Atualidade

Opinião

Luís Filipe Castro Mendes

A beleza de identificar fascistas

Keats dizia que o poeta é o menos poético dos seres, porque não tem identidade. Talvez essa capacidade de viver pelos outros e, em nome dos outros, usar as palavras constitua hoje, nestes tempos pejados até à náusea do peso das identidades, uma grave falta e um culposo desvio. Se Fernando Pessoa não era nem um camponês, nem um médico monárquico, nem um engenheiro naval, que direito tinha ele de falar por Alberto Caeiro, por Ricardo Reis e por Álvaro de Campos, numa clara e despudorada apropriação cultural? Se Shakespeare não era um mouro de Veneza, nem um príncipe da Dinamarca, que direito tinha ele de vir falar por Otelo e Hamlet?

Luís Castro Mendes

Guilherme de Oliveira Martins

O tempo e o modo

Foi em janeiro de 1963, completam-se agora sessenta anos. Nascia uma revista, dirigida por António Alçada Baptista, com uma equipa de jovens animados pela ideia de preparar a mudança no sentido da liberdade. Pretendiam, assim, lutar contra a geral "desordem estabelecida", "isentos de qualquer confessionalismo ou partidarismo político concreto, preocupados em localizar e fazer incidir a nossa análise, clarificação e resolução dos problemas que afetam o nosso tempo particular, propondo-nos especialmente (...) estudar com atenção crítica todas as formas de regressão e entrave a esse seu progressivo desenvolvimento, quer no que se refere à organização e governo da cidade, quer ao contexto sociológico, libertador ou opressivo, das expressões religiosas, culturais e económicas em que homem se move e o condicionam". O texto que abria a revista era propositadamente hermético. Havia que prevenir a ofensiva inexorável da censura. O que estava em causa era a reivindicação de um espírito livre e aberto e da necessidade de um diálogo crítico. A "desordem estabelecida" era uma alusão ao paradoxo de um regime baseado na "ordem", que não aceitava o pluralismo e o primado da lei. E a expressão fora usada por Emmanuel Mounier nas origens da revista Esprit, em 1932, para significar a demarcação relativamente a uma sociedade desrespeitadora da dignidade humana. O Tempo e o Modo nasceu com a inspiração de Esprit, cujos 90 anos agora celebrámos. Também como na revista francesa, a opção de António Alçada fora de não contar só com católicos, mas de unir crentes e não-crentes. Por isso, estiveram na fundação Mário Soares, Salgado Zenha e o jovem Jorge Sampaio. Daí estarem na capa da revista os nomes de dois futuros Presidentes da República. A Livraria Morais, aberta em 1958, sob a bandeira do inconformismo, envolveu jovens como Pedro Tamen, João Bénard da Costa, Nuno de Bragança, Helena e Alberto Vaz da Silva, que animariam a revista. O Concílio Vaticano II dava passos decisivos, a candidatura de Humberto Delgado abrira perspetivas novas, por romper com a unidade das Forças Armadas e o memorando do bispo do Porto a Salazar iniciou o fim do compromisso confessional do regime.

Guilherme d’Oliveira Martins

Afonso Camões

Do ódio ao ressentimento

No canto mais sinistro do nosso imaginário estarão certamente gravadas aquelas cenas de acidentes rodoviários em câmara lenta, feitas com manequins no lugar de humanos. Observamos o carro a embater lentamente contra um muro para, numa singular mistura de tragédia e imunidade, nos tornarmos os espectadores do choque frontal que estilhaça os vidros, prensa a chaparia e arremessa os corpos de plástico para fora. A função dessas imagens de campanha preventiva, pretensamente pedagógicas, seria alertar-nos, em tempo, para o perigo das más condutas de quem conduz, enquanto ainda não ocupamos o lugar daqueles manequins impessoais, produzidos para serem destruídos.

Afonso Camões

Pedro Cruz

Indo eu, indo eu a caminho de Belém

No dia em que deixou de ser ministro, Pedro Nuno Santos foi assistir, como é tradição, à posse do seu sucessor. O homem que durante cinco anos negociou Orçamentos de Estado com BE e PCP, o secretário de Estado triunfante que saiu do hemiciclo lado a lado com o primeiro-ministro e, ambos, num gesto combinado, levantaram os cinco dedos da mão para assinalar o quinto Orçamento aprovado do PS em minoria, o ministro que decidiu onde iria ficar o novo aeroporto de Lisboa, 50 anos depois da discussão ter começado, e que foi desautorizado no dia seguinte pelo seu primeiro-ministro, estava firme e hirto.

Pedro Cruz

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Paulo Baldaia

Madeira pode ser a cruz de Montenegro

Há algum amadorismo na forma como o PSD teima em lidar com André Ventura, um ex-militante que se fez notar pelo discurso contra os ciganos, que mandou às malvas o partido que primeiro lhe deu palco e que, agora, aposta tudo em reduzi-lo a cinzas. O risco de ter o partido de Sá Carneiro e Francisco Balsemão totalmente dependente de populistas de extrema-direita para poder voltar a governar é real e não se vê que a liderança dos sociais-democratas tenha vontade de começar a lutar contra isso.

Paulo Baldaia

Sebastião Bugalho

Aquilo que nasce torto ainda se endireita

Ninguém teria adivinhado, no primeiro dia de 2022, que António Costa ganharia uma maioria absoluta nas legislativas antecipadas, que a Rússia invadiria a Ucrânia até aos arredores de Kiev, que a União Europeia responderia em bloco e em força, que a Zona Euro sobreviveria à inflação e à crise energética, que a China reabriria radicalmente a sua economia no pós-pandemia e que a Goldman Sachs, imagine-se, declararia que a recessão não se abateria sobre nós, acabadinhos de sair da covid, do défice excessivo, dos fogos, da troika e demais tragédias nacionais.

Sebastião Bugalho

Fórum da Sustentabilidade e Sociedade

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Tech & Café

João Sousa Guedes, o líder da empresa que já ajudou a levar net a 50 milhões de casas

Ao 16.º episódio o Tech & Café recebe João Sousa Guedes, CEO e fundador da Weezie, empresa portuguesa criadora de software que possibilita a instalação de redes de fibra ótica forma muito mais eficiente. Sedida no Porto, todos os seus clientes são estrangeiros -- e já ajudou a instalar internet em mais de 50 milhões de lares. O próximo passo, os EUA... e o futuro das comunicações. Uma conversa com Filipe Gil e Ricardo Simões Ferreira.

Tech & Café

Tech & Café 15. Reviews e mais reviews. O novo Google Nest, o tradutor Vasco V4 e mais

O 15.º episódio do Tech & Café é mesmo dedicado à tecnologia. Experimentámos o router da Google Nest Pro, o tradutor universal Vasco que vai na versão 4 (e está muito melhor) e o novo relógio para desporto vindo da China que pode ser uma alternativa ao Garmin. E ainda falamos de quem venceu a WebSummit. Como sempre, uma conversa entre Filipe Gil e Ricardo Simões Ferreira, desta vez gravada à distância.

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