Atualidade

Opinião

Pedro Tadeu

O Papa é putinista?

No dia 25 de fevereiro, o dia seguinte ao início da invasão russa da Ucrânia, o Papa Francisco telefonou ao líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, e deslocou-se à embaixada russa na Santa Sé. Numa entrevista, citada pela agência Ecclesia, dada ao jornal argentino La Nación, Francisco explicou-se desta maneira: "Fui sozinho, não quis que ninguém me acompanhasse. Foi uma responsabilidade pessoal, minha, uma decisão que tomei numa noite em branco, pensando na Ucrânia. É claro, para quem o quer ver, que estava a sinalizar o governo que pode pôr fim à guerra no instante seguinte".

Pedro Tadeu

Adalberto Campos Fernandes

Desfazer o nó górdio dos consensos

Os últimos dias foram férteis, do ponto de vista político, em discussões sobre acordos de regime, entendimentos e consensos. Tudo isto, a propósito da localização do novo aeroporto de Lisboa. Ninguém duvida da importância estratégica desta decisão e do compromisso a ela associado, tendo em conta a relevância do investimento em causa. Em boa verdade o novo aeroporto de Lisboa extravasa, em muito, a mera decisão sobre a sua localização geográfica, tendo em conta as externalidades geradas nos domínios sociais, económicos e estratégicos. Fala-se de um investimento global superior a 6 mil milhões de euros cuja execução se estenderá por mais de uma década. Sobre a importância do consenso, nesta decisão, não haverá certamente muita gente que não esteja de acordo. É pena, por isso, que num tema de bem maior importância, para todos os portugueses, como é o caso do Serviço Nacional de Saúde (SNS), não seja igualmente suscitado esse impulso para um consenso político alargado. Pelo contrário, o que temos visto, desde há muito tempo, é a utilização do SNS como instrumento de combate político. Como se o SNS não fosse, por definição, a melhor referência da democracia onde se exprime e exerce, com maior evidência o sentido de justiça social, a defesa dos direitos de cada um dos cidadãos, de cada uma das pessoas.

Adalberto Campos Fernandes

José Ribeiro e Castro

O dia em que o Tribunal Constitucional perdeu a independência

Passado um mês sobre a agitada cooptação de um juiz do Tribunal Constitucional pelos seus pares, já há distância para compreender o que se passou e seus efeitos. Colocado sob a pressão, muito violenta, de actores políticos pela comunicação social, o Tribunal Constitucional vergou-se; e não efectuou a cooptação. Daí, houve dois danos: um, na composição do Tribunal, que continuou incompleta; outro, na sua independência, que, naquele dia, finou-se. A composição não é grande problema: mais tarde ou mais cedo, a escolha em falta será feita. Mas 31 de Maio de 2022 foi a data em que o Tribunal Constitucional perdeu a independência, ao mostrar que campanhas políticas são capazes de o vergar nas suas decisões. Não é segredo. Todos assistimos.

Ribeiro e Castro

Mais atualidade

Mais Opinião

Jorge Costa Oliveira

Flutuação oportunística num mundo multipolar

Os últimos anos mostram uma China a crescer, a afirmar-se internacionalmente e a assumir-se como superpotência. Durante algum tempo, isto foi sucedendo sem confronto com os EUA, a Europa ou outras componentes do "mundo ocidental" (Japão, Coreia do Sul, Austrália). Pelo contrário, prevalecia a tese do positive engagement como corolário de uma crescente e relevantíssima interdependência económica. Nos últimos anos, começámos a observar uma crescente crispação nas relações entre a China e os EUA. Os EUA estão incomodados com a ascensão e crescente relevância internacional da China. Iniciaram uma "guerra" comercial e tarifária com a China. Seguiu-se a colocação de centenas de empresas chinesas - denominadas "Chinese Communist Military Companies" - em listas negras de vários departamentos do governo americano. Por outro lado, a liderança chinesa, depois de um período em que reconhecia ter necessidade de inovação e tecnologia ocidental, e em continuar a contar com os mercados dos países ocidentais como principal destino das suas exportações, tem vindo a evoluir numa direção de cada vez maior confrontação com o ocidente. Essa alteração ocorre numa altura em que os resultados do MIC 2025 são ainda incertos e o crescimento do mercado doméstico continua, mas está longe de poder absorver a parte da produção que é exportada para países ocidentais. Tal decorre, essencialmente da adoção pelo PCC de um ultranacionalismo com forte recorte anti-ocidental, que veio substituir o vazio ideológico resultante da morte do marxismo-leninismo como ideologia. Os próximos anos mostrarão se essa postura teve utilidade para a China ou se foi um erro crasso relativamente a um correto desejo da nação chinesa - a afirmação e reconhecimento internacional da China não apenas como a mais antiga civilização ininterrupta, mas também como um exemplo de desenvolvimento económico que permitiu tirar da pobreza, num curto prazo, centenas de milhões de pessoas.

Jorge Costa Oliveira

Ana Paula Laborinho

Admirável mundo novo II

Sim, é verdade. Na minha anterior crónica, apropriei-me do famoso título de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, na versão em português, e divergi do significado sombrio da célebre distopia que tanto debate tem suscitado. Huxley descreve uma ditadura da ciência, em que as castas são definidas por intermédio da engenharia genética, a vida é concebida em laboratório e o ser humano é poupado à dor. Noventa anos depois da sua publicação, em 1932, muito deste universo negro projetado pelo autor aparece como profecia de tendências para a máquina substituir o humano. A história decorre em Londres no ano de 2540, mas não será necessário percorrer cinco séculos para retomar os debates éticos sobre a ciência e a tecnologia e, mais recentemente, a Inteligência Artificial (IA). A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) tem vindo a inscrever no seu mandato esta preocupação que se tornou mais intensa a partir de final do século XX.

Ana Paula Laborinho

Pedro Cruz

Anda comigo ver os aviões

Fosse outro o tempo, fosse outro o contexto, fosse outro o Presidente da República e fosse outro o primeiro-ministro e, provavelmente, a esta hora estaríamos em campanha eleitoral para eleições legislativas. Por muito menos do que aconteceu a semana passada, um Presidente utilizou o seu poder de dissolução, a chamada bomba atómica, dissolveu um parlamento suportado por uma maioria estável e convocou eleições. O conceito de "regular funcionamento das instituições", como outros conceitos vagos do direito e da lei, permitem "interpretações" em cada momento, em cada circunstância e leituras pessoais dos que, na altura, ocupam os cargos para o quais foram eleitos.

Pedro Cruz

Guilherme de Oliveira Martins

Europa e cultura

A Comissão Europeia e a Europa Nostra anunciaram os prémios do património cultural 2022, entre os quais se encontram o Convento dos Capuchos em Sintra, na categoria de Conservação e adaptação a novos usos e o projeto Museu na Aldeia, que envolve 13 museus e 13 aldeias em Leiria, na categoria Envolvimento e sensibilização dos cidadãos. Do Convento dos Capuchos falei aqui na crónica de 15 de fevereiro, e devo dizer que se trata de um prémio justíssimo. Entre os galardoados, encontra-se ainda a Igreja de Santo André em Kyiv, na Ucrânia, mercê de uma ação de conservação que devolveu aos ucranianos e à humanidade um monumento de grande valor comum, funcionando o monumento como um museu que acolhe serviços religiosos, eventos científicos e educacionais e concertos de música de câmara.

Guilherme d'Oliveira Martins

Evasões

Notícias Magazine