Estátua de João Rodrigues Cabrilho em San Diego. O navegador português foi o primeiro europeu a visitar a atual Califórnia, ao serviço de Espanha.
Estátua de João Rodrigues Cabrilho em San Diego. O navegador português foi o primeiro europeu a visitar a atual Califórnia, ao serviço de Espanha.

Portugal, de terceiro país a reconhecer a independência dos EUA a “parceiro fiável” hoje

Relação entre EUA e Portugal data logo do século XVIII. Depois, houve quem, como Correia da Serra e Andrade Corvo, defendesse criar uma aliança entre os dois vizinhos atlânticos. Com a fundação em 1949 da NATO essa visão concretizou-se, muito pelo valor estratégico dos Açores. Trump sugeriu agora poder visitar o país, talvez em breve.
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Foi com vinho da Madeira que os rebeldes americanos brindaram a 4 de julho de 1776 à Declaração de Independência. É um dos elementos simbólicos das relações entre Portugal e a América, assim como o é o soldado Peter Francisco, “celebrado pela comunidade luso-americana como o maior exemplo histórico de coragem e contribuição portuguesa para a fundação dos EUA”, afirma Francisco Resendes, diretor do Portuguese Times, jornal de New Bedford.

Chegado criança ao outro lado do Atlântico, Peter Francisco terá nascido na Terceira, mas se falta prova absoluta do facto, ninguém duvida da sua bravura contra os britânicos, e até George Washington o elogiou. Acrescenta Resendes que “a memória de Peter Francisco e o reconhecimento da sua ação na guerra da independência está perpetuada em monumentos em New Bedford, Massachusetts, e em Greensboro, na Carolina do Norte”, embora reconheça “que a maioria dos americanos desconhece a origem portuguesa”, sendo até provável “que tenham mais conhecimento sobre John Phillip Sousa, o compositor e maestro conhecido como o ‘Rei das Marchas’, filho de um português”.

O músico John Phillip Sousa, o escritor John dos Passos, o Nobel da Medicina Craig Mello ou o cientista Ernest Moniz, que integrou a Administração Obama, são alguns lusodescendentes referidos quando se trata de ilustrar a relação. Simbolizam o sucesso na integração de uma comunidade que é na sua maioria de origem açoriana, mas conta com milhares e milhares de continentais e madeirenses.

“A comunidade portuguesa, que desde a segunda metade do século XIX assentou arraiais em estados como Massachusetts, Rhode Island, New Jersey, Nova Iorque, Califórnia e Havai, tem demonstrado uma extraordinária capacidade de integração nas sociedades de acolhimento nos vários estados e isso está demonstrado a todos os níveis, sobretudo social, económico e político, onde existem personalidades lusodescendentes a ocupar cargos do mais alto nível e que, para além de contribuírem para o progresso do país adotivo, são também exemplos de bons portugueses pela forma como preservam a sua herança cultural”, sublinha Resendes, que fala de 1,4 milhões de portugueses e lusodescendentes. São influentes na definição da relação, até por elegerem quatro congressistas, nomes como o democrata Jim Costa ou o republicano David Valadao, visitantes habituais de Portugal, graças sobretudo às iniciativas da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

Mais relevante nas relações do que o brinde com Madeira ou as façanhas de Peter Francisco é Portugal ter sido o terceiro país a reconhecer a nova nação, através de um decreto de D. Maria I, em 1783. Mas importa falar também dos portugueses no que são hoje os EUA antes sequer de as 13 colónias terem sido fundadas. Falo de Estêvão Gomes, que na década de 1520 explorou a costa leste, e de João Rodrigues Cabrilho, igualmente ao serviço dos espanhóis, que foi o descobridor da Califórnia, tendo desembarcado na atual San Diego em 1542. Apesar de o cronista espanhol Antonio de Herrera y Tordesillas o identificar como português, uma historiadora canadiana defende agora que seria andaluz, mas Paulo Afonso, professor em Sacramento, tem encontrado argumentos a reforçar a tese de Cabrilho vs a de Cabrillo.

“O descobridor português foi o primeiro europeu a chegar ao oeste dos EUA, estabelecendo San Diego como a cidade berço da Califórnia. João Rodrigues Cabrilho foi o pioneiro da nossa comunidade portuguesa, que permanece até hoje moldada por sua forte vocação marítima. A estátua de Cabrilho com o padrão português simboliza a nossa presença histórica nesta região e o símbolo de quem somos”, realça Idalmiro da Rosa, cônsul honorário em San Diego.

Autor de História das Relações Portugal - EUA (1776-2015), Tiago Moreira de Sá assinala a importância do reconhecimento pioneiro pelo governo de D. Maria I: “Podia ter sido uma verdadeira revolução na política externa portuguesa e mesmo um ponto de viragem na História de Portugal. Não só Portugal foi dos primeiros países a reconhecer a independência dos EUA como o português Andrade Corvo foi depois o primeiro a ter uma grande visão para o relacionamento entre os EUA e a Europa, com Portugal como ponte de ligação entre as duas margens do ‘Lago Atlântico’”.

Destacando o lado visionário de um intelectual que foi ministro dos Negócios Estrangeiros na segunda metade do século XIX, o historiador, hoje eurodeputado, afirma que “vale a pena recordar o que Andrade Corvo escreveu numa das suas obras mais importantes, intitulada Perigos: ‘Ativam-se de dia para dia as relações entre os Estados Unidos e a Europa. Atraída pela sua simpatia com o movimento democrático, chamada pelos seus vastos interesses comerciais a unir-se cada vez mais com o antigo mundo, impelida pela sua própria grandeza a entrar no largo movimento da civilização e da vida política dos estados europeus, a república dos Estados Unidos precisa ter, seguro e franco, o acesso à Europa. A posição geográfica de Portugal, com as ilhas dos Açores situadas no caminho da América, está mostrando que é ele o Estado da Europa cujas relações mais proveitosas podem ser à república americana.’”

Se na Primeira Guerra Mundial uma base naval americana em São Miguel comprovou a importância estratégica dos Açores, a Segunda Guerra Mundial, e a Guerra Fria que se seguiu, fez do arquipélago um ativo tão valioso que pôs Portugal entre os fundadores da NATO. “Foi o reconhecimento do valor estratégico dos Açores: Portugal entrou na NATO como membro fundador por causa da Base das Lajes, identificada num estudo das Forças Armadas Americanas no final da Segunda Guerra Mundial como uma das três bases militares ‘essenciais’ para a projeção do poder dos EUA no exterior, desde logo na Europa, mas, como se viu mais tarde, também no que hoje chamamos o espaço MENA”, acrescenta Moreira de Sá, referindo o Médio Oriente e o Norte de África. “Esta realidade estratégica e geopolítica traduziu-se no pós-1945 na dupla aliança entre Portugal e os EUA: a aliança bilateral, formalizada pelo acordo de cooperação militar luso-americano cujo epicentro é a base das Lajes; e a aliança multilateral traduzida na NATO. Para demonstrar a importância estratégia do país sublinhe-se que Portugal foi a única não democracia a integrar a NATO, vista por muitos como uma ‘liga das democracias’”, sublinha.

Esse momento em que o Portugal salazarista (anticomunista e portanto anti-URSS) é convidado para a “liga das democracias”, onde estavam o velho aliado britânico e a França, é o reconhecimento do valor do arquipélago no meio do Atlântico, onde já no século XIX os baleeiros americanos recrutavam tripulantes. “A emergência da Guerra Fria veio reforçar a importância geoestratégica do arquipélago açoriano e da base militar que os EUA aí utilizavam desde 1944, primeiro em Santa Maria e depois na Terceira. O convite para Portugal ser membro fundador da NATO tinha por objetivo principal enquadrar a base dos Açores num contexto multilateral”, explica Luís Nuno Rodrigues, doutorado em História Americana pela Universidade do Wisconsin, autor de livros como Kennedy-Salazar: A Crise de Uma Aliança. As relações luso-americanas entre 1961 e 1963.

É durante a efémera Administração Kennedy que se dá um dos momentos mais tensos da relação, explica Rodrigues: “sobretudo durante a presidência de John F. Kennedy, houve uma divergência entre a política seguida pelos EUA em África (com o sloganAfrica is for the Africans’) e a posição da ditadura de resistência aos ventos de mudança e à descolonização. O começo da guerra em Angola, em 1961, acentuou esse distanciamento, mas no final da década de 1960, já com a presidência de Nixon, podemos falar de uma reaproximação entre os dois aliados.”

Estátua de João Rodrigues Cabrilho em San Diego. O navegador português foi o primeiro europeu a visitar a atual Califórnia, ao serviço de Espanha.
"Os norte-americanos usam a Base das Lajes como entendem e quando entendem"

Dennis Redmont, jornalista americano hoje a viver em Portugal, que nos anos 1960 veio como correspondente da AP e foi expulso pela PIDE, recorda que na época “os americanos viam Portugal como um país triste e pobre, governado por uma ditadura duradoura e detentor de um vasto e misterioso império colonial que começava a dar sinais de rutura”.

A presença na NATO nunca esteve, porém, em causa no período da Guerra Colonial, tal como não esteve durante o PREC, apesar da influência da extrema-esquerda no MFA e da capacidade de mobilização do PCP. E nesse imediato pós-25 de Abril de 1974, um americano destacou-se no apoio a Mário Soares e outros democratas para que o país ficasse no campo ocidental: Frank Carlucci.

“O embaixador dos EUA, pela sua experiência e, porventura, pela sua capacidade de agir no terreno, desempenhou um papel importante na estratégia dos EUA para Portugal. Mas, no fundo, Carlucci foi o rosto de uma manobra mais concertada do Ocidente, no sentido de apoiar em Portugal aqueles que pretendiam conduzir o país no sentido de um regime de democracia representativa e pluralista”, sublinha Luís Nuno Rodrigues, que acaba de publicar Brevíssima História da Revolução dos Cravos. Redmont, por seu lado, destaca que “Carlucci acreditava em Portugal. E falava a língua. No entanto, não foi o único, nem sequer o principal fator que afastou Portugal da influência do comunismo. A lenda de Carlucci ganhou entretanto vida própria. O secretário de Estado norte-americano, Kissinger, especulou que uma eventual viragem comunista de Portugal - com a foice e o martelo estampados na capa da revista Time sob o título alarmista ‘A Ameaça Vermelha em Portugal’ - poderia funcionar como uma vacina para a Europa contra o marxismo. Carlucci opôs-se veementemente a esta ideia. Contudo, a profunda ligação de Portugal aos valores católicos, bem como a proximidade com a América (incluindo o Canadá) e com o Brasil, constituíram âncoras muito mais fortes para manter o país integrado no sistema ocidental de valores”.

Sobre a relação hoje entre Portugal e os Estados Unidos, Moreira de Sá considera que “está a passar por uma crise que se dá a dois níveis - europeu e português. A Europa está a perder relevância no contexto das prioridades da política externa norte-americana, quer em consequência do seu ‘retraimento’ estratégico, quer em resultado de uma maior concentração no Indo-Pacífico, sobretudo devido à ascensão da China. Portugal está a perder importância estratégica, não só por causa da deslocação dos EUA para a Ásia, mas devido à incapacidade da sua elite política de ter uma política externa para lá do eixo europeu”. O historiador alerta que “para Portugal é essencial reparar o estado das relações luso-americanas, desde logo tirando proveito da geografia. A geografia está do nosso lado. Não obstante as evoluções ocorridas ao longo dos tempos a vários níveis, continua a ser verdade que, tal como afirmou Franklin Roosevelt durante a Segunda Guerra Mundial, os Açores estão mais próximos das costas do Atlântico dos EUA do que o Havai está das suas costas do Pacífico. Há três bases que os norte-americanos nunca abandonarão: Diego Garcia, no meio do Índico; Guam, no meio do Pacífico; as Lajes, no meio do Atlântico. Além disso, é preciso ter presente que há três desenvolvimentos atuais que concorrem para aumentar a importância estratégica de Portugal e dos Açores: o regresso da Guerra à Europa (na Ucrânia) e no Médio Oriente, o chamado ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe e a enorme degradação das relações entre os EUA e Espanha”. Acentua ainda que “será uma pena se as elites políticas de hoje, tal como as da Monarquia Constitucional e as da I República, deixarem escapar esta segunda oportunidade para cumprir a visão de homens como Andrade Corvo, ou como o Abade Correia da Serra”, referindo-se ao embaixador de D. João VI em Washington, cientista amigo de Thomas Jefferson, e defensor de uma aliança entre Portugal e os EUA.

Portugal tem a vantagem de ter uma boa imagem junto das elites políticas americanas, e o país “é visto como um parceiro estável e confiável, e estrategicamente útil, nomeadamente pelo valor da base das Lajes nos Açores”, diz Daniela de Melo, professora na Universidade de Boston. “E junto do público americano, Portugal tem conseguido estabelecer-se como um destino turístico de excelência e, como sabemos, também como um destino desejável para residir”, afirma a cientista política luso-americana. “O número de americanos a residir em Portugal tem subido substancialmente nos últimos anos. Muitas famílias americanas procuram Portugal para darem aos filhos um estilo de vida mais calmo, com mais segurança. Apreciam também a gastronomia, a história e, claro, o facto de ser um país europeu”.

Sobre os elogios do secretário de Estado Marco Rubio a Portugal, Daniela de Melo considera que revelaram, sobretudo, “a vontade da administração americana mostrar que valoriza parceiros europeus que permitiram o uso do seu espaço aéreo durante a guerra com o Irão. Portanto, a frase de Rubio parece ter uma função política clara: contrastar Portugal com outros aliados da NATO, em particular Espanha, que segundo ele teria negado ou dificultado o uso de bases”.

Num vídeo recente enviado ao embaixador em Lisboa, John Arrigo, Trump sugeriu que pode visitar Portugal, e talvez em breve. Resendes recorda, a propósito, que “Trump, que tem amigos na comunidade luso-americana, nunca escondeu a admiração e respeito pelo país e pelos portugueses que um dia escolheram terras do Tio Sam em busca de uma vida mais próspera e de um futuro promissor para os filhos”.

Redmont chama a atenção para a atração cá pelos Estados Unidos: “Portugal vê-se a si próprio como estando na outra margem do Atlântico, a apenas cinco horas de distância, com o olhar voltado para a máquina de entretenimento norte-americana, seja através de Madonna, da NBA ou da Netflix. A forma como os portugueses interpretam o jazz ou compreendem o desenvolvimento da história americana revela um conhecimento genuinamente profundo da cultura dos Estados Unidos, para além das oscilações da política”. E, acrescenta, “quanto aos americanos, Portugal é hoje, para muitos membros da diáspora anti-Trump, uma nova Meca”.

Terminemos como começámos: pelo simbolismo do brinde de 1776. E destacando a presença da Sagres neste aniversário tão especial para os americanos. “O Navio-Escola Sagres, um dos símbolos de Portugal e da sua maritimidade, encontra-se a participar nas celebrações do 250.º aniversário da Independência dos EUA. A sua presença, contribui para o reforço dos laços de amizade e cooperação entre Portugal e os EUA. Nesta missão, leva a bordo vinho Madeira para recriar o célebre brinde que assinalou o nascimento da nação americana, homenageando a história em comum e contribuindo para um futuro de entendimento e colaboração”, sublinha o comandante José Eduardo de Sousa Luís.

Um brinde, pois, a 250 anos de história comum. Ou mesmo a 500.

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