Feliciano Barreiras Duarte demitiu-se

Secretário-geral do PSD emitiu comunicado afirmando que apresentou a demissão "irrevogável" a Rui Rio, exatamente um mês depois de ter sido eleito para o cargo

Feliciano Barreiras Duarte apresentou hoje a demissão do cargo de secretário-geral do PSD ao presidente do partido, Rui Rio. Um desfecho que era já tido por inevitável na direção social-democrata, face às polémicas em que o deputado se viu envolvido na última semana. A saída de Barreiras Duarte acontece exatamente um mês depois de ter sido eleito para a secretaria-geral, no último dia do congresso do partido.

O anúncio surge em comunicado emitido poucos minutos antes de uma entrevista à TSF agendada para esta tarde. No texto enviado às redações, Barreiras Duarte afirma: "Apresentei ao presidente do meu Partido o pedido irrevogável de demissão", decisão que, acrescenta, "já está concretizada". "Conversei com o Dr. Rui Rio e manifestei-lhe a minha vontade de deixar o cargo de secretário-geral do PSD, tendo em conta os ataques de que estava a ser alvo e os efeitos desses ataques no seio da minha família", escreve o também deputado, que fala em ataques de "uma violência inusitada".

O agora ex-secretáro-geral argumenta que não é ele o principal alvo desta campanha. No referido comunicado diz ter "perfeita consciência, como qualquer observador minimamente atento" de que o alvo principal é Rui Rio "e a sua direção". Ficar, diz, "seria avolumar o problema e não contribuir nada para a solução". "Saio de consciência tranquila; nunca ganhei nada, nem com uma, nem com outra situação; não tirei qualquer proveito da Universidade de Berkely - nem financeiro, nem de grau académico, nem profissional, nem político; não procurei qualquer benefício material ou outro, antes pelo contrário, com a questão da morada no Parlamento", conclui Barreiras Duarte, acrescentando que aguardará agora "serenamente os resultados do inquérito que a Procuradoria-Geral da República anunciou".

"Não há lugar a arrependimentos: dediquei os melhores anos da minha vida ao PSD e à atividade política e voltaria a fazer o mesmo, pois considero que servir o País é o mais nobre dos deveres", refere ainda o deputado.

Leia aqui o comunicado na íntegra

Barreiras Duarte estava sob fogo há mais de uma semana, depois de o semanário SOL ter noticiado que ex-secretário de Estado falseou dados do seu currículo, apresentando-se como visiting scholar na Universidade da Califórnia, em Berkeley, estatuto que nunca teve. A Procuradoria-Geral da República (PGR) determinou entretanto a abertura de um inquérito ao caso. Já este fim de semana, nova polémica: o Observador avançou que o também deputado terá recebido indevidamente ajudas de custo e despesas de deslocação do Parlamento por ter dado uma morada no Bombarral quando vivia em Lisboa. De acordo com o jornal online, entre 1999 e 2009 Barreiras Duarte recebeu ajudas como se vivesse no Bombarral, informação que o próprio confirmou por se tratar, disse, da sua morada fiscal à época. "Sendo a morada fiscal a única relevante para qualquer efeito administrativo e fiscal, incluindo o direito de voto, entendi que naturalmente era essa a morada que devia colocar no registo da Assembleia da República", explicou-se o secretário-geral do PSD.

O arrastar da polémica causou desagrado na cúpula dos sociais-democratas. Em entrevista à Antena 1, emitida sábado, um dos vice-presidentes do partido, Manuel Castro Almeida, dava nota do desconforto com o caso. "É bom que ele pondere se tem ou não tem condições" para continuar no cargo, afirmou o dirigente laranja, sublinhando que a polémica já se arrasta "há algum tempo". E, referindo-se à informação errada inscrita no currículo do secretário-geral, garantiu: "Isto não aconteceria comigo." Como o DN noticiou, Rui Rio já estava então à espera que Feliciano Barreiras Duarte tomasse a iniciativa de apresentar a demissão.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.