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PremiumUm dia de silêncio para falar de campanha

Hoje é um dia de inferno para os meios de comunicação social. Ninguém pode falar da coisa mais importante sobre a qual tem de se falar - e isso é o contrassenso do jornalismo. É como o elefante no meio da sala. Hoje é dia de reflexão para as eleições de amanhã. Ora, as eleições de amanhã são o assunto a tratar, hoje. Mas não. Não se pode apelar ao voto, fazer campanha é punido com multas, e isso inclui qualquer artigo ou peça jornalística que se considere enquadrar nessa categoria pelas autoridades competentes, seja a Entidade Reguladora para a Comunicação Social ou a Comissão Nacional de Eleições. Há países onde acontece o mesmo - Itália, Espanha, França -, há países onde a campanha vai até à boca das urnas, como nos Estados Unidos. E as opiniões dividem-se sobre a utilidade e as consequências de ambos os modelos.

Catarina Carvalho

As eleições do futuro

Era um dia de semana, mas não como os outros. A chuva miudinha fingia que molhava quem se deslocava a pé ou de bicicleta. Na rua, saltavam à vista as bandeiras dos diferentes partidos que alguns prédios de tijolo encarnado ostentavam. Alguns, com bandeiras diferentes por piso, ao gosto político de quem lá vivia. O trânsito na cidade fluía, os milhares de bicicletas entrelaçavam-se sem se tocar, num caos organizado apenas interrompido quando um ou outro condutor parava junto aos cartazes políticos espalhados por diferentes pontos da cidade. Colados lado a lado num painel de metal com pouco mais de dois metros de largura e altura, cada cartaz, ou minicartaz, num tamanho pouco maior do que o A4, debatia-se pela atenção dos ainda indecisos que nesse dia, pelo menos até às 19 horas, podiam votar em toda a Holanda. Era dia de eleições municipais, dia de semana, dia em que as empresas davam tolerância para se chegar mais tarde ou sair mais cedo para fazer o ato cívico. Como habitante da cidade há já um par de meses, e cidadão da União Europeia, pude fazer a minha escolha. Depois de ter passado semanas a chatear os vários partidos políticos para me enviaram o seu programa em inglês, o que alguns fizeram, e de ter visto nos vários canais debates entre os vários candidatos que de pé, e sempre de pé, discutiam e gesticulavam (alguns a fazer lembrar discussões latinas) em frente às câmaras de TV. Mesmo não dominando a língua, consegui perceber que os assuntos andavam em redor dos direitos dos animais, da economia e da vivência entre muçulmanos e os europeus ocidentais. Depois disso, fiz a minha escolha. Nesse dia, logo de manhã, antes de entrar no emprego, prendi a minha bicicleta azul com uma corrente à volta de um poste cheio de ferrugem e juntei-me à pequena fila para votar. Depois, pela primeira vez em frente a uma máquina retirei as luvas e premi o botão para fazer a minha escolha. Simples, rápido. Civilizado. Pela metodologia, pela forma da campanha, pela inclusão, por tudo isso senti, honestamente, que um dia todas as campanhas seriam assim. 13 anos depois continuo à espera de que chegue ao nosso país. Serei o único farto da poluição visual dos cartazes políticos e de colocar o meu voto num caixote preto?

Filipe Gil

A salto

Um dia desapareceu. Não fez avisos, não deixou carta, nenhuma explicação. Simplesmente deixou de aparecer na loja de tecidos do velho tio que, mais por piedade, o acolhera. António atendia às vezes ao balcão e até encantava as senhoras da boa sociedade provinciana, mas quando a conversa passava para os tecidos a coisa descarrilava. António não distinguia um tweed de um algodão, uma seda de um linho fino, ou de uma chita barata. E o pior, invetivava o tio, irrepreensível no seu fato de bom corte, era que António não queria aprender. O jovem olhava-o com um olhar sonhador, dizia "sim, meu tio", e calava-se.

Filomena Naves

Quando os autocarros da Carris eram verdes como a política

Olha-se para as paredes deste país e já não se observam murais políticos pintados a propósito das eleições legislativas. E, se noutros tempos até se achava que "sujar" as paredes era um problema, agora que quase ninguém os pinta há quem sinta saudades. Afinal, aquelas jornadas de pintura eram uma aventura para quem participava devido à complexidade de trabalho que envolviam e o resultado, mesmo que não se fosse militante dos partidos que se destacavam nessas artes, profuso em cores amarelas e vermelhas, distraíam os olhos. Até porque no início dessas pinturas pós-25 de Abril era um tempo em que os autocarros de Lisboa ainda eram de um verde escuro - como a política da época - e a cidade mais cinzenta do que branca e só havia um canal generalista e outro para intelectuais. Mesmo os debates não eram em doses maciças, nem se imaginava que um dia se iria falar da importância das redes sociais na manipulação dos indecisos. Estava-se num tempo em que os mais jovens não queriam votar num PAN da época, mesmo que houvesse alguns a fazê-lo no PSR ou na UDP, e eram arrebanhados pelos partidos do arco da governação em campanhas eleitorais de portugueses que sentiam necessidade de votar ao fim de tanto tempo sem o fazer. Para o eleitor mais distraído a atual campanha ainda mal começou e se não tiver cuidado até se esquece que é já no dia 6 que vai a votos. Tanto assim que a exceção ao tempo de antena de cores partidárias enfadonho passa principalmente pelo programa de Ricardo Araújo Pereira e as suas brincadeiras com os dirigentes políticos que lá vão do que pelas outras iniciativas públicas. O que dizer desta situação? Talvez que, como é a regra principal do humorismo, mais vale a pena fazer rir da realidade do que chorar. O pior é que cada vez mais dá vontade de chorar ao ver os programas do Ricardo, pois o modo como expõe este país - com a realidade - é tão deprimente que só quem está de mal com Portugal é que ainda se pode divertir.

João Céu e Silva

Ver Tudo

Os segredos do VAR e as novas tecnologias na La Liga

No passado dia 24 de fevereiro, o pessoal do Twitter puxou pela imaginação para criar alguns dos memes mais gloriosos inspirados no futebol espanhol da temporada 2018-2019.O motivo foram as declarações de Dani Carvajal, lateral direito do Real Madrid, quando, no final de um jogo contra o Levante que a sua equipa venceu graças a um duvidoso penálti sobre Casemiro, garantiu que tinha ouvido "o pontapé a 25 metros de distância". Aquele pontapé, que as câmaras de televisão tornaram quase ilusório, fez pelo menos duas vítimas: Cheick Dokouré, o jogador que se lesionou gravemente na jogada, e o árbitro Iglesias Villanueva, que decidiu marcar a falta sem consultar o vídeo-árbitro (Video Assistant Referee ou VAR). Na altura, houve muita gente que, como Carvajal, quis ver naquela ação uma entrada perigosa e um penálti (talvez duvidoso, mas mesmo assim um penálti), enquanto outras reclamaram um erro de arbitragem que favorecia a equipa poderosa. A única conclusão clara desta jogada (e de tantas outras idênticas) é que o medo que muitos mostraram, julgando que a vídeo-arbitragem passaria a ser responsabilizada pelas suculentas polémicas do futebol, era completamente infundado. Talvez porque os cachecóis dos adeptos cegam mais do que o senso comum e a tecnologia juntos.Para Sergio Sánchez, diretor de VAR da liga espanhola, a primeira temporada do campeonato com vídeo-arbitragem demonstrou uma eficácia notável, mas assume que houve dificuldades de adaptação: "A International Board, que é a única organização capaz de mudar as regras do jogo de futebol, reconhece que o VAR é a ferramenta que mais revolucionou as regras do jogo em toda a história do futebol. Isto requer um processo de assimilação por parte dos jogadores, dos treinadores, dos adeptos e dos meios de comunicação." A entrada da tecnologia no futebol, logo um desporto que desperta tantas emoções, não está a ser fácil. Há quem veja os mesmos fantasmas no relvado e nas cabeças dos árbitros que acompanham o desenrolar do jogo, nas salas especialmente habilitadas para o efeito, nas instalações da Cidade do Futebol de Las Rozas. Contudo, a verdade é que o VAR interveio apenas em um em cada três jogos, tendo tornado o campeonato não só em algo mais justo, mas também mais "rico e apaixonante", afirma Sánchez.O VAR não é a única tecnologia introduzida pela liga espanhola nos últimos tempos. Obrigada a competir num mercado global, onde prima o espetáculo, os macro dados são já uma ferramenta indispensável não só para programar adequadamente os diferentes jogos, mas também para saber de que forma a luz solar nos estádios afetará as câmaras de televisão em função dos horários dos jogos.Entrevista e edição: Azahara Mígel, Cristina LópezTexto: José L. Álvarez Cedena

Computação quântica, uma peça-chave da cibersegurança global

Em plena Segunda Guerra Mundial, Alan Turing e a sua equipa foram recrutados pelos serviços secretos britânicos para tentar vencer a poderosa máquina Enigma. Idêntica a uma máquina de escrever, o exército de Hitler utilizava-a para encriptar as suas mensagens e ataques durante a guerra. A configuração da Enigma era mudada todos os dias e o seu mecanismo, formado por vários rotores modificáveis, permitia 159 triliões de combinações possíveis a cada 24 horas. Dez homens dedicados a ela todo o dia demorariam 20 milhões de anos a decifrar o código. Turing, pai da computação atual, percebeu que a única forma possível de vencer uma máquina era com outra máquina. Foi por isso que criou Christopher, a primeira máquina batizada como "Bombe", capaz de decifrar todos os códigos encriptados pela Enigma.Hoje, quase 70 anos depois desta façanha que mudou o curso da História, todo o mundo está empenhado na corrida pela liderança da próxima fase da computação: a quântica. Uma tecnologia cujo interesse, para além de tentar compreender em que consiste, assenta nas suas poderosas aplicações. As que mais interessam às diferentes potências mundiais vão desde a encriptação de comunicações ao desenho de novos fármacos personalizados, passando pela possibilidade de desenvolver uma inteligência artificial mais intuitiva e precisa.Nessa corrida encontra-se a Europa – algo atrasada em relação à China e aos EUA –, que lançou em 2018 a Quantum Flagship, uma iniciativa da União Europeia para a investigação na área quântica com um orçamento de mil milhões de euros ao longo de 10 anos. Carlos Abellan, cofundador da QuSide, empresa dedicada à cibersegurança e integrada na Quantum Flagship europeia, garante que "a Internet quântica será o culminar de uma série de tecnologias que estão em desenvolvimento." Diz-se que será impossível piratear a rede quântica e que esta viajará à velocidade da luz, mais ainda faltam alguns anos para o comprovar. "Há quem diga que, dentro de dez anos, teremos um computador quântico, mas já o diziam há dez anos. O que sei é que haverá um computador quântico num prazo mais curto, mas não tem de ser um computador quântico universal”, refere Abellan. Universal ou não, a primeira geração de computadores quânticos será capaz de realizar certas ações mesmo antes de alcançar o seu pleno desenvolvimento. Ações como a encriptação de mensagens, algo que, se Turing ressuscitasse, seria um desafio ainda maior do que decifrar a Enigma.Entrevista e edição: Azahara Mígel, Noelia Núñez, Mikel Agirrezabalaga Texto: Azahara Mígel

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