O Presidente que saudou Francisco, o Papa por quem nutria profunda admiração, em Lisboa e no Vaticano - na sua primeira viagem oficial - beijando o anel papal; o Presidente que celebrou com entusiasmo as Jornadas Mundiais da Juventude de 2023, em Lisboa; o Presidente que vigiou a lei da eutanásia e todas as suas repetidas versões com uma lupa potente. O Presidente que nunca escondeu a fé.“Num Estado laico, o importante não é impor convicções, mas deixar que os valores inspirem uma cultura de serviço e de respeito por todos”, afirma ao DN Rui Valério. Ao mesmo tempo, o patriarca de Lisboa sublinha que a dimensão religiosa nunca se traduziu numa tentativa de confessionalizar a ação política. Pelo contrário, considera que Marcelo soube manter a separação entre convicções pessoais e dever institucional. Essa capacidade “de distinguir planos” é, para o responsável católico, um dos aspetos mais relevantes do consulado. Mesmo em matérias eticamente sensíveis, diz, o Presidente procurou agir dentro da moldura constitucional e do respeito pela decisão democrática. “A fé, neste caso, aparece como referência ética pessoal, não como instrumento de intervenção política.”Para o patriarca, o traço distintivo dos dois mandatos foi a relação direta com o país: “A proximidade às pessoas, a capacidade de estar presente nos momentos de sofrimento e de alegria, foi uma marca muito significativa destes dez anos.” Mais do que uma estratégia de comunicação, acrescenta, tratou-se de uma atitude consistente, visível nas deslocações ao terreno e na atenção às situações concretas vividas pelas populações.. Na leitura de Rui Valério, essa disponibilidade está ligada à identidade pessoal do Presidente. A formação católica, diz, ajudou a moldar uma visão da política centrada na dignidade humana e no bem comum. “Há uma inspiração que vem de uma cultura cristã de cuidado, de responsabilidade social e de atenção aos mais frágeis”, afirma, considerando que essa matriz se refletiu numa Presidência sensível às fragilidades sociais e às crises coletivas..O Presidente que abraçou um País: dez anos de Marcelo entre empatia, crise e poder. “Enquanto cristão, soube integrar a sua fé numa visão humanista da sociedade, marcada pelo respeito pela dignidade da pessoa humana, pelo apreço pelo diálogo e pela valorização da dimensão ética da vida pública. Estes traços encontram clara consonância com os princípios afirmados pelo Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição Gaudium et Spes [Alegria e Esperança é uma Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, promulgada pelo Papa Paulo VI em 7 de dezembro de 1965], que sublinha a centralidade da pessoa humana, a autonomia legítima das realidades temporais e o compromisso dos leigos na construção da sociedade.”Rui Valério destaca também o papel simbólico desempenhado por Marcelo em momentos de significado nacional e eclesial, em particular as Jornadas Mundiais da Juventude de 2023, muito acarinhadas pelo presidente, que descreve como “uma expressão de hospitalidade, de abertura e de confiança no país e na sua capacidade de acolher”.No balanço global, o patriarca prefere sublinhar a marca humana deixada pela Presidência. “O que fica destes dez anos é a imagem de uma autoridade exercida como serviço, com proximidade, escuta e atenção às pessoas”, considerando “a identidade católica de Marcelo não uma bandeira política, mas “uma fonte de inspiração para uma cultura de cuidado, de solidariedade e de responsabilidade na vida pública.”.António, irmão de Marcelo, fala do "Presidente dos afetos" e da "solidão do cargo".Barómetro DN/Aximage: Marcelo sai de Belém só com nota negativa dos eleitores do Chega