Habitação é cada vez mais inacessível, indicou o Banco de Portugal no passado dia 27 de maio de 2026.
Habitação é cada vez mais inacessível, indicou o Banco de Portugal no passado dia 27 de maio de 2026.Foto: D.R.

FMI. Estabilidade financeira nacional está sob risco "moderado" por causa do preço das casas

"Relativamente ao mercado da habitação, este continua a constituir uma importante vulnerabilidade futura para o sistema", diz dirigente do FMI. Paulo Macedo, da CGD, quer bancos mais bem preparados.
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A estabilidade financeira de Portugal encontra-se sob "risco moderado" por causa do preço muito elevado das casas, disse uma alta responsável do Fundo Monetário Internacional (FMI) numa conferência que decorreu no Banco de Portugal, em Lisboa. Paulo Macedo, presidente executivo da CGD, o maior banco nacional, concordou: referiu que os preços do imobiliário estão e "vão continuar a aumentar devido à assimetria que existe entre procura e oferta", mas ressalvou que, atualmente, os bancos têm almofadas maiores nos seus balanços que lhes permite estarem "mais bem preparados" para um cenário de preços em queda, caso esse risco de materialize.

No debate sobre o Programa de Avaliação do Setor Financeiro português (FSAP na sigla em inglês) – um exercício que decorreu este ano (não era feito desde 2006), sob a coordenação do Fundo Monetário Internacional (FMI), para testar a resiliência e o desenvolvimento dos sistemas financeiros dos países membros –, que decorreu esta terça-feira, 22 de setembro, na sede do banco central, Michaela Erbenova, diretora-adjunta do FMI para a área dos mercados monetários e de capitais, sustentou que "os bancos portugueses conseguiram atravessar com sucesso o processo de desalavancagem e de redução das vulnerabilidades acumuladas no passado e estão agora a passar de uma fase de recuperação e correção para uma fase gradual de crescimento", mas que "relativamente ao mercado da habitação, este continua a constituir uma importante vulnerabilidade futura para o sistema".

A economista do FMI recordou que "os preços da habitação em Portugal aumentaram significativamente desde 2015 e parecem situar-se acima do que sugerem os seus determinantes de longo prazo, incluindo o crescimento dos rendimentos".

No entanto, notou que "o crescimento do crédito hipotecário tem ficado substancialmente aquém do crescimento dos preços da habitação". Ou seja, os bancos podem estar mais protegidos por essa via. "Uma grande parte das transações imobiliárias é realizada sem recurso a crédito bancário. Por esse motivo, o crescimento do crédito à habitação permanece reduzido, incluindo quando comparado com outros países da área do euro". "Isto tem contribuído para a resiliência do sistema bancário. Ainda assim, entendemos que a evolução futura do crédito à habitação merece acompanhamento atento", recomendou a economista de origem checa.

Na apresentação que trouxe à conferência, Michaela Erbenova mostrou que, nos últimos dez anos (desde 2015), os preços do imobiliário aumentaram uns significativos 169% em Portugal (mais que duplicaram), sendo o país um dos casos mais dramáticos neste indicador. A subida em Portugal compara com um aumento de 55% ao nível da Zona Euro, por exemplo. É muito mais do dobro do ritmo de encarecimento do parque imobiliário.

Endividamento das famílias

Outro aspeto a seguir é o endividamento das famílias. Atualmente, este indicador é inferior face à média da zona euro, mas "agora regista uma tendência de subida", pelo que é preciso "monitorizar" mais e melhor o que se passa em Portugal.

No mesmo painel de debate, Paulo Macedo, que lidera a CGD, começou por reparar que uma eventual crise grave que venha da habitação passará sempre pela variável emprego. O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais observou que atualmente o desemprego está a um nível baixo, o que por si só é uma "almofada" contra crises desse tipo.

Em todo o caso, Macedo avisou que os preços do imobiliário estão a aumentar e "vão continuar a aumentar porque há uma assimetria entre a procura e a oferta", mas destacou que os bancos estão mais bem preparados do que no passado. Dito isto, o presidente da CGD disse que continua a haver "muito trabalho para fazer" no setor em matéria de prevenção de riscos, como uma forte queda no imobiliário ou outros. O governador do BdP, Álvaro Santos Pereira, falou de riscos que podem surgir velozes, muito amplificados ou ser mesmo imprevisíveis no atual contexto de novas tecnologias, inteligência artificial, mudanças climáticas. "Não estamos satisfeitos" com a preparação existente, "não podemos ser complacentes", atirou Paulo Macedo.

Minutos antes, o governador do BdP tinha dito que "para além dos riscos mais tradicionais, enfrentamos novos desafios decorrentes da inovação tecnológica, das ciberameaças, da incerteza geopolítica e das vulnerabilidades relacionadas com o clima".

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