Atualidade

Opinião

Guilherme de Oliveira Martins

País difícil de entender

Portugal é um país difícil de entender. O cadinho de várias influências apresenta-nos elementos contraditórios. Mas há fatores que são permanentes e definem uma identidade que começa no querer, continua na omnipresença do mar e pressupõe uma luta constante. Lembremo-nos da saga dos poveiros, com o negro do luto das viúvas e dos órfãos nas praias atlânticas ou do combate contra a adversidade do meio em Trás-os-Montes, no Douro ou no Alentejo. Eduardo Lourenço e José Mattoso lembram que "uma das descobertas mais simples e irrecusáveis do após 25 de Abril é que Portugal é um país como os outros. Sem missão providencial, sem Quinto Império, sem realizações espetaculares, sem lugar especial no mundo, apesar dos Descobrimentos". Isto significa, porém, que dependemos da nossa responsabilidade, do nosso querer e do saber pensar e fazer. Assim chegámos aqui. Precisamos uns dos outros. E temos de saber planear o futuro, partindo do presente, e avaliar os resultados que somos capazes de obter. Sempre que preparámos o futuro, ganhámos. Ao Deus dará perdemos e agravámos o nosso atraso, que não é uma fatalidade. O mérito não é um mito, só funciona quando resulta do reconhecimento das diferenças e da dignidade de cada um. Miguel Torga foi tantas vezes duro na sua apreciação de quem somos. Sabia do que falava e que nada se consegue de ânimo leve ou de ilusão. O desencanto assalta-nos tantas vezes, e o lirismo poético é apimentado com o picaresco e o maldizer.

Guilherme d’Oliveira Martins

Hugo Xambre

Seca: estamos a tempo de mudar?

Em 2018 as autoridades sul-africanas proclamaram o Estado de Catástrofe Natural em todo o país devido à seca histórica que assolou o território desde 2015, nomeadamente na Cidade do Cabo, que estava ameaçada de ficar sem água potável. O "Dia Zero", momento em que as torneiras deixariam de dar água na Cidade do Cabo, foi anunciado e o uso foi limitado de forma decrescente até aos 25 litros diários de água por pessoa, com coimas reais a quem ultrapassasse este limite. Note-se que de acordo com a ONU, cada pessoa precisa de 110 litros de água por dia e que o consumo médio em Portugal é cerca de 124 litros por dia.

Hugo Xambre

Luís Filipe Castro Mendes

Em memória de Ana Luísa Amaral

Nunca senti qualquer angústia de influência", contava-me Ana Luísa Amaral e acredito que assim fosse. Os nossos mestres pesam-nos mais quando se interpõem entre nós e o que ambicionamos seja o julgamento pela posteridade daquilo que fizemos. Mas a Ana Luísa nem pesavam os mestres (Emily Dickinson, em primeiro lugar) nem inquietava a posteridade. Ela achava, na verdade, essas angústias próprias da masculinidade, da permanente rivalidade que a condição masculina nos viria impor. E se nas mulheres por certo existem também, sempre prontas a emergir, rivalidades e competições, não há dúvida que, na Ana Luísa, a relação com a obra tinha a serenidade do que é evidente de fazer e a seriedade do que é difícil de fazer: por isso não a preocupava nem a disputa da notoriedade presente nem a angústia com a memória futura.

Luís Castro Mendes

Mais Opinião

Pedro Cruz

Encosta-te a mim…

Marcelo está mais leve do que nunca. Como canta o hino de uma juventude partidária, o presidente está, agora, "completamente livre e completamente solto". Já não pode ser candidato outra vez, faltam quatro anos para o fim do mandato e, todos sabem, incluindo ele, que a contagem decrescente já começou. Não que antes de ser reeleito Marcelo não estivesse livre e solto. Mas tinha uma eleição para ganhar, queria transformar em votos a popularidade que tem, e o governo da República era, primeiro dependente de uma geringonça e, depois, minoritário. Com a maioria de Costa, Marcelo está, finalmente, liberto.

Pedro Cruz

João Melo

Para quebrar a maldição africana

Agostinho Neto, num discurso célebre, disse uma vez que África parece um pedaço de carne onde cada um vem debicar o seu pedaço. Penso recorrentemente nessa frase. A mesma voltou a assomar-me à cabeça nos últimos dias. De facto, entre o final de julho e o início de agosto, três dirigentes mundiais visitaram o continente, tendo a guerra da Ucrânia como pano de fundo. Foram eles o presidente francês, Emmanuel Macron, o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken.

João Melo

Evasões

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