Leão XIV durante a visita aos Camarões.
Leão XIV durante a visita aos Camarões. EPA/LUCA ZENNARO

As mensagens de Leão XIV em Angola, no “coração do cristianismo africano”

O papa chega este sábado à tarde a Luanda, no seguimento da sua viagem por África. Uma visita aguardada por fiéis, pelos dirigentes e pela oposição, nem sempre pelos mesmos motivos.
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Oriundo dos Camarões, segunda etapa da viagem africana, Leão XIV inicia a visita de quatro dias com a agenda mais protocolar. É recebido, num encontro privado, pelo presidente João Lourenço no palácio da Cidade Alta. Segundo o embaixador de Angola junto da Santa Sé, Carlos Alberto Fonseca, a visita é uma oportunidade para se rever a concordata (acordo-quadro) entre ambos os Estados, assinado em 2019.

Mais tarde, o pontífice tem um encontro de trabalho com os bispos da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST). É um segredo de polichinelo que os eclesiásticos ambicionam a nomeação de um cardeal. Durante o papado de Francisco, os africanos ganharam representatividade no Colégio Cardinalício.

Há 28 cardeais de 22 países africanos, incluindo de Cabo Verde e Moçambique, embora só metade tenha direito a voto em conclave. Mas Angola não tem qualquer cardeal. Tendo em conta que Angola é considerado o ponto mais antigo da cristandade subsaariana (dias antes da viagem, o secretário da Imprensa do Vaticano atribuiu “o coração do cristianismo africano” ao país), as expectativas dos bispos são fundadas.

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Para domingo estão reservados dois momentos para as multidões. O primeiro ocorre de manhã, no Kilamba, uma cidade construída pelos chineses a partir de 2011, e hoje o município mais populoso da província de Luanda, com mais de um milhão de habitantes entre os 8,6 milhões. As autoridades esperam a presença de centenas de milhares na grande missa campal.

À tarde, é a vez de deslocar-se à Vila da Muxima, a 130 quilómetros da capital, onde presidirá à oração do terço no novo santuário. A localidade já era a sede da devoção mariana na África subsaariana, onde multidões visitam a Nossa Senhora da Conceição da Muxima, também conhecida como Mamã Muxima. Durante o “terço da reconciliação”, o papa irá rezar pela paz no continente africano e pela prosperidade das famílias angolanas, segundo o programa oficial.

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A reconciliação é a palavra-chave para a Igreja Católica, 24 anos depois do fim da guerra civil. “Por mais que esta palavra ressoe mal em certos ouvidos há muitos angolanos que sentem que este é um tema que ainda deve estar sobre a mesa”, disse o arcebispo de Luanda Filomeno Vieira Dias à Lusa. “A reconciliação não é um ato administrativo”, declarou. Em novembro passado, a CEAST organizou um congresso sobre o tema, mas o presidente não compareceu, apesar de ter confirmado a sua presença.

“Olhando para a nossa própria história, [para] os acontecimentos sociais, [há] uma certa tensão política entre os angolanos, algumas feridas ainda não estão completamente saradas”, disse à RFI o analista político Osvaldo Mboco, ao concordar com a necessidade de levar o tema da reconciliação para a praça pública.

Segundo a Deutsche Welle, multiplicaram-se apelos para que o papa não seja indiferente à pobreza e ao aumento da contestação social, num país em que a exploração dos recursos naturais como o petróleo e os diamantes não é sentida pela população. E onde uma greve convocada pelos taxistas, em julho passado, se converteu num movimento de protesto nacional, que acabou por se tornar violento (segundo as autoridades, 22 pessoas morreram, 200 ficaram feridas e mais de 1200 foram detidas).

A organização não governamental World Poverty Clock estima que 31% da população angolana, ou 11,8 milhões de pessoas, vive em pobreza extrema, isto é, com menos de 2,15 dólares por dia (1,82 euros). A esmagadora maioria destas pessoas vive em zonas rurais (94%).

Este é um dos problemas apontados pelo Banco Mundial: “Angola enfrenta desigualdades significativas, especialmente nas áreas rurais, onde o acesso a serviços bancários é limitado. O desenvolvimento financeiro inclusivo é vital para a participação económica e para quebrar o ciclo da pobreza”, advoga a organização.

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É precisamente para o interior que Leão XIV ruma na segunda-feira, onde vai celebrar uma missa e visitar um lar de idosos em Saurimo, capital da Lunda Sul, no leste do país, fronteira à República Democrática do Congo. Uma região tida como esquecida pelas autoridades centrais, apesar da sua riqueza diamantífera.

De regresso à capital, o papa terá o último compromisso da agenda ao visitar a Igreja da Sagrada Família. Na terça-feira de manhã, há uma cerimónia oficial de despedida, antes de Leão XIV partir para o último país da viagem, a Guiné Equatorial.

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