O aumento do fluxo global de armas foi o maior desde 2011-2015, o que se deve principalmente ao crescimento das transferências para a Ucrânia (que recebeu 9,7% de todas as transferências de armas entre 2021 e 2025) e outros países europeus. Para além da Europa e das Américas, as importações de armas para todas as outras regiões do mundo diminuíram."Embora as tensões e os conflitos na Ásia, Oceânia e Médio Oriente continuem a impulsionar as importações de armas em grande escala, o forte aumento do fluxo de armas para os países europeus elevou as transferências globais de armas em quase 10%", afirmou Mathew George, diretor do Programa de Transferências de Armas do Instituto Internacional de Investigação da Paz de Estocolmo (SIPRI). "As entregas à Ucrânia desde 2022 são o factor mais óbvio, mas a maioria dos outros países europeus também começou a importar significativamente mais armas para reforçar as suas capacidades militares contra uma ameaça crescente percebida da Rússia".Os países europeus receberam 33% das importações globais de armas, tendo as importações da região aumentado 210% entre 2016-2020 e 2021-2025. A seguir à Ucrânia, a Polónia e o Reino Unido foram os maiores importadores na Europa nos últimos cinco anos, sendo que quase metade das armas transferidas para os países europeus vieram dos EUA (48%), seguindo-se a Alemanha (7,1%) e a França (6,2%).Este aumento da procura de armamento entre os Estados-membros europeus da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) deve-se à perceção de ameaça em relação à Rússia, agravada pelas incertezas sobre o empenho dos EUA em defender os seus aliados europeus. Segundo o SIPRI, as importações combinadas de armas dos 29 países europeus da NATO cresceram 143% entre 2016-2020 e 2021-2025, com os Estados Unidos a forneceram 58% destas importações em 2021-2025. Na lista de fornecedores seguem-se a Coreia do Sul (8,6%), Israel (7,7%) e a França (7,4%).“Embora as empresas europeias tenham intensificado a produção de armamento e o novo apoio ao investimento da União Europeia nas indústrias bélicas dos Estados-membros tenha levado a uma série de encomendas intra-UE, os Estados europeus continuaram a importar armas dos EUA entre 2021 e 2025, especialmente aeronaves de combate e sistemas de defesa aérea de longo alcance”, refere Katarina Djokic, investigadora do Programa de Transferências de Armas do SIPRI. “Ao mesmo tempo, os maiores fornecedores europeus continuaram a enviar a maior parte das suas exportações de armas para fora da Europa.”Estados Unidos cada vez mais dominantesWashington forneceu 42% de todas as transferências internacionais de armas no período de 2021 a 2025, um aumento em relação aos 36% registados entre 2016 e 2020. De registar que as exportações norte-americanas tiveram como destino 99 países no período de 2021 a 2025, incluindo 35 na Europa, 18 nas Américas, 17 em África, 17 na Ásia e Oceânia e 12 no Médio Oriente.O SIPRI aponta ainda que, pela primeira vez em duas décadas, a maior parte das exportações de armas dos EUA teve como destino a Europa (38%), em vez do Médio Oriente (33%), mas, mesmo assim, o principal destinatário individual de armas norte-americanas foi a Arábia Saudita (12% das exportações).“Os EUA consolidaram ainda mais o seu domínio como fornecedor de armas, mesmo num mundo cada vez mais multipolar”, declarou Pieter Wezeman, investigador sénior do Programa de Transferências de Armas do SIPRI. “Para os importadores, as armas americanas oferecem capacidades avançadas e uma forma de fomentar boas relações com os EUA, enquanto os EUA veem as exportações de armas como uma ferramenta de política externa e uma forma de fortalecer a sua indústria bélica, como a nova Estratégia de Transferência de Armas America Primeiro da administração Trump deixa claro mais uma vez.”A França foi o segundo maior fornecedor de armamento pesado entre 2021 e 2025, com 9,8% das exportações globais, que aumentaram 21% entre 2016-2020 e 2021-2025. Na sua lista de clientes estão 63 países, com destaque para Índia (24%), Egito (11%) e Grécia (10%). O SIPRI nota ainda que as exportações francesas dentro da Europa aumentaram mais de cinco vezes (+452%), mas quase 80% ainda foram para fora da região.Em contraciclo, a Rússia foi o único entre os 10 maiores fornecedores a registar uma quebra nas exportações de armas (-64%), diminuindo de 21% em 2016-2020 para 6,8% em 2021-2025. Moscovo forneceu armas importantes a 30 países e um ator não estatal em 2021-2025, sendo que 74% das suas exportações tiveram três destinos 2021-2025: Índia (48%), China (13%) e Bielorrússia (13%).De notar ainda que a Alemanha ultrapassou a China e tornou-se o quarto maior exportador de armas no período de 2021 a 2025, com 5,7% das exportações globais, com quase um quarto de todas as suas exportações (24%) a serem atribuídas à Ucrânia como ajuda humanitária (e outros 17% foram para outros países europeus).As exportações de armas de Itália aumentaram 157%, elevando o país da décima posição entre os maiores exportadores no período de 2016 a 2020 para a sexta posição entre 2021 e 2025 - mais de metade foram destinadas ao Médio Oriente (59%), enquanto 16% foram para a Ásia e Oceânia e 13% para a Europa.Israel, o sétimo maior fornecedor de armas, aumentou a sua quota nas exportações globais de armas de 3,1% no período de 2016 a 2020 para 4,4% no período de 2021 a 2025, ultrapassando, pela primeira vez, o Reino Unido (3,4%).“Apesar de conduzir a guerra em Gaza e de realizar ataques no Irão, Líbano, Qatar, Síria e Iémen, Israel ainda conseguiu aumentar a sua quota nas exportações globais de armas”, disse Zain Hussain, investigador do Programa de Transferências de Armas do SIPRI. “A indústria de armamento israelita concentra-se nos sistemas de defesa aérea, que têm uma elevada procura global, enquanto as forças armadas israelitas dependem das importações para diversos tipos de equipamento essencial.”Importações caem no Médio OrienteOlhando para o Médio Oriente, as importações de armas pelos países desta região diminuíram 13% entre 2016-2020 e 2021-2025, apesar de três dos 10 maiores importadores de armas do mundo em 2021-2025 estarem lá: Arábia Saudita (6,8% das importações globais), Qatar (6,4%) e Kuwait (2,8%). Mais de metade das importações de armas para o Médio Oriente vieram dos EUA (54%), seguidos de Itália (12%), França (11%) e Alemanha (7,3%).“Os Estados árabes do Golfo moldam as tendências de importação de armas no Médio Oriente, sendo a Arábia Saudita o maior importador da região desde 2011-2015 e o Qatar agora como o segundo maior, depois de mais do que duplicar as suas importações entre 2016-2020 e 2021-2025”, notou Zain Hussain. “Com uma série de tensões e conflitos regionais, os Estados árabes do Golfo estão a trabalhar para reforçar as relações com fornecedores de longa data, como os EUA e a França, ao mesmo tempo que procuram novos fornecedores.”Israel foi o 14.º maior importador de armas do mundo entre 2021 e 2025, com um aumento de 12% nas importações entre 2016-20 e 2021-2025. Nesse mesmo período, os EUA forneceram a maior parte das importações de armas a Telavive (68%), seguidos pela Alemanha (31%), com o SIPRI a sublinhar que, ao longo da guerra em múltiplas frentes resultante da ofensiva militar de grande escala de Israel em Gaza, os israelitas continuaram a receber armas de diversos fornecedores, incluindo aviões de combate F-35, bombas guiadas e mísseis dos EUA.China contribuiu para queda no OrienteCom 31%, os países da Ásia e Oceânia importaram a segunda maior quota de armas no período de 2021 a 2025, apesar de uma queda de 20% no volume em comparação com o período de 2016 a 2020. Uma descida devida, em grande parte, à diminuição das importações de armas por parte da China (-72%), seguida por Coreia do Sul (-54%) e Austrália (-39%).De notar ainda que quatro países desta região surgem entre os 10 maiores importadores de armas do mundo no período de 2021 a 2025 - Índia, Paquistão, Japão e Austrália – com os EUA a serem o principal fornecedor para a região (35%), seguido da Rússia (17%) e a China (14%).É à Índia que cabe o posto de segundo maior importador de armas do mundo, apesar de uma descida de 4% entre 2016-2020 e 2021-2025. De acordo com o SIPRI, a maior parte das importações indianas de armas veio da Rússia, com 40% - uma quota significativamente inferior à de 2016-2020 (51%) e quase metade da registada em 2011-2015 (70%) -, sendo de notar que Nova Deli está a virar-se cada vez mais para os fornecedores ocidentais.Na Ásia Oriental, o Japão (+76%) e Taiwan (+54%) registaram grandes aumentos nas suas importações de armas entre 2016-2020 e 2021-2025, com a China a sair da lista dos 10 maiores importadores de armas pela primeira vez desde 1991-95, devido à expansão da produção interna de projetos próprios.“Os receios em relação às intenções da China e às suas crescentes capacidades militares continuam a influenciar os esforços de armamento noutras partes da Ásia e da Oceânia, que muitas vezes ainda dependem de armas importadas”, afirmou Siemon Wezeman, Investigador Sénior do Programa de Transferências de Armas do SIPRI. “Por exemplo, no Sul da Ásia, o elevado volume de armas que a Índia importa deve-se em grande parte à ameaça percebida da China e ao conflito de longa data da Índia com o principal destinatário das exportações de armas chinesas, o Paquistão. As armas importadas foram utilizadas no confronto de 2025 entre a Índia e o Paquistão, ambos Estados com armas nucleares.”.Corrida ao armamento leva a aumento de receitas das maiores empresas do setor em 2024.Gastos militares tiveram em 2024 a maior subida desde o final da Guerra Fria