Este ano, os EUA comemoram os 250 anos da Declaração de Independência. Como americano, o que significa esta data para si?Em grande parte, é algo a ser celebrado. Penso que as ideias e instituições criadas há 250 anos, ou pouco depois, resistiram ao teste do tempo. No geral, estiveram muito bem. Mas estamos num período um pouco perigoso agora. E isso gera um misto de celebração e preocupação.“Independência num Mundo Interdependente - Comemorando os 250 Anos da Declaração de Independência” foi o título do Estoril Political Forum em que participou. Sei que gosta de analisar as palavras usadas para descrever os temas. Como encara a palavra “independência” hoje em dia?Em primeiro lugar, significa não estar sujeito a qualquer outro poder, os cidadãos de um país independente decidem por si próprios as políticas que o seu país deve seguir. E embora possam cooperar internacionalmente em todo o tipo de assuntos, e fazem-no, em última instância, a decisão cabe ao país soberano. Nos EUA, isto centra-se na Constituição. É notável o consenso a favor da sua preservação. Apesar de todas as disputas, esta tem sido, até agora, a única certeza que tem sustentado a opinião pública. Em grande medida, continua a sê-lo. Os tribunais tentam reforçar a Constituição. O executivo e o legislativo, nem sempre. E este tem sido um período particularmente difícil para os EUA nestes termos.Há 250 anos, o que Lin-Manuel Miranda descreve no musical Hamilton como “um exército de voluntários desorganizados e a precisar de um banho” conseguiu, de alguma forma, “derrotar uma superpotência global”. E conquistada a independência de Inglaterra, os EUA acabam por, mais tarde, se tornar eles próprios a única superpotência. O sistema que os Pais Fundadores, como Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro, construíram com base nos princípios da soberania popular, separação de poderes, freios e contrapesos, federalismo e proteção dos direitos individuais inalienáveis foi o que tornou possível essa evolução? É isso mesmo. Homens notáveis, e não só os estadistas, mas também os combatentes revolucionários e outros, que defenderam o que parecia uma causa perdida, conseguiram, no fim, alcançar a vitória, que conduziu à verdadeira independência.Essa é a base para se tornar uma grande nação e ter o poder que isso acarreta?Certo. Obviamente, houve outros fatores, como ter um continente inteiro, muitos recursos naturais, grandes rios e assim por diante. Temos a famosa obra de Tocqueville, A Democracia na América, mas cerca de 50 anos mais tarde, James Bryce escreveu um livro chamado The American Commonwealth que aborda, em muitos aspetos, os mesmos temas que Tocqueville. No entanto, Bryce critica Tocqueville por tentar atribuir tudo sobre os EUA ao impacto da igualdade, e afirma que Tocqueville nos ensina mais sobre a democracia em abstrato do que sobre o que fez da América o que ela é hoje. Estes fatores obviamente combinam-se. Mas, mais uma vez, se me perguntarem qual é a coisa mais importante que permitiu aos EUA prosperar, eu diria que é a Constituição e as instituições baseadas na Constituição. Depois, claro, há o princípio da Declaração de Independência de que todos os homens são criados iguais e possuem direitos inalienáveis, e que o propósito do governo é garantir esses direitos. Falou dos desafios ao sistema político e aos três poderes: legislativo, executivo e judicial. Por vezes, há quem desafie uma ou outra parte deste sistema, mas ninguém o conseguiu mudar. 250 anos depois, provou que ainda funciona? Concordo plenamente. De certa forma, este sistema está a enfrentar um teste ainda maior neste momento, em parte devido ao que está a acontecer a nível global, mas também nos EUA. O meu trabalho nas últimas décadas não se tem centrado na América, mas na democracia no mundo. Muitos dos problemas que afetam agora os EUA, afetam também outros países, tanto democracias como regimes não democráticos. Vivemos tempos difíceis. Grandes transformações estão a ocorrer. Ninguém sabe ao certo para onde isto vai. Mas, na minha opinião, se as coisas forem conduzidas com moderação, sobriedade e cuidado, seremos capazes de nos adaptar às novas tecnologias e a outras questões. Uma delas é a democracia. Já escrevi muito sobre porque devemos sempre pensar em termos de democracia liberal, o que significa direitos individuais e a regra da maioria.Mas de alguma forma estamos a viver numa era de democracia iliberal…Sim, ainda me lembro de quando li o discurso de Orbán pela primeira vez em 2014, no qual ele defendia a democracia iliberal. Esta forma de pensar espalhou-se. E está a chegar, em certa medida, aos EUA. Antigamente, ninguém criticava a Constituição ou os princípios básicos em que se baseava. Mas isso já não acontece. Alguns sectores da direita estão a questionar o ideal liberal e a defender que temos de encontrar novas formas de pensar. Mas não dizem quais, que forma assumiriam e que tipos de instituições, diferentes das que temos agora, poderíamos adotar.Para si a democracia devia andar sempre de mãos dadas com o liberalismo?Há um debate entre os politólogos. Em princípio, democracia é diferente de liberalismo. Por exemplo, na Antiguidade Clássica, havia lugares como Atenas que eram democracias mais puras do que a nossa. Mas não tinham qualquer noção de direitos individuais. Segundo algumas definições, isto pode ser democracia. Mas não é o tipo de democracia que os EUA têm, nem o que desejaríamos para os nossos países..“Trump despreza a Europa e não revela grande preocupação com os apetites imperialistas de Putin”.Após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a Europa habituou-se a ver os EUA como os seus salvadores. Hoje está a ter dificuldades em lidar com uma realidade diferente?Isso também se aplica aos cidadãos americanos. Os meus amigos europeus perguntam-me sempre o que se passa nos EUA. E eu respondo: “Gostava de poder dar uma boa explicação. Algo está a enfraquecer o nosso poder.” Não há consenso. Não há acordo sobre o que faz da América o que ela sempre foi e o que eu acho que deveria continuar a ser.Quando pensamos na grandeza da América, um momento que vem à mente é 1969 - o homem na Lua. Esse foi um momento decisivo para consolidar a imagem dos EUA como “A” superpotência global, mesmo no auge da Guerra Fria? Bem, eu ia dizer que o outro fator mais importante é a derrota da União Soviética e o colapso do comunismo. E não apenas um colapso geopolítico, mas um colapso no âmbito das ideias. Reforçou a noção de que os EUA sempre foram um país do futuro, no sentido em que acreditavam no seu destino de liderar a humanidade. E os países comunistas aceitaram todos estes princípios. A Carta de Paris, por exemplo, foi um acordo assinado em 1990 que juntou líderes americanos, da Europa Ocidental, mas também da Europa de Leste e da ex-União Soviética em que concordaram com um conjunto de princípios. Eram princípios democráticos liberais, incluindo o empreendedorismo e outros considerados como o cerne do capitalismo, que estavam a ser adotadas pelos nossos inimigos comunistas. Isso teve grande impacto na moral dos americanos. Sentimos que éramos a única superpotência. Foi um período curto, mas...Falando desse período durante a Guerra Fria, com os EUA de um lado e a União Soviética do outro, foi uma verdadeira batalha entre duas ideologias? Diferente da batalha que há hoje entre EUA e China, que parece não ter exatamente uma ideologia para vender como alternativa à americana? Não sou especialista em China. É um país difícil de compreender. Muitas pessoas têm dito que o partido comunista chinês só usa este nome, mas já não existe verdadeiramente. Penso que é um erro. É verdade, abandonaram certos aspetos do comunismo, mas ainda ensinam marxismo e leninismo nas escolas e falam sobre a construção do socialismo. Portanto, existe uma diferença ideológica real, mas a ideologia não é o foco da disputa neste momento entre China e EUA. A questão agora é saber qual o país que pode ter mais sucesso económico e cultural…Militarmente também...Absolutamente. Mas neste momento, para descontentamento de alguns americanos, os EUA já não encaram a competição sobretudo como uma disputa ideológica. Alguns ainda dirão que a China é uma ditadura, e não é isso que queremos para nós. E é verdade. Mas não creio que haja necessidade de ensinarmos às nossas crianças nas escolas sobre o comunismo, o que tem de errado, ou denegrir a China o tempo todo, embora ache que é um país bastante assustador. E têm sido notavelmente bem-sucedidos económica, geopolítica e militarmente. Há quem diga que a China já atingiu o pico de crescimento utilizando o modelo atual. E se tentar prosseguir da mesma forma, irão inevitavelmente enfraquecer. Espero que seja esse o caso, mas não tenho a certeza se é.Os EUA são a primeira potência económica e militar do mundo, mas a América também possui um soft power forte - Hollywood, a música, têm as melhores universidades do mundo, etc. É um trunfo que também explica a influência dos EUA, ou está a enfraquecer?Sabe, a organização onde trabalhei durante muitos anos, da qual estou reformado, mas ainda faço parte do conselho de administração, é a National Endowment for Democracy. Foi fundada com base no princípio de que o que importa na competição não são apenas as questões militares e económicas, mas uma espécie de batalha de ideias. Esse era o foco, nos anos 90 e no início dos anos 2000. Mas os americanos continuam agarrados às suas ideias fundacionais, e já não existe o mesmo sentido de estarem empenhados numa luta ideológica.Os EUA têm eleições intercalares em novembro; republicanos e democratas parecem estar cada vez mais a radicalizar-se. Ainda há margem para um compromisso no meio-termo?Tem vindo a tornar-se mais difícil, mas as coisas mudam muito rapidamente na política. Se o presidente Donald Trump e o Partido Republicano sofrerem uma grande derrota, isso pode mudar as coisas drasticamente. É impressionante como a taxa de aprovação de Trump continua a cair. Mas eu costumo criticar quem descarta os EUA demasiado depressa, sem perceber que o país tem essa resiliência. Ora, Trump, apesar do que se possa dizer sobre ele, também é assim. Quando pensamos que está em baixo, ele consegue de alguma forma reerguer-se. Ainda assim, penso que há um grande descontentamento, em parte por causa de pequenas coisas como a mudança do nome do Kennedy Center para Trump-Kennedy Center, ou a construção de um arco celebratório, etc. São coisas que vão contra o espírito democrático.Não sabemos o que vai acontecer nas eleições de novembro, muito menos nas presidenciais de 2028. Mas quando olhamos para os EUA de fora, no Partido Republicano vemos dois potenciais candidatos a suceder a Trump: JD Vance e Marco Rubio. Já quando olhamos para o Partido Democrata, é menos claro…Sim, e quando se fala em polarização, o lado republicano assenta em ideias ou atitudes mais fortes. No caso dos democratas, é menos claro o que representam, em parte porque têm divisões internas. Portanto, as grandes questões são: o que vai acontecer a Trump? A sua popularidade vai continuar a cair e, logo, os republicanos vão sair-se mal? E do lado democrata, vão encontrar alguém que consiga unir o partido? Barack Obama foi notável nesse sentido. Não sou grande fã da sua presidência, mas, como candidato, foi incrivelmente eficaz, reunindo uma coligação de apoio e mudando a perceção das pessoas. Lembro-me de os europeus, mais do que os americanos, me dizerem na altura: “É incrível como vocês conseguem trazer à tona estas personagens de que nunca tínhamos ouvido falar e que têm estas qualidades”. Quem sabe, talvez haja um democrata à espreita nos bastidores agora que seja semelhante.Donald Trump é o presidente que lidera a celebração deste aniversário. Aproveitará a oportunidade para promover a união ou não impedirá a divisão? Não creio que ele queira dividir o país como um objetivo em si mesmo. Não creio que seja anti-americano ou que procure criar divisões. No entanto, esse é o resultado de algumas das suas políticas. Embora o lema “Make America Great Again” deva ser patriótico, pelo menos na sua essência, por vezes o resultado é o que estamos a ver.Para terminar: se tivesse de escolher um herói americano, nestes 250 anos de história, que seja praticamente unânime, quem escolheria?Tenho dois, mas são os mais óbvios. São George Washington e Abraham Lincoln. Washington foi quem primeiro triunfou durante a revolução em circunstâncias incrivelmente difíceis. Demitiu-se após dois mandatos como presidente, o que era quase inédito na altura. Teria sido eleito novamente por aclamação se assim o entendesse, mas ele acreditava que uma república precisava de uma mudança na liderança, e foi por isso que recusou a candidatura. Quanto a Lincoln, era um homem extraordinário. Isso é evidente ao ler alguns dos seus grandes discursos. Tinha uma perspicácia, uma força e uma apreciação da democracia que considero incomparáveis. As pessoas falam de uma nova forma de democracia pós-liberal que está a surgir. Mas o que significaria para os EUA se deixassem de ser uma democracia liberal? Toda a história do país, a sua cultura, a veneração por Washington e Lincoln estão tão profunda e intrinsecamente ligadas à nossa história, que o que seríamos nós? O que significariam os EUA se não representassem estas coisas? Há muitas razões para criticar o estado atual do país, mas a ideia de que se possa substituir a democracia liberal por outra coisa sem que isso leve ao colapso, à rutura ou a crises regionais é difícil para mim de imaginar..“O sonho americano continua vivo, mas não para milhões de americanos”