Atualidade

Opinião

Joana Amaral Dias

Perdoa-lhes que nós não

Pode a máfia russa investigar o tráfico de mulheres? E os cartéis mexicanos poderão nomear comissões para investigar o narcotráfico? Não se trata, pelo contrário, de competência da polícia de investigação criminal? Os investigados escolhem os investigadores? E ainda lhes pagam? Que sentido faz? A igreja católica em Portugal vai então apurar décadas de abusos sexuais perpetrados na sua própria instituição e, claro, para isso seleccionou pessoas de bem, com prestígio, bons currículos e toda a credibilidade. Pois claro. Faria agora algum sentido o criminoso recrutar para investigar a sua própria casa gente sem mérito? A igreja escolhe e escolhe bem, paga-lhes e lava tudo. O orçamento será curto, a equipa reduzida e o prazo de um ano bem pequeno (tudo muito insuficiente quando comparado com França ou Austrália, por exemplo) mas se, no final, apenas se confessarem dois ou três peões do xadrez e se tudo souber a pouco, de quem será a responsabilidade? Certamente, da meia dúzia de técnicos independentes e irrepreensíveis que precisam de toda a sorte deste mundo. E do outro.

Joana Amaral Dias

Sebastião Bugalho

Subdesenvolvimento democrático

Não se prestou suficiente atenção à defesa das liberdades públicas durante estes quase três anos de pandemia. A soma de manobras jurídicas e subversões constitucionais passou entre as gotas da chuva, com um primeiro-ministro que a isso foi encolhendo os ombros e um líder da oposição com a consciência legal de um arrumador de rua. O choque entre a ordem democrática e a necessidade sanitária nem por isso cessou, e dificilmente dele sairemos tão cedo. Nos próximos quatro meses, teremos um estado de emergência disfarçado de calamidade, sem o escrutínio parlamentar que vagamente se manteve nos que o antecederam, com uma Assembleia dissolvida e de autoridade cabisbaixa, um governo preso por arames e um Presidente que provocou uma crise política em plena crise pandémica. Ignorar os efeitos que tudo isto produzirá na sociedade portuguesa seria, numa palavra, burrice. Quando a era da covid se iniciou, o regime estava já erodido, a abstenção era já arrebatadora, o populismo crescia já a bom crescer e o desenvolvimento económico mostrava-se já medíocre. Dito de outro modo: não foram os males do coronavírus que vergaram o país. Limitaram-se a pregar-lhe uma valente canelada.

Sebastião Bugalho

Mais Opinião

Rogério Casanova

#RIP Clint Eastwood (1930-1992/2008/2018/2021/?) 

Mais ou menos a meio do romance Money, de Martin Amis, o narrador - um realizador inglês em Nova Iorque, a tentar fazer a sua primeira longa-metragem - tem uma reunião de emergência com Lorne Guyland, um dos seus actores. Guyland é uma super-estrela da velha guarda, com um currículo recheado de papéis icónicos (Gengis Khan, Wyatt Earp, Napoleão, Moisés, etc.), e uma auto-estima ajustada em conformidade. Descontente com a direcção geral do projecto, apresenta algumas sugestões para "melhorar" o guião. "Eu vejo a minha personagem como um homem de cultura considerável", explica. "Amante, pai, marido, atleta, milionário... mas também um homem de leituras, de vasta cultura. Um poeta, um filósofo, um explorador..." O solilóquio prolonga-se durante mais de meia hora, e as sugestões criativas nunca se desviam das mesmas linhas gerais: a personagem de Guyland devia ter mais cenas de sexo em que provoca orgasmos sucessivos a uma actriz muito mais nova, mais cenas de luta corpo a corpo em que derrota implacavelmente um actor muito mais novo, e acima de tudo mais cenas em tronco nu. A reunião termina com Guyland a deixar cair o roupão e a perguntar: "Isto por acaso é o corpo de um homem velho?"

Rogério Casanova

Carlo Formosa

A cozinha italiana é afecto e responsabilidade

Na semana de 22 a 28 de novembro celebrou-se em Portugal a Semana da Cozinha Italiana, que chegou este ano à sua sexta edição. Trata-se de uma iniciativa promovida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional da República Italiana, que decorre em todos os Países da nossa rede diplomática promovendo as excelências da enogastronomia italiana no contexto mais amplo da Dieta Mediterrânica (cujos valores a Itália partilha com Portugal) e por contraste ao chamado "Italian sounding", fenómeno que consiste na imitação de produtos e receitas da nossa culinária usando fórmulas que soam "à italiana" mas desrespeitam por completo os nossos padrões de qualidade.

Carlo Formosa

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