Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, e Clara Raposo, vice-governadora. Lisboa, 2026.
Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, e Clara Raposo, vice-governadora. Lisboa, 2026.Foto: Leonardo Negrão

Governador do BdP: "As novas tecnologias aceleram a velocidade com que aparecem os riscos financeiros"

A estabilidade financeira que "alcançámos" decorridas estas duas décadas "não é uma conquista que possa ser simplesmente declarada e preservada para sempre", avisa Álvaro Santos Pereira.
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"As novas tecnologias estão a acelerar a velocidade e a complexidade com que os riscos financeiros aparecem", considerou o governador do Banco de Portugal (BdP), num encontro na sede do banco central, em Lisboa.

Na intervenção de abertura da conferência sobre o Programa de Avaliação do Setor Financeiro português (FSAP na sigla em inglês) – um exercício que decorreu este ano (não era feito desde 2006), sob a coordenação do Fundo Monetário Internacional (FMI), para testar a resiliência e o desenvolvimento dos sistemas financeiros dos países membros – Álvaro Santos Pereira dirigiu-se à audiência onde estavam altos responsáveis do BdP, dos bancos comerciais (os visados pelo extenso check-up do FMI para dizer que "esta avaliação ocorre cerca de vinte anos após o anterior FSAP realizado em Portugal".

"Ao longo destas duas décadas, o sistema financeiro português passou por uma profunda transformação: enfrentou a crise financeira global, a crise da dívida soberana, o processo de desalavancagem do setor privado, a pandemia e um período de significativo ajustamento económico", começou por elencar o antigo economista-chefe da OCDE.

Segundo o ex-ministro da Economia e do Emprego do governo PSD-CDS de Pedro Passos Coelho, o setor bancário nacional "evoluiu num enquadramento institucional europeu profundamente diferente, beneficiando da União Bancária, de mecanismos de supervisão mais robustos e de um novo quadro para a gestão e resolução de crises".

Dito isto, Santos Pereira considera que "o sistema financeiro hoje avaliado pouco se assemelha ao que foi analisado há vinte anos". "Uma comparação dos dois relatórios evidencia claramente as diferenças em termos da resiliência do sistema financeiro".

Mas o mundo mudou e a velocidade da mudança também, o que faz surgir novos riscos cada vez mais inesperados e incertos.

Esta avaliação "permite-nos refletir sobre os progressos alcançados e avaliar se os nossos mecanismos institucionais continuam adequados num mundo em que surgem constantemente novas fontes de risco".

Para o governador, "a questão relevante não é apenas saber quanto mais fortes somos hoje do que éramos há vinte anos; a resposta é claramente afirmativa, e isso ficará patente ao longo desta apresentação. Questão igualmente importante é saber se estamos preparados para os riscos do futuro".

Estamos? Santos Pereira, o representante máximo da supervisão bancária em Portugal, dá uma resposta ambivalente. "É importante reconhecer o que foi feito e as mudanças significativas que ocorreram. Mas é ainda mais importante garantir que estamos preparados para os desafios que temos pela frente, tanto a nível nacional como internacional".

Para o governador, "uma das conclusões mais importantes desta avaliação é o reconhecimento dos progressos substanciais alcançados pelo setor bancário português e pelo enquadramento institucional que o suporta". Outra é que a estabilidade financeira que "alcançámos" decorridos estas duas décadas "não é uma conquista que possa ser simplesmente declarada e preservada para sempre".

'Década ganha'

"Na última década, os bancos portugueses reforçaram as suas posições de capital e liquidez, melhoraram a qualidade dos seus ativos, reduziram vulnerabilidades herdadas do passado e reforçaram a sua resiliência operacional", referiu o banqueiro central.

"Os testes de esforço realizados no âmbito do FSAP apontam para um sistema bancário capaz de resistir a cenários extremamente adversos. Isto é importante porque demonstra que, mesmo perante circunstâncias muito severas, o nosso sistema financeiro apresenta uma considerável capacidade de resistência" e "ao mesmo tempo, os enquadramentos de supervisão, macroprudencial e de resolução tornaram-se mais sólidos, sofisticados e integrados na arquitetura europeia".

Assim, o sistema financeiro português "está hoje mais resiliente, mais bem preparado e mais capaz de absorver choques do que no passado", algo que "merece reconhecimento" pois é resultado de "anos de esforço sustentado por parte das instituições financeiras, supervisores, decisores políticos e autoridades públicas, unidos pelo objetivo comum de reforçar a confiança, a solidez e a estabilidade financeira".

No entanto, sendo certo que "a confiança continua a ser um dos ativos mais valiosos de qualquer sistema financeiro", quando hoje se olha para o futuro, "importa salientar que a resiliência nunca pode ser considerado algo garantido". "A estabilidade financeira não é uma conquista que possa ser simplesmente declarada e preservada para sempre. É um esforço contínuo", acrescentou o governador.

Assim, "a complacência nunca deve ser uma opção. A estabilidade financeira exige vigilância, capacidade de adaptação e políticas orientadas para o futuro" até porque "o panorama dos riscos continua a evoluir".

Profundas alterações tecnológicas e do estado do tempo

"Todos os meses, todas as semanas e todos os dias surgem riscos novos. E sabemos que as novas tecnologias estão a acelerar a velocidade e a complexidade com que esses riscos aparecem", avisou o governador.

"A par dos riscos mais tradicionais, enfrentamos desafios associados à inovação tecnológica, às ciberameaças, à incerteza geopolítica e às vulnerabilidades relacionadas com as alterações climáticas", desenvolvimentos que "criam oportunidades importantes, mas também novas fontes de risco e novos canais através dos quais os choques se podem propagar pelo sistema financeiro".

"As experiências recentes demonstraram a importância da resiliência operacional. Episódios como a interrupção de energia que afetou a Península Ibérica em abril de 2025 recordaram-nos que a resiliência e a redundância não são apenas considerações técnicas."

E "a digitalização, a inteligência artificial e a crescente dependência de ecossistemas tecnológicos complexos estão a transformar profundamente o ambiente em que operam as instituições financeiras" pelo que preservar a estabilidade financeira que atualmente existe "exige instituições robustas, quadros de política eficazes e, acima de tudo, a capacidade de adaptação à medida que os riscos evoluem", pediu o governador.

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