Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Por esta ordem, Leão XIV começa nesta segunda-feira uma viagem de 11 dias pelo continente africano, a terceira excluindo Itália desde que se sentou na cadeira de São Pedro, e na qual temas como a imigração, exploração de recursos naturais, corrupção e pobreza não poderão deixar de ser referidos. A intenção de visitar o país norte-africano já havia sido revelada em novembro, no regresso do Líbano, a segunda etapa da primeira viagem apostólica, iniciada na Turquia. É a primeira vez que um pontífice pisa território argelino, mas Robert Francis Prevost fê-lo várias vezes entre 2001 e 2013, época em que esteve destacado em Roma na qualidade de superior geral dos agostinianos. Visitar os lugares de Santo Agostinho, nascido na então Numídia (província do Império Romano), em especial Annaba (a antiga Hipona, onde Agostinho foi bispo) e promover o diálogo entre cristãos e muçulmanos, no que se inclui a visita à grande mesquita de Argel, faz parte da agenda. Mas também está prevista uma homenagem aos migrantes africanos que naufragam no Mediterrâneo a caminho da Europa. “Uma terra de grande sofrimento”, disse da Argélia o diretor do gabinete de imprensa do Vaticano, Matteo Bruni, ao apresentar a viagem. Em julho, o presidente argelino Abdelmadjid Tebboune foi recebido em audiência pelo papa. O chefe de Estado da antiga potência colonizadora, a França, também se deslocou à cidade do Vaticano, três dias antes da viagem de Leão XIV à Argélia. Ao que se sabe, a reunião foi agendada no último momento, depois de duas visitas adiadas por parte de Emmanuel Macron devido às crises internacionais. A segunda viagem do papa evitou o território francês: no final do mês passado, Leão XIV deslocou-se de helicóptero ao principado do Mónaco. Para lá de um convite para o pontífice visitar França, possivelmente no outono — já sinalizou interesse em deslocar-se à catedral de Notre-Dame —, os temas da atualidade teriam sido o centro da conversa, segundo o Eliseu, onde ambos se mostram em sintonia contra a guerra iniciada por Donald Trump contra o Irão. Além disso, Macron e Leão XIV terão conversado sobre a Argélia, país que no ano passado aprovou uma lei que declarou a colonização francesa um crime e em consequência exige reparações. As relações entre Paris e Argel pioraram desde que, em 2024, a França concordou com o plano marroquino para o controlo do Saara Ocidental, quando os argelinos apoiam a independência da ex-colónia espanhola. Segundo a imprensa argelina, Macron terá pedido para o papa interceder pela libertação do jornalista francês Christophe Gleizes, a cumprir sete anos de prisão por “apologia do terrorismo”. A partir de quarta-feira e até sábado, Leão viaja pelos Camarões, “uma África em miniatura”, nas palavras de Bruni, referindo-se à riqueza e diversidade, mas também, acrescente-se aos conflitos e tensões em curso em várias partes do território. Um dos momentos altos será na cidade de Bamenda, no noroeste, onde um encontro pela paz reunirá uma freira, um imã, um soba e um presbiteriano. .“Não é possível compreender o papa Leão XIV sem compreender o seu tempo no Peru”.Os Camarões, tal como Angola, receberam João Paulo II e Bento XVI. Mas o país de língua portuguesa merece uma distinção: “É o coração do cristianismo africano”, considera Bruni. Na província de Luanda, o papa celebrará uma missa na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Popularmente conhecida como Mamã Muxima, era o local de batismo dos escravos antes de serem embarcados. Antes de regressar ao Vaticano, o papa visita a Guiné Equatorial, expoente da chamada maldição do petróleo: a família Obiang, no poder desde a independência, controla as receitas e os cidadãos com punho de ferro, deixando estes na miséria.Lampedusa em vez de USA O papa Leão XIV terá trocado um convite para participar nas cerimónias dos 250 anos da independência dos Estados Unidos por uma viagem a Lampedusa, a ilha que se tornou um símbolo da migração no Mediterrâneo, e local da primeira viagem do papa Francisco. Segundo conta o site The Free Press, o cancelamento da viagem resultou de uma reunião que decorreu no Pentágono, em janeiro, entre oficiais do Departamento da Guerra e um diplomata do Estado mais pequeno do mundo. No encontro, os funcionários disseram para a Igreja Católica escolher de que lado quer estar e chegaram a invocar o papado de Avinhão, período em que França subjugou o papa pela força. “Os EUA têm o poder militar para fazerem o que quiserem no mundo”, terão dito ao diplomata da Santa Sé.