Ouro, mármore, um grande complexo de piscinas e quadras de ténis estão longe das prioridades do Six Senses Douro Valley - e é exatamente este olhar que foge ao óbvio quando se pensa em hotéis de alto padrão que faz deste um dos mais especiais do país.Com as mesmas bandeiras que consolidaram o grupo na Ásia, especialmente na Tailândia, onde passou a ser referência para hóspedes que valorizam acima de tudo o wellness e a sustentabilidade, a unidade portuguesa ajudou a catapultar a marca pela Europa nos últimos anos (e vem aí mais dois ainda em Portugal). A distinção mais recente chegou pelos votos dos leitores da revista norte-americana Travel & Leisure, que todos os anos elege os 500 melhores hotéis do mundo na sua cobiçada lista T+L 500. O Six Senses Douro Valley não só entrou nessa seleta seleção como carrega um detalhe que torna a conquista ainda mais especial a nível nacional: é a única unidade portuguesa contemplada. A distinção, coincidentemente, veio poucas semanas após a visita da reportagem do DN ao hotel, a convite da acomodação, onde ficamos por três dias. O fator “uau”Eduardo dos Santos, o diretor-geral que recentemente juntou-se ao grupo é um homem que pensa em hotelaria com a cabeça de filósofo. Nascido em Moçambique filho de pai português e mãe inglesa, passou décadas a gerir resorts de ultra-luxo na Ásia, no Médio Oriente e em África antes de chegar ao Douro após uma passagem pelo Vale do Lobo no regresso à Portugal. .É desta experiência acumulada em contextos radicalmente diferentes que nasce a sua visão sobre o que separa um hotel verdadeiramente extraordinário dos demais. Para o explicar, recorre a uma história que conta à equipa sempre que quer ilustrar o que chama de "fator uau": Steve Wynn, o fundador da maior cadeia de casinos e hotéis de Las Vegas, levou a família a Paris para visitar a Disneylândia. Ficaram num Four Seasons.No dia da visita ao parque, as filhas - uma de quatro anos, outra de doze - adoravam croissants, mas o pequeno-almoço atrasou e cada uma só conseguiu dar uma trinca antes de partir. Ao regressar ao hotel ao fim do dia, passados dez minutos, bateram à porta: um empregado com uma travessa cheia de croissants acabados de fazer.."A única coisa que o Steve Wynn conta dessa viagem são os croissants das filhas", diz Eduardo, que recebeu a reportagem para um almoço no restaurante Vale Abraão, onde pratos como bochechas de porco e pregado foram as estrelas. "Não fala no quarto, não fala em nada. Fala naquilo que lhe tocou. É a diferença entre conseguir tocar numa pessoa e não conseguir”. É com esta filosofia que o Six Senses Douro Valley foi construído: não como uma máquina para impressionar, mas como um lugar que escuta cada detalhe do que o hóspede procura. Eduardo acredita que numa era de ecrãs, redes sociais e contacto humano cada vez mais rarefeito, o que as pessoas verdadeiramente procuram quando viajam é precisamente o oposto do que encontram no dia-a-dia: "Cada vez mais as pessoas vão procurar este tipo de produto, o desligar, o reconectar com a natureza", afirma, ressaltando que a marca foi desenhada para isso:"Permitem-nos fazer aquilo que acharmos que temos de fazer para mudar a vida do hóspede. Se eu conseguir mudar a vida do hóspede, nem que seja por umas frações de minutos - isso é o que queremos”, afirma. Entre a natureza e a históriaA propriedade está encravada nas margens do Rio Douro, Património Mundial da UNESCO, no coração da mais antiga região vitivinícola demarcada do mundo. A história do lugar antecede o hotel em séculos: a quinta pertenceu à família Serpa Pimentel, e ainda hoje alguns dos seus descendentes regressam, nostálgicos, para percorrer os corredores onde cresceram.Nas paredes, fotografias da família. No brasão esculpido na entrada, uma réplica da última geração que aqui viveu. Foi nestas mesmas terras que Manuel de Oliveira rodou Vale Abraão - um detalhe que empresta ao lugar uma aura cinematográfica inconfundível, afinal, é um dos maiores clássicos da história do cinema português. Houve depois um incêndio nos anos 90, uma década de abandono, antes de o espaço ganhar nova vida: primeiro como Aquapura, depois como Six Senses.Isabel Cerqueira, gerente do hotel, gosta de dizer que o Six Senses Douro Valley se distingue dos demais hotéis de cinco estrelas precisamente pela variedade de experiências que oferece dentro das suas oito hectares. "As pessoas saem para visitar as quintas e as vinhas, mas todo o resto conseguem estar cá - e teriam de ficar um mês para fazer todas as experiências, porque são mesmo muito diferentes", conta..De facto, basta percorrer o calendário diário de atividades para perceber que a oferta vai muito além da típica piscina e spa: workshops de azulejo e de fabrico de pastéis de nata, outros de esfoliantes no Alchemy Bar, aulas de yoga no terraço com vista para o rio, fermentação de alimentos no Earth Lab, experiências culinárias com o chef na cozinha aberta, prova diária de vinhos regionais na Wine Library, entre outras.Tanto Isabel quanto Eduardo gostam de sublinhar que, no Six Senses, a sustentabilidade não é um argumento de marketing e sim uma prática cotidiana bem delineada com nome, número e estrutura. Eduardo tem uma forma própria de explicar o que o conceito significa de verdade, longe do lugar-comum de "cuidar do passarinho". Recorre a três letras - ESG, de environment, social e governance - e ilustra cada uma com exemplos da sua própria experiência..Quando geriu resorts nas ilhas de Moçambique, fez questão de comprar toda a fruta e o peixe servidos aos hóspedes às comunidades locais das aldeias próximas. Montou um sistema de irrigação simples - tubos pretos e uma bomba a retirar água de um riacho - que permitiu a esses pescadores e agricultores cultivar produtos que nunca antes tinham conseguido. "Isto é que é dar de volta às comunidades", diz. "São coisinhas pequenas. Mas é através de muitas coisinhas pequenas que fazemos a diferença”. No Douro Valley, essa filosofia ganha forma através do Earth Lab, um espaço obrigatório em todas as unidades da marca que materializa esses esforços em workshops práticos: os hóspedes aprendem a fazer velas com azeite de cozinha usado, acendalhas com rolhas de cortiça, sais aromatizados com ervas da horta biológica do hotel, entre outras. O fundo de sustentabilidade aloca 0,5% da receita anual a causas locais, entre as quais um santuário de burros de Miranda do Douro e um centro de idosos em Cambres, onde são feitos à mão os peluches que recebem os hóspedes em cada quarto..Joana Marques, uma das responsáveis pelo Earth Lab, nos conta que o fornecedor de fruta e legumes, o senhor Rogério, começou com um campo ao abandono que ninguém aproveitava; hoje, incentivado e apoiado pelo hotel, é um dos maiores abastecedores da casa. Já no que tange a gastronomia e sustentabilidade, a lista de produtos proibidos nos restaurantes, tanto Cozinha do Douro, quanto o Vale Abraão incluem bacalhau de origem não certificada, caviar, atum e salmão de aquacultura intensiva e até abacate. Uma boa desculpa para provar a pasta de ervilha, que substituem as famigeradas avocado toasts no glorioso pequeno almoço do hotel. O espaço interiorCom 71 quartos, suítes e vilas distribuídos por uma propriedade onde a antiga adega da família se transformou numa ala de alojamento, o Six Senses Douro Valley tem recebido sobretudo norte-americanos, portugueses e brasileiros, nesta ordem. O spa, com mais de 2.200 metros quadrados, 11 salas de tratamento, tecnologia de biohacking para leitura de 40 biomarcadores e uma vitality suite com seis tipos diferentes de sauna, serve tanto hóspedes como visitantes externos - em época alta, 60% dos clientes do spa chegam de fora do hotel..Eduardo gosta de lembrar que, apesar do custo elevado das acomodações, que colocam o hotel como um dos mais caros do país (diária ronda os €1500), o ambiente não é exclusivo de milionários: "Isto é um produto de aspiração e há muitas maneiras de se aproveitar o espaço. Qualquer pessoa da classe média quer fazer uma festa de anos aqui, quer comemorar um aniversário, pode vir jantar ou reservar um momento no SPA”. Entre as muitas analogias que gosta de usar, a Kodak e a Nokia aparecem com frequência nas conversas com Eduardo dos Santos. São os seus exemplos favoritos de marcas que julgaram ser intocáveis e morreram por isso. Usa-os para lembrar à equipa - e a si próprio - que o reconhecimento internacional, apesar da pompa, não é garantia de nada.."Temos que estar sempre a inovar e a reformular as experiências dos clientes no Six Senses. Porquê é que o cliente vai voltar, se já cá esteve três vezes e fez as experiências todas?" É uma pergunta que ele faz em voz alta, mas para a qual já está constantemente a trabalhar respostas. “Estamos a trabalhar para, em breve, trazer muitas novidades para estes hóspedes”. A Cozinha do DouroDentro do próprio hotel, há uma história que merece capítulo à parte. A Cozinha do Douro - um dos conceitos gastronómicos do Six Senses Douro Valley, que em março recebeu uma recomendação do Guia Michelin, distinção que coroa um trabalho consistente de resgate da cozinha do Norte de Portugal.Ao comando está o chef José Maria Gomes, que há cerca de dois anos tomou as rédeas de uma cozinha que recusa qualquer tentação de fine dining. Nada de menus de degustação fechados ou de modernismos que apaguem tradição: o que chega à mesa é Douro, Trás-os-Montes e Minho com um toque contemporâneo que os atualiza sem perder as principais características. .Para abrir o apetite, surgem queijos do Norte com favo de mel a partir de €9 por queijo, ou enchidos de Porco Bísaro por €22. Nas entradas, pensadas para partilha, os cogumelos selvagens salteados com castanhas por €14 e o pica-pau de porco bísaro em vinha d'alhos de vinho tinto por €22 são algumas das opções, enquanto, nos principais, destaque para a Vitela na frigideira, molho à Mirandesa, por €44 ou o Cabrito Transmontano DOP com arroz de miúdos no forno, por €40.Para terminar, um carrinho de doces com mousse de chocolate, toucinho-do-céu, pão-de-ló cremoso e pêras bêbadas chegam para adocicar a vida, e acompanhadas de um vinho do Porto, todas por €9, finalizam a refeição da forma que se quer. Joana Marques nos conta que toda a matéria-prima do restaurante provém de fornecedores num raio máximo de 200 quilómetros, enquantos as ervas aromáticas saem diretamente da horta biológica do resort para o prato. O que sobra passa pelo Earth Lab e renasce em sumos, kombuchas e chás gelados servidos durante as refeições ou lanches da tarde. .Vale lembrar que, como mencionado no início da reportagem, esta é apenas a primeira unidade do Six Senses em Portugal, que, em breve, terá o projeto de expansão concretizado em duas localidades: primeiro na Comporta, previsto para 2027, e depois em Lisboa, onde terá uma unidade num palacete nas proximidades da Avenida da Liberdade. nuno.tibirica@dn.pt.O jornalista hospedou-se à convite do Six Senses Douro Valley..Hotel das Amoreiras: Um chá inglês num jardim português.Onde o Algarve desacelera: Conversas de Alpendre e o luxo em modo 'low profile'