Grupo 1143 é um dos vários que existem em Portugal.
Grupo 1143 é um dos vários que existem em Portugal.Foto: Reinaldo Rodrigues

O mosaico da extrema-direita radical em Portugal: 14 grupos no radar das autoridades

A investigação da PJ ao Grupo 1143 revelou apenas a face mais visível de uma realidade mais vasta. Em Portugal coexistem grupos neonazis, identitários e nacionalistas radicais que, apesar de operações policiais sucessivas, continuam ativos e adaptam estratégias, linguagem e formas de recrutamento, principalmente nas redes sociais e com foco nos rapazes.
Publicado a

A mais recente operação da Polícia Judiciária (PJ) contra o Grupo 1143 voltou a expor uma realidade que investigadores e magistrados conhecem há décadas: em Portugal, os grupos de extrema-direita violenta raramente desaparecem - transformam-se, fragmentam-se e reaparecem sob novas siglas, novas lideranças e novas estratégias. A chamada Operação “Irmandade”, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNTC) da PJ no mês passado, visou uma estrutura suspeita de crimes de discriminação, incitamento ao ódio e à violência, agressões e posse de armas proibidas.

Mas, para os investigadores, o 1143 não surge num vazio. Insere-se numa dinâmica onde coexistem grupos neonazis históricos, movimentos identitários, redes conspirativas e novas plataformas de radicalização digital, com foco nos jovens. Alguns destes grupos têm raízes nos anos 90; outros nasceram já na era das redes sociais. Muitos partilham membros, simbologia, narrativas e contactos internacionais. Mais do que estruturas isoladas, formam um meio fluido onde militantes circulam entre siglas, projetos e causas.

Em novembro de 2020, numa entrevista ao DN, João Paulo Ventura, na altura inspetor chefe e atualmente coordenador de investigação criminal na Unidade Nacional de Contraterrorismo, defendeu que “as organizações neonazis e fascistas podiam ser proibidas em Portugal”. No seu testemunho, em 2008, no grande julgamento de dezenas de membros do capítulo português dos Hammerskins Nation (HSN), Portugal Hammerskins (PHS), defendeu que aquele processo, centrado na discriminação racial, devia ter dado lugar a um julgamento por terrorismo porque aquele grupo “levava a cabo ações de discriminação racial, motivadas por ódio a outras raças, sobre quem previam até a eliminação física, o que se pode considerar constituir uma organização terrorista”.

No seu entender, “perante os graves crimes perpetrados contra pessoas, atento o seu histórico recente e os planos que tinham para outras ações futuras visando a lesão (grave) da integridade física das vítimas escolhidas, mais ou menos aleatoriamente, em razão da etnia” era suficiente para ser considerada uma organização terrorista. Porque aquele comportamento “tinha um propósito claramente intimidatório para certos grupos sociais, definidos na base da raça, em linha com a ideologia nacional-socialista. A mesma que prevê a superioridade da raça ariana, a supremacia branca e a eliminação das raças consideradas inferiores - inter alia judeus, ciganos e negros - e de membros de grupos opositores político-ideológicos - comunistas, marxistas etc..”.

Assinalando que mantinha “desassombradamente” aquela opinião, lembrou que “o que se passou cerca de 13 anos antes desse julgamento de 2008, a 10 de junho de 1995 no Bairro Alto em Lisboa, foi um atentado terrorista com todas as letras”, referindo-se ao assassinato de Alcindo Monteiro pelos cabeças rapadas. Para João Ventura, mais importante que classificar como terroristas este tipo de organizações, “basta que seja decretada a proibição dessas organizações”, sublinhando que “ambas foram proscritas e são proibidas em diversos países ocidentais”.

Em Portugal, salientou, “ainda não, apesar de a Constituição da República Portuguesa, designadamente no seu artigo 46, ser muito explícita e clara a esse respeito: ‘Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista’”. Por isso, acredita que “organizações de neonazis e fascistas podiam ser proibidas em Portugal”. Não são conhecidas iniciativas da parte das autoridades judiciais nesse sentido. Este é um retrato dos principais grupos sinalizados atualmente pela PJ, com a salvaguarda de que pode haver outros ainda em averiguação.

Seguem-se, por ordem alfabética:

Active Club Portugal

Ideologia: supremacismo branco, etnonacionalismo

Emergente desde 2025, é uma filial da rede internacional Active Club, inspirada por figuras da extrema-direita americana e europeia. É uma das evoluções mais recentes, com alguns membros associados ao Misanthropic Division. Assenta na ideia de “corpo são, nação forte”: treino físico (MMA) combinado com doutrinação identitária. Os objetivos são criar espírito de grupo, preparação física e combativa, radicalização gradual, construção de identidade branca europeia. Especialistas em extremismo consideram os Active Clubs uma nova geração de organização, menos hierárquica e mais adaptada à era digital. É visto por investigadores como possível porta de entrada para radicalização juvenil online. Pequeno em número, mas alinhado com tendências internacionais recentes.

Associação Portugueses Primeiro

Ideologia: identitária, anti-imigração, anti-islão

A Associação Portugueses Primeiro surgiu na sequência dos protestos contra o acolhimento de refugiados em 2015, afirmando-se durante vários anos como o principal movimento identitário organizado em Portugal. Inspirado nas correntes identitárias europeias, o grupo defende políticas restritivas de imigração, o reforço da identidade nacional e posições críticas do Islão, recorrendo frequentemente a narrativas ligadas à “Grande Substituição”.

Tornou-se conhecido por ações simbólicas e mediáticas, incluindo protestos contra a construção de mesquitas e iniciativas de rua com forte carga política. A organização agregou militantes provenientes de diferentes sectores da extrema-direita e manteve ligações informais a outras estruturas nacionalistas. Em 2025, porém, a sua atividade pública abrandou, após elementos próximos do grupo terem sido associados a um episódio de agressão junto ao teatro A Barraca, em Lisboa, situação em que o seu presumível líder terá sido observado nas imediações pelas autoridades. O grupo é visto como “inimigo” do 1143, agregando ex-membros do grupo de Mário Machado.

Blood & Honour Portugal

Ideologia: neonazi

Criado em 1998, o Blood & Honour Portugal é o capítulo nacional da rede internacional neonazi homónima, surgida no Reino Unido e historicamente associada à promoção da música “white power” como instrumento de propaganda, recrutamento e criação de identidade coletiva. Em Portugal, o grupo desenvolveu-se sobretudo no meio skinhead, organizando concertos, encontros e redes informais de militantes - e em rivalidade - com outras estruturas como os Portugal Hammerskins. A sua atividade tem sido marcada por uma presença discreta, evitando grande exposição pública, mas mantendo ligações internacionais e circulação em eventos ligados à extrema-direita europeia. O nome voltou ao debate público na sequência da polémica em torno do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2024, quando a redução de referências a grupos de extrema-direita na versão pública do documento gerou críticas políticas e mediáticas, trazendo novamente o B&H para o centro da discussão sobre ameaças extremistas em Portugal.

Foi retirada uma parte do texto que alertava para a atividade deste grupo em território nacional, quando em alguns países estava classificado como organização terrorista e contra a qual tinham sido impostas sanções financeiras por incitamento e financiamento do terrorismo. Apesar do perfil menos visível, as autoridades consideram que a estrutura mantém continuidade e capacidade de mobilização limitada.

Escudo Identitário

Ideologia: identitarismo, nacionalismo étnico

Inspirado na Génération Identitaire francesa, o Escudo Identitário surgiu em Portugal em 2017, apostando numa estratégia de comunicação visual e ações simbólicas de rua, como colocação de faixas, flash mobs e campanhas em redes sociais. O grupo centra o seu discurso na oposição à imigração e na defesa da identidade europeia, recorrendo frequentemente à narrativa da “Grande Substituição”, segundo a qual as populações europeias estariam a ser demograficamente substituídas. Teve maior visibilidade pública entre 2017 e 2021, participando em conferências e iniciativas com outros movimentos identitários europeus e mantendo contactos com organizações da mesma matriz ideológica. Nos últimos anos, contudo, a sua atividade tornou-se residual, com menor capacidade de mobilização e reduzida presença nas ruas. Ainda assim, continua a surgir em monitorizações internacionais e relatórios sobre extremismo de direita, sobretudo pelas ligações passadas a outros grupos nacionalistas e neonazis em Portugal e no estrangeiro.

Força Nova

Ideologia: neofascismo, nacionalismo branco, antissemitismo

O Força Nova é inspirado na organização italiana homónima e na tradição neofascista europeia. O discurso combina nacionalismo étnico, teorias conspirativas sobre imigração e retórica antissemita. Tem alguma presença digital, partilha propaganda fascista e revisionista numa narrativa alinhada com a “Grande Substituição”. Tem ligações simbólicas a redes europeias radicais. Trata-se de um grupo pequeno, mas ideologicamente explícito. Mais relevante como plataforma de propaganda do que como estrutura de mobilização de rua.

Grupo 1143

Ideologia: nacionalismo étnico, discurso anti-imigração e anti-islão

O Grupo 1143 tornou-se a sigla mais visível da extrema-direita radical portuguesa na primeira metade da década de 2020. Apresenta-se como movimento nacionalista, mas investigações judiciais descrevem uma organização com liderança, divisão de funções e mobilização coordenada. Mário Machado, ex-líder dos PHS está sinalizado como seu cabecilha. Está preso a cumprir pena efetiva desde maio de 2025, por crime de incitamento ao ódio e à violência. As manifestações promovidas pelo grupo incluíram palavras de ordem contra imigrantes e muçulmanos, uso de simbologia associada à extrema-direita europeia e episódios de saudação nazi.

A operação policial de 2026 resultou em dezenas de detenções, buscas e apreensão de propaganda e armas. Para a PJ, o grupo ilustra uma nova geração de organizações que combinam ativismo de rua, redes sociais e ligações internacionais. O tribunal considerou que certos slogans - como “Islão fora da Europa” - ultrapassam o limiar da liberdade de expressão quando associados a contexto, intenção e simbologia de exclusão. Com a prisão de Machado, o grupo passou a ser liderado por Gil Pantera, um dos alvos da operação Irmandade e que ficou em prisão preventiva. Mesmo após a ação da PJ, o 1143 continua ativo, com o discurso de “perseguição a nacionalistas” e ataques a jornalistas na redes sociais.

Habeas Corpus

Ideologia: conspiracionista

Tendo como figura central o ex-juíz Rui Fonseca e Castro é um movimento que nasceu na pandemia em torno de teorias conspirativas e anti-vacinas. Embora não seja um grupo neonazi, cruzou-se com ambientes da extrema-direita radical através do discurso anti-sistema. As suas narrativas principais eram as de que o país se encontrava num “regime totalitário sanitário”, de que vivia sob conspirações maçónicas, com teses do tipo Qanon e ideias de “Great Reset”. Está praticamente inativo. Perdeu força após processos judiciais e desgaste público da sua principal figura, detida durante protestos no 25 de Abril. É referido por analistas como exemplo de porta de entrada conspirativa para alguns percursos de radicalização.

Misanthropic Division - Portugal

Ideologia: neonazismo aceleracionista

A presença da Misanthropic Division em Portugal sempre foi reduzida, mas o grupo é relevante pelo enquadramento ideológico, associado ao neonazismo aceleracionista, que glorifica a violência política, a ideia de conflito racial e uma estética paramilitar. Inspirado em redes internacionais surgidas no leste europeu, combina propaganda extremista com simbologia militar e discursos de confronto. Em Portugal, a atividade conhecida foi sobretudo marginal e ligada a subculturas digitais e a circuitos skinhead, sem grande expressão pública autónoma. Alguns membros ou simpatizantes surgem associados a novos formatos organizativos mais informais, como o Active Club Portugal, funcionando como ponte entre estruturas neonazis clássicas e modelos recentes de radicalização e mobilização online.

Movimento Armilar Lusitano (MAL)

Ideologia: neonazi / nacionalista branco / etnonacionalista

O Movimento Armilar Lusitano (MAL) surgiu como uma estrutura de extrema-direita radical com forte presença digital, articulando referências nacionalistas portuguesas com elementos ideológicos associados ao neonazismo contemporâneo europeu. As autoridades identificaram o movimento como uma estrutura com potencial de radicalização, levando ao desencadeamento de uma operação policial que visou elementos ligados ao grupo. A 17 de junho de 2025, a PJ anunciou a detenção de seis pessoas (com 15 buscas) no âmbito de investigação da UNCT, por suspeitas de infrações relacionadas com grupo e atividades terroristas, discriminação e incitamento ao ódio e à violência e detenção de arma proibida. A investigação pública associou o caso a apreensões de armas e explosivos, incluindo componentes e fabrico com tecnologia 3D, e a uma lógica de milícia/estrutura armada. Mostrou o salto de propaganda/violência de rua para suspeitas de capacidade instrumental armada e planeamento, elevando o patamar de risco.

Movimento Social Nacionalista (MSN)

Ideologia: nacionalismo branco, terceira posição, etnopluralismo

O Movimento Social Nacionalista surge em 2015 inspirado no francês Mouvement d’Action Sociale. Assume referências da chamada “terceira posição” - mistura de retórica social anticapitalista com nacionalismo étnico e discurso anti-imigração. Defende a ideia de nação culturalmente homogénea e rejeita multiculturalismo, imigração e globalização. O seu lema - “Nação, Revolução, Socialismo” - procura captar jovens descontentes com o sistema político tradicional. Tem participado em manifestações em datas simbólicas (10 de Junho, 1 de Dezembro), com a colocação de faixas e cartazes, distribuição de propaganda em eventos nacionalistas e presença em protestos convocados por outros grupos. Há registo de episódios em que membros fizeram saudações nazis em contexto de manifestações, o que contribuiu para a sua sinalização pelas autoridades. Mantém presença reduzida mas estável. Não é um grupo de massas, mas funciona como núcleo ideológico militante, sobretudo no Norte (Porto e Ovar).

Portugal Hammerskins (PHS)

Ideologia: neonazi

Fundados por Mário Machado, os Portugal Hammerskins constituem o capítulo português da rede internacional Hammerskin Nation, nascida nos Estados Unidos e associada ao universo skinhead neonazi. Durante anos foram a principal estrutura organizada deste meio em Portugal, combinando militância ideológica, cultura de rua e forte componente de grupo fechado. O nome surgiu ligado a vários processos criminais por agressões, discriminação racial, posse de armas e outros crimes violentos, tendo sido alvo de grandes operações da Polícia Judiciária, nomeadamente em 2007 e em investigações posteriores que identificaram novos recrutamentos e rituais de iniciação. Rivalizaram historicamente com o Blood & Honour pelo controlo do movimento skinhead nacional e pela influência sobre a extrema-direita organizada. Apesar de sucessivas detenções e condenações, as autoridades consideram que alguns núcleos continuam ativos e capazes de se reorganizar. Em agosto de 2025, membros do grupo marcaram presença num concerto skinhead em Espanha, sinal de manutenção de ligações internacionais e de continuidade das redes de sociabilidade extremista.

Proud Boys Portugal

Ideologia: nacionalismo masculino, antifeminismo

Filial do movimento americano Proud Boys, o capítulo português surgiu em 2019. Define-se como “fraternidade masculina” baseada em valores tradicionalistas e nacionalistas. Uma investigação jornalística do antigo jornal do Setenta e Quatro revelou métodos de recrutamento e estrutura interna, levando o grupo a tornar-se mais clandestino. Antes já era uma organização discreta, ausente de redes sociais públicas, com uma estrutura fechada de recrutamento, na tentativa de evitar atenção policial. Nos últimos anos, manteve um perfil muito baixo de atuação. Especialistas consideram que o grupo português existe mais como rede informal de contactos do que como organização ativa.

Reconquista

Ideologia: grupo acionalista e identitário

Tem o discurso centrado na imigração, “Reconquista cultural”, defesa de uma identidade europeia e portuguesa. Aposta na presença digital, em ações simbólicas e intervenção no espaço público e mediático. É visto como parte de uma nova geração de grupos que operam numa zona cinzenta entre ativismo político radical e extremismo ideológico, procurando legitimidade pública sem assumir abertamente referências neonazis. O rosto mais conhecido, Afonso Gonçalves, já foi detido, pelo menos, duas vezes pela PSP, Uma por proferir publicamente mensagens anti-imigração, exibindo um cartaz com a frase “Portugal aos portugueses” e apelos à “remigração”.

Grupo 1143 é um dos vários que existem em Portugal.
PSP trava invasão de propriedade e discurso xenófobo de líder do grupo Reconquista no Martim Moniz

Noutra ação, junto a um templo Sikh em Odivelas, Gonçalves foi detido por desobediência após uma manifestação não comunicada às autoridades. Em novembro, realizou a segunda edição do Congresso da Reconquista, que teve a presença de militantes do Chega e da apresentação de um vídeo de Pedro Frazão, vice-presidente do partido, enviado pelo próprio para a ocasião. É também Afonso Gonçalves que está a organizar a segunda edição da Remigration Summit, prevista para o Porto, em Maio, um evento que reúne figuras da extrema-direita europeia e internacional e que defende políticas de deportação em massa e narrativas associadas à teoria da “grande substituição”. Além da forte presença digital, promove eventos em todas as zonas do país, tendo como foco o recrutamento de adolescentes e jovens homens, sendo abertamente anti-feminista.

Trebaruna

Ideologia: identitária, nacionalismo cultural

A Trebaruna surgiu em 2016 como associação desportiva e cultural, inserida no universo identitário europeu. Apresenta-se como estrutura dedicada ao treino físico, artes marciais e organização de eventos culturais e recreativos, promovendo atividades de grupo associadas à disciplina e ao espírito comunitário. Apesar da imagem formal de associação cívica, tem sido acompanhada pelas autoridades por funcionar como espaço de socialização e eventual recrutamento juvenil para ambientes ideológicos próximos do identitarismo e da extrema-direita. Através de iniciativas culturais e desportivas, procura difundir uma narrativa de valorização identitária e nacionalista, mantendo uma presença discreta mas persistente em círculos ligados a movimentos nacionalistas portugueses.

valentina.marcelino@dn.pt

Grupo 1143 é um dos vários que existem em Portugal.
Porto sediará evento supremacista branco com figuras da extrema-direita
Grupo 1143 é um dos vários que existem em Portugal.
Integrantes do 1143 cobram explicações da entrevista de membro sobre a ligação com a Chega
Diário de Notícias
www.dn.pt