Os elevadores demoram apenas uns segundos a levar os visitantes até ao cimo da Baiterek, a torre que simboliza a Árvore da Vida com, em cima, o ovo do Samruk, a ave mitológica, e que se tornou num dos símbolos de Astana. Do topo tem-se vista a 360 graus sobre toda a cidade, ainda coberta de neve em meados de março, mas é preciso subir umas escadinhas em caracol para chegar junto a um pedestal sobre o qual surge o molde dourado de um mão. Os visitantes fazem fila para colocar a sua mão no molde enquanto lhes tiram fotografias. A mão que serviu de modelo ao molde foi a de Nursultan Nazarbayev, o primeiro presidente do Cazaquistão após o fim da União Soviética, como explica a jovem guia, enquanto vai dizendo que se encontra a 97 metros do solo, marcando aquele 1997 em que Astana substituiu Almaty como capital do Cazaquistão. .Lá em baixo está a alameda Nurzhol, que vai do Khan Shatyr, o centro comercial em forma de tenda, da autoria de Norman Foster, e homenagem aos povos nómadas das estepes, ao Ak Orda, o palácio presidencial, desde 2019 habitado por Kassym-Jomart Tokayev, sucessor de Nazarbayev. Uma mistura de modernidade e tradição na capital do nono maior país do mundo (o maior encravado), que teve de aprender a jogar com a geografia, ou não estivesse entalado entre China e Rússia, mas também empenhado em manter boas relações tanto com os EUA como com a União Europeia. A chamada diplomacia multivetorial pode ter nascido com o antecessor, mas Tokayev revelou-se mestre a aplicá-la. Afinal não são todos os líderes que são convidados por Xi Jinping para o desfile militar que assinalou os 80 anos do final da II Guerra Mundial em Pequim, ser desafiado por Donald Trump a juntar-se, primeiro aos Acordos de Abraão depois ao Conselho da Paz para Gaza, e, depois de uma ida a Washington para um encontro entre o presidente dos EUA e os líderes da Ásia Central, parar em Moscovo para dizer olá a Vladimir Putin. E tudo isto sendo capaz de falar com cada um deles na sua própria língua.Tokayev saiu agora reforçado pela vitória no referendo do passado dia 15, em que mais de 87% aprovaram uma nova Constituição cujas principais mudanças passam pela criação do cargo de vice-presidente e pela passagem de duas para uma única câmara no Parlamento, o chamado Kurultai, numa homenagem às assembleias tradicionais dos povos da estepe, túrquicos ou mongóis, como a que elegeu Genghis Khan há oito séculos. Maior país muçulmano em termos de território, mas praticante de um islão moderado, o Cazaquistão tem ainda de manter o equilíbrio interno, tendo de lidar com uma grande minoria russa (mais de 14% dos 21 milhões de habitantes) mas também com uma centena de outras minorias étnicas. Uma das questões delicadas do referendo era a que diz respeito à língua. O artigo 9 da nova Constituição altera ligeiramente a formulação sobre o uso do russo e do cazaque, causando certa preocupação para alguns sobre o segundo poder passar a ter alguma primazia sobre o primeiro..Conhecido o resultado do referendo, o presidente Tokayev garantiu que “a nova Constituição reafirma a integridade territorial, a independência e a soberania da nossa nação. A Constituição adotada em 1995 cumpriu o seu papel. O nosso país viveu sob esse documento durante mais de três décadas, mas o tempo não pára.”Para Alberto Turkstra, diretor de projetos da revista Diplomatic World, “o Cazaquistão está a entrar em território desconhecido. Mas a reforma era necessária porque é um país jovem que está a transformar o seu modelo económico, de um baseado nos recursos naturais para um baseado na inovação, ciência e capital humano.” No lóbi de um hotel de Astana, no qual não falta a réplica de uma iurte, a tenda circular usada pelos povos nómadas da Ásia Central, o espanhol recorda que a diplomacia multivetorial seguida pelo Cazaquistão “parece muito simples no papel - manter relações equidistantes com todos os principais centros de poder mundiais: Bruxelas, Washington, Moscovo e Pequim -, mas poucos países conseguiram atingir este objetivo.” E, num momento em que “o multilateralismo está sob pressão”, torna-se “mais difícil para países como o Cazaquistão posicionarem-se, e por isso vemos na nova constituição tanta ênfase na soberania e integridade territorial.”.Sediado em Bruxelas, Turkstra explica que a UE começa a prestar atenção ao Cazaquistão. “No ano passado tivemos a primeira cimeira de líderes entre a UE e a Ásia Central, com a participação de Ursula von der Leyen e António Costa”, explica. Mas se existem “muitos programas relacionados com matérias-primas essenciais”, o analista lamenta que falte “a componente de intercâmbio entre pessoas, porque era muito difícil para os cidadãos cazaques viajarem para a Europa devido à ausência de um programa de liberalização de vistos. Agora começámos finalmente a fazê-lo, espero que facilite maiores intercâmbios, maior confiança, compreensão e um pilar ainda maior da UE na política externa do Cazaquistão.”Quem esteve em Astana como observador do referendo foi Ralph Winnie. O vice-presidente do America-Eurasia Center / Eurasian Business Coalition também explicou ao DN que esta votação “foi uma espécie de continuação da adesão do Cazaquistão ao Conselho de Paz criado pelo presidente Trump. Os países que aderem terão acesso a oportunidades de comércio externo direto e de investimento, não só com os EUA, mas com muitos outros países.” O especialista americano em relações internacionais e comércio garante que “o facto de o referendo ter forte enfoque no Estado de Direito elimina qualquer questionamento sobre o Cazaquistão querer ser um país democrático. Prova que está a caminhar para uma sociedade transformadora, baseada não apenas no petróleo e no gás mas capaz de expandir outras oportunidades de negócio em cadeias de abastecimento, logística, alta tecnologia. São a maior economia da Ásia Central, logo lideram.”Winnie destaca a capacidade dos cazaques para criar “um ambiente onde as pessoas se sintam à vontade para vir, observar e interagir. Não são uma sociedade fechada. Querem ser um centro aberto e viável para a inovação, criatividade e crescimento.” Quanto à Rússia, o analista recorda que o Cazaquistão “tem muitos líderes de alto nível formados na antiga União Soviética, o que lhes permite compreender a psique e a mentalidade do povo e da liderança russa. Isto possibilita-lhes navegar, interagir e negociar eficazmente com o governo russo. Desejam ter uma relação com a Rússia, mas não querem ser dominados por ela.”Uma portuguesa em AstanaMesmo com temperaturas abaixo de zero (mesmo assim mais amenas do que os 25 graus negativos da semana anterior), vale a pena um passeio por Astana, apesar de não ser a cidade mais amiga dos peões. E quando o frio apertar pode sempre entrar-se num dos modernos centros comerciais, seja o Khan Shatyr, o Keruen ou o Mega Silk Way (este último a dever o nome à Rota da Seda que por aqui passava conectando a China à Europa) e testemunhar a diversidade da sociedade cazaque. Se muitos dos que por ali passeiam num domingo de manhã exibem os olhos rasgados típicos dos cazaques, não faltam os cabelos loiros e olhos azuis da minoria russas. Mulheres de hijab também as há, mas poucas. As famílias é que podem aparecer numerosas aos olhos de um ocidental habituado a uma população envelhecida, mas refletem uma taxa de natalidade decrescente mas ainda acima dos três filhos por mulher. .Portugueses, por aqui, não são muitos, mas foi na Universidade Nazarbayev que marcámos encontro com Ana Cristina Marques. Nascida em Leiria em 1979, a professora da Escola de Ciências e Humanidades chegou ao Cazaquistão em 2024, depois de uma experiência durante sete anos e meio como investigadora no Curdistão iraquiano. E como tem sido esta experiência? “Os alunos são muito respeitadores”, garante, enquanto explica que procura sempre mostrar-lhes vários pontos de vista, mesmo em questões mais delicadas, como questões de género ou desigualdades sociais. .De Leiria para o Cazaquistão, uma professora portuguesa que é uma cidadã do mundo.Acabada de voltar da sua primeira visita a Almaty, a antiga capital e maior cidade do país, a socióloga diz ter gostado, mas ainda assim preferir Astana. Apesar do frio que a faz confessar que este inverno foi “particularmente difícil”. Quanto à sociedade cazaque, elogia a abertura e destaca o facto de as mulheres poderem usar ou não véu, mas serem incentivadas a ser empreendedoras, o que atribui em parte à influência soviética que “puxou as mulheres para o ensino, puxou as mulheres para o mercado de trabalho”. Ao mesmo tempo, explica enquanto bebe o seu chá, os jovens sentem a pressão para casar e ter filhos ainda jovens. O que é facilitado tanto pelos apoios do Estado, como pela ajuda da família e da comunidade, continua. E remata em tom de desafio a quem nunca visitou o Cazaquistão: “Venham, é giro!”Em AstanaO DN viajou a convite da Embaixada do Cazaquistão.Cazaquistão aprova nova Constituição ao som de música tradicional e nem as crianças faltaram