É (lembram-se?) a economia, estúpidos

O PSD não sabe dizer se há imigrantes a mais, mas quer pedir explicações ao PS por os “ter deixado entrar”. Talvez o partido do governo devesse começar por explicar como faria se não houvesse imigrantes.
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Soube-se há dias pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) que a população imigrante residente em Portugal passou de 7% em 2021 para 14% em 2025. Isto é bom ou mau? De acordo com o novel porta-voz do PSD, que por acaso é eurodeputado, “é difícil responder a essa pergunta”. Isto porque, segundo o Público, que o cita, reconhece “a profunda carência de mão-de-obra que o tecido empresarial português tem”.

Tendo quiçá presente que o Fundo Monetário Internacional acaba de apontar as políticas migratórias restritivas como uma das ameaças mais sérias e preocupantes para a economia portuguesa, Sebastião Bugalho — é dele, o ex-jornalista e comentador televisivo de 30 anos, que falamos — garantiu até que “certamente” não será o PSD a ter “um discurso distópico e enganador” sobre a imigração. Dá-se porém o caso de esta garantia ter ocorrido na mesmíssima ocasião, e a propósito, do anúncio de que o PSD, ou seja o respetivo grupo parlamentar (na Assembleia da República e não no Parlamento Europeu, esclareça-se), vai chamar ex-governantes do PS para explicarem “o aumento sem precedente” da população estrangeira no país.

Primeiro facto: o PSD, que está no governo, não sabe se foi bom ou mau entrarem tantos imigrantes, mas quer os ex-governantes a dar explicações sobre isso, numa espécie de julgamento público. Ora sendo assim, se calhar, devíamos começar por ouvir o partido que governa definir o que acha que é imigração a mais. E com base em quê: tem dados para nos apresentar sobre essa demasia?

Ou, pelo contrário, estamos perante o tal “discurso distópico e enganador” que Bugalho certifica não existir, o chamado “discurso das percepções”? É que, recordemos, trata-se do mesmo PSD e do governo cujo primeiro-ministro começou, no outono de 2024, e na esteira do discurso quer do Chega (que nessa precisa altura trocou o ódio aos ciganos pelo ódio aos imigrantes) quer de Passos Coelho, a associar a imigração à insegurança — uma associação que, recorde-se, seria logo rebatida com grande calor pelo então diretor da Polícia Judiciária, Luís Neves, por estes dias ministro da Administração Interna.  

Vamos a mais factos. De acordo com os números do INE, a população estrangeira residente em Portugal passou de 748 155 pessoas no final de 2021 para 1 597 530 pessoas em 31 de dezembro de 2025, ou seja, mais que duplicou. O ano em que entraram mais imigrantes foi, e cito o DN, aquele imediatamente a seguir à pandemia: 2022 (com chegada de 326 090 pessoas). Seguiu-se 2023, com 275 929, e 2024 com 188 252. 

Encarados isoladamente, estes números dizem-nos pouco — por que motivo entraram tantos imigrantes nestes poucos anos? Que será que aconteceu? É verdade que o governo do PS “escancarou as portas” do país? E se o fez, por que motivo? 

Talvez a primeira coisa a notar seja que o país está naquilo a que se dá o nome de “pleno emprego”, o que quer dizer que não há excedentes, ou seja, que não há gente a mais por aí encostada. O que pode levar-nos a concluir que essa grande quantidade de imigrantes que entrou foi absorvida pelo mercado de trabalho. Sendo isso verdade, a questão a colocar é o que teria acontecido se esses imigrantes todos não tivessem entrado.

Outro facto a notar, relevado por Joana Gorjão Henriques no Público desta segunda-feira a partir dos dados do INE, é que, além de, como já se sabia, a maioria dos imigrantes que vivem em Portugal serem provenientes do Brasil (574 195 em 2025, num aumento de 106% face a 2021), o contingente dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) mais que duplicou. Citando o Público: “Entre 2021 e 2025, cada uma das comunidades dos PALOP teve um crescimento superior a 100%. Se Angola acrescentou mais de 70 mil residentes e se tornou a segunda maior nacionalidade estrangeira em Portugal, São Tomé e Príncipe e Moçambique apresentaram as maiores taxas de crescimento, acima dos 200%.” Juntando todos, segundo os números citados pelo jornal, rasam os 280 mil. 

Querendo dizer que dos cerca de 1,6 milhões de imigrantes referidos pelo INE como residindo em Portugal em 2025, mais de metade são falantes de português. Já os provenientes do sudeste asiático somariam, no mesmo ano, pouco menos de 250 mil, com indianos, nepaleses e bangladeshis entre os mais numerosos.    

Agora que olhámos para a imigração para Portugal, recuemos um pouco e observemos a Europa — algo que, imaginar-se-ia, podia ocorrer a um eurodeputado como é o novo porta-voz do PSD. 

Atentemos por exemplo aos Países Baixos, que não são suspeitos (creio) de terem sido governados pelo Partido Socialista, o português ou outro qualquer, nos últimos cinco anos. Na página do INE lá do sítio, descobrimos que naquele pequeno país (o qual, sendo territorialmente menor que o nosso, tem mais de 18 milhões de habitantes) entraram, em 2022, 230 300 imigrantes de países não UE e não EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça), mais 129 mil UE/EFTA, num total de 359 300; em 2023 receberam 164 600 dos primeiros e 126 700 dos segundos (soma, 291 300); em 2024 foram 155 mil mais 188 200 (343 200 ao todo). No gráfico que podemos ver na página, é notório o salto de 2021 para 2022: houve, nos imigrantes não UE/EFTA, um aumento de 155%

Passemos para a Irlanda, outro país muito conhecido pelo seu desenfreado socialismo, e que em 2022 registou o maior recorde de entradas de imigrantes desde 2007: 120 700. Tal como Portugal, a Irlanda também atingiu, graças à imigração, o seu maior total de população de sempre, com um aumento de 8,1% de 2016 para 2022. Em abril de 2024, diz-nos a página governamental “Migração: os factos”, dos então 5,38 milhões de habitantes 15,5%, ou seja 833 900, eram cidadãos estrangeiros. Mais relevante ainda é a percentagem de imigrantes na população ativa: em 2,7 milhões, 500 mil (ou seja quase 19%) não eram, em 2024, cidadãos irlandeses. 

Vale a pena ler a explicação que a página do governo dá para a situação: “Temos pleno emprego na Irlanda. Isso significa que muitos serviços ou setores estão a encontrar dificuldade em preencher os seus postos de trabalho e em encontrar funcionários. Neste momento, beneficiamos da migração, pois as pessoas vêm para cá para preencher empregos, trazer competências e apoiar o nosso crescimento económico. Nos últimos 10 anos, houve um aumento muito significativo no número de pessoas não irlandesas empregadas na economia irlandesa. Esta força de trabalho ajudou a Irlanda como um todo a recuperar da crise financeira global e a tornar-se mais rica e produtiva nos últimos anos.

Se calhar, antes de pedir explicações ao PS sobre o que ocorreu em Portugal, o PSD devia sacudir o paroquialismo (e o oportunismo, já agora) e reparar que o fenómeno aqui ocorrido com a imigração, e o seu súbito aumento, está longe de ser único ou ter motivos que não o mais óbvio. É — como dizia o outro — a economia, estúpidos.

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