Que tipo de aeronaves têm usado as Lajes nos últimos dias?Antes do recente ataque ao Irão, os norte-americanos estacionaram na Base das Lajes uma força que pode ser considerada como muito significativa. Foram estacionados 15 reabastecedores em permanência; caças F16 e F35 permaneceram por curtos períodos, tendo seguido para destinos no Médio Oriente pouco antes do primeiro ataque; têm sido vistos aviões P8 de luta anti-submarinos e aviões de transporte (incluindo o gigante C5) e de vigilância electrónica. Está também montado nas Lajes um sistema de controlo e comando, supostamente associado à ação dos reabastecedores no chamado corredor do Atlântico. Por fim, está instalada na ilha Terceira uma força de cerca de 400 militares norte-americanos provenientes dos EUA, mas também da Alemanha. Tudo isto antecede o início do ataque ao Irão.Estamos a falar de aparelhos americanos, mas não só?Pelo que sabemos, estará gerada alguma confusão no espaço mediático sobre o uso das Lajes, em associação com os ataques em curso ao Irão, por aviões de outros países além dos EUA. Há aviões militares, incluindo caças, que usam a base por rotina, como sempre acontece e continua a acontecer. Por exemplo, sabemos de aviões de pelo menos três países europeus que passaram nos últimos dias pela base com destino a Oeste, ou seja, para os EUA. Alguns foram participar em exercícios e outros foram – passe a expressão – às oficinas. Este trânsito estava programado e, que saibamos, nada tem a ver com o conflito em curso.É uma movimentação diferente da de junho de 2025, quando os EUA fizeram o anterior ataque ao Irão?Sim. A movimentação dessa altura constou, que nos tenhamos apercebido, do estacionamento de 12 reabastecedores que apoiaram a operação Midnight Hammer. Os bombardeiros B-2 Spirit que utilizaram o corredor do Atlântico foram reabastecidos, várias vezes, a partir das Lajes, tanto na ida como no regresso. Não foram visíveis, na altura outras movimentações. O aparato atual parece muito mais significativo. .As Lajes ganharam nova importância geopolítica nos últimos anos, com o aumento da tensão internacional na Europa e no Médio Oriente?Esse debate não cabe no espaço desta entrevista. A importância da Base das Lajes é máxima para a potência que controla ou quer controlar o Atlântico e que pretende controlar espaços que potenciem uma projeção global de poder. Podemos estar a falar de ação, de negação ou de preempção, residindo aqui parte da complexidade do problema. As tensões em determinadas zonas do globo podem tornar apenas a posição das Lajes/Açores mais visível. Note-se também que a hipótese de os EUA se fecharem no seu hemisfério é muito relevante para o espaço geoestratégico dos Açores, que se transforma numa espécie de bastião avançado da “Fortaleza América”. É uma discussão interessante.Como veem os açorianos a polémica política sobre a utilização da base pelos EUA?Há mais de 80 anos que os açorianos lidam com a presença norte-americana em permanência nos Açores. E as polémicas políticas são sempre as mesmas e não impressionam nem o cidadão comum, nem quem estuda o fenómeno. Em boa verdade, o povo diverte-se a ver aviões e muitos recordam os tempos áureos da base, associados a milhares de empregos bem remunerados – tempos que já lá vão. Quem estuda o fenómeno e conhece os hábitos na relação Portugal-EUA por conta das Lajes, percebe que os norte-americanos usam a Base das Lajes como entendem e quando entendem, competindo aos políticos portugueses esforçarem-se por tentar disfarçar perante o povo a fragilidade lusa nesta relação. Um exercício interessante seria comparar o caso em curso com o uso das Lajes na projeção de poder durante a guerra do Yom Kippur (1973) e como Portugal foi na altura obrigado a abrir as pistas das Lajes.A presença norte-americana nas Lajes é anterior à fundação da NATO, em 1949. Pode contextualizar historicamente?A presença militar norte-americana nos Açores começa na I Guerra Mundial, com a Base Naval de Ponta Delgada (São Miguel), de muito curta duração (1918-19) e montada para fazer face à ameaça no mar, na superfície, mas sobretudo submarina. Após a guerra, os EUA decidiram retrair a sua presença no mundo, daí o desmantelamento rápido da base. Com a Segunda Guerra Mundial, os EUA envolvem-se em complexas negociações com Portugal e Inglaterra, cheias de peripécias e traições, todas bem descritas na literatura sobre o tema, culminando com os EUA em Santa Maria, em 1944, tendo Portugal cedido uma posição nas Lajes a Inglaterra no ano anterior (1943). Os norte-americanos depressa se instalaram nas Lajes, o que terá corrido mesmo em 1943, embora Portugal só tenha autorizado a presença em 1944. Os EUA saem de Santa Maria em 1946, no mesmo ano em que os ingleses abandonam as Lajes, onde ficam os norte-americanos. Os EUA agiram com ameaça, incluindo de invasão, que esteve várias vezes em cima da mesa, ou entrada violenta nos Açores. A diplomacia do Estado Novo foi gerindo a situação, cedendo nos limites e evitando males maiores. Embora a instalação norte-americana nos Açores tenha ocorrido no âmbito da Segunda Guerra Mundial, parece-nos que a verdadeira razão do interesse forte dos EUA nas ilhas açorianas tinha a ver com o futuro, porque a batalha do Atlântico já não era à altura um problema. Departamentos de prospectiva, sobretudo da Navy, já apontavam, em plena guerra, para um conflito futuro, de base ideológica, que oporia o chamado Ocidente à União Soviética, sendo apontado o controlo dos Açores como essencial nesse conflito. A verdade é que os norte-americanos por aqui ficaram durante toda a Guerra Fria e por aqui permanecem em nome próprio, apesar da NATO, que também é invocada sobretudo quando o NATO-SOFA (Acordo entre os países da NATO) já jeito à posição norte-americana..Martins da Cruz: “Além de não estarmos isolados, a nossa posição foi a correta”.Paulo Rangel sobre a Base das Lajes. “Portugal não teve, nem teria, qualquer intervenção neste conflito".Carneiro exige que Montenegro esclareça uso da base das Lajes em ataque ao Irão