Projeto foi apresentado à imprensa no início da tarde desta quarta-feira (18).
Projeto foi apresentado à imprensa no início da tarde desta quarta-feira (18). Foto: Gerardo Santos

'RedSkyFalls': conheça o projeto que vai representar Portugal na Bienal de Veneza

Obra de Alexandre Estrela reage, em tempo real, à atividade sísmica global e aborda guerras e conflitos ao redor do mundo: “Um ecossistema com sensibilidade extrema à trepidação da Terra”, diz.
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A Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique, recebeu esta quarta-feira, 18 de março, a apresentação pública de RedSkyFalls, projeto que vai representar Portugal na 61.ª Exposição Internacional de Arte - Bienal de Veneza neste ano. A sessão contou com a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, do diretor-geral da DGARTES, Américo Rodrigues, e do artista Alexandre Estrela, que apresentou o projeto acompanhado pela equipa curatorial.

A apresentação foi várias vezes interrompida por estrondos que, num primeiro momento, pareciam até uma falha de som - e que, pelo contrário, fazem parte da obra. “Isto é um ecossistema feito com várias partes interconectadas, que funciona como um sistema de seres artificiais com uma sensibilidade extrema à trepidação da Terra”, disse Alexandre Estrela, explicando que o funcionamento da obra assenta num limiar de ativação definido a partir da magnitude dos sismos.

O artista Alexandre Estrela assina o projeto.
O artista Alexandre Estrela assina o projeto.Foto: Gerardo Santos

“Temos uma fasquia por volta dos 4 na escala de Richter. Tudo o que ultrapassa isso dispara um sinal que entra nos computadores e desencadeia o som”, detalhou o artista, referindo que o sistema esteve ativo durante a própria sessão, reagindo a eventos registados, por exemplo, no Oceano Pacífico.

A apresentação marcou o primeiro momento público de contacto com a obra que será exibida em Veneza entre 9 de maio e 22 de novembro de 2026, no Fondaco Marcello. O projeto foi selecionado através de concurso público, num processo que envolveu uma comissão independente e um financiamento global de cerca de 425 mil euros para produção e apresentação.

Com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau, RedSkyFalls parte de uma obra anterior, de 2019, e foi agora expandida para uma instalação imersiva que cruza arte contemporânea, ciência e tecnologia. A proposta integra a edição da Bienal com o tema In Minor Keys, centrado em escalas mais discretas de perceção.

No centro da instalação está este sistema que reage, em tempo real, a dados sísmicos captados em diferentes pontos do mundo. Esses dados são convertidos em estímulos sonoros e visuais, criando uma experiência sensorial contínua dentro do espaço expositivo.

Essa ativação gera uma resposta coletiva das entidades presentes na instalação, designadas “Réplicas”. “Há um som que dispara e há uma resposta transversal de medo”, disse. “Essas criaturas congelam para que, no fundo, esta violência pare”, acrescentou.

Neste sentido, a escolha da Igreja de Santa Isabel para a apresentação não foi casual. O espaço está ligado à memória do terramoto de 1755, funcionando como ponto simbólico para esta obra que trabalha sobre a ideia de abalo, instabilidade e leitura de sinais subterrâneos em diferentes dimensões.

Projeção na Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique, na apresentação do projeto português selecionado para a Bienal de Veneza de 2026.
Projeção na Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique, na apresentação do projeto português selecionado para a Bienal de Veneza de 2026. Foto: Gerardo Santos

A investigação que sustenta o projeto, de acordo com Estrela, cruza várias áreas, incluindo sismologia, biologia, neurociências e estudos climáticos. O artista sublinhou também o enquadramento histórico e tecnológico da leitura sísmica - dando como exemplos concretos os impactos de drones e bombas nas guerrras.

“A sismologia teve grandes avanços com as explosões nucleares”, afirmou. “Está latente esta possibilidade, no mundo em que vivemos, de voltarmos a ter sismos terrivelmente controlados".

Um projeto "multidisciplinar"

A ministra da Cultura, presente no evento, destacou o enquadramento da participação portuguesa e o perfil da proposta que fará parte da Bienal. “Destacaria este cruzamento entre a arte, a tecnologia e a ciência: é uma das possibilidades que a cultura nos oferece, este caráter multidisciplinar”, afirmou Margarida Balseiro Lopes.

A membra do governo sublinhou ainda a relevância da Bienal de Veneza no panorama internacional, indicando tratar-se de “uma das mais importantes exposições a nível mundial de arte contemporânea”, que reúne “artistas de várias geografias, de várias gerações, com diferentes sensibilidades”.

A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.Foto: Gerardo Santos

Também Américo Rodrigues, diretor-geral da DGARTES, destacou a importância da presença portuguesa na Bienal de Veneza. De acordo com Rodrigues, o evento é “um dos mais importantes contextos internacionais de apresentação da arte contemporânea” e “um espaço privilegiado de diálogo intercultural”, afirmou.

Ainda segundo o diretor-geral da DGARTES, a participação nacional constitui “um instrumento fundamental para o desenvolvimento de projeção internacional”, permitindo “a circulação de artistas, o reforço das redes institucionais e a visibilidade da criação contemporânea produzida a partir de Portugal”.

Divergências sobre participação de Rússia e Israel

Questionada sobre a participação de países envolvidos em guerras na edição de 2026, Margarida Balseiro Lopes referiu que Portugal subscreveu uma posição conjunta europeia relativamente à Rússia. “Assinamos uma carta a dar nota da nossa insatisfação com a participação da Rússia na Bienal de Veneza”, disse.

No caso de Israel, a ministra indicou que não existe uma posição comum ao nível europeu. “Não há uma posição, a nível europeu, como há em relação à Rússia”, afirmou, acrescentando que o Governo português privilegia “a articulação com os parceiros europeus” e “a via diplomática e o diálogo”.

Também perguntado por jornalistas sobre a questão - que levantou polémicas nos últimos dias - Alexandre Estrela manifestou discordância em relação a essa posição do Governo, assumindo uma leitura crítica do contexto político. “Não me revejo, e a equipa toda não se revê, neste apoio e neste silêncio tanto ao Governo dos Estados Unidos como ao de Israel”, afirmou. “Somos solidários com os povos oprimidos neste momento”, acrescentou.

Para além da instalação principal, o projeto será acompanhado por um programa paralelo ao longo dos sete meses de exposição, com conversas, concertos, projeções e outras iniciativas. “Vai haver um programa paralelo com outros artistas, com outros trabalhos que vão pôr em ressonância o próprio trabalho”, explicou Alexandre Estrela.

O projeto prevê ainda extensões sincronizadas noutras geografias, incluindo Lisboa, funcionando como um sistema interligado que reage à atividade sísmica global. Em Portugal, está prevista uma articulação com a Galeria Zé dos Bois, no Bairro Alto, criando um “braço” do projeto em simultâneo com Veneza.

nuno.tibirica@dn.pt

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