“Eu sou um filho de Santo Agostinho”, disse o papa Leão XIV há quase um ano, na noite em que foi eleito para suceder a Francisco à frente da Igreja Católica. Esta terça-feira (14 de abril), teve dificuldades em esconder a sua emoção nas ruínas de Hipona, onde o seu “pai espiritual” serviu como bispo desde o ano 396 até à sua morte em 430 (durante o cerco dos vândalos à localidade romana conhecida como Hippo Regius).A visita, durante a qual depositou uma coroa de flores, plantou uma oliveira e esteve uns minutos em oração, não foi a primeira que fez aos vestígios arqueológicos de Hipona. .Enquanto prior geral da Ordem de Santo Agostinho já tinha estado na atual cidade portuária de Annaba em 2004 e 2013. “Estou grato pelo misterioso plano da divina providência que me permitiu regressar aqui como sucessor de Pedro”, disse na segunda-feira (13 de abril), no encontro com as autoridades argelinas. Segundo o site Vatican News, o papa lembrou na viagem de avião desde Roma para Argel que Santo Agostinho representa “uma ponte muito importante no diálogo interreligioso” e que era uma “bênção pessoal” visitar Annaba. “Creio que isto é também uma bênção para a Igreja e para o mundo, porque devemos sempre procurar pontes para construir a paz e a reconciliação”, afirmou, em pleno confronto com o presidente norte-americano, Donald Trump, por causa da guerra no Irão. .“Não tenho medo da administração Trump”. Leão XIV responde a ataques do presidente dos EUA.Durante a visita a Hipona, Leão XIV não fez declarações públicas mas, no ponto seguinte da agenda, a visita a um lar de idosos gerido pela Congregação das Irmãzinhas dos Pobres, voltou a falar de guerra. “O coração de Deus está dilacerado por guerras, violência, injustiça e mentiras”, afirmou o papa. “Mas o coração do nosso Pai não está com os ímpios, os arrogantes ou os soberbos”, acrescentou..O último ponto da agenda do papa em Annaba foi uma missa na Basílica de Santo Agostinho, onde estão as suas relíquias. Na homilia, Leão XIV falou numa Igreja que “está sempre a nascer, porque onde há desespero acende a esperança, onde há miséria leva dignidade, onde há conflito leva reconciliação”. E deixou uma mensagem para os cristãos da Argélia (cerca de nove mil pessoas, a maioria estrangeiros no país de maioria sunita), que disse serem “sinal humilde e fiel do amor de Cristo” e comparou ao incenso. “É um elemento pequeno e precioso, que não está no centro das atenções, mas convida a dirigir os nossos corações para Deus, encorajando-nos mutuamente a perseverar nas dificuldades do tempo presente.”.O papa despede-se na quarta-feira (15 de abril) da Argélia, seguindo para os Camarões, o próximo destino da sua viagem apostólica, a primeira que faz pelo continente africano. Na agenda está uma visita de cortesia ao presidente Paul Biya (o chefe de Estado mais velho em África e o segundo há mais tempo no poder), antes de um encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático. Segue-se a visita a um orfanato e um encontro privado com os bispos do país..Paul Biya quer 8.º mandato para ficar no poder nos Camarões até aos 99 anos.Amanhã segue para Bamenda, a principal cidade da região anglófona no noroeste do país, que é um dos palcos do conflito que já fez seis mil mortos e milhares de deslocados. A Aliança União, que junta os diferentes grupos separatistas anglófonos, anunciou uma pausa nos combates durante três dias que visa reconhecer a “profunda importância espiritual” da visita papal e a necessidade de salvaguardar a vida civil. Leão XIV terá um encontro pela paz com a comunidade local. .Da terra de Santo Agostinho ao regime de Obiang: a viagem africana de Leão XIV