Entre o bacalhau e o funaná, o Natal cabo-verdiano não é distante do português

O DN conversou com Ivanilda Veiga, uma empresária cabo-verdiana que vive em Portugal há mais de 20 anos e que fala num Natal abundante de pessoas, tal como sempre conheceu em Cabo Verde.

No início, o Natal foi, para Ivanilda Veiga, um tempo vivido com todos os sentidos, tendo em conta a forma como descreve o cheiro, a música, a partilha e a abundância construída a muitas mãos durante a infância passada na Praia, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Hoje, mais de vinte anos depois de se ter estabelecido em Portugal, Ivanilda continua a celebrar a data com a família, agora em Lisboa, num equilíbrio construído entre memória, adaptação e agradecimento.

“Já estou em Portugal há 20 anos”, conta Ivanilda Veiga, cabo-verdiana, terapeuta e empresária, que, quando cá desembarcou, estava sozinha. No entanto, o tempo encarregou-se de transformar essa solidão inicial numa rede sólida, porque nasceu o filho, vieram irmãos, sobrinhos, e hoje sente-se “mais enraizada aqui”, garante.

As memórias do Natal em Cabo Verde continuam muito vivas. “O meu Natal na Praia era fantástico. É uma das memórias muito boas de Natal que eu trago”, diz. Para Ivanilda, a celebração começava cedo, ainda no início de dezembro, quando a rádio passava repetidamente uma música que marcava o espírito do mês, que, segundo a empresária radicada na periferia de Lisboa, “trabalhava a alma das pessoas".

Não era apenas a música. Havia também as “batucadas” que percorriam as ruas, a alegria partilhada e a troca simbólica entre quem dava e quem recebia. "Era a ideia de partilhar aquela energia do Natal e também receber qualquer coisa, porque o Natal era aquela coisa de um dar cá, outro dar lá”, afirma. Em casa, a celebração tinha um significado ainda mais profundo. A mãe de Ivanilda fazia questão de abrir a porta a quem não tinha mesa posta. “Nós nunca ceávamos o Natal só em família, porque tínhamos várias pessoas em volta que não conseguiam ter uma mesa posta, e a minha mãe tinha aquela humildade de trazer aquelas pessoas todas.”

Ivanilda Veiga, empresária cabo-verdiana radicada em Portugal, conta como vive o Natal, em Lisboa, e como a época era celebrada em Cabo Verde.
Ivanilda Veiga, empresária cabo-verdiana radicada em Portugal, conta como vive o Natal, em Lisboa, e como a época era celebrada em Cabo Verde.Foto: Paulo Spranger

A imagem que guarda é a de uma mesa disponível e de uma casa generosa, pronta a receber quem precisava de sentir que o Natal era diferente dos outros dias. “Então era um banquete, era uma festa, mesa cheia, riso, brincadeira até às tantas”, relata Ivanilda, acrescentando que “o Natal em Cabo Verde foi algo que marcou muito”. A passagem do tempo, contudo, trouxe também uma leitura mais distante dessas vivências. “Hoje eu olho e digo assim: eu não vejo o Natal que eu era. Que antigamente eu conseguia saborear, sentir.”

Em Lisboa, o Natal é vivido de outra forma, mas não deixa de ser significativo. “O Natal cá também é muito bom”, afirma. A diferença talvez tenha algo de cultural e de etário, porque, observa, “Cabo Verde teve aquele ênfase, porque a criança vive com mais intensidade. O adulto é muito mais racional.” Ainda assim, a partilha continua no centro da celebração. “Eu partilho com a minha família, com o meu filho, os meus sobrinhos, que eu também digo que são os meus filhos.”

O filho tem hoje 20 anos, mas Ivanilda sorri ao dizer que “ainda é um crianção” e continua a viver o Natal com entusiasmo. A presença de crianças mais novas na família ajuda a reavivar essa magia. “Eu tenho uma sobrinha de seis anos que também adora o Natal, aquela coisa de desembrulhar a prenda.” E confessa: “Eu também me encanto e entro nessa magia do Natal, porque eu gosto de ser criança.”

À mesa, as diferenças entre Cabo Verde e Portugal esbatem-se. “Em relação à comida, é mais ou menos igual”, explica, enquanto fala em frango assado, bacalhau e abundância, porque, recorda, a "mãe fazia uma mesa farta.” A herança histórica explica parte dessa semelhança. “Cabo Verde, principalmente Ilha de Santiago, foi colonizado por portugueses. Então, esse hábito já foi levado para lá há muito tempo”, explica.

Ainda assim, há sabores que ficaram para trás. Ivanilda lembra, com nostalgia, “o doce de papaia, que comemos com queijo”, típico do Natal cabo-verdiano e difícil de encontrar em Portugal. Na música, a ponte entre os dois países mantém-se viva, porque o funaná continua a marcar presença nas festas familiares, lado a lado com canções de Natal canónicas. “Quando brincamos, acabamos por aproveitar para pôr um funaná, para brincar, para pôr os miúdos a dançar", diz, enquanto coloca uma mão no abdómen e outra destacada do corpo, como se estivesse a dançar.

Ivanilda Veiga, empresária cabo-verdiana radicada em Portugal, conta como vive o Natal, em Lisboa, e como a época era celebrada em Cabo Verde.
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Mais do que comida ou música, o Natal de Ivanilda é definido por ações concretas e não por intenções. “Eu gosto de olhar para as pessoas, eu gosto de ver se há a possibilidade de fazer alguma boa ação”, assume.

Para traduzir esta sensação, Ivanilda fala numa “partilha mútua”, “onde eu posso dar o meu melhor e receber”. Como exemplo de tudo isto, a empresária cabo-verdiana evoca uma conversa recente que teve com uma senhora que lhe tinha contado algo sobre uma mensagem que recebera da nora. “Aquilo mexeu com a alma. E eu disse: pois, é isso que é o Natal. O Natal é esse sentimento verdadeiro. E para mim é isso o Natal”, expõe, enquanto procura palavras para descrever o que lhe parece inefável.

Essa atenção ao outro reflete também a forma como olha para o seu percurso, que vê como sendo fruto da generosidade de Portugal. "Eu agradeço muito a essa terra”, afirma, ainda que reconheça dificuldades iniciais, quando chegou ao país, mas sublinha as oportunidades que encontrou. “Foi uma terra que me acolheu e me deu oportunidade. Abriram-me as portas", conclui.

Hoje, ao celebrar o Natal em Lisboa, Ivanilda Veiga vive entre dois lugares simbólicos, entre a memória de uma infância marcada pela abundância partilhada e a realidade de uma vida construída com esforço e gratidão. Entre o bacalhau e o funaná, entre o passado e o presente, mantém viva uma ideia simples e persistente: “A magia do Natal é muito forte. Eu acho que toca a alma de qualquer ser humano.”

Nesta série de reportagens, o DN conversa com representantes das principais comunidades estrangeiras que formam o nosso país. Pessoas que abraçam Portugal e celebram o Natal com uma mistura de culturas e gratidão pelo que constroem aqui.
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