Indústria da guerra está fortemente concentrada em empresas dos EUA, diz o FMI.
Indústria da guerra está fortemente concentrada em empresas dos EUA, diz o FMI.FOTO: EPA / 24TH MECHANIZED BRIGADE PRESS SERVICE HANDOUT

FMI contradiz cenário do OE2027: Portugal cresce menos e inflação será muito superior

Outlook. Crescimento mundial até ganha força em 2027, mas está cada vez mais concentrado em alguns países, que estão a ganhar com o choque energético e com a guerra. FMI diz que EUA é um deles.
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A economia portuguesa vai crescer menos em 2027 (e menos do que prevê o governo no Orçamento do Estado para o próximo ano), a inflação deve ser muito superior e a taxa de desemprego ligeiramente pior do que estimam as Finanças, indica o Fundo Monetário Internacional (FMI) nas novas previsões para a economia global (Perspetivas Económicas Mundiais), divulgadas na manhã desta terça-feira (13 de outubro), em Banguecoque, Tailândia. Em relação ao corrente ano, acontece o mesmo.

O cenário avançado pelo antigo credor do país é bastante mais desfavorável nos indicadores centrais do cenário macroeconómico de Portugal.

No próximo ano, o FMI vê a economia a crescer 1,9% em termos reais (descontando a inflação), valor que compara com a previsão de 2,1% avançada pelo Ministério das Finanças há menos de uma semana.

O agravamento do poder de compra dos consumidores, medido pela inflação, deverá fixar-se em 3%, ao passo que o governo prevê um abrandamento no ritmo de preços para apenas 2,3% no OE 2027.

Segundo o Fundo, a taxa de desemprego estabiliza em 5,9% da população ativa, menos duas décimas do valor inscrito pelo ministério de Joaquim Miranda Sarmento para o ano que vem.

Em 2026, o FMI também está mais recuado no cenário. O crescimento deste ano fica-se por 2,1% (o governo diz 2,3%), a inflação média rondará 3,2% (o OE estima 2,9%) e a taxa de desemprego mantém-se em 5,9% (o governo calcula 5,8%).

Significa que o ponto de partida para o OE 2027, no qual o governo projeta entregar um excedente orçamental de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027, é mais desfavorável, assim como o enquadramento geral em que decorrerá a própria execução de 2027.

Portugal abranda (assim como várias outras economias mais dependentes do petróleo e endividadas, logo mais vulneráveis à subida esperada das taxas de juro) num cenário global marcado ainda por alguma "resiliência" face aos choques em curso (suportada por países que exportam energia ou que investem muito em alta tecnologia, como no segmento da Inteligência Artificial), mas que não poupa alguns dos maiores atores europeus e parceiros económicos de Portugal, mais vulneráveis e frágeis face à atual situação.

Alemanha, Itália e Espanha abrandam

Veja-se o caso das quatro maiores economias da Zona Euro e da União Europeia. Segundo o FMI, a maior, a Alemanha, cresce apenas 1,3% este ano e depois perde ainda mais gás, logrando um crescimento de 1,1% em 2027.

França ir mais devagar (0,4% este ano), para depois recuperar um pouco até 0,7% de crescimento em 2027, mas há três meses esperava-se mais. Em julho, o crescimento francês (da segunda maior economia da UE) para 2026 e 2027 tinha sido estimado em 0,6% e 0,9%, respetivamente.

Itália, a terceira maior economia da Europa, cresce 0,8% em 2026 e no ano seguinte 0,6%.

Finalmente, Espanha, a quarta maior economia e principal parceiro económico de Portugal. Segundo o FMI, este ano, o crescimento da economia espanhola até foi revisto em alta e de forma significativa (mais 0,4 pontos percentuais, podendo chegar a 2,5%), mas em 2027, o FMI prevê um abrandamento significativo, para 1,8%.

Quase todo o crescimento mundial é explicado por 32 economias

Segundo o novo estudo, divulgado a partir da capital tailandesa onde decorrem os encontros anuais do FMI e do Banco Mundial, "prevê-se que o crescimento mundial desacelere de 3,5% em 2025 para 3,1% em 2026, antes de recuperar para 3,4% em 2027, mantendo-se inalterado face às projeções de abril para 2026 e sendo revisto em alta em 0,2 pontos percentuais para 2027".

Esta "resiliência" e "estabilidade" no crescimento "oculta grandes movimentos entre países, que se compensa, e uma maior concentração do crescimento mundial", ou seja, o quadro geral é mais desequilibrado e os riscos envolventes não se dissiparam.

"32 economias representam agora 95% do crescimento mundial, face a um conjunto de 54 economias em abril, enquanto as revisões em baixa se tornaram mais generalizadas, com cerca de 47% das economias com o crescimento a ser reduzido" face ao outlook de abril passado.

O globo tem cerca de 190 economias distintas, segundo o FMI.

"A economia mundial não está simplesmente a desacelerar ou a acelerar; pelo contrário, o crescimento está a ser redistribuído entre os países de acordo com a sua exposição ao choque de oferta provocado pela guerra e com a força da procura relacionada com a IA", explica o novo estudo.

Assim, "prevê-se que o crescimento nas economias avançadas aumente ligeiramente, de 2% em 2025 para 2,1% em 2026, antes de desacelerar para 1,8% em 2027".

Estes números "continuam a ser desiguais dentro deste grupo: os exportadores líquidos de energia são parcialmente protegidos pelos efeitos favoráveis nos termos de troca, enquanto os importadores sofrem um impacto negativo mais acentuado devido aos preços mais elevados da energia". A única exceção é nos casos em que as economias surgem "impulsionadas pela atividade relacionada com a tecnologia".

No caso dos Estados Unidos, o FMI prevê "um crescimento de 2,3% em 2026 e em 2027, mantendo-se inalterado face às projeções de abril para 2026 e representando uma revisão em alta de 0,2 pontos percentuais para 2027".

A atividade da maior economia do mundo, posto que começa a ser disputado com a China, "é apoiada pela robustez do consumo privado, pela política orçamental, por condições financeiras acomodatícias, pela continuação do investimento empresarial ligado à tecnologia", ao qual se deve "descontar" o facto deste ter um "elevado conteúdo importado".

Sobre a dinâmica dos EUA, o FMI sublinha ainda o impulso dado pelos "ganhos de produtividade" e refere que "o impacto direto da guerra" é "limitado devido ao estatuto do país como exportador líquido de energia", coisa que não se aplica à maioria dos países europeus, que estão em dificuldades.

"Na área do euro, prevê-se um crescimento de 1,1% em 2026 e de 1,2% em 2027", uma previsão que fica "inalterada face ao World Economic Outlook (WEO) de abril para ambos os anos".

O FMI explica que isto reflete "o impacto negativo persistente dos preços mais elevados da energia e a fraca confiança dos consumidores".

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