Opinião

"Corta!", dizem os Diáconos Remédios da vida

É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

Ferreira Fernandes

O novo ambientalismo

Entre os 75 deputados dos verdes que se sentam no Parlamento Europeu, apenas 6 vêm da Europa de leste (ou central, como os próprios preferem), recorda um artigo do Politico da semana passada, para daí concluir que os verdes ainda têm um longo caminho para fazer entre os países que aderiram à União Europeia em 2004 e depois. Onde as condições económicas são mais duras e as necessidades mais básicas, o ambiente não vem no topo da lista das prioridades dos eleitores, obviamente.

Henrique Burnay

Francisco: a Europa, a Amazónia, as migrações

1. O Papa Francisco deu no passado dia 9 uma longa entrevista ao diário italiano "La Stampa" sobre os temas anunciados no título. Dada a sua importância, fica aí uma síntese, acrescentando algumas reflexões pessoais, referentes concretamente à possibilidade da ordenação de homens casados, um dos temas na agenda dos trabalhos do próximo Sínodo para a Amazónia, a realizar em Roma no próximo mês de Outubro, e ao problema imenso e dramático das migrações.

Anselmo Borges

Agostar

Em francês há um nome para as pessoas que tiram férias em agosto: aoûtiens, qualquer coisa como agostianos ou, porque não, agostinhos, que também serve, indica-me o dicionário, para frutos que aparecem em agosto. Ora eu não sou agostinha, sou mais juinetiste ou até mesmo junina (para os adeptos das férias neste mês os franceses já não têm nome). Ou seja, faço parte dos que estão com pressa para ir de férias, gostam dos dias mais longos, querem evitar multidões e os preços exorbitantes da época alta. Espera-me depois um agosto tranquilo na cidade e geralmente complicado no trabalho... porque está toda a gente de férias. Mas claro que quando era pequena pertenci muitas vezes à maioria moral de agostinhos e acho que um nome faz mesmo falta. É daquelas palavras que não sabíamos que faziam falta até vermos que os outros têm, como quando os estrangeiros ficam apaixonados pela nossa saudade. E esta nem sequer é intraduzível. Intraduzível sim foi o meu espanto ao procurar sítios para ficar na primeira semana de agosto: pagar por uma semana o dobro do que pago de renda não é uma opção e uma tenda no quintal de alguém por 40 euros por noite só me faz rir.

Patrícia Jesus

Niksen, nicles, népia ou a liberdade que há no vazio

Há dias li na Time um artigo sobre niksen, que, diz a revista norte-americana, é uma nova tendência holandesa que advoga que fazer nada faz bem ao corpo e à mente, diminui o stress e a ansiedade e reforça o sistema imunitário. Eh pá, a sério? Quem diria? A única novidade é ter virado "nova tendência", para mais holandesa, e ter ganho um nome que, como o hygge e o lykke dinamarquês, o lagom sueco ou o sisu finlandês, nos é estranho, vem do norte da Europa, dá pequenos livros bonitos e a receita para a felicidade: tempo, paz e sossego. Os nórdicos têm mau tempo (meteorológico), mas a organização social e laboral que alcançaram permite-lhes uma gestão mais humana e proveitosa do tempo (cronológico). A sul, onde o dolce far niente é aspiração antiga, o tempo (do dia e da vida) é quase todo dedicado ao trabalho. Queremos ter tempos vazios para fazer nada, nicles, népia, mas não há meio. Talvez depois dos 66 e é com sorte. Paul Lafargue, genro de Karl Marx, escreveu em 1880 O Direito à Preguiça, em que defendia que as máquinas e a evolução tecnológica resultantes da Revolução Industrial deveriam ser usadas para libertar o homem do trabalho embrutecedor. Nesse pequeno livro, em que glorifica o dolce far niente como tempo de elevação e evolução intelectual e deplora o tempo exagerado dedicado ao trabalho, apresenta como um dos argumentos para a sua tese a maior saúde física e mental e até beleza daqueles que pela sua condição social (nobreza e aristocracia) podiam dedicar-se à ociosidade. Precursor do niksen, já falava das vantagens para a saúde de não fazer nada. Olhamos para a inteligência artificial como uma ameaça aos postos de trabalho dos humanos, mas se quem manda quisesse (é claro que não quer) poderia apenas libertar-nos mais para fazermos nada. Ou fazermos o que quisermos com o tempo vazio.

Catarina Pires

PremiumBeijos que enchem o mar

Não é a página em branco, vazia de palavras, que assusta o jornalista. É a falta de palavras exatas para contar o que se viu e ouviu e tocou e cheirou e provou. Deixemos os cinco sentidos assim, na cadência da conjunção, evitando as vírgulas abruptas, que nos ensinam a respirar entre as palavras mas tiram o prazer de ir somando palavras enquanto nos lembramos de cada um dos cinco sentidos. De novo, não é a página vazia que assusta. Cada um dos sentidos preenche um espaço na página branca e vai dando corpo ao texto. Num sábado, 6 de julho, fomos despertados do torpor de uns dias de férias com a notícia: "Morreu João Gilberto." E mais uma vez apressámo-nos em obituários que se devoram nas redes sociais (pelo menos é uma colorida página de necrologia) até ao próximo morto. Acaba por faltar sempre tempo, daquele que vivíamos nas longas férias do verão azul da infância (e nunca os dias sem fazer nada eram dias vazios), enquanto levávamos a bicicleta pelos defensões das marinhas (ainda havia montes de sal) para ouvir o restolhar das águas e dos pássaros. E já nos estávamos a perder de novo. Falta sempre tempo - para saborear, para ir ouvir de novo, ler as palavras que acompanham o violão, tatear os discos, cheirar os corpos. "Melhor do que o silêncio, só João", arrumou Caetano Veloso. E assim nos ensinou como nunca ganha o vazio, qualquer vazio. Damos outro salto no tempo - e não há nenhum vazio entre este tempo e esse, em Manchester, quando, em maio de 2017, no final de um minuto de silêncio de homenagem pelas vítimas do atentado no concerto de Ariana Grande, a voz de uma mulher irrompeu na multidão a cantar Don't Look Back in Anger, e um a um todos em volta se foram juntando e cantando a canção dos Oasis. A música salva, sabemos, por isso quando João nos sussurrou Chega de Saudade, percebemos que vazio algum nos ganha. "Vai minha tristeza/ E diz a ela/ Que sem ela não pode ser", e logo à frente nos enche tudo de futuros. "Mas se ela voltar, se ela voltar/ Que coisa linda, que coisa louca/ Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos/ Que eu darei na sua boca."

Miguel Marujo

Ver Tudo

A equipa feminina de CS:GO da Vodafone Giants

Aidy é a capitã da equipa profissional feminina de CS:GO da Vodafone Giants e teve de lutar muito para mostrar que as raparigas, se quiserem, jogam tão bem como os rapazes - ou até melhor do que eles. "Tive situações um pouco incómodas, ao longo da minha trajetória no mundo dos videojogos. Houve momentos em que me senti pequena e creio que todas temos o mesmo direito de jogar, de poder demonstrar o que queremos e de poder ir atrás dos nossos sonhos."O seu sonho (conquistado) é ser gamer profissional. E como ela há muitas que se esforçam para se destacarem num ambiente que ainda é maioritariamente masculino, embora cada vez menos. Um artigo publicado na VentureBeat, uma página dedicada à tecnologia, baseado em dados recolhidos pela consultora Interpret, indicava que 30,4% das mulheres e 69,6% dos homens viam desporto com regularidade. A distribuição é desigual, mas o mesmo artigo assinalava que a percentagem de mulheres aumentou quase seis pontos desde 2016, um aumento assinalável, que aponta para uma rápida integração das mulheres na indústria.A paridade em termos de presença está, portanto, cada vez mais perto. No entanto, os esports não são tão equitativos - como sucede nos desportos tradicionais - quando se fala de dinheiro.Embora não exista um ranking oficial que permita saber com certeza quanto ganham os jogadores profissionais, a página especializada esportsearnings.com mostra o fosso que separa homens e mulheres. Enquanto o Alemão Turo Takhasomi, líder em termos de receitas, arrecadou, até à data, mais de quatro milhões de dólares em prémios, a Canadiana Sasha Hostyn, que encabeça a lista feminina, ganhou 323 mil dólares no mesmo período de tempo. Laia Miralles, a outra espanhola da equipa, acredita que tanto ela quanto as suas colegas estão preparadas para enfrentar a competitividade do mundo profissional dos esports: "Sim, sofremos um pouco com o machismo. No entanto, tentamos passar ao lado disso e seguir o nosso caminho, porque, se quisermos ser jogadoras profissionais, temos de superar essas barreiras e seguir em frente."Esse exemplo de determinação é o que faz das jogadoras da Vodafone Giants um espelho em que podem ver-se refletidas todas as jovens queiram ser jogadoras profissionais de videojogos. Esse papel de referência, de pioneiras, nas palavras de Virginia Calvo, coproprietária da equipa, está bem presente desde o nascimento da equipa. "Sentíamo-nos responsáveis por dar voz e visibilidade às mulheres da esfera competitiva profissional."Entrevista e edição: Azahara Mígel, Douglas BelisarioTexto: José L. Álvarez Cedena

ANYmal, o robô todo terreno de quatro patas

O ANYmal tem o aspeto de um cão robótico inofensivo. A forma como anda é engraçada e os seus gestos (se é que se pode aplicar esse termo a uma máquina com as suas características, já que não tenta imitar os comportamentos humanos) não são intimidantes.Apesar disso, há quem o tenha considerado assustador e houve até uma página sobre tecnologia que o incluiu entre os robôs mais "aterrorizadores". A culpa não foi dos criadores, a empresa suíça ANYbotics, centrada numa robótica útil, mas sim de um episódio da serie Black Mirror (concretamente, o quinto episódio da quarta temporada, cujo título é "Cabeça de Metal") em que um grupo de engenhos robóticos semelhantes a cães dominam a espécie humana pela força e a deixam à beira da extinção. O lema da ANYbotic, por sua vez, é: "Permitimos que os robôs cheguem a qualquer lugar". Talvez seja uma forma de manifestarem confiança numa tecnologia que não para de crescer e que deveria servir apenas para nos facilitar a vida. E é precisamente isso que se pretende com o ANYmal, um quadrúpede com capacidades impressionantes."Um robô comum tem rodas, o que é bastante bom" - assegura Peter Fankhauser, um dos cofundadores da empresa. "Tem inúmeras funções e bateria suficiente para operar durante horas. Porém, não pode ser usado à chuva nem em lugares com escadas. Por outro lado, os drones funcionam muito bem, trabalham de vários ângulos e proporcionam imagens incríveis. Contudo, a autonomia e a capacidade de carga são limitadas. O nosso robô é uma combinação de ambos. Desloca-se em qualquer tipo de terreno e, ao mesmo tempo, é capaz de transportar cargas significativas e a sua bateria tem bastante autonomia. Dura três horas e, como é autónomo, é capaz de regressar sozinho e recarregar-se numa estação.A versatilidade do ANYmal faz dele o robô perfeito para uma grande variedade de tarefas industriais, em interior ou exterior, para trabalhos de distribuição, de resgate, trabalhos agrícolas, florestais ou até para entretenimento. As quatro patas permitem-lhe caminhar, correr, saltar, escalar ou... dançar. Embora a mobilidade seja, obviamente, um dos pontos fortes do robô, é o restante equipamento que lhe permite ser uma ferramenta tão poderosa. Graças aos seus vários sensores, câmaras e aplicações, o ANYmal é capaz de traçar mapas, detetar mudanças de temperatura ou variações sonoras, o que lhe permite aplicar diferentes soluções no espaço em que se encontra a trabalhar.Embora, nesta fase, o ANYmal ainda seja uma versão beta, os seus criadores esperam comercializá-lo em breve. Para isso, estão concentrados em melhorar a sua robustez e algumas das suas competências.Além disso, a ideia é que funcione com API aberta, que permita aos clientes programá-lo para que possam adaptar-se a distintos tipos de tarefas. Porém... que não se gere o pânico, porque ninguém tenciona criar um exército de assassinos dispostos a espalhar o caos pelo mundo.Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol, Noelia Núñez, David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

Insider

Dia Mundial da Fotografia. Conheça o top 10 dos melhores telefones para fotografar

A 19 de agosto, assinala-se o Dia Mundial da Fotografia. Com um número crescente de utilizadores a preferir a conveniência do smartphone às câmaras fotográficas, quem é que lidera o ranking de classificações? O site DxOMark disponibiliza um ranking onde é possível encontrar os smartphones com as pontuações mais altas no parâmetro da câmara fotográfica. Como seria de esperar, este top de classificações é liderado por smartphones topo de gama. Se até há bem pouco tempo o ranking era liderado pelo Huawei P30, agosto trouxe o lançamento da novidade da linha Note, que arrancou o primeiro lugar ao telefone da [...]

DN Ócio

Próxima paragem: vindimas

Não se distraia com o agosto estival: as vindimas estão a começar. São várias as propostas para aproveitar esta altura especial e única do ano, em que é momento de apanhar as uvas, conhecer a histórias dos vinhos e desfrutar de um ambiente invulgar. De norte a sul do país, são muitas as propostas para acompanhar as vindimas. O melhor é tratar já de marcar lugar nesta aventura. Leve energia e muita vontade de conhecer. Adega José de Sousa Reguengos de Monsaraz Pela primeira vez, esta adega disponibiliza um programa de vindimas para o público, respondendo ao interesse dos [...]

É aqui que se guardam alguns dos maiores tesouros da arquitetura

Inaugurada em 2017, a Casa da Arquitectura tem a dupla função de preservar e mostrar a obra dos arquitetos (que não se esgota no edificado). Uma delicada memória de milhares de desenhos, maquetes e fotografias que recentemente ganhou um importante inquilino: quarenta anos de desenhos de Eduardo Souto Moura. Reportagem de Marina Almeida Fotografias de Igor Martins/Global Imagens Quando se entra na receção da Casa da Arquitectura, em Matosinhos, há um enorme vidro que é um miradouro para o arquivo, aquilo que supostamente não se vê. Ali veem-se maquetes, algumas facilmente reconhecíveis, como a Casa das Histórias Paula Rego, ou [...]

Joias e (outra) arte em diálogo na Gulbenkian

A joalharia contemporânea ainda não tinha sido estudada, muito menos posta a falar com obras de arte. Cristina Filipe finalizou a sua tese de doutoramento, está a preparar um livro e pôs obras da coleção Moderna da Gulbenkian em diálogo com joias - algumas bem desafiantes. Para ver até 16 de setembro. Texto de Marina Almeida Cristina Filipe defendeu a tese de doutoramento sobre joalharia contemporânea na Universidade Católica do Porto. Um trabalho pioneiro, que em breve será publicado em livro, e que a levou a fazer uma incursão profunda no mundo da joalharia e da arte. Uma parte do [...]