Espanha. Operador que deu ordem para comboio retomar “marcha normal” remete-se ao silêncio
Ismael Herrero/EPA

Espanha. Operador que deu ordem para comboio retomar “marcha normal” remete-se ao silêncio

Pedro Sánchez disse que há pessoas de 27 nacionalidades entre os desaparecidos e mortos. Ministro dos Transportes espanhol recusa demitir-se.
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O responsável do centro de controlo que deu ordem ao comboio AVE para retomar a circulação em “marcha normal” recusou prestar declarações às autoridades, avança esta sexta-feira, 30 de outubro, a agência EFE. De acordo com os registos áudio das comunicações, o maquinista de um dos comboios envolvidos no acidente de quarta-feira, o AVE (Alta Velocidade Espanhola) da empresa pública Renfe, recebeu às 8h36 indicação para retomar "a marcha normal", quando havia outra composição (da empresa privada Iryo) parada na mesma linha, 25 quilómetros à frente. Os dois comboios acabaram por colidir perto da estação de Urda, em Toledo, provocando a morte de 69 pessoas, uma delas de nacionalidade portuguesa.

Este operador usou do direito de se remeter ao silêncio no âmbito da investigação para apurar eventuais responsabilidades penais.

Paralelamente, os maquinistas e os responsáveis pela circulação dos comboios ainda não foram interrogados pela Autoridade Administrativa Independente para a Investigação Técnica de Acidentes e Incidentes Ferroviários, Marítimos e de Aviação Civil (AITAT), uma vez que “não se encontravam em condições”. No entanto, uma equipa deste organismo – que já recuperou as caixas negras dos comboios - deslocou-se ao centro de controlo da alta velocidade da Adif na estação da Atocha, em Madrid.

De acordo com o relatório preliminar da AITAT, a colisão, que terá ocorrido a uma velocidade entre os 160 e os 200 km/h, fez com que o vagão dianteiro do AVE ficasse encravado no vagão traseiro do Iryo. Ambos acabaram tombados e rodados na base do talude da via férrea.

Mais concretamente, o relatório indica que o comboio AVE descarrilou por completo, sendo que as últimas seis carruagens ficaram sobre a plataforma, enquanto o sétimo vagão caiu pelo talude. Uma das carruagens foi atravessada por um fragmento de carril que se deformou em consequência da colisão. No caso do comboio da Iryo, por outro lado, apenas duas carruagens não descarrilaram.

Os áudios das comunicações entre os operadores do centro de controlo e os maquinistas dos comboios, bem como as primeiras informações avançadas pelo governo espanhol, sugerem que o acidente ocorreu após uma falha técnica e, depois disso, uma série de erros.

Um dos primeiros erros terá sido o facto de o operador dar indicação aos dois comboios para retomarem a marcha normal, quando perante a falha do sistema automático de segurança só deveriam poder circular em "marcha à vista", a cerca de 40 quilómetros por hora, para permitir aos maquinistas a travagem manual caso vissem algum obstáculo.

Outro dos erros terá sido a indicação dada ao comboio da Renfe para avançar antes de a mesma ordem ter sido dada ao Iryo, que estava à frente. Além disso, terá depois faltado a indicação ao comboio da Renfe para parar face ao aviso do Iryo de que não conseguia arrancar.

Esta sexta-feira, o presidente do Governo de Espanha admitiu que a confiança no sistema de alta velocidade “está abalada”, depois deste acidente e de um outro, em Adamuz (Córdoba), que aconteceu em janeiro e que fez 46 mortos. No entanto, Pedro Sánchez garantiu que a investigação possegue para que se possa apurar as causas deste acidente.

O primeiro-ministro disse que há pessoas de 27 nacionalidades entre os desaparecidos e os mortos nesta tragédia, sendo que o número de vítimas poderá ainda aumentar. O presidente do governo de Castela-La Mancha, Emiliano García Page, por seu lado, afirmou que há 31 sacos com restos mortais parciais, explicando que o processo de identificação dos mesmos é “de uma enorme complexidade”.

Debaixo de fogo após dois acidentes ferroviários que vitimaram mais de 100 pessoas num ano, o ministro dos Transportes, Óscar Puente, recusou esta sexta-feira, demitir-se. “A minha forma de assumir responsabilidades é estar à frente. Não me vou esconder atrás de ninguém, porque não tenho nada a esconder”, afirmou.

Dizendo que os indícios reunidos até agora apontam para uma falha no centro de controlo, o governante afirmou que nunca usou a expressão “erro humano”. “Apenas apresentei dados objetivos”, disse. “Não vou usar nenhum trabalhador como escudo, nem antecipar juízos sobre responsabilidades antes da conclusão desta investigação. Mas também não vou permitir que se confunda a exigência de responsabilidades com a necessidade de encontrar rapidamente um culpado”, garantiu.

*com Lusa

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