Até agora, a economia portuguesa tem conseguido ultrapassar algumas fragilidades internas e de, certo modo, reduzir o impacto dos grandes abalos e choques externos que têm marcado os últimos anos, mas para o Fundo Monetário Internacional (FMI), o país tem de acelerar nas reformas estruturais se quiser continuar a recuperar e a garantir o seu lugar no grupo dos países mais desenvolvidos.No âmbito da nova avaliação do Artigo IV a Portugal, o FMI desenhou uma "matriz" de riscos externos e internos, alguns já reais e efetivos, outros emergentes, e conclui que o país enfrenta atualmente oito grandes riscos.Destes, seis são "altamente" prováveis de acontecer (alguns já em curso); e nesta meia dúzia, o impacto negativo esperado é relevante e assinalado na "matriz" em jeito de avisos laranjas e encarnados.Segundo o Fundo, as ameaças mais sérias e preocupantes que o governo e os restantes atores económicos devem ter em conta vêm, por exemplo, das "políticas de imigração mais restritivas" (porque podem provocar "escassez" na mão-de-obra disponível e dificultar a criação de emprego), do envelhecimento populacional (que pode exercer uma pressão insustentável sobre as contas públicas e a dívida), das tarifas comerciais e do protecionismo (que tendem a destruir boas empresas e indústrias exportadoras, ao mesmo tempo que geram mais inflação e travam crescimento e novos investimentos), da guerra, só para citar alguns dos perigos listados pelo antigo credor de Portugal.A Matriz de Avaliação de Riscos elaborada pelo FMI é um quadro, apresentado numa lógica sobretudo qualitativa, de "eventos que podem alterar de forma material o cenário de base", as projeções centrais para a economia portuguesa apresentadas esta quarta-feira, em Washington.Essa probabilidade "reflete a avaliação subjetiva da equipa técnica [a missão do FMI a Portugal], sendo classificada como baixa (inferior a 10%), média (entre 10% e 30%) e elevada (entre 30% e 50%)".Esta matriz "sintetiza a perspetiva dos técnicos da missão sobre a origem dos riscos e o grau geral de preocupação no momento das discussões com as autoridades", que decorreram entre 23 de abril e 6 de maio.1. ConflitosDe acordo com o novo estudo, os riscos globais incluem, em primeiro lugar, o problema das tensões geopolíticas e da intensificação dos conflitos, cuja probabilidade relativa é considerada "elevada".Segundo a equipa do FMI, "o agravamento das tensões geopolíticas e o enfraquecimento do multilateralismo aumentam o risco de escalada de conflitos militares, acompanhados por danos em infraestruturas físicas e financeiras essenciais, interrupções em rotas de transporte e cadeias de abastecimento, maiores pressões migratórias, fricções financeiras adicionais e volatilidade nos mercados".O impacto esperado, embora considerado médio para o caso de Portugal, decorre sobretudo de "riscos indiretos, como o aumento dos preços das importações e o enfraquecimento do crescimento dos parceiros comerciais".Como resposta, o FMI recomenda "a adoção de apoios temporários e bem direcionados a famílias e empresas vulneráveis para mitigar os efeitos dos preços mais elevados da energia", bem como "a reorientação do investimento público para áreas que reforcem a competitividade e acelerem reformas estruturais que facilitem a reafetação de postos de trabalho".2. Tarifas, protecionismoOutro risco (o segundo da matriz) ainda mais relevante vem do protecionismo e das perturbações no comércio global. Aqui, a probabilidade de haver um impacto real é "elevada" para mais porque as tarifas elevadas já são uma realidade para muitos sectores.O Fundo adverte que "medidas alfandegárias e não alfandegárias podem interromper cadeias de abastecimento globais, penalizando a atividade económica e aumentando a inflação, ao passo que o desvio de comércio pode desencadear um ciclo ainda mais longo de protecionismo".A instituição sediada em Washington não tem grandes dúvidas. O impacto disto "é elevado, uma vez que barreiras comerciais mais altas e disrupções nas cadeias de abastecimento reduziriam as exportações de bens, abrandariam o crescimento e pressionariam a inflação".Para tentar minimizar os danos, "as respostas políticas passam por trabalhar com parceiros da União Europeia para aprofundar o mercado único e celebrar novos acordos comerciais, além de prosseguir reformas estruturais que aumentem a produtividade, a competitividade e a diversificação dos parceiros comerciais".Para amortecer os impactos no crescimento, o FMI sugere que "os estabilizadores automáticos devem ser ativados em primeiro lugar e, em caso de recessão severa, pode ser necessário um relaxamento orçamental temporário, mantendo", mas observando sempre que o excedente público primário [saldo sem contar com a despesa em juros] é "compatível com a redução da dívida" portuguesa.A fragilidade da dívida é, aliás, um assunto recorrente neste estudo do Artigo IV pois, embora o FMI reconheça os avanços do país nesta matéria, o peso do endividamento público "continua elevado". Está na casa dos 80% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e no próximo, mas devia estar mais perto de 60%, como manda o Pacto, defendem instituições como o FMI, a Comissão Europeia, o Banco de Portugal ou a OCDE.3. Preços das matérias primasTerceira ameaça: a volatilidade dos preços das matérias-primas e a exposição a este tipo de bens constitui outro risco global do país com "elevada probabilidade" de se materializado, como prova a História recente deste ano, desde que começou a guerra contra o Irão e no Médio Oriente.Para a missão que segue Portugal, "os desequilíbrios entre oferta e procura, motivados por tensões geopolíticas, decisões coordenadas de produção, alterações nas preferências dos investidores ou mudanças estruturais na procura, podem provocar oscilações nos preços, ampliando pressões externas e orçamentais, tensões sociais e instabilidade macroeconómica".Ainda que, nesta fase, o impacto esperado na economia nacional seja considerado "médio", o FMI alerta que mais guerras e conflitos tenderão a trazer sempre "mais inflação, menos investimento e crescimento mais fraco" a famílias, empresas e sector público.Aqui, o Fundo admite mesmo que pode haver "um cenário de choque severo que afete a procura interna ou externa, nomeadamente no mercado imobiliário", algo que levará os preços das casas a "cair acentuadamente, agravando a desaceleração [da economia como um todo]".Como resposta, o país e o governo devem voltar a considerar "a reintrodução de apoios temporários e dirigidos a famílias e empresas viáveis em dificuldades, condicionando o apoio empresarial a metas de eficiência energética, bem como acelerar a transição para energias renováveis através de maior investimento".4. Dívida e taxas de juroOutra ameaça (a quarta da matriz) com elevada probabilidade tem a ver com "as vulnerabilidades orçamentais e o aumento das taxas de juro" do país."Níveis elevados de dívida e défice público exercem pressão ascendente sobre as taxas de juro de longo prazo, apertando as condições financeiras globais, aumentando a volatilidade cambial e reduzindo o consumo e o investimento, o que agrava a dinâmica da dívida", indica a instituição.Há uns anos não era assim, mas agora o FMI defende que "o impacto é considerado médio em Portugal, dado o reforço recente da posição orçamental, que mitiga aumentos acentuados dos prémios de risco. Ainda assim, o nível de dívida permanece elevado e qualquer aumento das taxas de juro soberanas elevaria os custos de refinanciamento, limitaria a margem orçamental e abrandaria o processo de desalavancagem, além de travar a recuperação do investimento".Portanto, sem surpresa, o antigo credor insiste que é preciso "manter a disciplina orçamental para preservar a confiança dos mercados e reorientar a despesa pública para o investimento, mitigando os efeitos do aperto financeiro sobre o investimento privado".Ameaças que vêm de dentroAté aqui foi o desfile das maiores ameaças externas. Em cima destas, o FMI identificou as ameaças internas, os chamados "riscos específicos de Portugal".5. Ciber-ameaçasEntre os perigos com "elevada probabilidade" de ocorrerem estão as "ciber-ameaças", por exemplo. É a quinta grande ameaça. Por enquanto, o FMI considera que o impacto na economia destes ataques ainda pode ser "baixo", mas aconselha vivamente que o país siga e aplique as recomendações do novo Programa de Avaliação do Sector Financeiro (FSAP, na sigla inglesa) que o Fundo entregou esta semana.A prioridade, defende, é garantir "a resiliência das instituições financeiras" e "a proteção e resiliência de outras entidades críticas, como serviços públicos, organismos governamentais e empresas de transporte".6. Barreiras à emigração e envelhecimentoComo referido, outro dos avisos encarnados (sexta grande ameaça, mas uma das mais relevantes) é por causa das recentes barreiras à imigração impostas por iniciativa do atual governo do PSD-CDS, com apoio do Chega.Para o FMI, "políticas migratórias mais restritivas agravam a escassez de trabalhadores em economias envelhecidas, como Portugal, reduzindo o produto potencial, pressionando a inflação e afetando as finanças públicas através de menores receitas", como os descontos para a Segurança Social e os impostos pagos pelo número crescente de imigrantes que marcou os últimos anos até muito recentemente.O FMI considera que o impacto destas novas barreiras em Portugal "é elevado", dada "a dependência crescente da imigração para sustentar a oferta de trabalho, pelo que restrições adicionais diminuiriam o crescimento potencial e aumentariam a inflação".Como resposta, o Fundo recomenda que o país alivie restrições; "promova a participação no mercado de trabalho e aumente a flexibilidade laboral por via de reformas estruturais adequadas".E também pediu ao governo e aos políticos uma nova reforma do sistema de pensões. O que existe é insustentável no médio longo prazo, na opinião do antigo credor.Outras ameaças, mas menos iminentesO sétimo risco, mas cuja probabilidade de impacto na economia é considerado, para já, menos elevada, diz respeito às alterações climáticas."Representam um risco de probabilidade média", na avaliação do FMI."Eventos climáticos extremos e o aumento das temperaturas podem causar perdas humanas, danos em infraestruturas, insegurança alimentar, perturbações nas cadeias de abastecimento e maior instabilidade económica e financeira", mas o impacto esperado em Portugal "é médio", sendo de considerar, em todo o caso, "fenómenos como tempestades, cheias e incêndios a perturbar a atividade económica, como os registados nos últimos anos", recorda o FMI.Como respostas possíveis, o Fundo indica "apoio orçamental direcionado a famílias e empresas afetadas e reforço do investimento público em infraestruturas de adaptação, bem como reformas que aumentem a resiliência das atividades produtivas".Finalmente, o oitavo grande risco, também considerado interno. "A persistência da inflação subjacente constitui um risco de probabilidade média" combinado com "um crescimento dos salários reais superior ao da produtividade pode manter a inflação acima da média da Zona Euro".Para o FMI, o impacto esperado é igualmente "médio", uma vez que expectativas de inflação mais elevadas "podem pressionar salários e abrandar a descida da inflação, afetando negativamente a competitividade externa e reforçando efeitos de segunda ordem associados a aumentos dos preços das matérias-primas".Neste caso, a "resposta política, na ausência de política monetária autónoma, passa por calibrar cuidadosamente a política orçamental, equilibrando objetivos de crescimento e inflação, e continuar a promover a participação no mercado de trabalho"..FMI vê crescimento português a perder força, contas públicas equilibradas e perigos "elevados" na habitação.Debrun e a Inteligência Artificial. "Só sabemos que há uma bolha depois desta rebentar".FMI pede fim dos apoios aos jovens na habitação e no IRS e quer nova reforma das pensões.FMI apoia governo na PSU, pede nova reforma das pensões e mais limites nas pensões por viuvez.FMI pede a governos que estudem já fim de apoios aos combustíveis porque este choque pode não ser temporário.FMI alerta para momento “muito crítico” da economia mundial devido à guerra no Irão