Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros
Paulo Rangel, ministro dos Negócios EstrangeirosFOTO: TIAGO PETINGA/LUSA

Ucrânia: Paulo Rangel diz haver “momentum” para a União Europeia começar a falar com a Rússia

Ministro dos Negócios Estrangeiros recusa o nome do ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, proposto por Putin, como mediador da UE: "Uma ideia descabida. Seria o mesmo que dizer que deveria ser Orbán"
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O ministro dos Negócios Estrangeiros português disse esta segunda-feira (11 de maio) haver “momentum” para a União Europeia (UE) começar a falar com a Rússia, frisando que Moscovo tem dado sinais de que está disponível para o diálogo com o bloco.

“Há sinais que abrem a hipótese de se conversar e falar”, afirmou Paulo Rangel em declarações aos jornalistas à margem de uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, em Bruxelas.

O governante português salientou que parece haver, “quer da parte da Rússia, quer da parte da UE e dos países europeus, uma disponibilidade para considerar esse diálogo”, acrescentando que isso “é algo diferente”.

“Houve aqui alguma mudança e, portanto, isso cria aquilo que se chama agora, usando uma palavra latina, mas vinda do inglês, ‘momentum’”, referiu.

Questionado se lhe parece que, no terreno, a Rússia tem manifestado vontade de negociar, o ministro respondeu que “há três fatores diferentes e que podem dar sinais que não são todos convergentes no mesmo sentido”.

“O primeiro é que as negociações mediadas nos Estados Unidos estão num certo impasse, não têm progredido e há, ao mesmo tempo, abertura nos Estados Unidos para que a Europa ou a UE possam ter aqui um papel, ou pelo menos começar a conversar”, referiu.

O segundo fator, prosseguiu, é que “há alguns sinais da Federação Russa de que esse diálogo poderia ser feito”, como indicia o facto de o Presidente Vladimir Putin ter proposto que o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder representasse a UE em eventuais negociações.

“A proposta desse nome adianta a questão de considerar um diálogo com a Europa, independentemente de ser um nome aceitável ou não aceitável”, observou Rangel.

O chefe da diplomacia portuguesa referiu que o terceiro fator verifica-se no terreno e “desmente um pouco a disponibilidade não tanto para falar, mas para aceitar fazer progressos”, dando o exemplo do facto de a Rússia ter rejeitado antecipar o cessar-fogo de 08 e 09 de maio para 06 de maio.

Mas, “acho que há um ‘momentum’”, reiterou Paulo Rangel.

Questionado se essa abertura para dialogar com a Rússia é transversal a todos os Estados-membros da UE, incluindo os países bálticos, o ministro respondeu que “há nuances”, mas “há uma disposição de muitos Estados”.

“Veja o caso da Finlândia e da Estónia, os presidentes encontraram-se, logo a seguir a ter falado o primeiro-ministro Luís Montenegro, e ambos disseram que teria de haver um momento em que teria de haver conversações com eles”, afirmou.

Sobre os moldes em que esse eventual diálogo pode acontecer, Rangel frisou que há “várias formas”.

“Podem ser só alguns países europeus, pode ser a UE enquanto tal. Há várias formas. (…) É preliminar e ainda é, digamos, um bocadinho precoce. Tudo está em aberto”, referiu.

Ainda sobre o ex-chanceler alemão Schröder, e interrogado se lhe parecia aceitável que este representasse a UE em potenciais negociações, Rangel respondeu: “É uma ideia descabida”.

“É evidente que Gerhard Schröder não oferece essas condições. Isso seria o mesmo que dizer – até foi mencionado na sala – que devia ser Viktor Orbán [ex-primeiro-ministro húngaro] a fazer as negociações. Quer dizer, é alguém que está completamente alinhado com o regime russo”, disse.

Apesar de manifestar abertura para o diálogo, Rangel defendeu que a UE não deve “parar com as ações” para pressionar Moscovo, frisando que eventuais negociações ainda estão numa “fase muito preliminar”.

“Portanto, não vamos, em caso nenhum, relaxar no apoio que temos dado à Ucrânia”, frisou.

A Ucrânia tem contado com ajuda financeira e em armamento dos aliados ocidentais desde que a Rússia invadiu o país, em 24 de fevereiro de 2022.

Os aliados de Kiev também têm decretado sanções contra setores-chave da economia russa para tentar diminuir a capacidade de Moscovo de financiar o esforço de guerra na Ucrânia.

Kallas: Putin “nunca esteve tão fraco”, mas é cedo para falar em negociações

Kaja Kallas, chefe da diplomacia da União Europeia (UE) ,afirmou entretanto que o presidente russo Vladimir Putin “nunca esteve tão fraco”, mas considerou que ainda é cedo para se falar em negociações entre o bloco dos 27 e a Rússia.

Em conferência de imprensa no final de uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, em Bruxelas, Kaja Kallas foi questionada sobre como é que viu as declarações de Vladimir Putin que, no sábado passado, afirmou que a guerra na Ucrânia “está a chegar ao fim”.

“Acho que a leitura geral é que o Putin nunca esteve numa posição tão fraca. [As forças russas] estão a perder muitas vidas no terreno, há um descontentamento crescente na sociedade russa, é por isso que estão a desligar a Internet, para que as pessoas não consigam ver as notícias reais”, respondeu a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança.

Kaja Kallas defendeu que “os ataques de longo alcance realizados pela Ucrânia estão a ter um impacto real” e o “apoio à guerra de Putin está a diminuir”.

“Tudo isso mostra que o Putin não está assim tão forte, mas isso não quer dizer que estejamos num ponto em que eles queiram genuinamente negociar, porque ainda continuam a apresentar propostas maximalistas”, referiu.

A chefe da diplomacia da UE defendeu que a parada militar de 09 de maio em Moscovo por ocasião do 81.º aniversário da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial sobre a Alemanha nazi, que foi mais curta do habitual e na qual não foi exibido equipamento militar, e “perdas recorde russas no campo de batalha”, mostram que a “dinâmica da guerra está a mudar”.

“A Ucrânia está muito melhor do que há um ano. Mas, claro, não há tempo para complacência”, referiu, salientando que os ministros concordaram em “desenhar novas sanções para cortar os rendimentos do Kremlin”.

Kallas frisou que os ministros discutiram também a adesão da Ucrânia à UE, afirmando que Kiev fez “progressos assinaláveis, em circunstâncias muito difíceis”.

“Há agora um novo ímpeto e devemos utilizá-lo para avançar no caminho da Ucrânia rumo à UE. Isto significa abrirmos todos os capítulos [das negociações de adesão] antes do verão”, vincou.

Para a chefe da diplomacia da UE, “garantir que a Ucrânia entra na UE não é caridade, é um investimento na segurança” europeia.

“E a nossa mensagem para o Putin é clara: o futuro europeu da Ucrânia é mais importante para nós do que a destruição da Ucrânia é para a Rússia”, afirmou.

Questionada se admite vir a representar a UE em possíveis negociações de paz com a Rússia, Kaja Kallas recordou que, antes de entrar na política, foi advogada, apontando uma diferença entre os dois setores.

“No setor privado, se fores uma boa advogada ou negociadora, não precisas de te gabar, porque outros reconhecem-no. Mas, na política, é preciso fazê-lo. Como dizia [o ex-presidente dos Estados Unidos] George W. Bush: ‘às vezes é preciso fazer a sua própria autopromoção, senão ninguém a faz”, disse, acrescentando que acha que tem a capacidade para ver “através das armadilhas que a Rússia está a tentar apresentar”.

“Mas não estamos a entrar em qualquer tipo de negociação, não vemos a Rússia a negociar de boa-fé e, primeiro, temos de discutir entre os Estados-membros quais são as concessões que queremos que a Rússia faça”, referiu, reiterando que essa discussão vai ser feita na reunião informal dos ministros dos Negócios Estrangeiros entre 27 e 28 de maio em Chipre.

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