Opinião

Amadu Jao

Queremos voltar a ser portugueses

Entre 1963 e 1974, combateram na Guiné cerca de 250 000 militares portugueses. Desses, cerca de 40 000 eram guineenses, à altura cidadãos portugueses de pleno direito que exerciam o seu dever constitucional de defender a pátria. Estes militares bateram-se com honra por Portugal. Cumpriam uma obrigação, mas não foram forçados. Sentiam-se portugueses. Juraram a bandeira à sombra da qual nasceram, e defenderam-na sem reserva ou hesitação. Muitos cobriram-se de glória no campo de batalha. Para lá de alguma ingratidão residual, a maioria dos portugueses lembra Marcelino da Mata com carinho e admiração. Muitos milhares de outros, menos conhecidos, serviram com igual fidelidade a causa nacional.

Amadu Jao

Paulo Baldaia

Um governo com medo da própria sombra

1 O ministro António Costa Silva ou está naturalmente cansado de estar num governo Sem rei, nem roque, ou a sua vontade era ter sido ministro das Finanças e a única forma que encontrou de o dizer ao primeiro-ministro António Costa foi a de anunciar o que faria se estivesse no Terreiro do Paço. Em sua defesa é preciso lembrar que foi dele a ideia primeira, neste governo, de taxar os lucros extraordinários das empresas de energia. É certo que o mandaram calar-se e que ele se viu obrigado a recuar no tema. E é certo também que o primeiro-ministro negou três vezes essa hipótese, mas que depois chegou o dia em que António Costa anunciou que votaria favoravelmente a proposta da Comissão Europeia, dando razão a ACS.

Paulo Baldaia

Margarita Correia

O país dos treminhões

Guarapuava, pequena cidade do interior do Paraná onde passei uma semana em trabalho, é terra de fazendeiros, capital do agronegócio paranaense e, como tal, importante bastião do bolsonarismo. Estava prevista uma passagem do líder pela cidade no final da semana passada, mas o cancelamento da mesma, devido à presença no funeral da rainha, não desmobilizou os seus boçais e façanhudos apoiantes, ufanos e armados, numa cidade pejada de bandeiras brasileiras e propaganda azul e verde da chapa 22. Até eu fui alvo, ao pequeno-almoço no hotel, da verborreica e tonitruante investida de um candidato a deputado federal, que sonhava ser ministro da Educação, e só o meu sotaque português fez murchar a sua ruidosa efusividade. No regresso, viajei pela BR-277, que liga o porto de Paraguaná à Foz do Iguaçu, entre Guarapuava e Curitiba, em vez de mata atlântica ou araucárias, pude conhecer os perigosos treminhões.

Margarita Correia

Jorge Barreto Xavier

Semanologia: A confiança

1 A construção pessoal e social da confiança é matéria complexa. Pode parecer estranho, mas é impossível determinar, em abstrato, em quem se confia ou no que se confia. A confiança instala-se em situações concretas, seja por aceitação de regras ou instituições, seja pela acomodação a um certo modo de vida, seja pela experiência de relações pessoais ou aprendizagens. A vida pessoal e comunitária sem níveis mínimos de confiança em si e nos outros é insuportável. Precisamos de confiar no que somos, no que sentimos, no que pensamos, no que nos rodeia.

Jorge Barreto Xavier

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Sebastião Bugalho

O grande swing

Hilary Mantel, provavelmente a maior escritora do século XXI britânico, introduz o leitor ao seu primeiro romance histórico (A Place of Greater Safety, 1992) da seguinte forma: "Tudo o que lhe parecer particularmente improvável é provavelmente verdade". Mantel, que se instituiu literariamente através de retratos ficcionados de momentos de rutura (a Revolução Francesa, no livro citado; o anglicanismo de Henrique VIII, na trilogia Wolf Hall), partiu esta semana deste mundo, não se inibindo de deixar lições a quem nele permanece. Também nós, não há dúvida, atravessamos um tempo de transformações, ainda que sem a sorte de virmos a ser narrados pela pena de Hilary Mantel.

Sebastião Bugalho

Evasões

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