A festa da RD Congo em Guadalajara.
A festa da RD Congo em Guadalajara.FOTO: EPA/FRANCISCO GUASCO

Herança portuguesa e experiência de Premier League fazem da R.D. Congo rival a ter em conta

52 anos depois, país da África Central volta ao Mundial. Lote de convocados tem experiência no futebol português. Wissa, Sadiki e Wan-Bissaka são figuras em Inglaterra.
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A República Democrática do Congo levou a melhor sobre a Jamaica, já no prolongamento do play-off intercontinental, e o 1-0 entregou à seleção africana o orgulho de entrar no certame mundial, embatendo de frente com Portugal, como primeiro adversário do próximo Campeonato do Mundo, a 17 de junho, no Grupo K.

Apesar de estar num continente diferente, Portugal tem um traço indelével na história africana e teve muitos militares e cidadãos a usarem o rio Zaire, agora rio Congo, para atravessar Angola e fugir a milícias em plena guerra colonial. O país vizinho de Angola, origem maior dos retornados de 1974, tem no francês o idioma, mas nunca dispensou laços com o futebol português. Que se avistam ainda na atualidade.

Na altura desse mesmo play-off, seis dos 26 escolhidos pelo francês Sébastien Desabre tiveram passagem por Portugal. O defesa Dylan Batubinsika, de 30 anos, foi formado no Paris SG e, em 2021, chegou ao Famalicão, cumprindo 23 jogos em 2021/22. Nessa mesma equipa militava Charles Pickel, médio que fez 34 jogos e se valorizou. Rendeu 4 milhões de euros após a saída para a Cremonese.

O ativo principal era Simon Banza que, emprestado pelo Lens, marcou 17 golos pelo Famalicão, sendo depois adquirido pelo Braga. Pelos arsenalistas, somou 37 golos em três épocas e foi dado como possível alvo do Sporting. Não se concretizou a transferência e após o empréstimo ao Trabzonspor (22 golos), o Al Jazira pagou quase nove milhões para ter o avançado.

Tanto Batubinsika como Banza, quando chegaram a Portugal, tinham passaporte francês e esse foi um dos méritos de Desabre, técnico que desde 2022 tem construído uma pirâmide com jogadores cujos pais nasceram na R.D. Congo, mas que já trouxeram os filhos para a Europa.

O FC Porto tem, inevitavelmente, papel relevante na reabertura desta porta e no conhecimento que Portugal possa vir a ter do adversário. Kayembe foi contratado por 2,5 milhões quando era júnior promissor no Standard Liège, em 2013, esteve quatro anos com contrato, chegou a fazer um jogo pela equipa principal, mas foi pelos 46 jogos na equipa B que mais foi dado como aposta sem sucesso. Agora no Genk é lateral-esquerdo, com mais méritos do que nos tempos de avançado.

Chancel Mbemba tem cinco participações na CAN e por 5 milhões de euros assinou pelo FC Porto em 2018/2019, alcançando 138 jogos pelos dragões e cinco títulos, entre eles dois campeonatos. Bryan Cipenga completa o ramalhete - o avançado fez parte da formação do Boavista, andou por Freamunde, Famalicão, SC Ideal, Anadia FC, Lank Vilaverdense e Paços de Ferreira, antes de rumar ao Castellón, de Espanha.

Nos anos 80 e 90 viu-se semelhante popularidade em Portugal. Tueba Menayame militou 15 anos como profissional no nosso país e esteve duas épocas no Benfica, rumando depois a Vitória de Setúbal, Farense e Tirsense. Nkama, em 1986, marcou 11 golos pelo V. Guimarães. Basaúla passou cinco anos no clube, no Minho, além de somar duas épocas muito regulares pelo Estrela da Amadora. Já N’Dinga é um vulto nos vimaranenses - passou lá dez anos e é, ainda, o jogador com mais partidas disputadas pelo clube.

A estes, poderíamos juntar Kuyangana Makukula, que militou no Leixões, V. Setúbal, Chaves e Lusitânia Lourosa. Veria o filho, Ariza, crescer como profissional, deslumbrar no Marítimo, ir para o Benfica e depois à Seleção A de Portugal, pela qual marcou uma vez em quatro jogos. Há ainda o caso de Bosingwa, internacional português, vencedor de duas Ligas dos Campeões, que nasceu na R.D. Congo.

Não deixa de se notar que a seleção do Congo chegará ao Mundial com mais jogadores a alinhar na Europa do que as Quinas. Só Banza joga no Al Jazira e Mayele em África (Pyramids). Há uma forte componente de formação em França e na Bélgica. José Mourinho ajudou a lançar Tuanzebe no Manchester United e hoje está no Burnley. A defesa da equipa africana tem ainda Wan-Bissaka (West Ham) e Ngakia (Watford). No meio-campo há Sadiki (Sunderland). Na frente, Wissa chegou ao Newcastle após 20 golos pelo Brentford e Bakambu, já em fase final de carreira (35 anos), está no Bétis, depois de grandes épocas no Villarreal. É uma seleção com conhecimento dos maiores rivais europeus.

Devido ao surto de ébola que assolou o país e outras nações africanas vizinhas, a R.D. Congo teve de mudar de planos para o estágio. Evitou ir a Kinshasa e aproveitou os protocolos históricos com a Bélgica para ali fazer a preparação antes da partida para os Estados Unidos, onde irá participar no segundo Campeonato do Mundo da sua história, 52 anos depois no torneio realizado na Alemanha, ainda como Zaire.

Desta forma, a seleção africana evitou as restrições de segurança impostas pelas autoridades de saúde norte-americanas. A Agência Pública de Saúde norte-americana decretou a impossibilidade de estrangeiros que sejam naturais ou que tenham visitado a República Democrática do Congo, Uganda ou Sudão do Sul de entrar no território, caso tenham estado nesses países nos últimos 21 dias.

A participação nunca esteve em risco porque nenhum dos jogadores convocados milita no país da África Central.

A RD Congo é o primeiro adversário de Portugal, a 17 de junho, em Houston, enfrentando depois a Colômbia no dia 24 e o Usbequistão a 28.

Eis a lista completa de convocados da RD Congo para o Mundial 2026:

Guarda-redes: Lionel Mpasi (Le Havre), Timothy Fayulu (FC Noah) e Matthieu Epolo (Standard Liège).

Defesas: Chancel Mbemba (Lille), Aaron Wan-Bissaka (West Ham), Axel Tuanzebe (Burnley), Arthur Masuaku (Lens), Joris Kayembe (Genk), Nathan Kapuadi (Widzew Lodz), Rocky Bushiri (Hibernian), Dylan Batubinsika (AEL Larissa) e Gédéon Kalulu (Aris).

Médios: Noah Sadiki (Sunderland), Samuel Moutoussamy (Atromitos), Edo Kayembe (Watford), Charles Pickel (Espanyol), Nathanael Mbuku (Montpellier), Brian Cipenga (Castellón), Gael Kakuta (AEL Larissa) e Théo Bongonda (Spartak Moscovo).

Avançados: Yoane Wissa (Newcastle), Simon Banza (Al Jazira), Cédric Bakambu (Betis), Fiston Mayele (Pyramids) e Meschack Elia (Alanyaspor).

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