Costa e Temido relativizam: casos positivos sobem porque há mais testes

Portugal encontra-se entre os países europeus com maior número de novos casos de covid-19, mas o primeiro-ministro e a ministra da Saúde insistem que isto se deve a uma aposta forte na testagem. "Temos um melhor conhecimento da situação", refere António Costa, que tem defendido que as novas infeções não são acompanhadas por outros indicadores, igualmente ou mais importantes, como o aumento de óbitos, internamentos ou o risco de transmissão da doença.

Portugal já fez mais de um milhão de testes de despiste à covid-19, desde março, anunciou a ministra da Saúde, Marta Temido, nesta segunda-feira. Horas antes, o primeiro-ministro dizia que o país era o quarto da Europa que mais análises realiza por milhão de habitantes. Destas, 6,5% resultaram em casos positivos. Para os governantes, o número de casos de infeção pelo novo coronavírus "está estável" e as novas notificações devem-se à procura ativa de casos, inclusivamente entre assintomáticos e pessoas mais jovens.

A região de Lisboa e Vale do Tejo é apresentada pelo Governo como o exemplo da campanha de exames de despiste, depois de, entre 30 de maio e 6 de junho, terem sido realizados, em média, 4600 testes diários, por causa dos surtos encontrados na zona.

O constante registo de 200 a 400 casos diários deve-se sobretudo à continua notificação na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde cinco concelhos (Sintra, Loures, Lisboa, Amadora, Odivelas) somam quase todas as infeções do país. Nas últimas 24 horas, 87% das pessoas infetadas tinham residência na zona da Grande Lisboa. Ou seja, 300 dos 346 casos localizavam-se perto da capital, tal como duas das três mortes registadas no boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS) de dia 15 de junho. No entanto, a ministra da Saúde estima que os "casos em Lisboa e Vale do Tejo comecem a reduzir", acrescentando que, desde que a situação se mantenha, começará a ser pensado, na próxima semana, o regresso da atividade programada no Serviço Nacional de Saúde.

Já António Costa diz que "não há descontrolo da situação em Lisboa", desafiando uma comparação com o número de casos positivos na região desde março. "Estamos sensivelmente estáveis. Não há um crescimento da pandemia em Lisboa e Vale do Tejo. Há mais casos conhecidos, porque há mais testes realizados. Há um melhor conhecimento da situação", garantiu.

"Se eu não fizer testes, eu não tenho resultados positivos, quanto mais testes fizer maior é a probabilidade de obter resultados positivos", reforçava o primeiro-ministro, nesta segunda-feira, à margem da tomada de posse de João Leão como ministro das Finanças. "É preciso saber quantos testes os outros fizeram. Verá que temos das mais baixas taxas de positivos da Europa", dirigiu-se aos jornalistas, depois de, nos últimos dias, o país ter sido apontado como um dos destinos europeus com mais contágio.

Marta Temido aceitou o desafio da comparação europeia e, na conferência de imprensa em que é feito um balanço da situação epidemiológica do país, definiu, apenas com base num dia: "Portugal regista hoje 346 novos casos, ao passo que o Reino Unido registava ontem 1514 novos casos, a Suécia 769, a França 407, a Espanha 323, a Itália 338, só para dar alguns exemplos."

"Considerando a incidência de novos casos por cem mil habitantes, Portugal está em nono lugar. Considerando os [novos] óbitos, Portugal está em décimo lugar e recordo que somos um país particularmente envelhecido, em termos demográficos", continuou a ministra.

No entanto, esta interpretação não descansa todos. Em entrevista ao DN, Ricardo Mexia, o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, dizia que o crescimento dos novos casos teria em parte que ver "com os rastreios, mas há uma parte relevante que não: são doentes identificados", adjetivando os resultados da Grande Lisboa como "preocupantes".

A região deu nesta segunda-feira os últimos passos no plano de desconfinamento, acompanhando agora o ritmo do resto do país. Reabriram centros comerciais e Lojas do Cidadão, com Marta Temido a deixar claro que está sempre em cima da mesa um retrocesso, caso se verifique um aumento dos casos, ao contrário do que esperam.

Óbitos, transmissão e internamentos

Os novos casos são apenas parte da "fotografia" da pandemia, em Portugal, como costuma descrever a diretora-geral da Saúde. Há outros indicadores a ter em conta como o RT (que mede a quantidade de contágios que cada infetado faz ao longo do tempo) e que se mantém em todo o país abaixo de um, de acordo com os últimos dados disponíveis, relativos a 11 de junho, comunicados por Marta Temido. Lisboa e Vale do Tejo estava em 0,97 e a responsável pela pasta da Saúde acredita que irá manter-se abaixo de um.

Outro dado importante é o da mortalidade, e Portugal tem revelado melhorias. De acordo com o worldometers, plataforma que agrega informação dos vários países sobre a covid-19, Portugal regista, neste momento, 149 mortes por milhão de habitantes, o que o coloca em 23.º lugar no ranking mundial dos países com mais óbitos declarados desde o início da pandemia.

O país fica assim atrás do Luxemburgo (onde morreram 176 cidadãos por milhão), da França (451), da Itália (568), da Espanha (580), do Reino Unido (615) e da Bélgica, país que tem uma dimensão muito semelhante à portuguesa, com 11, 5 milhões de habitantes (834).

Para a ministra da Saúde portuguesa, "vale a pena recordar que a média semanal [de óbitos] tem vindo a cair. Foi de 5,4% na última semana, 10% na penúltima semana e de 12% na antepenúltima". A taxa de letalidade global do país é agora de 4,2%, aumentando para 17,3% no caso das pessoas acima dos 70 anos - as principais vítimas mortais.

Em relação aos internamentos, apesar dos altos e baixos deste indicador nas últimas semanas, em junho as hospitalizações nunca chegaram a atingir as cinco centenas. Nesta segunda-feira, estavam internados 431 doentes, 73 em unidades de cuidados intensivos.

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