Atualidade

Opinião

Pedro Cruz

A perceção e a realidade

As dinâmicas sociais passam muitas vezes muito mais pela perceção do que pela realidade. Quando um quase desconhecido Fernando Gomes ganhou a Câmara do Porto ao PSD, em 1989, a cidade estava envelhecida e escura, sem autoestima e sem peso político. Os dois anteriores autarcas, Paulo Vallada e Fernando Cabral, vinham de uma "linhagem" de "senadores" da cidade, homens eruditos e elitistas, mas poupados e conservadores. Dizia-se, à época, que a câmara tinha "os cofres cheios", mas estava quase tudo por fazer. Gomes chega, vai ao banco e descobre todo um novo mundo. A cidade rasga-se, abre-se, a voz do presidente da Câmara do Porto torna-se oposição às maiorias de Cavaco Silva, o (Futebol Clube do) Porto começa a colecionar campeonatos, depois de ter sido campeão europeu em 1987, e a perceção da cidade transforma-se. O Porto torna-se "moderno", cosmopolita, com abertura à cultura, com erradicação de barracas e de ilhas, com peso político dentro e fora do país. Houve, claro, trabalho feito, mas, mais do que isso, Fernando Gomes devolveu ao Porto peso, importância e orgulho na cidade. Um património imaterial, que passa pela perceção. (Já agora, o mesmo Fernando Gomes, que se mudou do Porto para o governo de Guterres, viria a morrer enquanto ministro da Administração Interna, também por causa da perceção. Uma curiosa sucessão de crimes com figuras publicas e, por isso, amplificada nos media, levaram à sua saída do governo. Na realidade, os crimes e a revolta da PSP foram apenas circunstanciais, mas a perceção da fragilidade do ministro obrigou Guterres a entregar a cabeça de Gomes a Sampaio. A frase, da altura, foi "Roma não paga aos traidores").

Pedro Cruz

Guilherme de Oliveira Martins

Escrever o sol

No ano em que se celebram 60 anos da Poesia - 61, cadernos publicados em Faro, por Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta, com ilustração de Manuel Baptista, tive o gosto de invocar o facto nos Anais do Município de Faro, que acabam de sair, através da publicação de uma carta inédita de Gastão Cruz a Fiama sobre a feitura dessa preciosidade bibliográfica que reúne as cinco plaquetes da Poesia - 61, oferecidas há dias generosamente por João Nuno Cruz, filho dos dois protagonistas da carta agora vinda a lume, à Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, no dia de um sol tímido em que lançámos os Anais. Foi um momento memorável, com a apresentação de António Branco, antigo reitor da Universidade do Algarve, no qual sentimos connosco o espírito da poesia e de uma iniciativa cultural pioneira, pela qual os jovens de há 60 anos, sem criar um movimento, puseram em comum, e por caminhos diferentes, um modo de agitar ideias à semelhança de Orpheu, porque a cultura nunca se repete, sempre se renova. O número dos Anais insere ainda uma sentida invocação de Lídia Jorge em memória de Maria Aliete Galhoz, com episódios pitorescos, uma deliciosa lembrança da cidade de Faro de antigamente, de Teresa Rita Lopes, ou um testemunho de Carminda Cavaco, ilustre geógrafa, sobre o turismo mediterrânico.

Guilherme d'Oliveira Martins

Mais Opinião

Sebastião Bugalho

Pequenas vitórias, grandes derrotas

De underdog a vencedor da noite, de patinho feio das sondagens a novo kingmaker do seu partido, a inesperada vitória de Carlos Moedas tem muito que se lhe diga. A coligação do ex-comissário europeu teve poucos mais votos do que Cristas e Leal Coelho juntas contra Medina - mais 2843, para ser rigoroso, enquanto o incumbente socialista viu o seu score descer a astronómica quantia de 25 mil votos. É, portanto, uma derrota muito maior de Fernando Medina do que uma vitória da direita em Lisboa, por mais simbólico que seja o PSD vencer a capital e capaz que Moedas seja como político. A contabilidade, claro, conta para os contabilistas, mas uma verdadeira análise não a dispensa.

Sebastião Bugalho

Paulo Baldaia

O escorpião veste laranja

A noite eleitoral começou com muitas resmas de papel a serem despachadas para a reciclagem. Tantos meses e tanto empenho a prever que Rui Rio teria de apear e, afinal, as sondagens à boca das urnas apontaram os holofotes para o Largo do Rato. Os resultados conhecidos ao longo da noite (este texto ficou fechado às 24h00) ajudaram a dar um sabor a vitória a uma derrota há muito anunciada. Esta liderança social-democrata está, aliás, a beneficiar constantemente da gestão das expectativas porque, com tantos "amigos" no seu próprio partido e na opinião publicada, que lhe apontam sempre o pior dos destinos, Rui Rio sobrevive politicamente mesmo com derrotas.

Paulo Baldaia

Pedro Tadeu

Só Rui Rio é que ganhou nestas eleições?

1 A noite eleitoral sorriu a Rui Rio, ainda antes de se começarem a contar os resultados - as projeções das televisões para Coimbra, a dar vitória folgada à coligação que o PSD juntou para eleger José Manuel Silva, e a possibilidade de Carlos Moedas, noutra coligação promovida pelo PSD, discutir taco a taco a presidência de Fernando Medina, garantiram que a contestação interna ao líder do PSD terá de aguardar por melhores dias - apesar de não serem resultados do PSD sozinho, o frenesim mediático da noite atirou todo o restante panorama eleitoral para um lugar secundário e Rui Rio vai beneficiar disso.

Pedro Tadeu

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V Digital

As ciclovias "produzem" mais utilizadores de bicicleta?

As ciclovias "produzem" mais utilizadores de bicicleta?

Nos últimos tempos, a construção de ciclovias na capital acentuou-se com o objetivo de cumprir a promessa eleitoral do presidente da Câmara, Fernando Medina, de ter "pelo menos 200 quilómetros" de vias cicláveis até ao fim de 2021. Apesar das muitas vozes críticas contra faixas "de utilização reduzida", os especialistas consideram que só se promove a utilização deste meio de transporte se, antes, se construírem as infraestruturas necessárias.