O júri da Bienal Internacional de Arte de Veneza, que tem início a 9 de maio, afirmou no final desta semana que não vai ter em conta artistas de países cujos líderes enfrentam acusações de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional, numa referência a Rússia e a Israel. Este painel, composto apenas por mulheres e que irão selecionar os vencedores dos prémios Leão de Ouro e Leão de Prata entre os 110 participantes, declarou sentir-se obrigado a comprometer-se “com a defesa dos direitos humanos” como parte da sua função neste evento, frequentemente descrito como “as Olimpíadas do mundo da arte” pelo prestígio que representa para os artistas contemporâneos que nele participam.“Enquanto membros do júri, temos também uma responsabilidade para com o papel histórico da Bienal enquanto plataforma que liga a arte às urgências do seu tempo. Reconhecemos a complexa relação entre a prática artística e a representação do Estado-nação, que constitui uma estrutura central para a Bienal de Veneza, particularmente a forma como esta relação liga o trabalho dos artistas às ações do Estado que representam”, referiu em comunicado o painel do júri, composto por Solange Farkas, Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi. “Nesta edição da Bienal, desejamos deixar clara a nossa intenção: expressar o nosso compromisso com a defesa dos direitos humanos e com o espírito do projeto curatorial de Koyo Kouoh. Consequentemente, este júri abster-se-á de considerar os países cujos líderes estejam atualmente a ser acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional”.De recordar que o presidente russo, Vladimir Putin, é acusado de crimes de guerra pela deportação e transferência ilegal de crianças ucranianas, enquanto que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, está acusado de crimes de guerra de fome como método de guerra e de dirigir intencionalmente um ataque contra a população civil palestiniana, bem como de crimes contra a humanidade de homicídio, perseguição e outros atos desumanos, pelo menos entre 8 de outubro de 2023 e 20 de maio de 2024.A Fundação Bienal respondeu a este anúncio, dizendo que o júri tem “total autonomia e independência de julgamento”, classificando a sua decisão como uma “expressão natural da liberdade”. Antes tinha justificado a participação da Rússia, alegando que “rejeita qualquer forma de exclusão ou censura da cultura e da arte”, sublinhando que “a Bienal, tal como a cidade de Veneza, continua a ser um lugar de diálogo, abertura e liberdade artística, incentivando ligações entre povos e culturas, com a esperança duradoura de que os conflitos e o sofrimento cessem.” Também o presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, já havia defendido o regresso da Rússia, após uma ausência decretada em 2022 devido à invasão da Ucrânia, afirmando que o evento deveria ser “um espaço de tréguas” onde a arte prevalece sobre a geopolítica, confirmando que Irão, Israel, Ucrânia e Bielorrússia também marcariam presença. “Esta é mais uma prova de que a cultura russa não está isolada e que as tentativas de ‘cancelá-la’, empreendidas nos últimos quatro anos pelas elites políticas ocidentais, não tiveram sucesso”, referiu ao ARTnews Mikhail Shvydkoy, representante de Putin para os intercâmbios culturais internacionais e antigo ministro da Cultura.Bruxelas faz ultimatoA decisão da Bienal já foi criticada por vários governos, começando pelo italiano, liderado por Giorgia Meloni, uma forte crítica de Moscovo e aliada de Kiev, mas também pelo ucraniano. “Infelizmente, ninguém que esteve envolvido em projetos culturais internacionais nos últimos quatro anos está muito surpreendido, porque a Rússia tem vindo a encontrar formas de chegar a espaços importantes de uma forma ou de outra durante todo este tempo”, afirmou Ksenia Malykh, co-curadora do pavilhão da Ucrânia na Bienal de Veneza. Já a ministra da Cultura da Letónia, Agnese Lāce, que encabeçou 25 países europeus pedindo a exclusão da Rússia, garantiu que boicotará a abertura da Bienal de Veneza a 9 de maio caso a participação de Moscovo se concretize, já que tal dá “legitimidade, através de uma importante plataforma cultural europeia financiada por recursos europeus” a um país agressor.Mas a reação com mais impacto veio da Comissão Europeia, que revelou na quinta-feira ter enviado uma carta à organização do evento a informar da sua intenção de terminar ou suspender uma subvenção de dois milhões de euros depois de Moscovo ter sido autorizado a regressar. "Há apenas uma subvenção em curso, de dois milhões de euros para os próximos três anos, e é essa que pretendemos terminar ou suspender", disse um porta-voz da Comissão Europeia, acrescentando que a Bienal tem 30 dias para responder à missiva. Um ultimato que surge sem surpresa, depois dos comentários feitos pela líder da diplomacia europeia logo no início da semana. “Enquanto a Rússia bombardeia museus, destrói igrejas e tenta apagar a cultura ucraniana, não deveria ter permissão para exibir a sua própria”, disse Kaja Kallas. “O regresso da Rússia à Bienal de Veneza é moralmente errado, e a UE pretende cortar o seu financiamento”..'RedSkyFalls': conheça o projeto que vai representar Portugal na Bienal de Veneza