A Polícia Judiciária (PJ), numa investigação conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) identificou a existência de cerca de duas dezenas de núcleos regionais, de norte a sul do país, e filiais também na comunidade de emigrantes portugueses na Suíça e em França, do grupo neonazi 1143, liderado por Mário Machado, a partir da cadeia, onde cumpre uma pena de dois anos e 10 meses de cadeia, por um crime de discriminação e incitamento a violência. A organização, que as autoridades classificam como “criminosa”, foi alvo de uma megaoperação nesta terça-feira - designada Irmandade - com mais de seis dezenas de buscas e 37 detenções. Porto, Santo Tirso, Aveiro, Maia, Coimbra, Guimarães, Odivelas, Sintra, Cascais, Setúbal, Faro, foram alguns dos núcleos objeto de buscas e os seus líderes detidos. Ambicionavam ser uma “milícia” para uma “guerra racial” e já faziam treino paramilitar, de acordo com a investigação.O inquérito, titulado pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa investiga, entre outros, crimes de associação criminosa, ofensas à integridade física e de incitamento ao ódio e à violência, enquadrados pelo artigo 240.º do Código de Penal que determina pena de prisão a quem incite à violência, difame, injurie ou ameace pessoas ou grupos por motivos de raça, cor, origem étnica, nacionalidade, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência.“Os detidos, com idades compreendidas entre os 30 e os 54 anos, adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema-direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”, disse em comunicado a PJ.“Os Quatro Mosqueteiros” ao comandoEm conferência de imprensa, depois de recordar outras operações da PJ contra crimes semelhantes - em 1995 (caso Alcindo Monteiro); em 2007 (contra os Hammerskins, já liderados por Machado); e em 2016, com alguns dos mesmos protagonistas -, o diretor Nacional da PJ afirmou que se trata de “uma associação com fundadores, membros, chefias, apoio logístico, distribuição de funções no financiamento e nas ações, uma estrutura com conjunto alargado de pessoas que dura, com estabilidade no tempo e que se alarga”..Entre os 37 detidos estão um agente da PSP de uma esquadra de Setúbal e ainda e um sargento da Força Aérea Portuguesa. A mãe de Mário Machado, Aurelina Machado, foi também alvo de buscas por suspeita de auxiliar o filho no comando das operações e angariar financiamentos..Entre os 37 detidos estão um agente da PSP de uma esquadra de Setúbal e ainda e um sargento da Força Aérea Portuguesa. A mãe de Mário Machado, Aurelina Machado, foi também alvo de buscas por suspeita de auxiliar o filho no comando das operações e angariar financiamentos.A investigação conseguiu identificar os cabecilhas do Grupo 1143 que se autodesignavam “Os Quatro Mosqueteiros”. São eles, além de Mário Machado - que continuou ao comando a partir da prisão onde tinha acesso a telefone - Gil Costa, conhecido por Gil “Pantera”, que assumiu algumas funções de Machado quando este foi para a cadeia; Paulo Magalhães e Bruno Araújo, responsáveis pela organização de vários eventos e pela gestão de contas nas redes sociais. Manifestações xenófobas na mira da PJAs raízes do Grupo 1143 remontam, ao ano 2001, quando da claque leonina Juve Leo, nasceu e se isolou uma fação ultranacionalista ligada ao grupo de cabeças rapadas Hammerskins, liderado por Machado. Já amplamente conhecido pelas suas actividades neonazis anteriores, incluindo condenações também por crimes violentos (ver texto ao lado), a partir de 2023, voltou ao “activismo”, após recuperar popularidade nas redes sociais. Foi a partir da página “Racismo contra Europeus (RCE)” que a sua presença no X (antigo Twitter) lhe permitiu angariar mais apoiantes e fundar um novo movimento, mais “digital” e orientado para o recrutamento de novos membros, o que possibilitou uma presença nacional organizada em núcleos.Várias das manifestações que organizaram e os conteúdos xenófobos propagados serviram para indiciar os suspeitos dos crimes em causa neste processo. A primeira manifestação oficial, intitulada “Contra a islamização”, teve lugar a 3 de Fevereiro de 2024. Inicialmente, o local escolhido foi a zona do Martim Moniz, conhecida pela presença de imigrantes de vários países da Ásia. No entanto, um parecer emitido pela PSP levou à alteração do local do protesto, por motivos de segurança. A acção começou no Largo de Camões e seguiu pela Baixa até à frente do edifício da Câmara Municipal de Lisboa. As palavras de ordem incluíam “Portugal aos portugueses”, o hino nacional e exaltações ao ditador Salazar, além de palavrões e diversas saudações nazis. Jornalistas foram apelidados de terroristas e os manifestantes contrários foram chamados de “fascistas” e “comunistas”. Os participantes utilizaram tochas ao estilo da Ku Klux Klan, marcando assim a sua “estreia” pública no coração de Lisboa. Dois meses depois, foi a vez do Porto receber um protesto semelhante, desta vez sem objecções do poder municipal. O lema foi “Menos imigração, mais habitação”, estabelecendo uma correlação directa entre a presença de imigrantes e a crise da habitação. No entanto, esta ‘manif’, como lhe chamam, não teve o mesmo impacto: o 1143 foi recebido na Invicta por manifestantes autointitulados “antifascistas”, que estavam em maior número. Registaram-se alguns confrontos ao longo do percurso, que contou com um forte contingente policial. À chegada ao local final, o largo em frente à Câmara Municipal do Porto, a PSP teve de criar um amplo cordão de segurança para evitar confrontos entre os dois grupos. Com cravos na mão e cânticos como “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais” e “não passarão”, os antifascistas superaram a manifestação do 1143.Ao longo de 2024, seguiram-se outras ‘manifs’ pelo país, em cidades como Guimarães, Lisboa e no Algarve. A maioria dos protestos teve como foco a oposição à imigração, sendo também marcada por uma forte aposta na produção visual, com o objetivo de gerar fotografias e vídeos para alimentar as redes sociais. Esta prática é comum a outros grupos xenófobos, como a Reconquista. Outra marca do grupo é o ataque e a intimidação de jornalistas, tanto online como por telefone, bem como durante as manifestações de rua que organizam.Antes da prisão de Mário Machado, o grupo conseguiu fortalecer-se em todo o território nacional e também no estrangeiro, com núcleos formados por emigrantes. Houve mesmo quem se deslocasse a Portugal apenas para participar nas atividades. O grupo recrutou ainda menores de idade, que participaram em ações sem o conhecimento dos pais, segundo apurou o DN.A proximidade com o partido Chega foi registada neste processo, numa manifestação contra a imigração organizada pelo partido, na qual estiveram presentes membros do 1143, incluindo Mário Machado. Para além da participação, alguns elementos do Grupo, como João Peixoto (outro dos detidos na operação da PJ), líder do núcleo de Guimarães, estiveram envolvidos em episódios de violência. Outra situação documentada na inquérito do DIAP de Lisboa foi a que ocorreu a 25 de Abril de 2025, numa manifestação promovida pelo ex-juiz Rui Fonseca e Castro, do extinto partido Ergue-te. Integrantes do 1143 deslocaram-se de várias zonas do país para o protesto, que ficou marcado por violência e detenções, tanto do ex-magistrado como de Mário Machado. No caso do líder do 1143, foi detido por coagir uma jornalista que fazia a cobertura da manifestação. João Peixoto, já anteriormente envolvido em confrontos na manifestação do Chega, voltou a protagonizar atos de violência. Este elemento do 1143 foi ainda alvo de várias participações à PSP por intimidações contra imigrantes em Guimarães e contra simpatizantes da causa migrante.A prisão recente de Machado ainda fez crer que o grupo se desmobilizaria, mas tal não aconteceu. Com Gil “Pantera” Costa na liderança, as atividades presenciais passaram a concentrar-se mais a Norte, embora a presença digital tenha sido mantida em todo o território. Cada distrito passou a ter um ou mais grupos no Telegram, um dos principais meios de comunicação utilizados. Nestes chats são organizados os chamados “convívios” presenciais, uma marca do 1143: apesar da forte presença online, sobretudo no X, a maioria das atividades continua a decorrer na rua. Para além das manifestações, muitas delas de cariz xenófobo, realizam outras ações que designam por “ativismo”, como a colocação de autocolantes na via pública. Como noticiado pelo DN no ano passado, outra prática consiste na distribuição de panfletos com desinformação sobre imigração nas caixas de correio. Apesar de a maioria dos encontros dos últimos meses ter ocorrido nos arredores do Porto, os ativistas continuaram a deslocar-se a Lisboa por um motivo específico: a prática de airsoft num campo, denominado Bunker 1143, inaugurado em Maio na região de Alcochete. Os treinos de airsoft são uma estratégia utilizada por outros grupos semelhantes na Europa como forma de treino de movimentação táctica. Autoridades da Alemanha, França e Suécia já identificaram este tipo de prática por parte de grupos de extrema-direita.Nos últimos meses, o 1143 iniciou também contactos com grupos homólogos fora de Portugal, nomeadamente com o Núcleo Nacional, de Espanha. Esta ligação com os vizinhos espanhóis é mais uma prova de que o 1143 se mantém ativo apesar de o seu fundador estar preso. Para além da participação em eventos em Portugal, membros do grupo deslocaram-se igualmente a Espanha para participar em iniciativas do Núcleo Nacional. “Quem trabalha neste tipo de criminalidade procura sempre que se investigue e se interrompa a atividade no momento em que não há ainda crimes de resultado. É nossa responsabilidade defender a integridade das pessoas. Anteciparmos”, sublinhou Luís Neves. Neste processo, apesar de estarem em causa, sobretudo incidentes em manifestações, discriminação e incitamento ao ódio contra imigrantes, foram também investigados e identificados os suspeitos de um caso em que os membros do 1143 passaram da teoria à prática, quando espancaram violentamente dois imigrantes na estação de serviço de Aveiras; e o suspeito de ameaças à jornalista do DN, Amanda Lima..Grupo neonazi 1143 alvo de mega operação da PJ. Há 37 detidos, entre os quais um agente da PSP de Setúbal e um sargento da Força Aérea.O que fez o neonazi Mário Machado e o que é o grupo 1143, sob suspeita de ser uma organização criminosa?.Neonazi Mário Machado agredido por outros reclusos na prisão de Alcoentre