Chumbo da eutanásia evitou guerra contra Rio no PSD

Luís Montenegro, putativo candidato à liderança do PSD, deu voz ao descontentamento interno e acusou o líder de ter "feito pressão direta sobre os deputados".


Uma larga franja do PSD suspira agora de alívio. A eutanásia não passou no crivo dos deputados e, fontes do partido garantiram ao DN que até os que eram favoráveis aos quatro projetos de despenalização da morte assistida estavam cientes de que o partido entraria em polvorosa e votaram de maneira dispersa.

Há mesmo quem admita no PSD que se a despenalização da eutanásia tivesse sido aprovada, Rui Rio teria um sério problema para resolver internamente. O Conselho Nacional de ontem à noite escapou assim ao tema escaldante e concentrou-se na aprovação de novas regras éticas no partido.

Mas no mesmo dia, Luís Montenegro, ex-líder parlamentar do PSD - e putativo candidato um dia à liderança do partido - aproveitou a questão da eutanásia para desferir mais um ataque em Rui Rio e deu voz ao descontentamento interno.

Falando na TSF, Montenegro acusou o presidente do partido de ter feito "uma pressão direta sobre os seus deputados para seguirem a posição dele". Rio - disse Montenegro - "acusou não sei exatamente quem de estar a pressionar os deputados do PSD, com isso estando ele próprio a fazer uma pressão direta sobre os seus deputados para seguirem a posição dele".

Para o ex-chefe da bancada parlamentar do PSD, a forma como Rui Rio geriu o "dossier" da morte assistida foi "desajeitada" e "desastrada". E houve até momentos em que o que disse representou "um atentado" à "história" do PSD, motivo de "profunda indignação": "Ouvir dizer Rui Rio que estava a fazer um grande esforço para não impor disciplina de voto é para a nossa historia um atentado." "Até nem sei como não houve gente a saltar, tipo José Pacheco Pereira ou Manuela Ferreira Leite ou António Capucho", ironizou.

Montenegro reagia a afirmações do presidente do partido feitas na segunda-feira, véspera do debate (e votação) da morte assistida no Parlamento. "O PSD, ao dar uma completa liberdade de voto aos deputados, isso pressupõe justamente que não haja pressões e que as pessoas sejam completamente livres na sua decisão. O que eu gostaria é que cada um dos deputados, cada dos 89, aja em função da sua consciência", afirmou. Na mesma ocasião, Rio até disse que uma votação secreta - e não pública e nominal, como aconteceu - "seria melhor".

No grupo parlamentar, já depois da votação, Fernando Negrão (que defendia o "não" e venceu) evitou criticar o líder - muito pelo contrário. "O presidente do partido deu liberdade de voto porque considerou que esta era uma questão de consciência e isso é que é verdadeiramente importante, cada deputado se ter exprimido livremente".

E "não houve nenhuma estratégia" nem "nenhuma pressão" para que os seis deputados do PSD pró "sim" votassem isso em relação a diferente projetos. Se essa meia dúzia de deputados tivesse concentrado o seu "sim" num dos projetos - o do PS, por exemplo - este teria sido aprovado. Só Teresa Leal Coelho e Paula Teixeira da Cruz votaram favoravelmente os quatro diplomas em discussão. Adão Silva e Margarida Balseiro Lopes votaram apenas a favor do do PS. Cristovão Norte deu o "sim" ao do PAN. Duarte Marques aprovou dois , o do BE e dos Verdes. Pedro Pinto e Berta Cabral abstiveram-se em todos os projetos. E Bruno Vitorino absteve-se no do PAN,votando contra os restantes. E no fim nenhum passou.

Pelo meio, o PS vai sorrindo perante as quezílias internas do PSD.

"Já vejo o desembainhar das espadas", disse ontem Carlos César, no mesmo programa da TSF em que Montenegro criticou Rio. E "um partido que não se entende dificilmente é um partido apto para governar o país."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.