Bruno Zhu saiu de Portugal ao 17 anos para estudar em Londres e Amsterdão e considera-se não um artista português mas "europeu". "A minha formação académica e artística é toda europeia. Não é portuguesa, nem é claramente inglesa, ou holandesa, é europeia. Fico sempre um bocado perdido quando chego a Portugal, a tentar perceber qual é a narrativa", diz em entrevista ao DN.Bruno Zhu ganhou em 2015 o Prémio Revelação Novo Banco no âmbito do qual realizou a sua primeira exposição individual em Portugal – Vista Alegre no Museu de Serralves, no Porto –, e em 2022 integrou a shortlist e recebeu uma menção honrosa do Prémio Novos Artistas Fundação EDP (ganho nesse ano por Adriana Proganó), mas a sua atividade artística tem decorrido sobretudo fora do país. Natural de Viseu, estudou Design de Moda na prestigiada Central Saint Martins, em Londres, e Artes no Sandberg Instituut, em Amsterdão. É nesta cidade que ele tem o atelier, mas há um projeto que o traz muitas vezes a Viseu, cidade onde cresceu e os seus pais têm uma loja de roupa e artigos para o lar chamada A Maior. Em 2016, e na sequência da exposição em Serralves – com curadoria da sua mãe – Bruno Zhu criou uma galeria na loja onde organiza várias exposições por ano. O projeto de Bruno Zhu no CAM surgiu de uma colaboração desta instituição com a Chisenhale Gallery. Quando o artista foi convidado para expor nesta galeria londrina, em 2024, concebeu uma estrutura de exposição composta por quatro salas, cada uma delas com regras próprias, criando uma espécie de “licença” replicável noutros contextos, em que o “esqueleto” da exposição se mantém, mas o recheio é outro. Assim, um dos espaços tem de ser sempre uma sala de época e estar invertida, noutra a utilização de um laço é obrigatória, na seguinte o pavimento é de cor malva e as quatro paredes têm cores específicas e distintas (vermelho, verde, azul, amarelo) e há outra com vitrines expositivas em forma de naipe de baralho de cartas espelhadas por dentro. . Cada um destes espaços é preenchido nesta exposição com obras da coleção do CAM escolhidas pelo artista, entre as quais de José de Almada Negreiros, António Pedro, Sérgio Pombo ou Emília Nadal. A instituição prossegue assim o projeto de colocar os artistas em diálogo com sua coleção, representativa da arte portuguesa dos séculos XX e XXI.Bruno Zhu falou com o DN sobre este projeto e a sua prática artística.Nesta instalação, o visitante sente-se fora de pé. A ideia é obrigá-lo a situar-se e a olhar bem? Sim, o visitante parece que aterra ali como um corpo clandestino em quatro salas que parecem fechadas entre si em regras muito rígidas. Mas é exatamente isso, é um confronto. Criar um confronto com o visitante para repensar de novo o que é a experiência estética quando se entra no museu. Porque a experiência estética só se torna ativa quando alguém reconhece que está perante uma experiência estética. Ou seja, ao apresentarmos uma obra com uma tabela ou um texto de parede que diz que vai ver a, b, c e d, estamos a pacificar um visitante. Mas ao criar estas ambiguidades, estes pontos de escolha, estes momentos insólitos ou estes ambientes tétricos, acorda-se o visitante. Faz com que ele se sinta que está fora do jogo, ou que não pertence aqui. Fazer alguém sentir que não pertence é a forma mais dolorosa e mais rápida de ativar essa pessoa para ela procurar um sítio de pertença, ou para ela forçar um sítio de pertença aqui mesmo. É esse o convite aos visitantes: escolherem o que querem ser. . Esta exposição nasceu de uma espécie de “licença” criada para uma exposição em Londres...Na Chisenhale, em Londres, fizemos as quatro salas. Digamos que é o esqueleto deste desenho expositivo. Este modelo pode ser transportado e adaptado para qualquer situação. A adaptação em si responde às necessidades do corpo anfitrião. Neste caso, o CAM, que tem uma coleção a que me deram acesso, e então habitámos cada sala com os objetos dessa coleção. E a sala d’época, a sala invertida, responde também à linguagem do museu que está em obras e foi construído nos anos 1950. Ou seja, a adaptabilidade deste modelo é também uma característica dele. Ele não é rígido, ele colabora. . És artista, mas começaste por te interessar primeiro pelo design de moda...O meu gosto pelo design de moda é tão vulgar... Olhando para trás acho que não é o gosto pelo design, é o gosto pelas compras, e de tocar, e da novidade.E de criar?Não. Criação sinceramente é uma noção que só comecei a perceber exatamente o que era nos meus 20 e tais anos. O que era realmente criar. E é doloroso, porque criar custa dinheiro. E é uma coisa que me pergunto hoje em dia: será que eu crio mesmo? Eu acho que estou a tentar perceber se eu sou um criador ou sou um pensador. Porque pensar custa menos do que criar. .Eu acho que estou a tentar perceber se eu sou um criador ou um pensador. Porque pensar custa menos do que criar.Bruno Zhu. Mas voltando à questão inicial sobre o design de moda, sim, o que me atraiu à moda não foi o design em si, mas o lado consumista. De conseguir comprar ou de procurar um produto novo. E de tocar. E de conhecer. E de até pesquisar como é que isto surge. Em que rede é que isto está? Como é que isto se narra? Como é que isto se insere numa linhagem maior de uma marca? Ou de uma história de uma marca? O que é um estilo? De onde é que isto vem? E isso sim continua a ser o meu interesse pela moda.A moda é fundamental ainda para mim. Como um sistema de símbolos interligados. Que retratam os fluxos globais de consumo. De tráfego também de bens, que depois também refletem todo um legado colonial e pós-colonial. . Na sala das cores desta exposição explicaste que o verde Scheele, criado em 1775, tinha arsénico e matou pessoas, e que e a cor malva foi descoberta por acaso em 1856 em laboratório enquanto se tentava sintetizar quinina para o tratamento da malária. A história dos materiais também está muito na base do teu trabalho?Sim e não. Eu digo que sim porque é fundamental para qualquer artista plástico perceber a origem do material de trabalho. Em 2026, em que cada vez mais estamos inundados com informação, não ter essa sensibilidade é ser ignorante. E ignorância hoje em dia é cada vez mais é perigosa. Mas eu digo também não, porque a minha prática artística é mais seduzida pelo formalismo. Por jogos formais, pelas coisas, as texturas, os tons. E eu sei que há um perigo de isto soar como um artista muito fechado na sua bolha, mas não. As formas em si são políticas, porque elas exigem espaço mental, espaço físico, elas são objetos e presenças aliens, quando elas se apresentam. Daí, como artista, acho que há ali uma orientação estética para navegar entre as formas, é um métier, tentar perceber. Ou seja, o meu interesse por formas acaba por me aliciar a perceber de onde é que elas vêm.Tens uma série de exposições previstas lá fora, em que é que estás a trabalhar agora?As próximas exposições vão lidar com movimento. Movimento não no seu amplo conceito, mas movimento de entrar e sair. Esse eixo transitório é uma coisa que já estou a trabalhar desde 2025. Fiz uma exposição individual no Museu de Arte Contemporânea de Antuérpia, em que criámos uma parede giratória que impede o visitante de cruzar a sala de uma forma livre. Ele tem que empurrar essa parede para chegar a outro ponto da sala. E quando ele chega ao outro ponto da sala e não há nada, tem que empurrar a parede de volta para sair da sala. E as próximas exposições trabalham muito nesse quadro.Ou seja, do visitante no espaço museológico?O visitante no espaço, o seu posicionamento em relação às orientações que o artista sugere, porque o artista trabalha com orientações convencionais e também perverte orientações institucionais. Ou seja, essa perversão que é exposta no espaço pede ao visitante se ele quer aderir à perversão ou não.Há uma certa crítica institucional aos museus?Não necessariamente do museu, mas do centro de arte, o espaço de arte, o espaço em que se mostra arte. Há esse legado, mas a estética com que eu trabalho não pode ser lida como crítica, porque eu compactuo imenso com a linguagem institucional. Mas há certamente ali uma vontade de perverter. .Consideras-te escultor...Escultor, sim. Não aparece muito nos trabalhos que tenho feito, especialmente neste projeto, e também nos projetos que vou fazer no futuro, porque são respostas também ao que me é fornecido, às condições de trabalho que me são dadas. Estou numa fase em que a escultura que faço não é complicada, mas requer condições particulares de trabalho, que cada vez mais os centros de arte não parecem estar prontos para receber. Então eu passo muito mais tempo a tentar criar boas condições de trabalho, e quando estou finalmente pronto para fazer arte, o tempo acabou e a exposição está feita. Ou seja, o que nós estamos a ver aqui é mais um esboço, um esquisso do que acho que idealmente seria uma galeria para mostrar o meu trabalho, mostrar a minha linguagem. .Passo muito mais tempo a tentar criar boas condições de trabalho, e quando estou finalmente pronto para fazer arte, o tempo acabou e a exposição está feita.Bruno Zhu. Fizeste uma estrela de cinco pontas em poliéster dourado para a nova exposição permanente do MAC/CCB, a Superestrela. O que pretendeste com esta obra?Aquilo é um gesto que desenha uma obra gigante, que ocupa a área total daquela sala. São cinco pontos fixados nas quatro paredes da sala. Ao tentarem situar o meu trabalho no eixo das Tramas, porque trabalho com tecido, faço esculturas têxteis, achei que poderia convidar a um olhar renovado ao que eu faço na minha prática. Existe um grande tique institucional de legitimar artistas por coisas que não representam a criação artística. E para mim, criação artística é pensar fluidamente, não é fixar em técnicas ou materiais. A obra é um resultado de um pensamento contínuo, e de uma experiência de vida contínua. Portanto, quando eles me convidaram para expor no eixo da Trama porque eu faço escultura têxtil achei que seria mais indicado criar um gesto que conseguisse complicar a leitura da exposição do que são tramas e também da minha própria prática. .Existe um grande tique institucional de legitimar artistas por coisas que não representam a criação artística. E para mim, criação artística é pensar fluidamente, não é fixar em técnicas ou materiais.Bruno Zhu. Até porque eu conheço o museu bem e eles tinham tido uma exposição do Fred Sandback, que é um artista americano que trabalha com fios e faz escultura extremamente épica em termos de escala, mas com um minimalismo muito puro e muito duro, que é usar fios no museu para criar formas ou até anti-formas.Como artista e como estudante de História de Arte por prática, achei necessário repensar outra vez esse legado minimalista que tem imenso potencial, porque estamos a falar outra vez de criação de forma pura e dura, mas agora com o olhar de 2026, a pensar na materialidade científica das coisas. .Nova exposição permanente no CCB mostra arte a partir dos anos 1970 e questiona missão dos museus.Coleção EDP em exposição: há obras ousadas e "impossíveis" que já foram de Pedro Cabrita Reis