O cenário era Bamenda, epicentro de um conflito separatista nos Camarões, mas em plena confrontação verbal com o presidente dos EUA, Donald Trump, por causa da guerra no Irão, a mensagem de paz de Leão XIV tem uma leitura além fronteiras deste país africano. “O mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos”, disse o papa, criticando os “senhores da guerra” que “fingem não saber que basta um instante para destruir” mas “não basta uma vida inteira para reconstruir” e “fecham os olhos ao facto de que milhares de milhões de dólares são gastos em mortes e devastação” sem que haja dinheiro para a saúde e educação.Os Camarões são a segunda paragem da primeira viagem apostólica de Leão XIV a África, com o papa a deslocar-se ontem ao noroeste do país para um encontro pela paz com a comunidade local de Bamenda. Esta cidade faz parte de uma região anglófona envolta há quase uma década num conflito separatista (foi declarada uma trégua de três dias durante a viagem). O líder da Igreja Católica quis chamar a atenção de um movimento interreligioso que tem procurado o fim dos confrontos que já fizeram milhares de mortos.“Bem-aventurados os pacificadores! Mas, ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obterem ganhos militares, económicos ou políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície”, afirmou o papa, defendendo que “a paz não é algo que precisamos de inventar: é algo que devemos abraçar, aceitando o nosso próximo como irmão e como irmã. Não escolhemos os nossos irmãos e irmãs: simplesmente precisamos de nos aceitar uns aos outros!” E pediu “uma mudança decisiva de rumo” e “uma verdadeira conversão” que conduza “a um caminho sustentável e rico em fraternidade humana”.Esta mensagem de paz surge numa altura em que o primeiro papa norte-americano está debaixo de fogo da Administração de Trump e do próprio presidente - que disse que Leão XIV era “fraco em Política Externa” - por causa das suas críticas à guerra no Irão. O vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo, chegou a dizer que o Vaticano devia limitar-se a “questões de moralidade”. Uma posição que não caiu bem entre os católicos norte-americanos, tal como a imagem de Inteligência Artificial que Trump partilhou nas redes sociais em que surgia como Jesus (ele alega que era um médico, mas apagou a imagem)..“Não tenho medo da administração Trump”. Leão XIV responde a ataques do presidente dos EUA.A arcebispa da Cantuária, Sarah Mullally, solidarizou-se esta quinta-feira (16 de abril) com o papa “no seu corajoso apelo por um reino de paz”. Sem referir diretamente Trump, a líder da Igreja de Inglaterra e chefe espiritual de todos os anglicanos instou “todos aqueles que detêm autoridade política a procurarem todos os meios pacíficos e justos possíveis para a resolução de conflitos.” Mullally viaja no final deste mês até ao Vaticano para se encontrar e rezar com o papa. Leão XIV prossegue sexta-feira (17 de abril) a sua viagem apostólica com uma missa num estádio em Douala, uma cidade costeira dos Camarões, onde tem previsto também uma visita privada a um hospital católico. No regresso à capital, Yaoundé, tem ainda um encontro marcado com universitários, na Universidade Católica da África Central. O papa despede-se dos Camarões no sábado (18 de abril), com mais uma missa já no aeroporto, antes de seguir para o próximo destino: Angola, onde se encontrará com o presidente João Lourenço. Tem ainda previsto visitar Muxima e Saurimo..Papa na Argélia: o “filho de Santo Agostinho” emociona-se nas ruínas de Hipona.Da terra de Santo Agostinho ao regime de Obiang: a viagem africana de Leão XIV