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Opinião

Adriano Moreira

Insegurança dos valores

ADeclaração Universal de Direitos do Homem aprovada pela Assembleia Geral da ONU, em 10 de dezembro de 1948, dava por assumida a garantia de um ponto final na quebrada superioridade relativa dos sistemas culturais das etnias e crenças, e relevantemente do afastamento dos mitos do "negro", do "mestiço", do "judeu", e finalmente do "ariano". Conta-se que Jacques Maritain, perguntado sobre se os intervenientes responsáveis na votação tinham chegado a acordo, respondeu "que sim mas não sabia sobre o quê". A anarquia em que se encontra o planeta, depois do enfraquecimento da ONU, da jurisdição do Tribunal Internacional de Justiça, do direito do mar e seus recursos, as relações diplomáticas, a suspensão das pretensões que afetam a América, a exploração do espaço, que continua nos registos, foram sendo atingidos, com mais ou menos dimensão, mas foram antes agravando a nossa esperança durante o século sem bússola, que a UNESCO, instituída em 1945, logo proclamou que "a garantia séria que agora acabou foi tornada passível de negação do ideal democrático, da dignidade da igualdade, e do respeito pela pessoa humana e pela vontade de tudo substituir, explorando a ignorância e o preconceito, e o dogma da desigualdade das raças e homens".

Adriano Moreira

Bernardo Ivo Cruz

Newton (mesmo sem a maçã na cabeça) faz falta à política internacional

Quem tiver 50 anos ou mais lembra-se das cartas escritas à mão, enviadas em envelopes com selos e dos telefones que estavam presos à parede e não iam a lado nenhum. As notícias demoravam e quando chegavam já não eram tão novas quanto isso. Hoje o mundo é muito mais pequeno e o que se passa nos antípodas chega até nós pouco tempo depois. Sabemos mais e temos os instrumentos para conhecer melhor o que se passa em qualquer lugar da anunciada "aldeia global". E a globalização não diminuiu apenas o tempo e as distâncias. Estabeleceu também dependências e impactos, como um conjunto de peças de dominó alinhadas: se derrubamos uma, as outras seguem-se até que nenhuma fique de pé.

Bernardo Ivo Cruz

Viriato Soromenho Marques

David contra Golias

Se o leitor for interrogado sobre qual o maior exemplo de avanço tecnocientífico ocorrido no século XX, é provável que responda: o Projeto Manhattan, o modelo de Big Science, que garantiu aos EUA, milhares de milhões de dólares e milhares de cientistas depois, ganhar a corrida à bomba atómica. Usando a notável dicotomia de Aldo Leopold sobre as duas faces da ciência, a saber, "holofote" (searchlight) e "arma" (weapon), a resposta estaria certa para a segunda face, aquela que está ligada à tecnociência como instrumento de poderio e dominação. Mas, se pensarmos na perspetiva da luz que nos orienta e nos pode salvar, então o maior acontecimento científico foi a descoberta da "curva de Keeling", que é hoje o termómetro que permite cartografar, com rigor e sem disfarce, a deriva autofágica em que a humanidade continua embarcada.

Viriato Soromenho-Marques

António Araújo

O acaso e a necessidade

É dos castelos mais estranhos do mundo, mas belo como poucos. A planta octogonal, com torres também elas octogonais em cada uma das oito extremas ainda intriga os especialistas, surpreendidos com um edifício que, pela pequenez, chegou a ser tido como um pavilhão de caça, não mais. Sabe-se hoje que em seu redor existia uma muralha e que, portanto, aquele era mesmo um castelo, ainda que bizarro e estranhíssimo, mas belo como poucos. Tem uma geometria única, toda assente no número oito: um prisma octogonal com oito torres, um pátio interior com oito faces, cada um dos pisos com oito divisões. Diz-se que o octógono é um símbolo intermédio entre o quadrado, representativo da terra, e o círculo, evocativo dos céus, mas nem esta tese cabalística permite explicar por inteiro a singularidade arquitectónica de Castel del Monte, que o imperador Frederico II fez edificar na Apúlia por volta de 1249, porventura inspirado no Monte do Templo de Jerusalém, que vira no decurso da Sexta Cruzada à Terra Santa. Um dos homens mais cultos do seu tempo, Frederico era fluente em várias línguas, autor de um tratado de falcoaria e, não por acaso, os cronistas coevos chamavam-lhe Stupor mundi ("maravilha do mundo").

António Araújo

Legislativas 2022

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Raúl M. Braga Pires

Uma cortina de fumo de Kiev a Ouagadougou

No início desta semana caiu a segunda peça do dominó saheliano e a terceira do dominó oeste-africano, o Burkina Faso. Em resumo, o Mali viu dois golpes de Estado com uma distância de oito meses, agosto de 2020, que depôs o recém-falecido ex-presidente (PR) Ibrahim Boubakar Keita, e em maio de 2021 enquanto correcção de tiro dos golpistas de agosto, apelidado de "golpe dentro do Golpe". A República da Guiné (Conakri) viu semelhante golpe em setembro de 2021, seguindo-se agora o Burkina Faso em janeiro de 2022.

Raul M. Braga Pires

Victor Ângelo

Uma diplomacia com força

Ao criar as Nações Unidas, em 1945, os fundadores tinham em mente estabelecer uma organização supranacional capaz de resolver de modo pacífico os futuros conflitos, em particular os que pudessem ocorrer entre as grandes potências. Estávamos no fim da Segunda Grande Guerra, que trouxera níveis incríveis de sofrimento e de destruição. A preocupação maior era a de evitar novas confrontações militares. Assim estabeleceram uma estrutura que dava a primazia às negociações diplomáticas e que deveria evitar que situações como a que agora existe à volta da Ucrânia resvalassem para uma nova guerra. Passadas mais de sete décadas, os fundadores, se ainda estivessem entre nós, ficariam profundamente abalados ao ver que a ONU está completamente marginalizada, aqui, nesta parte da Europa, no que respeita à crise entre a Rússia e o Ocidente. Como também o está noutras geografias, onde as superpotências intervêm diretamente na luta pelo que consideram ser os seus interesses vitais.

Victor Ângelo

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