Jihadista que teve asilo em Portugal condenado a 30 anos de prisão em França

Hicham El-Hanafi entrou em 2013 Portugal, com Abdesselam Tazi, seu recrutador para o jihdismo. Com estatuto de refugiados políticos, instalaram a sua "célula" em Aveiro. Hanafi, 30 anos, foi preso em França em 2016, por suspeita de estar envolvido na preparação de vários atentados

Hicham El-Hanafi, o marroquino que recebeu asilo em Portugal, foi esta quarta-feira condenado em França a 30 anos de cadeia por terrorismo. Hanafi foi julgado, juntamente com dois franceses, por associação criminosa com objetivo de preparar atentados terroristas a vários locais simbólicos naquele país.

Segundo o jornal "Le Figaro", o Tribunal entendeu ainda, dada a especial "perigosidade" de Hanafi, juntar à sentença uma medida de "especial segurança" para dois terços da pena e proibiu a sua permanência em território francês, quando completasse o seu castigo.

Hanafi foi detido em França a 20 de novembro de 2016 com outros seis suspeitos jihadistas, na região de Estrasburgo, na sequência de operação de infiltração cibernética da Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI) francesa, apelidada de " Ulisses ".

O marroquino tinha saído de Marrocos em 2013, juntamente com Abdesselam Tazi ( julgado e condenado em Lisboa, viria a morrer na prisão de Monsanto em janeiro de 2020), seu recrutador para o jihadismo, em direção a Portugal.

Entraram com documentos falsos e receberam estatuto de refugiados políticos, instalando a sua "célula" em Aveiro, onde a Segurança Social lhes financiava a residência.

A partir de 2014, as suas movimentações e, principalmente, o discurso extremista de Tazi quando estava no Centro de Refugiados, levantaram suspeitas ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que informou os serviços de informações e a Polícia Judiciária (PJ).

Desde essa data que a Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ tinha ambos sob vigilância e toda a informação recolhida sobre a ligação de ao daesh - Hanafi chegou a ter treino na Síria - foi partilhada com as autoridades francesas e mereceu especial destaque na sustentação da acusação que foi formulada, que os deu como operacionais ativos ao serviço do estado islâmico - e agora, também, nesta condenação.

O Tribunal de Grande Instância acusou Hanafi de, "em Paris, Montmorency, Trappes e Marselha", território francês, "e de forma relacionada em muitos países europeus, na Turquia e na Síria, entre 23 de setembro de 2013 e 20 de novembro de 2016", "ter participado numa organização ou num acordo estabelecido para a preparação de atos de terrorismo, seguindo as seguintes orientações jihadistas: permanecer nas fileiras do Estado Islâmico na zona sírio-iraquiana; recrutar e organizar o transporte de candidatos à jihad armada e membros de sua família para a zona sírio-iraquiana; usar documentos de identidade falsos; receber e enviar dinheiro para promover atos de terrorismo; manter contactos com membros do Estado Islâmico na zona; planear uma ação violenta no território nacional em conexão com membros do Estado Islâmico na zona".

Com o estatuto de asilo português, Hanafi e Tazi viajaram por toda a Europa e até serem detidos por fraude na Alemanha, em junho de 2016.

Com o estatuto de asilo português, Hanafi e Tazi viajaram por toda a Europa, até serem detidos por fraude na Alemanha, em junho de 2016. Hanafi foi libertado (até ser detido em França poucos meses depois), mas Abdesselam Tazi ficou preso até ser detido pela PJ na Alemanha e extraditado para Portugal, em março de 2017.

Ivo Rosa complicou

Em Portugal, no entanto, o processo para levar Abedesselam Tazi à justiça por crimes de terrorismo, dos quais o Ministério Público (MP) estava convicto, foi bem mais complicado

Enquanto na acusação em França, Abdesselam Tazi era apontado como o mentor e radicalizador de Hanafi e cabecilha de uma rede de recrutamento jihadista em toda a Europa, em Portugal Tazi esteve quase a ser libertado depois de o juiz Ivo Rosa, do Tribunal Central de Instrução Criminal, o ter despronunciado de todos os crimes de terrorismo de que estava acusado pelo Ministério Público (MP).

Tazi começou por ser julgado apenas por crimes comuns - falsificação de documentos e cartões de crédito -, mas a uma semana de ouvir a sentença, que certamente seria uma pena suspensa, tendo em conta os crimes em causa, o Tribunal de Relação concordou com um recurso do MP, o julgamento foi anulado e o caso voltou à estaca zero.

Este marroquino foi julgado de novo, desta vez por todos os crimes que lhe estavam imputados pelo MP - adesão a organização terrorista internacional, falsificação com vista ao terrorismo, recrutamento para o terrorismo, financiamento do terrorismo e crimes de uso de documento falso com vista ao financiamento do terrorismo e condenado a 12 anos de prisão. Mesmo assim, os juízes deixaram de fora da sentença o crime de adesão a organização internacional terrorista.

Cumpria a pena na prisão de Monsanto quando em janeiro de 2020 foi encontrado morto na sua cela.

Apanhado por um 'ciber-infiltrado'

A investigação da secção terrorista do tribunal superior francês sublinhava que quando chegaram a solo português, em setembro de 2013, Tazi e Hanafi começaram a recrutar candidatos à jihad e conseguiram enviar, pelo menos, dois indivíduos para a Síria ".

Para financiar esta atividade, incluindo as próprias viagens pela Europa, "cometeram golpes", como a falsificação de identidades e de cartões de crédito - Tazi teve, pelo menos, 17 identidades falsas e Hanafi, 13.

Segundo a acusação francesa, Abdesselam Razi e Hicham El Hanachi "receberam fundos de jihadistas na Síria, que utilizavam para a sua causa", e "usavam documentos de identidade falsos, não apenas como parte de seus golpes mas também para ocultar algumas de suas viagens".

Tal como já tinha sido referido no processo português, França confirmou que Hanachi esteve "algumas semanas" na Síria, tempo durante o qual recebeu "um treino militar rápido - o que Abdesselam Tazi não poderia desconhecer, tendo em conta a proximidade dos dois homens e o facto de estar claramente por trás da radicalização de Hicham El Hanafi".

A vigilância intensa que as autoridades francesas fazem na internet, principalmente nas redes de comunicação mais utilizadas para atividades criminosas, que envolve "ciber-infiltrados" da polícia, conduziu-os até Hanafi.

Sem saber, o marroquino negociou a compra de quatro Kalashnikovs com um destes infiltrados e ficou sob constante vigilância até ser apanhado em flagrante

Sem saber, o marroquino negociou a compra de quatro Kalashnikovs com um destes infiltrados e ficou sob constante vigilância até ser apanhado em flagrante quando as foi levantar a um local combinado com o alegado vendedor, na floresta de Montmorency.

A investigação assinalou que a célula a que pertencia Hanafi utilizava técnicas de comunicação "muito sofisticadas". "Não há dúvida sobre o objetivo da operação, que era cometer um massacre em um ou mais locais simbólicos de Paris, como fica claro nas mensagens deixadas, (...) para vingar os órfãos de Mossul e Raqqah ", foi sublinhado.

Radicalização rápida

Em Marrocos, Hanafi chegou a frequentar a universidade e trabalhou durante dois anos como garçon num restaurante italiano em Fez. Os pais separaram-se quando tinha 20 anos e tinha oito irmãos.

Segundo disseram às autoridades francesas alguns amigos da juventude, nunca mostrou sinais de radicalização. Isto até conhecer Abdesselam Tazi, a quem o pai de Hanafi culpa pela viragem do filho.

"Abdesselam Tazi estabeleceu laços de amizade com o meu filho e foi ele quem o recrutou e lhe meteu na cabeça as ideias terroristas, e foi ele o responsável pela sua radicalização", contou às autoridades francesas.

Abdesselam Tazi, tinha 65 anos quando morreu na prisão. Alegando perseguição política em Marrocos, pediu asilo político em Portugal, que lhe foi concedido. Mas antes já tinha estado no radar das autoridades europeias.

Saiu de Marrocos em 1982 para estudar em França, seguiu para a Suécia, onde se casou com uma enfermeira. Tirou um curso de psicoterapeuta e acabou expulso do país, depois de ter incendiado a casa em circunstâncias nunca esclarecidas. Rumou depois ao Canadá, onde se casou novamente, e dali para a Irlanda, onde voltou a ser expulso por imigração ilegal.

A sua radicalização religiosa foi pela primeira vez referenciada em 2015, pelas autoridades portuguesas. Um seu amigo contou que Abdesselam Tazi tinha um "ódio inexplicável" pelos europeus.

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