Segundo o Governo, até 2030 serão mobilizados cerca de nove mil milhões de euros para habitação pública.
Segundo o Governo, até 2030 serão mobilizados cerca de nove mil milhões de euros para habitação pública.Foto: Carlos Carneiro/Global Imagens

Banco de Portugal e FMI pedem mais atenção aos riscos da tecnologia e da habitação

Fundo avisa que habitação é "vulnerabilidade importante para o sistema financeiro". Governador pede aos bancos que se preparem para riscos da alta tecnologia e que não sejam "complacentes"
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A estabilidade financeira de Portugal encontra-se sob "risco moderado" por causa do preço muito elevado das casas, segundo uma alta responsável do Fundo Monetário Internacional (FMI) numa conferência que decorreu no Banco de Portugal (BdP), em Lisboa.

Também presente no debate, Paulo Macedo, presidente executivo da CGD, o maior banco nacional, concordou: referiu que os preços do imobiliário estão e "vão continuar a aumentar devido à assimetria que existe entre procura e oferta", mas ressalvou que, atualmente, os bancos têm almofadas maiores nos seus balanços que lhes permite estarem "mais bem preparados" para um cenário de preços em queda, caso tal risco de materialize.

Minutos antes, na abertura da conferência, o governador do BdP, Álvaro Santos Pereira, destacou as suas maiores preocupações de momento. "A complacência nunca deve ser uma opção. A estabilidade financeira exige vigilância, adaptabilidade e políticas com visão de futuro. O cenário de riscos continua a evoluir. Para além dos riscos mais tradicionais, enfrentamos novos desafios decorrentes da inovação tecnológica, das ciberameaças, da incerteza geopolítica e das vulnerabilidades relacionadas com o clima", disse Santos Pereira.

Estes adventos "geram novas fontes de risco e novos canais através dos quais os choques se podem propagar pelos sistemas financeiros", referiu, destacando a alta "velocidade" e "complexidade" destas novas ameaças.

No debate sobre o Programa de Avaliação do Setor Financeiro português (FSAP na sigla em inglês) – um exercício que decorreu este ano (não era feito desde 2006), sob a coordenação do Fundo Monetário Internacional (FMI), para testar a resiliência e o desenvolvimento dos sistemas financeiros dos países membros –, que decorreu esta terça-feira, 22 de setembro, na sede do banco central, Michaela Erbenova, diretora-adjunta do FMI para a área dos mercados monetários e de capitais, sustentou que "os bancos portugueses conseguiram atravessar com sucesso o processo de desalavancagem e de redução das vulnerabilidades acumuladas no passado e estão agora a passar de uma fase de recuperação e correção para uma fase gradual de crescimento", mas que "relativamente ao mercado da habitação, este continua a constituir uma vulnerabilidade importante futura para o sistema".

A perita do FMI recordou que "os preços da habitação em Portugal aumentaram significativamente desde 2015 e parecem situar-se acima do que sugerem os seus determinantes de longo prazo, incluindo o crescimento dos rendimentos".

No entanto, notou que "o crescimento do crédito hipotecário tem ficado substancialmente aquém do crescimento dos preços da habitação". Ou seja, os bancos podem estar mais protegidos por essa via. "Isto tem contribuído para a resiliência do sistema bancário, mas ainda assim, entendemos que a evolução futura do crédito à habitação merece ser acompanhada com atenção", recomendou a economista checa.

Na apresentação que trouxe à conferência, Michaela Erbenova mostrou que, nos últimos dez anos (desde 2015), os preços do imobiliário aumentaram uns significativos 169% em Portugal (mais que duplicaram), sendo o país um dos casos mais dramáticos neste indicador. A subida em Portugal compara com um aumento de 55% ao nível da Zona Euro, por exemplo.

Outro aspecto a seguir é o endividamento das famílias. Atualmente, este indicador é inferior face à média da zona euro, mas "agora regista uma tendência de subida", pelo que é preciso "monitorizar" mais e melhor o que se passa em Portugal.

No mesmo painel de debate, Paulo Macedo, que lidera a CGD, começou por reparar que uma eventual crise grave que venha da habitação passará sempre pela variável emprego.

O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais observou que atualmente o desemprego está a um nível baixo, o que por si só é uma "almofada" contra crises desse tipo.

Em todo o caso, Macedo aceitou que os preços do imobiliário estão a aumentar e "vão continuar a aumentar porque há uma assimetria entre a procura e a oferta", mas destacou que os bancos estão mais bem preparados do que no passado.

Dito isto, o presidente da CGD disse que continua a haver "muito trabalho para fazer" no setor em matéria de prevenção de riscos, como uma forte queda no imobiliário ou outros.

Minutos antes o governador do BdP, Álvaro Santos Pereira, falou de riscos que podem surgir velozes, muito amplificados ou ser mesmo imprevisíveis no atual contexto de novas tecnologias, inteligência artificial, mudanças climáticas. "Não estamos satisfeitos" com a preparação existente, "não podemos ser complacentes", atirou Paulo Macedo, em jeito de resposta.

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