Quando há pouco mais de um ano assumiu a liderança do governo do Canadá, sucedendo a um Justin Trudeau que respira política desde criança, Mark Carney era visto como um tecnocrata moderado sem experiência em cargos eleitos (uma estreia) que tinha pela frente as ameaças tarifárias dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que Donald Trump insinuava que poderia anexar o país vizinho. Ameaças que fizeram subir a popularidade dos liberais, ultrapassando uns conservadores com um discurso mais pró-Trump e deixando Carney a três lugares da maioria absoluta nas eleições de 28 de abril de 2025 (maioria que conseguiu há menos de um mês).Tentando mostrar que, face a uns EUA hostis, o Canadá iria apostar (ou reforçar) noutras alianças, Mark Carney, de 61 anos, escolheu obviamente o Reino Unido para a sua primeira visita ao estrangeiro, mas também a França, prometendo reforçar o papel do seu país no palco mundial, começando por cumprir a meta de despesas de defesa da NATO de 2% em 2026. Neste último ano, Carney tem mostrado isso, com visitas e acordos na China (o primeiro líder canadiano a visitar o país desde 2017), ao Japão, passando pela Índia ou Emirados Árabes Unidos. Pelo meio viu o seu perfil político ganhar dimensão internacional, com o discurso que fez em janeiro no Fórum Económico Mundial e no qual abordou a importância da colaboração entre as “médias potências” para reforçar a sua soberania e resistir às grandes potências que, segundo ele, utilizam a “integração económica como arma”, numa alusão clara a Donald Trump e aos EUA.Carney, que foi ovacionado de pé, referiu ainda acreditar que o Canadá deve trabalhar com aliados que partilhem os mesmos ideais para combater o domínio de países maiores, mais ricos e bem armados, dizendo acreditar que a “velha ordem mundial” está em colapso.E os aliados de eleição do primeiro-ministro do Canadá estão na Europa, continente que conhece desde jovem - escolheu a britânica Oxford para tirar o mestrado e o doutoramento na primeira metade dos anos 1990. Em 2013, voltou para liderar o Banco de Inglaterra, o primeiro cidadão da Commonwealth não-britânico a fazê-lo desde a sua fundação, em 1694, ocupando o cargo até 2020.O episódio mais recente desta aproximação aconteceu na segunda-feira, quando se tornou no primeiro líder não europeu a participar numa cimeira da Comunidade Política Europeia. “É a primeira vez que convidamos um país não europeu a participar na Comunidade Política Europeia”, afirmou o presidente do Conselho Europeu, António Costa, na Arménia. “Convidámos o Canadá porque é um dos países mais próximos da Europa, é o país com quem mais partilhamos ideias e com quem partilhamos uma certa visão do mundo”.“Enquanto o Canadá trabalha para diversificar as suas relações internacionais, damos prioridade aos nossos parceiros e aliados europeus de longa data. Partilhamos a história, os valores e a ambição de construir um futuro melhor e mais justo. Num mundo mais perigoso e dividido, uma parceria mais forte entre o Canadá e a Europa criará mais estabilidade, mais segurança e mais prosperidade nos dois lados do Atlântico”, afirmou, por seu turno, Carney.Mas esta aproximação não se fica por aqui: em junho do ano passado foi anunciada a Nova Parceria Estratégica UE-Canadá para o Futuro e uma Parceria de Segurança e Defesa, e, em fevereiro, o Canadá tornou-se o primeiro país não europeu a aderir à iniciativa Ação de Segurança para a Europa (SAFE) da UE.O passo seguinte desta aproximação poderá ser a entrada do Canadá na União Europeia, ideia atirada no mês passado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, e pelo presidente da Finlândia, Alexander Stubb. “O Canadá, em termos da sua estrutura e valores, está tão próximo da UE que o mínimo que podemos fazer é forjar uma parceria estratégica realmente estreita”, disse Stubb. “Posso imaginar uma UE muito maior, e cabe ao Canadá decidir se fará parte dela ou não”. Não se sabe o que Carney pensará sobre este assunto, mas no final de abril anunciou que, devido à aproximação que levou a cabo no último ano entre Otava e Bruxelas decidiu nomear um embaixador do Canadá para a UE, deixando de ter apenas um enviado especial para o bloco. Mas será que tal é possível? Em termos geográficos, a UE, graças aos territórios dos Países Baixos e da França, já se estende até ao Pacífico, enquanto que o artigo 49 do Tratado da UE refere que “qualquer Estado europeu que respeite os montantes referidos no artigo 2.º e esteja empenhado em promovê-los pode candidatar-se a membro da União”, com o investigador Matteo Vecchi a notar num artigo sobre o tema no Geopolitical Monitor que “esta disposição estabelece os critérios básicos para a adesão - condição de Estado, carácter ‘europeu’ e conformidade com os valores da União - mas não codifica, por si só, qualquer fronteira geográfica precisa da Europa”.Uma sondagem da YouGov Canadá em 2025 revelou que 42% dos canadianos apoiavam a adesão à UE (mais do que os 33% que se opunham), e a sua mais recente sondagem mensal sobre a política europeia mostra que o sentimento é recíproco - a maioria ou pluralidade de adultos nos cinco maiores Estados-membros da União Europeia (França, Alemanha, Itália, Polónia e Espanha) diz que apoiaria a adesão do Canadá. Os alemães são os mais abertos à ideia (55%), seguidos por 51% dos espanhóis e 46% dos polacos..Carney criticou rumo dos Estados Unidos, Trump não gostou e já começou a retaliar