Médicos e administradores queriam Plano Marshall. E veem projeto sem metas "aquém das expectativas"

O plano para o outono-inverno do Serviço Nacional de Saúde, apresentado nesta segunda-feira, é "insuficiente". Na teoria, as intenções são boas, dizem o bastonário da Ordem dos Médicos e o presidente dos Administradores Hospitalares. Na prática, faltam explicações sobre como vai ser executado e, em muitos casos, é uma repetição da resposta anterior. Apesar disto, o reforço da capacidade de testagem, hospitais de retaguarda para doentes sociais, mapas epidemiológicos e recomendação sobre uso de máscaras em ruas movimentadas são medidas bem-vindas.

Chegou tarde e não compensou o atraso. É assim que o bastonário da Ordem dos Médicos e o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) olham para o Plano da Saúde para o Outono-Inverno 2020-21, apresentado a menos de 24 horas da chegada do outono. Há ideias boas, reconhecem, mas faltam metas e justificações sobre como algumas situações vão acontecer no terreno. Por exemplo: quais são os hospitais que vão ficar livres de covid?

"Como plano fica aquém das expectativas", diz o bastonário dos Médicos ao DN. "Quando eu defendo um plano, estou a pensar num Plano Marchall [Programa de Recuperação da Europa no pós-II Guerra Mundial], que faça face a três desafios: covid, não-covid e gripe sazonal. São três pequenas tempestades que se juntam num furacão e há que ter as coisas muito bem organizadas para que a resposta seja consequente. Mas este Plano raramente aponta metas, não diz como é que as coisas vão ser feitas e não tem orçamentos. Os orçamentos até dou de barato, porque há o Orçamento do Estado e a gente confia que há o dinheiro", continua Miguel Guimarães.

O documento prevê um aumento da capacidade de testagem do país, nomeadamente de exames regulares a profissionais de saúde; a definição de novos circuitos de tratamento, com Áreas Dedicadas para Doentes Respiratórios; maior colaboração dos cuidados de saúde primários e de hospitalização domiciliária; um reforço da vacinação contra a gripe; e armazenamento de equipamentos de proteção individual e medicamentos. Fala num sistema de vigilância epidemiológica distrital, em hospitais de retaguarda para doentes com alta médica que continuem a ocupar camas hospitalares, uso de máscara ao ar livre sempre que não esteja garantido o distanciamento físico e a criação de uma task force dedicada a doentes não covid.

"O que é esta task force? Como vai funcionar? Faz parte dos objetivos desta task force usar todo o sistema de saúde, isto é, utilizar, caso o Serviço Nacional de Saúde [SNS] não tenha resposta, os setores privado e social?" Estas são algumas das pergutas que Miguel Guimarães tem para fazer ao ministério e à Direção-Geral da Saúde.

Não quer isto dizer que considere má a ideia, mas por esta altura já se queria mais esclarecido. O mesmo se passa com o redirecionamento dos internamentos sociais, nas zonas metropolitanas de Lisboa e do Porto. A medida é "boa, mas temos de avançar já". "Como é que estes hospitais vão ser organizados? Quem são os médicos, enfermeiros, assistentes operacionais que vão prestar os cuidados? Todo este know-how falta ao documento", salienta o médico do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto.

Há meses que tanto a Ordem dos Médicos com a APAH defendem a existência de hospitais livres de covid, ou seja, que à partida não recebam casos suspeitos de infeção pelo novo coronavírus. Agora, a matéria está escrita no Plano para as próximas duas estações, quando "já devíamos estar a ver o efeito da estratégia", aponta o presidente dos administradores hospitalares, Alexandre Lourenço, ao DN. Certo é que continuam por descrever que hospitais serão estes.

"Há aqui muitas matérias que pensava que já estavam decididas."

"Se isto tivesse sido publicado em junho, era uma coisa. Agora, já devíamos estar a perceber os efeitos da implementação", diz Alexandre Lourenço. "Está aqui a dizer que no início do outono - que é hoje - temos de planear a vacinação sazonal ou que é preciso ter hospitais covid free, quando andamos a dizer isso desde abril. Sinceramente, há aqui muitas matérias que pensava que já estavam decididas", admite.

Outra falha do Plano para o especialista é a contínua ausência de uma "abordagem integrada". "O que temos notado no terreno é que não existe uma equipa coordenadora, deixando-se uma certa arbitrariedade de implementação a cada instituição."

Mapas epidemiológicos, testes rápidos e máscaras em locais públicos vão fazer a diferença

Não há lugar só para críticas. O bastonário dos médicos destaca de forma positiva a recomendação do uso de máscara em espaços ao ar livre movimentados e a aprovação de testes rápidos de rastreio à covid, que podem diminuir o tempo de espera dos resultados para 60 minutos.

"A verdade é que a utilização de testes rápidos, nesta fase, é umas das medidas mais importantes, porque nos permite quebrar cadeias de transmissão", sugere Miguel Guimarães.

Sobre este tema, o secretário de Estado adjunto da Saúde sublinhou, em conferência de imprensa, que, apesar de as autoridades de saúde irem usar testes rápidos, estes "não devem constituir um critério único na avaliação", por causa da "alta probabilidade de testes negativos". Para António Lacerda Sales, os exames rápidos podem ser "uma mais-valia" num "contexto de escassez de recursos, de evolução epidemiológica e de situações específicas", tais como surtos em lares ou em escolas, mas é importante não esquecer que "por princípio estes testes de antigénio têm também uma sensibilidade ligeiramente menor do que os testes convencionais que fazemos".

Por sua vez, Alexandre Lourenço destaca a inovação dos mapas epidemiológicos, que permitirão à população ter uma melhor perceção da situação epidemiológica no seu local de residência. De acordo com o documento, estes mapas terão diferentes níveis de risco em função do ritmo de contágio de cada localidade, e a partir desta informação será possível adequar a proporcionalidade das medidas contra o vírus.

Comunicação. Falta uma referência às notícias falsas

Outros dos pilares do plano para o outono-inverno é a comunicação, e neste capítulo é referida a necessidade de dar a conhecer à população todas estas medidas, além de salientar a importância da aplicação de rastreio de contactos StayAway Covid e da linha telefónica SNS 24, que deverá continuar a ser a porta de entrada preferêncial de um caso suspeito.

Nenhuma referência sobre o combate à desinformação em redor da covid, lamenta o representante dos médicos. "Numa altura em que está em causa a saúde pública e a saúde pública está a ter um impacto brutal na economia e na atividade social do país, este tipo de situações [notícias falsas] têm de ser reguladas para que não sejam ainda mais postas em causa estas dimensões", defende Miguel Guimarães.

Estas são algumas das linhas gerais de um plano que não está fechado, nem nunca poderá estar, como lembrou António Lacerda Sales, porque deverá ser aperfeiçoado de acordo com as necessidades, ou seja, com a situação epidemiológica do país e ainda com a melhor evidência cientifica disponível em cada momento. Assim, a estratégia será alvo de uma reavaliação bimestral com o contributo do Conselho Nacional de Saúde e do Conselho Económico e Social, segundo informações do portal da DGS. A primeira revisão será feita ainda antes de começar o inverno, o que para o bastonário é demasiado tempo, independentemente, de se agir, mediante necessidade, em qualquer altura.

O desafio dos próximos meses

Este será o primeiro outono e inverno em que Portugal enfrenta o desafio de lidar com a covid-19 ao mesmo tempo que circulam os vírus sazonais e as temperaturas baixam. É ainda fundamental manter a atividade programada funcional - ao contrário do que aconteceu nos primeiros tempos de pandemia - e recuperar os doentes que não foram atendidos nessa altura.

Tudo isto enquanto as pessoas se movem, porque um novo período de confinamento é de evitar a todo o custo, segundo o primeiro-ministro, António Costa.

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