Autárquicas. Como irá o CDS descalçar a bota de Rui Moreira?

PSD e CDS irão conseguir entender-se, numa coligação vasta, nas eleições autárquicas de 2021? Uma das condições sobre a mesa das negociações entre os dois partidos é a de o partido de Francisco Rodrigues dos Santos deixar cair o apoio a Rui Moreira no Porto.

No final de outubro PSD e CDS vão começar a conversar a sério sobre as autárquicas de 2021, garantiu ao DN o secretário-geral e coordenador autárquico social-democrata, José Silvano. Até ao momento foi feito um "diagnóstico nacional" sobre a situação política nos distritos para ditar a estratégia nestas eleições vitais para os dois partidos. Os centristas, com baixa implantação autárquica, querem o maior número de coligações possível, mas para o conseguirem haverá, apurou o DN, uma condição na mesa: não voltarem a apoiar a reeleição de Rui Moreira no Porto. Como irão descalçar esta bota, depois de terem estado ao lado do autarca duas vezes?

Para já não há uma resposta do partido de Francisco Rodrigues dos Santos, que no congresso em que foi eleito, em janeiro deste ano, fez apelo a esse entendimento com o partido de Rui Rio. E que reiterou num encontro com o líder social-democrata dias depois. Mas o DN sabe que para existir um entendimento mais vasto nas autárquicas, e que sendo vantajoso para os dois partidos é mais para o CDS que tem uma expressão autárquica muito reduzida - seis câmaras em 308, contra as 79 do PSD e 19 em coligações - os centristas terão de mudar de agulha na câmara que já foi presidida por Rio. Caso contrário, o universo de aliança poderá ser muito mais curto.

Nas duas últimas eleições, o CDS apoiou o independente Rui Moreira à presidência da Câmara do Porto, mesmo depois de o PSD ter tentado um acordo em 2017, para uma lista encabeçada por Álvaro Almeida, mas para a qual só conseguiu mobilizar o PPM. O candidato social-democrata apenas obteve 10,4% dos votos, menos de metade dos alcançados pelo partido em 2013. O PSD quer a todo o custo tentar reverter este péssimo resultado eleitoral. Tal como quer em muitas outras câmaras, incluindo a de Lisboa, tanto mais que foi o mau resultado obtido na principal autarquia do país que ditou a queda de Pedro Passos Coelho da liderança do PSD.

Apelo da JSD

O novo líder da JSD, Alexandre Poço, veio nesta quarta-feira, numa carta aberta publicada no jornal i, apelar a um acordo de centro-direita para as autárquicas, que inclua CDS e Iniciativa Liberal, liderado por João Cotrim Figueiredo, mas deixe de fora o Chega.

"Acredito que o centro-direita moderado e civilizado pode e deve agir, enquanto é tempo", escreve. "Apenas agindo podemos evitar um caminho sem retorno, uma espiral de crescente intensidade, uma estrada que extrema a sociedade de tal forma, em que a razão, os factos e a verdade deixam de ter lugar à mesa.".

A um ano das eleições autárquicas, "as primeiras - e por isso, as mais fundamentais - em que vamos a jogo num clima extremado, populista e perigoso", frisa Alexandre Poço e sem mencionar o Chega, é ao partido de André Ventura que aponta.

"Acredito que o centro-direita moderado e civilizado pode e deve agir, enquanto é tempo."

"Há tempo para de forma pensada e refletida encontrarmos pontos comuns" entre os três partidos e "construir um acordo de âmbito nacional", apela. "Não acredito que com esta solução governamental - ora mais às claras ora mais às escuras - de PS, BE e PCP seja possível caminhar neste sentido. Com o PS atrelado à extrema-esquerda e aos seus dogmatismos, não vislumbro a possibilidade de ter a esquerda moderada neste caminho", diz ainda.

Portas em Lisboa?

Ao DN, José Silvano já tinha dito que há algumas "certezas" que as duas forças, no caso PSD e CDS, têm e que podem agilizar ou dificultar uma negociação eleitoral concertada para "retirar mais câmaras ao PS" e criar uma frente de centro-direita em 2023 para tentar conquistar terreno à esquerda.

Em Lisboa, a seguir o padrão de negociação tradicional, o cabeça-de-lista pelo concelho caberia ao CDS, que ficou à frente do PSD nas últimas autárquicas. Assunção Cristas, então líder do CDS e cabeça-de-lista em Lisboa, bateu a candidata do PSD, Teresa Leal Coelho, com 20,7% dos votos contra 11,22%.

O que poderia ser um engulho, já que será difícil ao PSD abdicar de liderar a lista à principal autarquia do país, poderá diluir-se caso surja uma figura incontestada do lado centrista para o fazer, como é o caso do improvável Paulo Portas. Rui Rio não fechou a porta a esta hipótese, depois de o antigo ministro Miguel Poiares Maduro ter vindo defender que uma aliança entre os dois partidos liderada pelo antigo líder do CDS seria a chave para destronar o socialista Fernando Medina.

António Carlos Monteiro, vice-presidente do CDS, já tinha garantido ao DN que a condição do seu partido para partir para as conversações não seria a imposição de "um acordo global", mas sublinhou que é importante que as cúpulas dos partidos "deem um sinal claro" às estruturas locais que querem mesmo avançar para coligações em vários municípios.

"O CDS tem no PSD o seu parceiro tradicional, a história assim o dita, queiramos em conjunto construir esta relação com base numa cooperação institucional, baseada num diálogo construtivo, estruturado, leal e de confiança recíproca."

O vice-presidente centrista também não destapou a ponta do véu sobre as condições que serão postas em cima da mesa nas eventuais conversações com o PSD. "É ao presidente do partido que cabe definir a estratégia", afirma, quando questionado sobre se o seu partido abrirá mão do cabeça-de-lista em Lisboa a bem de um entendimento mais vasto com o partido de Rui Rio.

Os dois partidos já têm coligações em Aveiro, Estarreja, Amares, Braga, Vieira do Minho, Vila Nova de Famalicão, Torre de Moncorvo, Faro, Guarda, Cascais, Amarante, Maia, Penafiel, Trofa, Rio Maior, Ourém, Castro Daire e Tabuaço. Estas serão naturalmente para repetir.

No congresso do PSD, em Viana do Castelo, Francisco Rodrigues dos Santos desafiou: "O CDS tem no PSD o seu parceiro tradicional, a história assim o dita, queiramos em conjunto construir esta relação com base numa cooperação institucional, baseada num diálogo construtivo, estruturado, leal e de confiança recíproca. Creio que através do discurso do que pretende Rui Rio e até dos reptos que foram sendo lançados pelo CDS, após o nosso último congresso, estão criadas as condições para que seja criada esta plataforma de entendimento."

PSD prepara tudo ao milímetro

No PSD, a equipa de coordenação autárquica pertence a José Silvano, mas tem a seu lado nesta tarefa Salvador Malheiro, vice-presidente do partido, presidente da Câmara de Ovar e líder da distrital de Aveiro do PSD.

Integra também esta equipa Isaura Morais, deputada e vice-presidente do partido e ex-presidente da Câmara de Rio Maior. Tal como Fátima Ramos, deputada e antiga presidente da Câmara de Miranda do Corvo, e o presidente da autarquia de Mafra, Hélder Silva, e presidente dos Autarcas Sociais-Democratas.

Estas escolhas demonstram que Rui Rio apostou na experiência para lançar o processo autárquico que é vital para o partido ganhar balanço para as legislativas.

Com mais ou menos acordos com o CDS, os sociais-democratas precisam de conquistar mais câmaras do que em 2017, altura em que se ficaram pelas 98, quando o PS conquistou 159.

Muitos analistas admitiram que será mais fácil em 2021 o PSD cantar vitória se conquistar mais algumas câmaras socialistas, já que o seu score eleitoral foi o mais baixo de sempre. Os sociais-democratas irão, por isso, analisar com mais profundidade as câmaras nas quais o PS ganhou por uma margem escassa e em que existem maiores probabilidades de as "roubar".

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