Opinião

Cristina Siza Vieira

Como é que se comem elefantes? Às fatias

É hora de repensar, transformar e reiniciar o turismo com segurança. (...) o setor do turismo pode proporcionar empregos dignos, ajudando a construir economias e sociedades resilientes, sustentáveis, com igualdade de género e inclusivas, que funcionem para todos. Isso significa ação direcionada e investimento para mudar para o turismo verde - com setores de alta emissão, incluindo transporte aéreo e marítimo e hospitalidade, caminhando para a neutralidade de carbono" (António Guterres. 27/9/2021, Dia Mundial do Turismo).

Cristina Siza Vieira

Sebastião Bugalho

Aristides e a palavra que não dizemos

Merecidamente, o regime democrático prestou por fim tributo a Aristides de Sousa Mendes. Por iniciativa da deputada Joacine Katar Moreira, foi desvendada uma lápide em sua memória no Panteão Nacional. Os líderes de PSD e CDS não marcaram presença, o secretário-geral do PCP e o chefe do Chega também não. IL, Bloco, PS e respetivo governo estiveram. O Presidente e o presidente da Assembleia da República discursaram. Na direita mais saudosista, notou-se um rancor por Aristides ter contrariado ordens e regras emanadas do Estado Novo. Na esquerda mais antissemita, o silêncio foi suficiente para se sentir o desagrado. Entre outros, ouviram-se murmúrios sobre a vida não integralmente exemplar do homenageado, como se os heróis - sendo humanos - fossem geralmente impolutos. Alguns, mais rebuscados, relativizaram os feitos do português pela leveza da sua punição (foi "meramente" suspenso) e pelas consequências dos seus atos não lhe terem pesado durante ou depois destes. Argumentos, há que dizê-lo, ausentes de boa-fé. Aristides salvou vidas. Ponto. Isso deve chegar-nos pelo simples facto de lhes ter chegado a eles, que foram salvos. É o ato que conta. E, no caso de Aristides, o número considerável de vezes que o realizou.

Sebastião Bugalho

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Pedro Cruz

Quem tem medo de eleições?

As constantes, sistemáticas e dramáticas referências a uma eventual crise política e, consequentemente, à convocação de eleições, sempre que a discussão do Orçamento do Estado chega a um impasse - ou, pelo menos, há uma encenação de impasse, que se destina apenas a esticar ao máximo a corda, de forma a que quem tem menos votos possa condicionar o mais possível quem tem mais votos, maior representatividade e responsabilidade - em nome de uma "estabilidade" obviamente desejável, mas não necessariamente útil, encerram em si um anátema sobre a sociedade, os cidadãos e os eleitores.

Pedro Cruz

Afonso Camões

Da fome à vontade de comer

Um em cada cinco portugueses é pobre, e milhão e meio de famílias vivem mesmo na subcave da pobreza, com menos de 18 euros por dia para sobreviverem. Havendo dias para tudo, acabamos de assinalar do Dia Mundial da Erradicação da Pobreza. Isto quando o parlamento discute o tamanho das fatias do bolo e o governo lança à discussão pública a versão preliminar da Estratégia Nacional que visa, em dez anos, reduzir em 360 mil o número dos nossos que só vivem das migalhas.

Afonso Camões

Cláudia Ninhos

Aristides

Não podia eu fazer diferenças de nacionalidades, visto obedecer a razões de humanidade que não distinguem raças nem nacionalidade." Aristides de Sousa Mendes tinha 54 anos de idade quando escreveu estas palavras e uma já longa carreira como cônsul, durante a qual passou por diferentes continentes. Em 1938, quando foi nomeado para o Consulado de Bordéus, não podia imaginar que seria confrontado com o turbilhão de uma nova guerra mundial, apesar de o expansionismo nazi ser já imparável. A guerra deflagrou em setembro de 1939, depois da invasão da Polónia, mas foi na primavera de 1940, com a invasão da Europa Ocidental, que o conflito sofreu uma viragem decisiva. Fugindo à frente do exército alemão, milhares de pessoas tentavam desesperadamente deixar os países ocupados. Muitos eram judeus, vítimas de uma intensa perseguição racial. Pessoas de todas as nacionalidades fugiam de comboio, de carro, de bicicleta ou a pé. A saída abrupta do governo e das autoridades civis e militares francesas ajudou a gerar um clima de pânico coletivo. Não conseguimos imaginar o drama vivido por aquelas pessoas, mas o primeiro secretário da Legação de Portugal em França, José de Bívar Brandeiro, deixou-nos um testemunho pungente da "atmosfera de terror", com "três milhões de pessoas de Paris e dos arredores precipitaram-se nas estradas, arrastando tudo o que podiam levar e deixando abandonadas as suas casas e as suas terras". Era este o ambiente que se vivia em França quando Aristides de Sousa Mendes decidiu desobedecer às ordens do Estado Novo. Aliás, já o tinha feito esporadicamente desde que a Circular n.º 14 fora emitida, mas em junho foi ainda mais longe e decidiu conceder vistos a todos os que dele necessitassem. Fausto Navarro, cônsul de Espanha em Hendaia, escreveu na época que, naquela cidade, Aristides "dava os vistos sem nenhuma formalidade, umas vezes sem selo do consulado, outras redigidos em francês, muitos no seu próprio carro, fora da sua demarcação, na estação, na própria fronteira". As ordens contidas nas várias circulares que o Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu procuravam limitar a entrada de refugiados em Portugal, sobretudo àqueles considerados "indesejáveis", como os judeus, os russos ou os apátridas. Armando Lopo Simeão, que Lisboa enviou à fronteira franco-espanhola em junho para avaliar e reportar o que se passava, falava numa "massa ignóbil e em grande parte indesejável sob o ponto de vista social" e referiu-se ao gesto de Aristides como um "ato de loucura". O embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira, que também se dirigiu à fronteira nessa altura, descreveu o cônsul como um "homem perturbado e fora do seu estado normal", que "havia perdido o uso da razão".

Cláudia Ninhos

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