António Rebelo de Sousa manteve, durante dez anos, um silêncio deliberado sobre a Presidência do irmão. Agora, com o ciclo prestes a terminar, decidiu quebrá-lo. “Assumi o compromisso de, no decurso dos mandatos presidenciais do meu irmão Marcelo, não me pronunciar sobre os mesmos. Abro, agora, uma excepção”, explica, agora que os mandatos terminam dentro de poucos dias.O retrato que traça começa pelas circunstâncias em que Marcelo Rebelo de Sousa exerceu a função. “Mandatos difíceis”, atravessados por crises sucessivas e por tensões políticas. Lembra “um Governo que, durante mais de seis anos, apresentou uma orientação política diferente" da do presidente, a pandemia prolongada, “diversos cataclismos que afetaram o nosso País” e “uma guerra na Europa que já vai para mais de quatro anos”. A tudo isso juntaram-se, acrescenta, as inevitáveis incompreensões da vida política, “ditadas por sectarismos, por ‘fundamentalismos’ e pelas limitações de espírito de alguns”, algo que, observa, “é inerente à condição humana”.É nesse contexto que fixa a característica que considera central na presidência do irmão: a proximidade. Marcelo, diz, foi o “Presidente dos Afetos”, alguém que fez da relação direta com as pessoas uma marca política e pessoal. Essa proximidade, sublinha, não foi apenas um gesto público, mas expressão de uma disposição antiga: agiu “com uma sinceridade genuína, que sempre lhe conheci”.A partir daí, o depoimento alarga o retrato. Marcelo foi, afirma, “o Presidente da tolerância e do diálogo, da construção de pontes, da moderação, da lusofonia, do europeísmo, da Democracia e da Liberdade”. Mas o testemunho insiste também no reverso dessa visibilidade pública: o peso humano da função. António Rebelo de Sousa recorda que o irmão viveu “a solidão de quem, nos momentos decisivos, tem que estar sozinho, consigo próprio, na procura de novas soluções e na reflexão sobre as injustiças que lhe são reservadas pelo exercício das suas funções”. Uma solidão que, acrescenta, foi sentida com particular intensidade. Marcelo “suportou com alguma amargura a solidão do cargo, mas ao serviço do país”.Ainda assim, o fio condutor do balanço regressa repetidamente à ideia de serviço. Desde o início, diz, Marcelo procurou “ser exemplar na prestação de um serviço público”, exercendo a função “com total desprendimento material” e com a convicção de que a Presidência deve ser, antes de mais, uma forma de servir os outros.. É nesse campo que António Rebelo de Sousa define a identidade moral e política que reconhece ao irmão: “De alguma forma, assumiu-se sempre como um genuíno democrata cristão, seguidor do Papa Francisco, herdeiro dos ideais republicanos e servidor da Pátria de Fernando Pessoa. Nem mais, nem menos…”.“A proximidade foi a marca”: o olhar da Igreja sobre os dez anos de Marcelo. Longe dos holofotes, recorda, Marcelo manteve uma prática regular de voluntariado, “ visitando em hospitais amigos e conhecidos doentes” diz, sublinhando que essas visitas aconteciam discretamente, sem atenção mediática. Para o irmão, esse gesto silencioso ajuda a explicar o balanço íntimo de uma década em Belém e as marcas que a presidência deixou no presidente que agora sai: foram, conclui, “à maneira dele, dez anos de realização pessoal”, vividos “entre a solidão do poder e a convicção de que a política é, antes de mais, serviço público”.Paulo Magalhães: a racionalidade das selfies e a proximidade “absolutamente genuína”Paulo Magalhães, antigo assessor de Marcelo Rebelo de Sousa, descreve uma figura feita de contrastes. Reservado e ao mesmo tempo omnipresente, disciplinado mas espontâneo, estratega e intuitivo. “É um solitário que gosta de pessoas”, resume.Essa solidão teve, recorda, uma expressão particularmente visível durante a pandemia. “Viveu-a sozinho no palácio". O isolamento imposto pelo contexto criou uma rotina mais austera em Belém, reforçando a imagem de um Presidente muitas vezes cercado por multidões, mas pessoalmente habituado à introspeção..O Presidente que abraçou um País: dez anos de Marcelo entre empatia, crise e poder. Magalhães reconhece que o traço mais visível da presidência -as selfies, os abraços, a presença constante junto das pessoas - tinha duas dimensões. “Há, na verdade, uma parte racional nas selfies. Mas também é muito natural genuíno.” A componente estratégica, explica, respondia a um objetivo político claro: “Naqueles tempos, era muito importante reconciliar os portugueses com os políticos.”O contexto em que Marcelo chegou à Presidência ajuda a explicar essa aposta na proximidade. “Repare-se: Marcelo entrou depois de Cavaco Silva”, lembra. E num país ainda marcado por tensões recentes: “Um país que tinha saído de eleições e estava partido ao meio. De um lado os que não se conformavam com o facto de o homem que ganhou as eleições não era primeiro-ministro e, por outro, os que estavam muito zangados por causa da troika.” A proximidade tornou-se, nesse cenário, uma tentativa deliberada de reconstruir confiança.Mas, insiste o antigo assessor, a espontaneidade não era encenação. E muitas vezes criava dificuldades à própria segurança presidencial. “Tantas vezes que ele confundiu a segurança e fez questão de caminhar ombro com ombro no meio de multidões.” Recorda um episódio nas Festas de Ponte de Lima, quando os seguranças ainda tinham como referência os hábitos mais reservados do anterior Presidente. “Diziam: ‘isto aqui basta um trazer uma faca da cozinha e não podemos fazer nada’.”No retrato que faz, Marcelo parece mover-se com igual conforto em cenários diversos. “Quer na Zarzuela quer na cozinha de uma família sem-abrigo que graças ao Presidente conseguiu uma casa, tendo-o convidado para uma refeição, Marcelo Rebelo de Sousa está bem.” Algumas causas, acrescenta, eram particularmente próximas: “A causa dos sem-abrigo é-lhe cara", "sensibilidade" que associa a "influência materna". Esse lado solidário "não se limitava a gestos públicos". .No último Conselho de Ministros com Marcelo e Montenegro, ambos concordam que foram "felizes".Dentro do Palácio de Belém, o antigo assessor descreve uma rotina quase física de resistência. Marcelo precisava de movimento. “Tinha de dar por dia 4 ou 5 mil passos.” A imagem que guarda é precisa: o Presidente a caminhar pelos corredores de um hotel, “com o ajudante de campo a contar-lhe os passos com a ajuda do telemóvel”.A mesma curiosidade pelo contacto direto surgia nas visitas ao país. “A tendência para provar comida em todas as tasquinhas, nas feiras que visitava”, recorda e que " nos deixava preocupados". E havia também a insistência em preservar gestos de normalidade. Magalhães fala das “idas sozinho para o Algarve, de calções, a meter gasolina a meio caminho”.Esse ritmo era sustentado por aquilo que descreve como “uma imensa resistência”. Lembra, por exemplo, uma viagem oficial ao México. Enquanto o assessor lutava contra o cansaço e o jet lag, Marcelo Rebelo de Sousa continuava falador, aparentemente incansável. “Eu só queria dormir”, recorda, com humor.No conjunto, o retrato que emerge das suas memórias é o de um Presidente simultaneamente calculista e espontâneo, um líder capaz de “circular entre palácios e cozinhas modestas com a mesma naturalidade”, sustentado por uma energia fora do comum e por uma inclinação constante para estar com as pessoas..Barómetro DN/Aximage: Marcelo sai de Belém só com nota negativa dos eleitores do Chega