O seu livro fala de ignorância e felicidade. Tenho curiosidade em saber qual a importância dessa ideia de busca da felicidade na sociedade americana, no imaginário americano? Ou cada vez é mais importante a busca da ignorância?Bem, a busca da felicidade... um dos paradoxos da América é que todos acreditam na busca da felicidade, mas de uma forma quase frenética, de modo que é muito difícil desfrutar da própria felicidade quando se está constantemente a persegui-la. Portanto, acho que isso é mais um mito do que outra coisa. Mas quando se trata de ignorância, há também uma espécie de paradoxo na mentalidade americana, e que Alexis de Tocqueville percebeu, que é o de que, se acreditas na igualdade humana, podes presumir que isso significa que a tua opinião é tão válida como a de qualquer outra pessoa. Assim, mais ninguém nos pode dizer qual é a verdade, certo? Mas também significa, a outro nível, que não se sabe qual é a verdade. E isso desencadeia uma dinâmica que faz com que as pessoas se agarrem às suas posições, tornando-se inflexíveis e dogmáticas. Tocqueville já o tinha percebido no século XIX, quando visitou os Estados Unidos. E passámos por diferentes vagas em que isso se tornou evidente na História americana. E vivemos agora numa época em que, por uma série de razões que poderíamos abordar, existe uma espécie de dogmatismo e de resistência não só ao debate e ao diálogo, mas também ao ceticismo.Mas algo que me surpreende é que, se olharmos para os Estados Unidos, é o país com mais Prémios Nobel, sobretudo nas ciências, e com as melhores universidades, pois até os rankings chineses reconhecem que as universidades americanas são as melhores do mundo. Como é possível que, num país que produz tanta ciência, tanto conhecimento, esta ideia de busca da ignorância esteja a crescer? Como explicar esta contradição?É por isso mesmo. Pensamos que a procura e a aquisição de conhecimento exige que seja por cientistas, certo? Ou matemáticos? Então isso, a quem não pertence a essa classe, e existe um dogma da igualdade humana, faz com que se sinta muito pequeno. E assim, se é uma pessoa comum, sem formação universitária, com um emprego comum, liga a televisão e alguém de bata branca está a dizer-lhe que, por causa desta doença que não consegue ver, os seus filhos precisam de ficar em casa consigo durante os próximos seis meses, recusa. Há um instinto de rebeldia, em vez de ouvir quem sabe. Existe uma espécie de arrogância democrática que faz com que as pessoas pensem que a opinião delas é tão válida como a de qualquer outra pessoa. Houve um senador, um senador famoso, Daniel Patrick Moynihan, nos Estados Unidos, que disse um dia que todos têm direito à sua própria opinião, mas ninguém tem direito aos seus próprios factos. Esta distinção, nestes momentos, torna-se confusa, especialmente quando há uma fragmentação dos media, e as pessoas podem simplesmente consultar uma única fonte e encontrar informação que reforça os seus juízos prévios.Algumas pessoas vão pensar, ao ouvi-lo, que está a criticar os republicanos e Donald Trump. Mas, recentemente, também criticou a abordagem do Partido Democrata em relação à forma como encara a sociedade. Como vê essa divisão crescente na sociedade americana?Sim, acho que ambos os partidos estão envolvidos nessa questão da divisão. Do lado democrata, também, não é só o Partido Republicano. Escrevi em tempos um livro a criticar a política identitária, mas era mais do que isso. Afirmava claramente que a abordagem da política identitária tornava mais difícil a governação dos democratas. Fazer com que as pessoas encarem este facto, pela minha experiência, tem sido muito, muito difícil. Parece-me perfeitamente óbvio que assim seja. E depois há um isolamento, e Trump facilita isso, não é? Porque agora, se se critica os democratas, deve ser porque se trata de um apoiante de Trump. Obviamente que não sou. Sou liberal, muito anti-Trump. Mas isso reforçou o tipo de autossatisfação e autoconfiança, autoconfiança intelectual, de ambos os lados..Também mencionou Alexis de Tocqueville, autor de Da Democracia na América, no seu livro, e recordo-me que algo que realmente impressionou o pensador francês pela positiva foi o sistema de freios e contrapesos do sistema político americano. Imagine que um Tocqueville dos dias de hoje estava a visitar os Estados Unidos. Será que ele perceberia o funcionamento desse sistema?Sim, essa é uma boa pergunta. Obviamente, não o perceberia, porque o Congresso deixou de desempenhar o papel de liderança, que era a ideia dos Pais Fundadores, que era que esta fosse a instituição principal. E agora esse papel inverteu-se, e temos novamente uma Presidência imperial. É também necessário ter em conta que Tocqueville esteve na América durante o governo de Andrew Jackson, uma época de grande populismo. Por isso, acho que ele teria reconhecido certas coisas e dito: “Ah, sim, lembro-me disso, naquela altura.”Este seu livro Ignorância e Felicidade também menciona Roma e a Grécia. E como os romanos, depois de adotarem a Civilização Grega, decidem, a certa altura, que precisam de regressar às origens e ser mais autênticos, mais romanos. Podemos observar os Estados Unidos e a Europa desta forma, também, na sua relação atual? Os Estados Unidos são, obviamente, criados ou muito influenciados pela Europa, mas agora, a certa altura da História, decidem que são diferentes, que querem ser diferentes dos criadores?É uma observação muito pertinente. Acho que é totalmente verdade. E isso foi confirmado na semana passada, quando ouvi alguém dizer algo brilhante na televisão. Disse: “Trump trata a Europa da mesma forma que trata uma universidade da Ivy League. Acha que os europeus são arrogantes, que pensam que sabem tudo, que o desprezam. E é a mesma coisa.” É uma questão de classe, de sofisticação. É como aquela velha história do Henry James, se quiser. Mas sim, há uma certa ignorância, uma certa autoafirmação da identidade americana na atualidade.Mas há alguma verdade nesta ideia trumpista de que é possível os Estados Unidos regressarem a uma espécie de era dourada, ou a era dourada é algo que precisam de construir no futuro?Estas são as duas opções que mencionei, certo? E à direita, existem dois tipos de pessoas. Há quem sinta nostalgia de um mundo em que todos iam à Igreja, sobretudo à Igreja Católica. As pessoas tinham muitos mais filhos. As mulheres ficavam em casa. As pessoas serviam nas Forças Armadas, e assim por diante. E, por outro lado, temos os reacionários futuristas que ou não têm interesse em regressar ao passado, ou acham que isso já não é possível. Por isso, dizem: “Precisamos de dar um salto para um mundo que seria uma espécie de reencarnação hipermoderna de certas coisas do passado.” E um dos locais onde isso acontece com muita frequência é em Silicon Valley. Há uma espécie de futurismo apocalítico bizarro a ser promovido, especialmente por Peter Thiel. E tem muitos seguidores jovens. Não sei a que ponto conhecem o Peter Thiel na Europa, mas foi fundador do PayPal e um dos homens mais ricos da América. E tem dado palestras sobre o Anticristo, dizendo que a Era do Anticristo chegou e que haverá uma luta pelo futuro, um futuro menos humano, movido pela tecnologia, com idas a Marte e tudo o mais. Portanto, vê-se as duas coisas, e ambos os grupos estão a apoiar Trump.Curioso que mencione Silicon Valley, na Califórnia, porque há alguns anos ouvi um académico americano, professor em Boston, tentar explicar que, quando pensamos na América, temos Nova Iorque, a Califórnia e o resto, uma enorme complexidade. O que eu gostaria de perguntar é: sendo professor na Columbia e fazendo parte da elite de Nova Iorque, será Nova Iorque a verdadeira América? É só uma parte muito especial da América? Ou é o oposto do resto da América? Muitos europeus visitam Nova Iorque e ficam a pensar que conhecem os Estados Unidos. É possível olhar para Nova Iorque e ter uma ideia da América?Ah, bem, sim e não, porque acho que o que distingue Nova Iorque, mas também Los Angeles e Silicon Valley hoje em dia, é que é aí que as pessoas instruídas se concentram. Portanto, se procura as elites intelectuais, jornalísticas e financeiras, Nova Iorque é a sua capital, e é totalmente diferente do resto do país, completamente. Por outro lado, Nova Iorque é também uma cidade repleta de imigrantes, o que, de certa forma, é diferente do resto dos Estados Unidos. Mas, cada vez mais, os Estados Unidos estão a tornar-se assim, com o aumento da imigração, tanto legal como ilegal. De certa forma, este aspeto da imigração é menos estranho do que era no século XIX e no início do século XX, quando havia também muito sentimento anti-imigração, como há agora. Enfim, digo sempre aos europeus: não voem para Nova Iorque, voem para Boston. Vão sentir-se mais à vontade, vão ver uma América um pouco diferente e só depois poderão ir para Nova Iorque.No dia 4 de Julho, os americanos vão celebrar 250 anos da Declaração da Independência. Será possível imaginar que haverá um momento especial de união nos Estados Unidos? Ou estamos perante uma sociedade tão dividida que será impossível haver sequer esse momento de união, mesmo numa data tão mítica?Não será possível, especialmente porque Donald Trump está determinado a personalizar tudo. Não tanto por ele ter uma agenda política, ou uma conceção pessoal do que foi a fundação do país, e tudo mais, que ele tem. Mas o trumpismo entrou numa espécie de fase “Príncipe Louco”, em que tudo tem de girar à sua volta, em que o seu nome está em tudo. Tornou-se ainda mais solipsista do que alguma vez foi. Assim, vai tentar fazer deste o 250.º aniversário da Declaração de Independência à Trump. E isso vai gerar muita divisão a nível político. Por outro lado, no que diz respeito às escolas e aos professores, acredito que tratarão a efeméride com o respeito que merece. Mas haverá um verdadeiro circo nos media e nas instâncias superiores. No entanto, nas cidades e entre os professores, que são o melhor da América, penso que tudo vai correr bem..João Vale de Almeida: “Não devemos desistir da América de forma irresponsável e precipitada”