Dembélé-Mbappé-Olise têm samba de Jairzinho, Pelé e Rivelino

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Com os oitavos de final já à vista de todos, França ganhou o estatuto de enorme favorita a vencer o torneio. Desde o Brasil de 2002 que não se via uma máquina trituradora tão forte nos primeiros quatro jogos de competição (13 golos) e agora os bleus terão de equilibrar as esperanças do país e a euforia dos amantes do futebol para atingir o desejado terceiro troféu.

Mbappé já não deve muito a Platini, porque foi Campeão Mundial (2018), está como segundo melhor marcador de sempre em mundiais (18 golos em 18 jogos) e correrá, aos 27 anos, por destronar Messi desse patamar, argentino 12 anos mais velho. Mas reduzir a imprevisibilidade da França ao astro do Real Madrid é menorizar a competição interna que tem feito a equipa crescer. Cada vez que a bola chega aos quatro da frente espera-se velocidade e Didier Deschamps, um antigo médio de equilíbrios, focado em fazer brilhar Zidane, dá hoje gasolina para que se procure esmagar os adversários com passes verticais.

Para uma equipa triste, presa no autocarro e taticismo de Raymond Domenech, em 2010, a França soube reinventar-se com a melhor geração de sempre e com a evolução, como nunca, da Ligue 1 à boleia de um PSG Bicampeão Europeu. Mbappé leva seis golos e duas assistências e tem no cérebro e talento de Olise a forma de acumular festejos. O craque do Bayern de Munique tem cinco assistências. Dembélé marcou quatro vezes e fez dois passes para golo e tem aparecido por todo o lado, num ataque que se identifica, justamente, pela imprevisibilidade. Doué (um golo) e Barcola (dois golos e uma assistência), à vez, ocupam uma das faixas e garantem haver sempre um jóquer a lançar vindo do banco.

Voltando ao trio Dembélé-Mbappé-Olise, todos se candidatam à Bola de Ouro. Pela vitória, a segunda na Liga dos Campeões, é Dembélé que se avizinha do troféu se a França for Campeã do Mundo, mas mais do que isso este trio faz lembrar outras parcerias históricas, trios bem-sucedidos nos clubes. Recentemente, Firmino-Salah-Mané, no Liverpool, Neymar-Suárez-Messi no Barcelona, Ronaldo-Benzema-Bale, no Real Madrid. Mas é mais difícil encontrar esta cumplicidade nas seleções, dado o pouco tempo de preparação. A Alemanha de 2014 tinha um meio-campo fortíssimo atrás do goleador Muller, a Espanha de 2010 tinha Xavi, Iniesta, David Silva, Busquets e Xabi Alonso em rotação para potenciar o imprevisível David Villa.

Para recuperar um trio de ataque tão profícuo é preciso relembrar o Brasil. Scolari achou a ciência em 2002: Ronaldo marcou oito golos, Rivaldo cinco, aparecendo Ronaldinho como terceira figura, terminando com dois tentos. E antes, em 1994, Romário (cinco golos) e Bebeto (três) provaram a força das parcerias, que o país já se habituara a ver em 1962 e em 1958. No Chile, o título fora alcançado com a apoteose da aliança entre Garrincha e Vavá, ambos com quatro golos no Mundial de 1962, fazendo esquecer a lesão de Pelé. Em 1958, Vavá já marcara cinco vezes, mas foi o aparecimento do rei Pelé, aos 17 anos, com seis golos a formatar a história do futebol.

Na história do escrete e dos mundiais pouca comparação terá existido com os 18 golos de 1970, no México. O samba de Jairzinho, o primeiro a marcar em todos os jogos da prova (sete golos), a liderança de Pelé (seis assistências e quatro golos para ser o primeiro a vencer três mundiais) e a eficiência e “patada atómica” de Rivelino (três golos) com Tostão a servir de bandeja (quatro passes para golo) fizeram do Brasil a equipa mais temida e, para sempre, a mais respeitada. Há quem se divida entre tridente e quarteto no elogio à seleção brasileira e, até isso, pode ter comparação com a França de 2026. O perfume tem o mesmo aroma, a forma como, de cabeça levantada, olham para o adversário e ferem a cada aceleração aproxima 56 anos depois os Bleus dessa Canarinha.

O que a história também ensinou é que nem sempre a euforia ofensiva vale troféus. A força do trio de ataque do Milan, composto por Gullit, Van Basten e Rijkaard, incandescia os Países Baixos, campeões europeus em 1988. No Mundial de 1990, contudo, ficaram-se pelos oitavos de final. Enquanto todos se entusiasmam com a sumptuosidade francesa, no balneário Deschamps lembrará os reversos da medalha. Porque a euforia que há de fora costuma gerar sobranceria a quem está lá dentro. E, com alguma curiosidade, do outro lado do emparelhamento poderá, na final, surgir um Brasil mais europeu, calculista e pressionante, a tentar soltar a seta mais diferenciada Vinícius Júnior.

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