próximas autárquicas? Ou o RIR terá um projeto próprio nas próximas autárquicas?
​​​​​​​O que estou a dizer é que pessoalmente gosto muito, muito do Rui Moreira. As pessoas do Porto também gostam muito do Rui Moreira. É uma pessoa que sempre me abriu as portas e é um presidente próximo das pessoas e próximo dos funcionários. E acho que tem feito um bom trabalho. Ele ganhou duas eleições e teve resultados muito bons. Não teria problemas nenhuns em apoiar Rui Moreira mas claro que nem sei se ele vai ser candidato - pode não ser.

Quais serão os projetos do RIR para as autárquicas. Será candidato onde?
O RIR foi criado para ir a votos - e os partidos se não forem a votos ao final de três eleições são extintos. O RIR veio para durar, é como as pilhas Duracel. Ninguém pense que eu criei um partido para andar aqui a brincar à política. O RIR é a política a sério.

Pode ser candidato à câmara de Penafiel, por exemplo?
O que estou a dizer é que sou candidato a Presidente da República. E o RIR é candidato para jogar na Taça dos Campeões, na Liga Europa, para jogar em todas as competições.

Será candidato?
A única coisa que posso dizer é que possivelmente não serei candidato.

Porquê?
​​​​​​​Neste momento sou candidato a Presidente da República e o grande objetivo é ter mais um voto do que há cinco anos. Em Portugal há muito voto que pode cair no Vitorino Silva.

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