Luís Neves foi diretor nacional da PJ durante oito anos.
Luís Neves foi diretor nacional da PJ durante oito anos.Foto: Reinaldo Rodrigues

Leitão Amaro elogia "trabalho de grande qualidade" de Luís Neves, após bicada do líder do PS: "Pode ser que apreenda alguma coisa"

"O novo Ministro da Administração Interna é o homem das “sensações”? Cada tiro, cada melro", atirou Rita Matias, deputada do Chega.
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A nomeação de Luís Neves para o cargo de ministro da Administração Interna é o assunto deste sábado, 21 de fevereiro, somando-se as reações à escolha de Luís Montenegro, que decidiu nomear o então diretor da Polícia Judiciária (PJ).

José Luís Carneiro, líder do Partido Socialista (PS) considera um bom nome. "É uma personalidade forte num Governo, apesar de tudo, frágil. Espero que isso seja bem-sucedido no Ministério, que é um dos ministérios mais importantes das funções de soberania", disse a jornalistas no Porto. Recorda-se que o atual deputado já ocupou o cargo que agora será de Neves.

Os elogios tiveram mais críticas ao executivo social-democrata. "Pode ser que o Ministro da Presidência possa apreender alguma coisa agora com o senhor doutor Luís Neves, que pode demonstrar, primeiro, que não há qualquer relação entre imigração e segurança", disparou Carneiro.

Foi precisamente o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, a voz do Governo após a indigitação de Luís Neves, tendo elogiado o "trabalho de grande qualidade e de sintonia com a visão do governo sobre a política de segurança".

No final da iniciativa “Séries em Série”, promovida hoje pela RTP, em Lisboa, Leitão Amaro foi questionado sobre a escolha do diretor da Polícia Judiciária para o governo e sobre a experiência política para tutelar a área da Administração Interna.

“Um governo deve ser feito com pessoas de diferentes competências e o importante é que saiba o que está a fazer”, disse Leitão Amaro, lembrando que Luís Neves “conhece o sistema de segurança interno português” e está alinhado “com a visão que o governo tem da importância do reforço de política de segurança”.

Rita Marias (Chega): "Cada tiro, cada melro"

Rita Matias, deputada do Chega, usou o X (antigo Twitter) para criticar a escolha, nomeadamente devido às declarações de Neves sobre imigração. “O novo ministro da Administração Interna é o homem das ‘sensações’? Cada tiro, cada melro”, escreveu.

Como o DN mostrou no perfil de Neves, o antigo diretor da PJ não hesitou em contrariar a escalada do discurso contra a imigração que estava a alimentar o ódio. Atribuiu à “desinformação” a perceção de insegurança reclamada por alguns líderes políticos e explicou que era preciso “fazer a destrinça entre os criminosos estrangeiros que usam Portugal para a sua prática” e os imigrantes.

Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal (IL), também usou as redes sociais para reagir à nomeação. Escreveu que o partido “acompanhará de perto” a atuação do novo ministro. “A nomeação de Luís Neves para ministro da Administração Interna ocorre num momento exigente para Portugal. O país precisa de reformas concretas, melhor cooperação, planeamento eficaz e capacidade real de resposta. É tempo de execução daquilo que tem ficado por fazer".

"O país não aguenta continuar a viver de anúncios sem consequência. A Iniciativa Liberal acompanhará de perto a sua atuação. Esperamos que esteja à altura da responsabilidade e que consiga entregar os resultados que o país exige", concluiu. "Luís Neves muito elogiado para novo MAI pela intelligentsia. De onde não estou a ver elogios é do PSD", disparou Ricardo Pais Oliveira, também da IL.

PCP quer conhecer as políticas que vai adotar

O PCP disse que “independentemente da personalidade indicada” para ministro da Administração Interna, importa saber que política vai ser prosseguida por Luís Neves. “A nomeação do novo Ministro da Administração Interna, independentemente da personalidade indicada, coloca para o desempenho dessas funções como questão central as condições e meios para responder aos múltiplos problemas existentes”, referiu o PCP, em comunicado.

André Coelho Lima, do PSD, considera "uma carta muito bem jogada por Luís Montenegro, uma aposta inteligente do PM em vários domínios".

A Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) elogiou a escolha, considerando que já conhece “as circunstâncias e problemas” atuais da emergência, proteção, socorro e bombeiros. “Luís Neves é membro da Comissão Nacional de Proteção Civil. Como representante da Polícia Judiciária, até o momento, esteve presente nas várias comissões onde a problemática da emergência, da proteção e socorro e dos bombeiros também foram abordadas”, disse à Lusa.

Sindicato dos Polícias fala em "solução menos política"

O Sindicato dos Polícias Portugueses (SPP/PSP) afirma que a escolha de Luís Neves para ministro da Administração Interna como uma opção por "um homem do terreno". "Isto será uma solução menos política, ou seja, parece-nos que é alguém que já conhece o terreno" disse o presidente Paulo Macedo em entrevista à Renascença.

Na SIC, Armando Ferreira, presidente do Sindicato Nacional da Polícia, afirmou que é um "bom nome, com capacidade de liderança". Ferreira espera uma atenção aos profissionais, porque "sempre esteve sempre ao lado dos direitos dos polícias" e que sabe o que é ser polícia. "Estaremos disponíveis para trabalhar", destacou.

Bruno Pereira, presidente do Sindicato dos Oficiais de Polícia da PSP, também elogiou a decisão. "O doutor Luís Neves conhece muito bem os interruptores do sistema, da forma como o sistema está configurado, as necessidades do sistema, as dificuldades do sistema", avaliou. "Estará mais ciente também daquilo que é necessidade, como digo, de ser reformista, ser vanguardista e ser transformacional, que é algo que nós precisamos", defendeu Bruno Pereira.

A Associação dos Profissionais da Guarda (APG) manifestou hoje surpresa com a nomeação de Luís Neves como ministro da Administração Interna e apelou para uma mudança de paradigma, reclamando alterações estruturais no programa do Governo.

Em declarações à Lusa, o presidente da APG/GNR, César Nogueira, começou por dizer que ficaram “surpresos pela nomeação” do diretor da Polícia Judiciária para o cargo, em que poderá enfrentar desafios. “Conhecemos bem o Dr. Luís Neves pelas suas funções na Polícia Judiciária, mas [a sua nomeação] poderá trazer alguma animosidade no seio das duas maiores forças de segurança” devido à questão do subsídio de risco, que é superior para os inspetores da PJ, o que motivou protestos da PSP e GNR, que exigiram ao Governo negociações para um tratamento igualitário.

Sindicato dos oficiais da PSP considera escolha "atípica”

O Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia considerou atípica e imprevisível a escolha de Luís Neves para ministro da Administração Interna, sublinhando que o cargo devia ser ocupado por alguém com mais força política e visão abrangente.

“A nomeação é completamente atípica, não me recordo de ver um diretor de uma polícia ser nomeado para forças governativas”, disse à Lusa o presidente do SNOP, Bruno Pereira, precisando que “a decisão foi completamente imprevisível”.

Recordando que o Ministério da Administração Interna (MAI) é “particularmente exigente” e costuma ser apelidado de “um verdadeiro triturador de ministros", Bruno Pereira sustentou que o ministro da Administração Interna devia ter uma visão mais abrangente e força política do que Luís Neves.

“É verdade que tem uma experiência muito grande no sistema de segurança interna, em particular numa área muito concreta do sistema que é a investigação criminal, que é apenas uma parte de muitas e nesse aspeto não traz muito de novo em termos de conhecimento”, precisou, esclarecendo que “pelo menos tem mais conhecimento do que a antiga ministra ou os anteriores”.

Segundo o presidente do sindicato que representa os oficiais da Polícia de Segurança Pública, Luís Neves terá “algum caminho facilitado” uma vez que “conhece o sistema do ponto de vista geral, conhece bem todos os interlocutores, os contactos do ponto de vista doméstico e internacional e quais as maiores necessidades do sistema de segurança”.

No entanto, lamentou que todo este conhecimento e capacidade possa “eventualmente ser deitada por terra caso não tenha a força política devida”, salientando que “é importante também que Luís Neves passe a ter uma visão mais ampliada do que aquela que foi tendo enquanto diretor da PJ”.

O presidente do SNOP disse também que Luís Neves terá de mostrar se vai ter enquanto ministro um posicionamento diferente daquele que assumiu enquanto diretor da PJ.

“Veremos agora qual será a sua posição do ponto de vista reformista. Luís Neves tornou a PJ uma das profissões mais atrativas da administração pública, conseguiu assegurar mapas plurianuais de admissão, conseguiu a atribuição de um suplemento de missão que ainda hoje não foi conseguido para as outras polícias”, disse.

“Espero que Luís Neves esteja à altura de um desafio, que é um desafio que nesta altura é particularmente exigente e que mostra bem o porquê de tantos outros não terem aceite ou não terem aparentemente aceitado o convite para ser ministro da Administração Interna”, afirmou ainda.

BE elogia combate contra criminalidade motivada pelo discurso de ódio do novo MAI

O coordenador do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, elogiou o combate à criminalidade motivada pelo discurso de ódio que o novo ministro da Administração Interna evidenciou enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária.

Numa declaração escrita enviada à Lusa, o líder do BE adiantou que “Luís Neves deixou boas indicações na Polícia Judiciária, a começar pelo combate à criminalidade motivada pelo discurso de ódio de extrema-direita”.

“Será difícil compatibilizar isso com a opção política de um governo que legitima diariamente o discurso de ódio da extrema-direita. Desejo-lhe boa sorte para o seu mandato”, acrescentou José Manuel Pureza.

*Com Lusa

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