Rio intensifica oposição a Costa e enumera as quatro vitórias que já teve

Perante uma bancada que lhe é maioritariamente adversa, o presidente do PSD afirmou que não muda de estratégia. Mas apresentou já um primeiro balanço dos seus "sucessos"

"Uma aldrabice política". Foi disto que o presidente do PSD acusou o Governo por este alegadamente reclamar para Portugal um verdadeiro "milagre económico". E foi aí que se ouviram os primeiros verdadeiros aplausos do grupo parlamentar do PSD ao seu discurso. Passavam trinta minutos de um discurso que não chegou a quarenta.

Foi num hotel da Guarda, hoje, ao início da tarde, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD - as primeiras de Fernando Negrão como chefe do grupo e de Rio como chefe do partido.

Num momento em que se tornou notório que o PSD poderá muito bem ser a tábua de salvação do Governo no conflito com os professores, Rui Rio esforçou-se por carregar nas tintas nas críticas à governação. E apresentou aos deputados um primeiro balanço da sua liderança, enumerando quatro sucessos da direção. Foi ao explicar o terceiro sucesso que se ouviram os primeiros aplausos dos parlamentares do PSD. Que depois se repetiriam, sempre que Rio colocou Costa na sua mira.

Segundo disse, o PSD já conseguiu, "não a 100%, mas a 70% ou 80%", passar a mensagem de que "o discurso [governamental] do milagre económico é uma aldrabice política". De facto o que foi conseguido na melhoria dos índices económicos foi "à boleia do que tinha sido feito antes [pelo governo PSD-CDS] e da conjuntura económica".

Ou seja - disse - na verdade "não há milagre económico". E isso percebeu-se quando o governo não cumpriu a promessa de baixar o imposto sobre os combustíveis em função do aumento do preço do petróleo e quando não cumpriu a promessa de pagar integralmente o tempo total de carreira aos professores agora que as carreiras estão a ser descongeladas. Assim, a missão do PSD será continuar a "obrigar Governo a falar verdade e não mentir as pessoas".

Quanto os professores especificamente, o PSD "não empurrará o Governo para a irresponsabilidade" porque isso "é função do PCP e do BE". Tradução: o PSD não obrigará o Governo a gastar no descongelamento de carreiras dos docentes um dinheiro que António Costa já disse que não tem. Já ontem Fernando Negrão tinha feito afirmações que iam nesse sentido e hoje percebeu-se pelo próprio presidente do partido que, pelo menos neste aspeto, revelam uma concertação que por vezes tem falhado.

As outras três vitórias que Rio cantou relacionam-se com o Montepio, com Manuel Pinho e com a luta do PSD para que a CGD revele a lista dos seus 50 maiores devedores não cumpridores.

Sobre o Montepio, disse que "se não fosse posição do PSD hoje seguramente a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa estaria no capital" do banco. Algo que não poderia acontecer porque "o dinheiro para a atividade social não pode servir para pagar imparidades da banca comercial". "O país ganhou com esta atuação que fizemos de oposição ao Governo."

Depois foi o caso Manuel Pinho. "Foi pelo PSD que depois tudo se despoletou", ou seja, que agora o ex-ministro está obrigado a ir ao Parlamento explicar a avença que ganhou do BES enquanto esteve no Governo e que agora já funciona uma comissão de inquérito às rendas excessivas da EDP.

O quarto sucesso invocado pelo presidente do PSD foi o de ter conseguido passar a mensagem que afinal é o "governo das esquerdas" e o PCP e o BE quem "protege o grande capital" - quando impede o PSD de levar avante a sua ideia de obrigar a CGD a revelar a lista dos seus 50 maiores devedores incumpridores.

O PSD - anunciou - não se conforma com esta recusa e vai avançar com um pedido no Parlamento para seja revelada a auditoria (já pronta) à atuação do banco público entre 2000 e 2016 que o atual Governo determinou. "Queremos saber os devedores mas também os decisores" dos créditos que depois ficaram em incumprimento, obrigando o banco a ser auxiliado pelo erário público. E - explicou ainda - o PSD não fez este pedido sobre os grandes devedores ao BCP e ao BPI porque estes bancos "não tiveram ajuda pública", apenas da troika, ou seja, "o país como um todo não meteu dinheiro nestes dois bancos"

Estes quatro sucessos serviram ao líder social-democrata para reafirmar perante a bancada que não mudará a estratégia que definiu para a sua liderança. "É isto que temos de continuar a fazer, temos de ser acutilantes nas críticas" e "sérios, corajosos e competentes".

Falando da sua experiência pessoal, acrescentou: "Esta foi a receita que eu sempre apliquei e sempre deu resultado" (embora também seja certo um "pode haver um dia que não dê resultado"). Seja como for, insistirá. Num recado claramente dirigido aos que dentro do partido se lhe opõem, acrescentou outra nota pessoal: "Fi-lo sempre contra ventos e marés."

De resto, Rui Rio anunciou que vai pedir ao Conselho Estratégico do partido que agora defina políticas de reforma da Justiça e ainda um outro documento com medidas de combate à desertificação do interior do país. Serão "documentos em aberto" com ideias que posteriormente poderão ser aproveitadas para o programa que o PSD apresentará nas eleições legislativas.

Para exemplificar como as ideias desse Conselho Estratégico não serão necessariamente as ideias finais do PSD, Rio falou do documento já feito sobre políticas de incentivo à natalidade. Explicou, por exemplo, que ele próprio defende que os subsídios estatais à natalidade não se devem concentrar no primeiro filho mas antes no segundo filho.

"É estrategicamente muito mais importante o apoio ao segundo filho", é necessário um "salto de gigante" no apoio que os pais receberão nessa altura face ao que receberam no primeiro filho, porque o apoio a este "não é assim tão importante". Além do mais, defendeu ainda que a lei deve consagrar formas de a licença de maternidade ser "obrigatoriamente" partilhada entre o pai e a mãe.

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