Lojas históricas na Baixa. "Estamos a sobreviver, a ver como corre até ao fim do ano"

Lisboa

Lojas históricas na Baixa. "Estamos a sobreviver, a ver como corre até ao fim do ano"

A pandemia tirou os turistas e os compradores da Baixa. Estão lá o homem-estátua, a dança de rua, quem toca violoncelo, mas sem espectadores. As lojas têm mais funcionários do que clientes e registam quebras na ordem dos 80%. São espaços históricos que vão resistindo. Este texto foi publicado originalmente no dia 11 de julho e faz parte de um lote de trabalhos relacionados com a covid-19 que o DN está a republicar.

Se fosse inaugurada hoje a Manuel Tavares seria uma loja gourmet e até já ganhou prémios nessa área. Mas há 160 anos, quando nasceu, chamaram-lhe "garrafeira e mercearia fina". Os líquidos são a especialidade, sobretudo o vinho do Porto, mas também tem queijos e enchidos, frutos secos, geleias e chocolates, enfim, um mundo de sabores e cheiros que cabem na Rua da Betesga, a mais pequena de Lisboa. Há clientes que lhe chamam "a loja das tentações", sobretudo turistas, mas estes, agora, desapareceram. A faturação baixou 80% e este é um problema de muitas outras lojas históricas da Baixa.

Manuel Tavares fundou a "garrafeira e mercearia fina" em 1860, permaneceu na família até 1993, quando a venderam aos atuais sócios: pai e os dois filhos. "Mantivemos a traça antiga e as características, não há nenhuma loja assim em Lisboa. Tem garrafeira, sobretudo o vinho do Porto, charcutaria, frutos secos, geleias, chocolates, produtos gourmet, produtos de qualidade e de preferência nacionais. Aqui, pode comprar um queijo e ser aconselhado sobre o melhor vinho para o acompanhar", descreve Carla Ladeira, 57 anos, nora de um dos sócios e gerente.

Dois andares de coisas boas numa rua com dez metros. A cave é dedicada aos vinhos, licores, whiskies, etc., facilmente se encontra um porto do ano de um nascimento para oferta. No primeiro piso, os líquidos juntam-se a uma infinidade de produtos, alguns embalados em cortiça. "Os clientes dizem que é a loja das tentações, que entram para comprar uma coisa e levam várias", conta Alice Batista, 54 anos, 20 deles a trabalhar nesta casa. "Vim fazer a transição do escudo para o euro."

Alice é uma das dez funcionárias da empresa, todos em lay-off parcial. Nunca fecharam, mas reduziram o horário dada a falta de clientes. Clara lamenta: "Passam horas sem entrar uma pessoa. Entre março e outubro, vinham os estrangeiros que agora deixaram de viajar. Começam a aparecer turistas mas são poucos e não estão a entrar. E os portugueses, além de terem medo de sair de casa, foram de férias. Não estamos numa zona residencial, só aqui vem quem se desloca à Baixa. Temos quebras de 80%."

Vendas baixaram 80%

Sem faturar no estado de emergência (20 de março a 4 de maio), as vendas passaram a 10% com a reabertura do comércio, melhoraram ligeiramente, mas não ultrapassam os 20%. A faturação diminuiu 50% na garrafeira, 30% nos outros produtos. Têm loja online há dois anos, mas a vocação é o atendimento presencial.

A nacionalidade dos clientes vinha a mudar, antes da covid-19 eram de todo o lado: ingleses, alemães, franceses, italianos e espanhóis. O número de americanos diminuiu muito com o 11 de Setembro, mas chegaram mais brasileiros e angolanos.

Regras de segurança sanitária afixadas à porta, só podem entrar três pessoas de cada vez, gel desinfetante, tapete para limpar os sapatos, máscaras. Faltam os clientes. "Estamos a ver o que isto dá, a sobreviver e ver como é que as coisas correm até ao final do ano, a curto prazo não vejo grande perspetiva", diz Clara . O seu maior receio? "Não aguentar financeiramente a empresa, temos dinheiro de parte, mas há limites."

Piccadilly na Rua Augusta

Saindo da Betesga em direção ao Rossio, encontramos a Rua Augusta, pedonal há muitos anos e com pergaminhos no comércio local. Mantém-se por lá a Londres Salão na área dos tecidos de gama alta , enquanto outras igualmente importantes fecharam. A Casa Sousa encerrou as portas em 2013, a Casa Frazão em 2018 . Chegaram a existir 20 lojas de tecidos na Baixa.

Clientes, e até alguns funcionários destes espaços, foram para a Londres Salão. "O ano de 2019 foi excecional, o melhor da última década, e este tinha começado muito bem. Até ao estado de emergência estávamos melhor do que o ano passado. De repente, ficámos a zero", conta José Quadros, filho do proprietário. Sem faturar e com toda a coleção primavera-verão comprada, os prejuízos são grandes. Uma situação três vezes pior do que na crise de 2008, diz o gestor, quando as quebras rondaram os 18%.

"Estamos a fazer 35% da faturação; 40% dos clientes são estrangeiros e estes desapareceram, como desapareceu quem comprava tecidos para as toilettes dos casamentos e batizados". José Quadros gere a empresa desde 1986, tinha acabado o curso de Gestão. Além do pai, são sócios a tia e a prima. Com a pandemia, estiveram dois dias sem faturar, o que nunca acontecera. "Nem no 25 de Abril, o meu pai conta que vendeu quatro metros de tafetá." Têm cinco funcionários, três em lay-off total e dois em parcial. "É uma equipa fantástica e que tem 30 anos de experiência", sublinha José.

Fecharam no dia 17 de março, "já não havia ninguém na rua", para a reabrir a 7 de maio, depois de uma limpeza profunda e colocação de equipamentos de higiene, nomeadamente um dispensador de desinfetante que se aciona com o pé. E só entram dois clientes. Os estrangeiros vinham de Angola e de Moçambique, também de Brasil, Rússia, França, Itália (de onde são a maioria dos tecidos) e Espanha.

O estabelecimento abriu como Alfaiataria Londres Salão, em 1911, pelas mãos de Augusto Brandão. Numa das suas viagens, ficou impressionado com a rua londrina dos alfaiates, em Piccadilly Circus, e replicou esses ateliês em Portugal. A decoração e o mobiliário vieram de Londres e ainda hoje se mantêm.

A família Quadros comprou o negócio em 1950 e transformou a alfaiataria numa loja de tecidos de gama alta (sedas naturais, rendas, linhos, lantejoulas, etc.) Numa grande intervenção em 1999, voltaram à fachada original que se tinha perdido pelo caminho recorrendo a uma foto das montras da Rua Augusta, ornamentadas para receber Isabel II, em 1957. "Há duas boas lojas de tecidos em Portugal, o Cunha Rodrigues, no Porto, e a Londres Salão, em Lisboa", garante José Quadros.

Espera que o nível de vendas volte à normalidade em 2021, mas sente-se de mãos atadas por agora. "Não depende de mim, a Baixa está deserta. Até pode ser que as vendas disparem, o meu problema é saber como vamos viver até lá."

Sapatos e chapéus exclusivos

A Sapataria e Chapelaria Lord aposta no fabrico português de qualidade, em marcas exclusivas. O espaço está desinfetado, as cadeiras e a máquina de multibanco forradas a plástico, há toalhitas para as mulheres limparem os pés antes de experimentarem o calçado, meias para os homens. Tudo isso tem pouco uso atualmente.

Paula Lourenço teve aqui o seu primeiro emprego e ficou, tem 54 anos. É a única que está no ativo, os colegas estão em lay-off. "Noventa e cinco por cento dos clientes são estrangeiros, agora não aparece ninguém, mesmo os portugueses deixaram de vir, as ruas estão desertas. Por incrível que pareça, maio esteve melhor do que agora."

Alguns dos estrangeiros têm casa em Portugal e Paula acredita que vão voltar, o problema é saber quando. "Estamos todos numa incógnita, há momentos em que parece que vai equilibrar, mas depois vai tudo por água abaixo."

O espaço nasceu com a família Amorim em 1941, um projeto do arquiteto Raul Tojal, ao estilo art déco. Em 1993, venderam o negócio a Mário Silva, antigo funcionário e fundador do grupo Godiva. É a sua filha a proprietária atual.

Trabalhos manuais recuperam

Na Rua da Conceição, a das retrosarias, restam já poucas. A Bijou é das pioneiras, foi fundada em 1915, quando retrosaria se escrevia com um "z". Augusto d"Almeida comprou-a seis anos depois, mantendo o tipo de negócio e a traça, em tons de azul-claro. Lá continua a máquina registadora, em escudos, e que avisa: "O freguez verá no mostrador a importância da sua compra". Nas prateleiras também continuam expostos vários artigos, como lãs, linhas, telas, agulhas, tecidos, emblemas, fechos, etc.

José Vilar, 65 anos, o neto de Augusto, começou a trabalhar na loja aos 20. Colocou um separador de vinil à entrada, atende os clientes através de uma janelinha. Parece ser a área de negócio que menos se ressente com a covid-19. Ainda assim, as quebras são de 40% a 50%. Há muita gente que tem aproveitado a obrigação de se manter em casa para se dedicar aos trabalhos manuais. E até há tecidos com as máscaras desenhadas, de dois tipos, prontas a cortar e a coser.

Os quatro funcionários estão em lay-off parcial. "Em maio começou a sair material, mas depois as pessoas ficaram com receio e têm razão para isso, com 300/400 novos casos todos os dias, especialmente em Lisboa", sublinha José Vilar. Se é pior do que 2008, diz que "é cedo para conclusões", rematando: "Vamos ver como vai correr até ao Natal, mas na crise de 2008 havia turistas, que compensavam a falta de portugueses. Agora não há."

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