Luís Neves havia sido reconduzido à liderança da PJ em 2021, ainda durante a governação do PS, e novamente no fim ano passado.
Luís Neves havia sido reconduzido à liderança da PJ em 2021, ainda durante a governação do PS, e novamente no fim ano passado. Foto: Reinaldo Rodrigues

Luís Neves é o novo ministro da Administração Interna: um polícia “do lado da solução”, frontal e sem medo

Da Polícia para a Política. Inesperada, a escolha do homem que revolucionou a Judiciária. A meio do terceiro mandato como diretor nacional, Luís Neves deixa uma PJ fortalecida.
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Ao fim de quase três décadas ao serviço da Polícia Judiciária (PJ), Luís Neves, com 60 anos, prestígio consolidado na sua carreira, será o próximo Ministro da Administração Interna (MAI). "O Presidente da República aceitou a proposta do Primeiro Ministro de nomeação do Dr. Luís Neves como Ministro da Administração Interna", publica Belém neste sábado na sua página oficial, avançando que a tomada de posse terá lugar na próxima segunda-feira, 23 de fevereiro.

Vindo do coração do investigação criminal, assume agora a tutela política de todas as forças de segurança. Sobre Luís Neves, Marcelo Rebelo de Sousa disse que tinha sido “uma das melhores escolhas” de António Costa, quando o nomeou para o cargo em 2018, sublinhando, na recente cerimónia dos 80 anos da PJ, que este tem protagonizado uma “grande liderança”. Luís Neves foi reconduzido em 2021, ainda durante a governação do PS, e novamente no fim ano passado, pelo anterior Governo PSD/CDS-PP chefiado por Luís Montenegro, com a atual ministra da Justiça, por mais três anos.

Deixando a PJ fortalecida, este polícia, que fez do combate ao discurso do ódio e à corrupção as suas batalhas pessoais, entra no Governo num momento em que a segurança, associada a populismos radicais, se tornou uma arma de arremesso político.

Restaurar a confiança nas instituições do setor será um dos seus maiores desafios, numa altura de escassez de efetivos nas forças de segurança também associada a organizações pouco flexíveis, de reconfiguração do modelo de segurança fronteiras, de fenómenos climáticos extremos e exporem as fragilidades da capacidade de resposta do sistema de proteção civil.

Luís António Trindade Nunes das Neves, formado em Direito, começou na advocacia e entrou na PJ em 1995. Destacou-se no combate ao banditismo, criminalidade violenta e terrorismo.

Em 2009, assumiu a liderança da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT), onde dirigiu operações de grande impacto — da investigação da ETA, ao processo do espião do SIS condenado por vender segredos à Rússia, do caso Tancos aos skinheads, Rei Ghob, Hell Angels, e redes de tráfico de seres humanos. Mais recentemente, deu a cara pela grande operação contra o grupo neonazi 1143, desencadeando várias ameaças contra si nas redes sociais.

Herdou há sete anos uma PJ fragilizada: quadros envelhecidos, falta de investimento e tensões internas. Quando foi nomeado, fontes da PJ ouvidas pelo DN garantiam que se havia alguém capaz de motivar e inspirar a desgastada Judiciária, era ele mesmo."Incansável, determinado, implacável e às vezes obsessivo com as investigações. Não deixa ninguém desistir, mesmo que pareça que não há forma de provar o crime", revela um inspetor que trabalhou na UNCT.

Na altura, o nome escolhido pelo governo de António Costa teve a aprovação do PSD e do CDS, que elogiaram o seu profissionalismo. "Um operacional que nunca vira a cara e um homem seguro na missão de nos dar confiança", sublinhou Fernando Negrão, à época presidente da bancada social-democrata, que foi também diretor nacional da PJ.

Nuno Magalhães, na altura líder do grupo parlamentar do CDS, conhecia-o desde o Euro 2004 e considerava-o “uma pessoa de elevada competência, com um curriculum invejável". Foi no Euro 2004 que Luís Neves ganhou um cognome, que ainda perdura em alguns círculos: "o diplomata". "Nas reuniões com as outras polícias, tenta sempre fazer pontes, valorizar o trabalho de cada um", contou um oficial da GNR que pertenceu ao Sistema de Segurança Interna.

A transformação foi profunda. Sob a sua liderança, a Judiciária mais que duplicou o número de inspetores, reforçou os seus peritos, digitalizou processos e aumentou a presença internacional. A PJ tornou-se interlocutora de peso nos fóruns europeus e liderou conferências como a Metadata Law Enforcement Conference (sobre os metadados), que resultou na Declaração de Lisboa assinada por cerca de três dezenas de chefes de polícia europeus.

Uma conquista poderosa foi a de ter conseguido, em finais de 2023, o aumento do suplemento de missão da PJ para cerca de 1000 euros para a carreira de investigação criminal, o que resultou também numa onda de protestos das restantes polícias e também a alguma atualização dos seus suplementos – uma matéria que continua em negociações com os sindicados e na qual, certamente, Luís Neves, terá uma palavra a dizer.

Mas uma característica que mais marcou o estilo de Luís Neves foi a sua frontalidade. Numa intervenção na Conferência do Diário de Notícias em 2025 que se tornou viral, não hesitou em contrariar a escalada de discurso contra a imigração que estava a alimentar o ódio. Atribuiu à “desinformação” a perceção de insegurança reclamada por alguns líderes políticos e explicou que era preciso “fazer a destrinça entre os criminosos estrangeiros que usam Portugal para a sua prática" e os imigrantes.

Reafirmou discurso

Estas declarações levaram-no depois ao Parlamento, a requerimento da Iniciativa Liberal onde, perante os deputados da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, reforçou as suas ideias. “Combater o discurso de ódio é uma missão de todos. (…) Temos muitas fake news, muita desinformação, muito racismo, que são a base dos crimes de ódio”, enfatizou.

Questionado pelo DN, na entrevista exclusiva que assinalou os 80 anos da PJ, em outubro passado, sobre porque tinha decidido intervir no espaço público daquela forma, explicou: “Não prescindo dos meus direitos de cidadania, nem de dizer o que penso, nas esferas e nos temas que considero relevantes. (…) Senti que havia um foco demasiado extremado em determinados discursos. Nas redes sociais há hoje uma violência verbal tremenda, uma violência contra todas as formas de diversidade humana: de género, de raça, de religião, de opinião política. Vemos assomos de masculinidade tóxica que perseguem mulheres só por serem mulheres; ataques raciais, religiosos, ideológicos. Isso está a crescer e a transbordar para a violência quotidiana, individual e coletiva. E essa violência leva ao cometimento de crimes sérios, com mais violência na ação, com mais facas a serem utilizadas por vezes por membros da comunidade muito jovens. Ora, como diretor nacional, e tendo informação sustentada, tinha a obrigação de partilhar essa análise”.

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Aliás, no seu primeiro discurso como diretor nacional, não escondeu quais eram as suas preocupações. Nesse ano, comemoravam-se os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e os 40 anos da Adesão de Portugal à Convenção Europeia de Direitos Humanos e a PJ convidou, pela primeira vez num evento desta natureza, comunidades religiosas (católica, islâmica, judaica e ismaelita), associações (SOS Racismo, ILGA, Mulheres contra a Violência, APAV) e organizações (Observatório para o Tráfico de Seres Humanos).

Luís Neves começava a marcar a sua liderança. “Não pactuamos com intolerância e somos e seremos firmes perante os crimes de ódio, enfrentando todas as formas de extremismo de natureza criminal fundadas em preconceitos ou motivos ideológicos e confessionais”, afiançou.

No seu percurso, Neves provou ser um líder que está “do lado da solução”, como o próprio assinalou em intervenções públicas. Conseguiu resolver desafios complexos – por exemplo, integrou os inspetores do extinto SEF nos quadros da PJ, evitando um impasse e “salvando” o então MAI José Luís Carneiro de um problema difícil de gerir.

Fez também parte da solução, juntamente com o ex-secretário-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI), embaixador Paulo Vizeu Pinheiro, quando conseguiu um acordo para que os Gabinetes Europol e Interpol, que estavam da PJ, fossem integrados no Ponto Único de Contacto para a Cooperação Policial Internacional no SSI.

Na recente tomada de posse de diretores da PJ, a 5 de fevereiro, fez um discurso sobre liderança, responsabilidade e coragem moral. “Nunca tenham medo de avançar. O insucesso é garantido [se não avançarmos]. Se não ousarmos fazer, garantidamente não conseguiremos alcançar os objetivos”, afirmou. E insistiu: “Nunca tenham medo de falhar. Se não ousarmos fazer, falhámos à nascença. Se não ousarmos escrever, morremos à nascença. Se não ousarmos fazer fora da caixa, morremos à nascença.”

Não teme correr riscos em nome dos valores em que acredita e arrisca, por vezes, ser mal compreendido, como quando foi, perante as câmaras, defender Fernando Gomes, na cerimónia de tomada de posse no Comité Olímpico Português.

Perfil

De personalidade forte e reivindicativa, autónomo, pode enfrentar algumas resistências iniciais na gestão política. No entanto, como já foi escrito em editorial neste jornal, antes de ser conhecido o nome de Luís Neves, “Luís Montenegro pode ter aqui uma oportunidade única de mudar o paradigma: pensar o sistema de segurança nacional a 10 anos, não apenas até ao próximo ciclo eleitoral. Esta é uma missão de serviço público puro, que exige coragem moral, competência técnica e autoridade serena. Com polícias melhor organizadas e uma Proteção Civil verdadeiramente eficaz, quem sabe, no final da história, os argumentos para o crescimento do populismo se desarmem perante a confiança dos cidadãos. Não por apelos ideológicos, mas por respostas concretas. Vestir a farda de Portugal, nesta missão, é proteger, reformar, antecipar e servir com determinação”.

valentina.marcelino@dn.pt

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