Rui Rio. 194 dias em guerra com o PSD

O caso dos processos do PSD contra candidatos autárquicos do partido é só mais um (de muitos) na guerra interna de Rui Rio pela afirmação da sua autoridade.

Ainda não tinha terminado o congresso que o consagrou como líder do PSD (16 a 18 de fevereiro, em Lisboa), e já Rui Rio entrava com o pé esquerdo na relação com o seu próprio partido.

A primeira grande polémica do sucessor de Passos Coelho à frente do partido - eleito nas diretas internas contra Santana Lopes por 54,3% contra 45,6% - ocorreu no próprio conclave.

Rui Rio decidiu levar para a sua comissão política Elina Fraga, bastonária da Ordem dos Advogados entre 2014 e 2016. Nesse cargo, a advogada desencadeou uma guerra fortíssima contra o governo de Passos Coelho, centrada na ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz.

Ao saber que Rio escolhera Elina para uma das vice-presidências do partido, Teixeira da Cruz não hesitou. "Todos aqueles que criticaram e atacaram Pedro Passos Coelho e o seu Governo nas horas mais difíceis estão agora a ser premiados. Esse prémio tem nome: chama-se traição", disse, ao Observador. Quando subiu ao palco do congresso, a ex-bastonária foi recebida com uma monumental vaia. Desde então praticamente desapareceu do espaço público. Já lá vão 194 dias. Sabe-se que o seu mandato na Ordem está sob investigação do Ministério Público.

Fernando Negrão foi eleito líder da bancada do PSD - mas com 60% de votos nulos e brancos.

Depois, o novo presidente do PSD teve de escolher um novo líder parlamentar. Hugo Soares, que até então desempenhara a função, revelara-se fortemente crítico de Rui Rio, censurando-lhe a atitude de diálogo e compromisso com o governo de António Costa - o oposto do que Passos Coelho fizera. E a escolha recaiu sobre Fernando Negrão. Apesar de ter apoiado Santana, Negrão parecia reunir as condições para ser mais unificador. Mas a bancada - forte reduto passista - decidiu sinalizar a sua oposição a Rio através da votação em Negrão, oferecendo-lhe 60% de votos brancos e nulos. Apesar disso, aceitou iniciar funções.

Desde então, as polémicas internas têm vindo a acumular-se. Feliciano Barreiras Duarte, apanhado numa história de falsas credenciais académicas, demitiu-se do cargo de secretário-geral do PSD em 18 de março. Num primeiro momento, Rio defendeu-o mas depois deixou-o cair.

"As demissões dos ministros dependem do primeiro-ministro. É o primeiro-ministro que tem de pensar, cada vez que tem um problema num ministério, se o ministro deve continuar ou não."

Em maio, novo choque, quando o líder desautoriza um pedido de demissão do ministro da Saúde feito no Parlamento pelo deputado Ricardo Leite Pinto. "Não é propriamente o meu estilo", diz Rio. "As demissões dos ministros dependem do primeiro-ministro. É o primeiro-ministro que tem de pensar, cada vez que tem um problema num ministério, se o ministro deve continuar ou não."

O pior momento na relação do líder do PSD com a bancada ocorreria a 21 de junho, quando o grupo parlamentar votou a favor, na generalidade, de um projeto-lei do CDS que elimina o adicional do Imposto Sobre os Combustíveis. Fonte da direção do PSD assegurou à Lusa que "a bancada votou completamente à revelia de Rui Rio, que foi confrontado com a decisão já tomada" - "uma atitude gravíssima".

E depois veio o caso da eutanásia. Rio pronuncia-se abertamente a favor, embora anunciando liberdade de voto para a bancada. Negrão é contra mas sugere um referendo - contra o qual o presidente do partido se pronuncia. Passos Coelho diz que é contra. E Cavaco Silva também.

O facto de os quatros projetos despenalizadores da morte assistida (PAN, BE, PS e PEV) terem sido todos chumbados salva o partido de mais uma guerra entre a bancada e Rui Rio. Os deputados do PSD que votaram a favor da despenalização da morte assistida fizeram-no evitando votar no projeto que reunia mais apoios, o do PS. Salvaguardaram a sua posição pessoal a favor e ao mesmo tempo derrotaram a posição do presidente do partido.

Luís Montenegro e Pedro Duarte são já dois candidatos assumidos de alternativa a Rui Rio

Mais recentemente, Rio irritaria novamente a bancada ao recusar dizer já que o PSD votará contra o Orçamento do Estado para 2019. O facto de ter assinado dois documentos de compromisso com António Costa - um sobre descentralização e outro sobre gestão futura dos fundos comunitários - também não caiu bem.

Passaram 230 dias desde que Rui Rio foi eleito presidente do PSD (14 de janeiro de 2018) e 194 desde que foi consagrado como tal em congresso. Luís Montenegro afirmou-se logo como alternativa futura e entretanto surgiu também Pedro Duarte. As apostas internas dizem que conseguirá ser o candidato do PSD a primeiro-ministro nas próximas legislativas, mas que a seguir será removido se o resultado for mau. Em junho passado, numa jornadas parlamentares na Guarda, deixou a promessa: continuará fiel à sua estratégia, "contra ventos e marés".

Este sábado, no Algarve, Rio regressa ao ativo, na Festa do Pontal, após um mês inteiro de férias em agosto sem agenda pública. A sua obstinação em cumprir as férias sem qualquer interrupção para comentar a atualidade - a confirmação da saída de Santana Lopes do PSD ou, por exemplo, o incêndio de Monchique - também foram alvo de críticas internas.

Mas ainda hoje Rio quebrou o silêncio para explicar afinal por que tinha estado tão calado: "O PSD não se pronuncia com casas a arder nem numa altura em que estão mais empenhados os meios a combater o fogo. O presidente do PSD não fala mesmo com as casas a arderem, a mata a arder e as pessoas a sofrer. Não fala porque respeita as pessoas e os seus sentimentos e a perda do património."

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