A celebração dos 250 anos da Declaração de Independência devia ser um evento para reforçar a união dos Estados Unidos da América. Mas, numa era de incerteza económica em que os ganhos de Wall Street parecem não chegar ao bolso dos cidadãos comuns cada vez menos crentes na ideia do “sonho americano”; de envolvimento em conflitos externos apesar da promessa eleitoral de não o fazer; e de polarização política onde ganham força os extremos, a festa é mais um sinal da divisão que se vive no país. O presidente norte-americano, Donald Trump, que para muitos dos seus críticos representa a maior ameaça à democracia desde que as 13 colónias originais declararam a independência do Reino Unido em 1776, apropriou-se desta ocasião. Segundo uns, politizou-a, transformando-a em mais um palco para o seu movimento Make America Great Again (Tornar a América Grande de Novo ou MAGA). Segundo outros, deturpou-a ao centrar as atenções nele próprio. A comissão bipartidária criada em 2016 pelo Congresso para organizar as comemorações, a “América 250”, ficou para segundo plano diante da “Freedom 250” (Liberdade 250) de Trump - que acabou por beneficiar da maior parte dos recursos federais destinados à celebração. A primeira organizou vários eventos, incluindo um concerto previsto para este sábado (4 de julho) em Los Angeles e uma cápsula do tempo com itens de cada estado, enquanto a segunda focou-se nas celebrações previstas para Washington.O National Mall será palco do grande evento de celebração do 4 de Julho, que incluirá um discurso do presidente - que foi criticado porque apelidou a iniciativa de “Comício de Trump”. Antes, no lançamento das comemorações, a 24 de junho, já tinha realizado “o comício para acabar com todos os comícios”, depois de uma série de artistas inicialmente anunciados para participar terem desistido, alegando preocupações com a politização da iniciativa. Nessa ocasião, Trump recorreu ao seu habitual tom autoelogioso para alegar que os EUA estão melhores por causa da sua presidência. Depois do discurso deste sábado (4 de julho), haverá o habitual espetáculo de fogo de artifício, mas não será como noutros anos - onde costumam ser usados 20 mil explosivos de efeito pirotécnico. Será “o maior espetáculo de fogo de artifício da história”, com a organização a querer bater o recorde do Guinness disparando entre 850 mil e 860 mil engenhos deste género. Serão 40 minutos. O foco das comemorações é o National Mall, que durante semanas centrou a atenção de Trump por causa do espelho de água do Memorial de Lincoln. Um dos muitos projetos de reabilitação que o presidente empreendeu em Washington, para lá da construção do Salão de Baile na Casa Branca ou do previsto Arco Triunfal de 250 pés de altura (76 metros), numa referência ao aniversário da independência. .Nenhum destes deverá ficar concluído tão cedo, ao contrário do espelho de água que ficou pronto dias antes do aniversário da independência após ter ultrapassado os custos previstos. O espaço acabou por voltar a ficar cheio de algas, que o deixaram de cor verde - em vez do “azul bandeira” prometido por Trump -, tendo também havido problemas com o revestimento que se começou a soltar. O presidente chegou a alegar sabotagem. Outro ponto alto dos eventos é a Grande Feira Estadual Americana, que está a decorrer até 10 de julho e visa mostrar o que de melhor há na América. A ideia era ter a representação de todos os 50 estados, mas pelo menos sete liderados por democratas recusaram estar presentes. Embora a maioria tenha apontado razões financeiras e logísticas, houve quem alegasse que o evento se estava a tornar excessivamente partidário e demasiado associado à marca política de Trump.Deterioração da democraciaUma sondagem do Centro de Investigação de Assuntos Públicos da AP-NORC da Universidade de Chicago, feita em abril, concluiu que quatro em cada 10 adultos nos EUA sentem-se “orgulhosos” com esta comemoração e cerca de um terço diz estar “entusiasmado”. Mas um quarto dos inquiridos diz sentir-se “em conflito” e um número semelhante declara-se “indiferente” nesta ocasião.“Sou totalmente a favor da celebração da democracia. O bicentenário foi divertido”, lembrou num artigo de opinião no The Guardian a autora Francine Prose, de 79 anos, recordando as festas de 1976. “Mas estou um pouco insegura sobre como será a festa de aniversário no 4 de julho de 2026, quando Donald Trump e os seus acólitos celebrarem o 250.º aniversário de uma democracia que, rápida e intencionalmente, tornaram menos democrática. Semana após semana, lei após lei, decisão após decisão, temos assistido a muitas das nossas liberdades constitucionais - os pilares sobre os quais a democracia se constrói - serem comprometidas, corroídas ou obliteradas”, acrescentou.Trump, que insiste na contestação aos resultados das presidenciais de 2020, optou pela radicalização do discurso no seu regresso à Casa Branca em 2025. Tem governado por decreto, procurando contornar o papel do Congresso (apenas para ser travado, em alguns casos, pelos tribunais), e lançou a guerra no Irão sem autorização prévia. Mesmo com maioria republicana na Câmara dos Representantes e no Senado, ambas já votaram para tentar obrigá-lo a pedir essa autorização (os senadores acabaram por recuar). A situação não é mais fácil com o Supremo Tribunal, de maioria conservadora. Ainda esta semana, o tribunal rejeitou a tentativa de Trump de restringir a cidadania por nascimento (garantindo que todos os que nascem nos EUA são cidadãos, independentemente do estatuto legal dos pais) e validou os votos por correspondência no Mississípi, mesmo que cheguem após o dia da votação. Mas o Supremo também lhe deu vitórias, permitindo que demita reguladores independentes e validando a proibição, em alguns estados, de atletas transgénero competirem em equipas femininas em escolas e universidades.Cerca de nove em cada 10 norte-americanos inquiridos pela AP-NORC dizem que o direito de voto é “extremamente” ou “muito” importante para a identidade dos EUA, sendo que cerca de dois terços consideram que este está ameaçado de alguma forma. Apenas 28% sentem muito orgulho no funcionamento da democracia, uma descida face aos 42% registados em 2017. E, por fim, apenas um terço do público acredita que o “sonho americano” está vivo, com metade a dizer que, embora esta ideia de que com trabalho árduo é possível prosperar tenha sido real em algum momento, já não o é. .“O sonho americano continua vivo, mas não para milhões de americanos”