Opinião

Joana Amaral Dias

Voo rasteiro

Ora vejam o que escrevi num jornal, em Janeiro de 2019: "Décadas a discutir um novo aeroporto e, de repente, está decidido, é no Montijo. Mais do que tempo para tomar uma opção fundamentada, mas qual quê. Portugal no seu melhor. Empurrou-se com a barriga, deixou-se a Portela rebentar pela costuras e, quando a solução passou de necessária a emergência, decide-se com os pés e em cima do joelho. Montijo e pronto." Credo. Afinal, nessa altura não houve decisão alguma (entretanto veio a covid e os aviões sumiram) mas a história repetiu-se mais de três anos depois, agora com Pedro Nuno Santos. Isto quando se junta a guerra pela sucessão no PS com tantos interesses que tentam abocanhar o lombo de uma obra colossal, é o diabo. Fora isso, eis o melhor retrato lusitano: a coisa custa a descolar, não levanta voo, parece que estamos sempre no mesmo sítio, em constante ladainha, lenga-lenga. Lembra aquele velhinho filme O Feitiço do Tempo com um Bill Murray novinho. Permanentemente discutimos os excessos de burocracia, o serviço nacional de saúde e as urgências, os incêndios, o crescimento anémico, a corrupção e, claro, o aeroporto da capital.

Joana Amaral Dias

Daniel Deusdado

O aeroporto urgente do líder da oposição

Ninguém disse mais vezes a palavra "urgente" sobre o aeroporto de Lisboa do que o Presidente Marcelo, o grande apoiante dos empresários do turismo. Não sei se, por causa disso mesmo, Pedro Nuno Santos sentiu as costas quentes quando avançou e entalou António Costa, protegido igualmente pelo PCP e Bloco, que querem Alcochete. Em resumo: quem é contra Alcochete? Talvez Costa e os seus sucessivos ministros das Finanças. Eles sabem quão impagável seria meter Portugal nessa aventura. E então atiram-nos para o Montijo, cuja conta é da Vinci, para lavar as mãos do problema - mesmo que fazer aquele aeroporto temporário signifique colocar a estrutura a mais de dois metros da sua cota inicial, um aterro digno das loucuras do Dubai. E, claro, destruir toda aquela zona do estuário do Tejo.

Daniel Deusdado

António Araújo

A Nova Ericeira (ou um problema chamado Brasil)

Se devemos uma palavra de reconhecimento aos nossos alfarrabistas e livreiros-antiquários, como aqui a deixei há uns dias, outra se impõe para as pequenas editoras, geralmente de província, que nos trazem obras preciosas, interessantíssimas. Falo daquelas chancelas que ora publicam poesia ingénua de amadores líricos, ora dão à estampa monografias regionalistas, estudos históricos e etnográficos, genealógicos e familiares, ensaios de geografia física ou humana, recolhas de história oral, ditos populares e rimas, coisas d"antanho que doutra forma seriam perdidas, mas que são essenciais e vitais para nos compreendermos como país e percurso. Em muitos e louváveis casos, são as câmaras municipais, por via dos seus departamentos de cultura, quem tem chamado a si esta nobre e patriótica tarefa; noutras situações, a iniciativa é levada a cabo por eruditos locais, hoje cada vez mais escassos, ou pelo empenho de gente maravilhosa e boa, interessada em estudar e divulgar a realidade das terras onde vive. Alguma dessa produção está hoje concentrada em chancelas mais conhecidas, como a Âncora Editora ou as Edições Colibri, com amplos e belos catálogos, mas existe um sem-fim de publicações que outrora ainda iam sendo comerciadas em livrarias como a saudosa Portugal, à Rua do Carmo, mas que hoje se encontram dispersas e ignoradas do grande público. Seria bom que, no mínimo, existisse um site da Internet que compilasse, e mantivesse actualizado, o imenso caudal de edições patrocinadas por autarquias ou pequenas chancelas locais. Aqui fica a sugestão aos responsáveis pela cultura e pelo livro.

António Araújo

Alexandra Borges

Procurar uma agulha num palheiro

É um mundo à parte, muito próprio, especial e único com histórias que deslumbram a maioria das pessoas. A que lhe vamos contar, a partir de amanhã, em gridigital.pt, é única em Portugal e rara no mundo. Sabia que os gémeos idênticos têm o mesmo ADN? Este caso incomum de clonagem natural pode revelar-se uma importante solução para um problema. Numa situação de transplante, uma vez que os órgãos de um irmão são completamente compatíveis com o outro, os gémeos monozigóticos têm garantido um dador com "peças suplentes".

Alexandra Borges

Mais atualidade

Mais Opinião

Pedro Lopes Ferreira e Mirieme Ferreira

Centralidade do cidadão: acesso, integração de cuidados e participação

Falar da centralidade do cidadão no SNS é falar das políticas que promovem a inclusão, a solidariedade, a participação, a igualdade de oportunidades e a equidade no acesso, mas também o desenvolvimento socioeconómico, os direitos sociais, as condições de vida e os direitos à habitação, à educação e à saúde. Implicados estão, forçosamente: a promoção da saúde; a literacia e capacitação em saúde; a prevenção; os estilos de vida saudáveis e a confiança do cidadão no SNS.

Pedro Lopes Ferreira e Mirieme Ferreira

Viriato Soromenho Marques

A bioeconomia no planeta oceano

A II Conferência da ONU sobre os Oceanos revelou a inexistência de santuários livres dos impactos negativos da economia humana. A existência de uma pesca de arrasto, recebendo subsídios públicos, responsável pelo empobrecimento, ou total destruição, de 50 milhões de Km2 (quase 10% de toda a superfície da Terra!), e libertando tanto carbono para a atmosfera como o do transporte aéreo, seria suficiente para demonstrar que existe uma brutal assimetria entre o poderio destrutivo da tecnologia e a anemia das instituições políticas e jurídicas, incapazes de romperem a sua cumplicidade com os interesses económicos que governam o mundo. Apesar de tudo, valeu a pena. Percebemos como a ONU é hoje uma frágil vela esfarrapada, tentando não naufragar sob os impetuosos ventos do futuro. Mas não me atrevo a sugerir que não ter vela alguma fosse preferível à rasgada vela da ONU...

Viriato Soromenho-Marques 

Evasões

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